quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Do que falamos quando finalmente falamos

Era um dia chuvoso de Inverno. Mais um.

O pai chega a casa, coloca as chaves em cima do móvel de entrada. Pousa a mochila junto à arca chinesa como costumava fazer. Tira os sapatos. A mãe estava a retirar as coisas dos sacos e murmurou algo. 
- Chegaste há muito? - pergunta o pai.
- Não, acabei de chegar. - responde a mãe sem levantar a cabeça.
O filho deles estava sentado no sanita do WC de entrada a jogar Nintendo switch.
- Tudo bem miúdo? 
- Olá pai. - respondeu-lhe sem levantar a cabeça também.
Ele foi ao quarto e mudou de roupa. Pôs-se confortável e pegou no telemóvel. Mais cheias, mais diques a cederem, mais chuva. Pousa o telemóvel em cima de cama e dirige-se à sala onde ela já estava a pôr a mesa para o jantar. 
- Queres ajuda?
- Não, obrigado.
Ele fica parado na sala sem saber o que fazer. Hesita em ir para o escritório como costuma fazer antes do jantar. O miúdo ainda está na casa de banho.
- Vais demorar muito S?
- Já vou pai. - responde sem tirar os olhos do ecrã.
Ele volta para a sala e pergunta-lhe o que é o jantar.
- Fui aos meus pais e trouxe filetes de pescada e arroz.
- Não queres que te ajude a pôr a mesa?
- Não, obrigada.
Ela entra na cozinha como se fosse um autómato e continua a tirar coisas dos sacos.
- Como é que foi o teu dia? - pergunta o pai.
A mãe faz um compasso de espera e quase que revira os olhos, mas arrepende-se.
- Foi normal.
- Não vais perguntar como foi o meu?
- Como foi o teu? - a mãe continua a tirar coisas daqueles sacos sem fundo.
O pai olha para ela e não lhe responde.
Ele senta-se no sofá e liga a televisão.
- Pai, não quero ver programas chatos! - grita o miúdo da casa de banho.
O pai ignora-o e faz zapping. 
- S., lava as mãos, vamos jantar. - diz a mãe.
O pai pousa o comando, entra na cozinha e fecha a porta.
- Queres falar agora? - pergunta o pai.
- Agora? Agora vamos jantar.
- Estás mal-disposta?
- (...) Já não sei como é que estou. Importas-te de levar a comida para mesa?
- Mas então vamos falar.
Ela encara-o pela primeira vez nessa noite.
- Ok, vamos lá então.- diz ela.
- O que é que se passa? - pergunta o pai.
Ela revira os olhos, dá um profundo suspiro e quase que começa a chorar.

A televisão mostra imagens de um deslizamento de terras numa auto-estrada.

 

 




 



 

 



 

sábado, fevereiro 07, 2026

O Porto


 

 

 

 

 

 

 

 

Quando percorro as ruas esburacadas com os meus turistas, não tenho qualquer tipo de vergonha ou embaraço como alguns dos meus colegas. Isto não é Helsínquia ou Trondheim ou qualquer outra cidade nórdica imaculada. Esta cidade cinza é feita de buracos, de trincheiras, de paralelos espalhados e fora do sítio, com fios da electricidade ao dependuro, com bueiros a vomitar água barrenta e suja, etc. 

Etc não que ainda não acabei: quer eu queira, quer não queira, esta cidade com as vísceras de fora há mais de 10 anos por conta das obras do metro é um enorme museu vivo, às vezes visceral, onde há espaço para todos mesmo para aqueles que não queiram que haja espaço para todos. É claro que também tem boulevards e artérias limpas sem colestrol, mas esta cidade vive de imperfeições, de passadeiras provisórias, de prédios a caírem de podre onde as velhas vigas de madeira esperam um golpe de misericórdia vindo dos céus. 

"So many old buildings, why?" pergunta o norte-americano.

"Because.", respondo e continuo a caminhar, fazendo de conta que não entendi.

Eu não gosto de mulheres com plásticas, ou com muita maquilhagem, gosto de imperfeições, de assimetrias, de algumas rugas, de um cabelo desalinhado, tudo isso aumenta o meu desejo. Uma cidade deve ser assim, alguma desarmonia e caos (não muito) conferem muito carácter e um certo de tipo de beleza.

Esta cidade é feita de amputações urbanísticas, de desvios e afunilamentos, o trânsito às vezes é insuportável, mas ainda assim é mil vezes melhor do que Zurich ou Aarhus ou outra cidade onde quase todos são ateus practicantes ou calvinistas. É uma cidade azul e branca um pouco desdentada que não baixa a cabeça, que não aceita subserviências, gosta de fazer o que lhe dá na real gana.

Esta cidade pode muito bem ser um Amor de Perdição.


 

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

O homem que serviu o último rei de Portugal

Estava aqui a tentar escrever algo potencialmente genial sobre um homem que veio de 1910, que serviu o último rei de Portugal, D. Manuel II. Era um viajante do tempo. 

Queria escrever sobre este homem que viajou até aos dias de hoje e que apelaria ao voto naquele que pensa ser o único candidato que poderá recuperar o antigo e glorioso regime - apesar do país ser um estado de direito, democrático do qual ele se envergonha e abomina, naturalmente. Seria a história distópica de um homem que serviu o malogrado D. Manuel II bem como o seu pai, D.Carlos, e que depois viu em Salazar uma "espécie de mal menor" para a nação que tentou - vá lá - restabelecer respeito e bons costumes no nosso país. Também passaria por Lisboa em 1974 - obviamente um anno horribilis para o nosso monárquico que veio do passado - sendo quase atropelado por um dos tanques dos capitães. 

Queria mesmo escrever a história distópica deste homem que veio do passado e que serviu o último rei de Portugal e que queria um país para os portugueses, sem miscigenações perversas, sem emigrantes de longitudes estranhas, sem a ilusão do poder do escolha, porque acredita que o povo é iletrado e ignorante. Este homem que idolatra Paiva Couceiro e abomina Afonso Costa e toda a "corja republicana" consequente iria apelar ao voto no único candidato ultra-conservador poderia devolver Portugal aos portugueses. E talvez - talvez - ainda haja a esperança de reintroduzir a monarquia em Portugal e assim recuperar as antigas colónias.

Mas, por um motivo qualquer que me transcende, não consegui escrever ainda esta ficção para vosso gáudio e entretenimento. Fica aqui, no entanto, esta promessa de voltar a esta bela história de Bernardo Leal, o homem que serviu o último rei de Portugal.

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Judas Iscariotes

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na minha cabeça, acontecem-me sempre coisas fixes em dias ímpares. É este o padrão. Em dias pares a coisa anda mais enviesada como se costuma dizer. Quero chamar à atenção do leitor que sou muito rigoroso e metódico nestas auto-observações (...). 

É claro que esta introdução foi inventada só para atrair a vossa atenção. 

Ou seja, esta introdução foi verdadeira durante 10 segundos, depois confessei a sua falsidade. E é sempre uma questão de perspectiva, não é? Ou de tempo, até se descobrir a verdade. Procuramos todos isso, a Verdade. 

Tenho pensado ultimamente em Judas Iscariotes e nas diversas teorias que existem à volta deste apóstolo. Será que a Crucificação de Jesus teria sido possível sem a alegada traição de Judas? Quero pensar que Judas não foi um erro de casting. A propósito, "Judas" significa (Yehudah) e significa "louvor a Deus" ou "agradecimento". Há uma consistente teoria que diz que Jesus pediu a Judas para o denunciar e que ele, Judas, não se enforcou de arrependimento. Partiu para o deserto em modo de auto-exílio e aí morreu. Santificou-se no deserto e não foi traidor. Por outro lado, Pedro, o "primeiro" de Jesus, também o negou três vezes, de acordo com o Novo Testamento. E Pedro será sempre Pedro. Isto confere a estes dois apóstolos um carácter muito, muito humano.

As camadas que nos revestem são espessas e cinzentas. As coisas tornam-se turvas, às vezes. Pedimos alguma luz e esclarecimento (evitei usar a palavra "iluminação" aqui) mas tarda a chegar. 

Tal como disse no início, hoje começou por ser um dia par. Mas também posso acabar por me sentir como se fosse um dia ímpar. 

Quero pensar que o Amor é sempre a constante inquestionável da equação complexa a que chamamos Vida. 

 

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Sábado à tarde

Há duas coisas sensoriais que me lembro dos sábados de tarde: o cheiro forte a óleo de cedro e o som interminável de uma chave a ser introduzida na fechadura da nossa porta. A minha mãe incumbia-me de aspirar a casa com um aspirador Sanyo. Era amarelo e preto e parecia uma nave especial doméstica. Era bastante competente a aspirar, posso dizê-lo. Depois tinha de limpar os móveis da sala com óleo de cedro. Talvez não fosse tão bom porque não conseguia fazê-lo como deve ser. Creio que já estava a antecipar a chegada do meu pai. A antever.
Parava de limpar e tremia durante um bom bocado. Depois olhava pela janela. Tremia outra vez. E era assim durante uma boa meia-hora ou mais, porque sabia mais ou menos quando é que meu pai iria chegar.
O tempo que o meu pai usava para tentar meter a chave na porta seria proporcional ao "tempo de qualidade" desse sábado à noite. 
Lembro-me da minha mãe dizer invariavelmente:
"Vamos ter festa".
Na esmagadora maioria das vezes, esta profecia estava certa. 


sábado, janeiro 31, 2026

Tormenta

Tenho mais cada vez mais a impressão que a nossa vida tem uma forma helicoidal, uma cadeia em espiral. Mais ou menos como o nosso ADN. Às vezes tombámos, deparámo-nos com algo de traumático ao qual o nosso ego se cola como se fosse velcro, mas, por outro lado, o acaso ou a vida em si acaba sempre por proporcionar conforto, amor, segurança. Há que desobstruir a mente. Ou seja, expandimos e contraímos como a espiral que não pára de girar em si mesma. Como a via láctea, como o próprio universo.

Lembrei-me agora da fluidez que é necessária para contornar a tormenta. Acabei de ver árvores tombadas por força da depressão que assolou a região de Leiria e pensei que nem sempre adianta estar "bem enraizado", bem ancorado. 

Naturalmente as árvores não se mexem, não se locomovem como nós. Uma lapalissada, eu sei. O Homem tem a capacidade para se desviar, para usar do movimento, da fluidez, temos aqui uma vantagem. Creio que isso também se pode aplicar ao intelecto e à dinâmica das emoções. Não devemos estagnar, não fomos feitos para ficamos no mesmo local (seja físico seja emocional). Vamos dançar, vamos correr, vamos fazer algo.

- Vem aí uma depressão, uma forte tempestade, mau tempo, o trauma beija-me a testa outra vez, o corpo paralisa, oh não, e agora o que vou fazer? 

"Keep going", como aconselha essa T-shirt. Em caso de dúvida, continua, sem olhar para trás. Atrás de uma montanha há sempre outra montanha. 

Hmmm. Isto é a coisa mais zen que eu escrevi este ano que ainda mal começou. 

quarta-feira, janeiro 28, 2026

Coração

Se somos uma série de recomeços, cada instante é uma oportunidade de recomeçar. Pode ser muito turvo às vezes. A ilusão - que também pode se mascarar de ilusão - pode ser muito desafiante e enganadora. O medo pode surgir e limitar o nosso horizonte. Oops. Aí vem ele, cuidado, um bichinho chamado desespero ou desesperança. Vamos dançar com ele. Também ele quer se visto. Que passos é que ele nos quer mostrar? A criança que não foi escutada, que foi  negligenciada? O adolescente que foi vitima de bullying? Um amor adulto intenso não correspondido? A perda de trabalho?

Não queria ir para este tipo de registo fácil, mas hoje o meu coração pediu-me. E como diz Tamaro (eu sei, eu sei), "vai onde te leva o coração".  

Há aqui uma torção, uma força do universo a acontecer que ainda não vislumbrei totalmente. 

Sentir. 

domingo, janeiro 25, 2026

A escarradeira


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na casa dos meus avós havia muitos objectos antigos e cheios de melancolia. A sala cheirava quase sempre a mofo por causa do velho soalho em madeira. Lembro-me bem da televisão de válvulas enorme que parecia comandar os outros objectos quando ninguém estava a ver. Havia uma fotografia a preto e branco da família real britânica dos anos 50. A rainha Isabel II deveria ter 18 anos nessa foto. Não me perguntem porque é que tinhamos essa foto pendurada, não somos ingleses. 

Mas o objecto que tenho mais presente era a escarradeira em esmalte do meu avô que mantinha sempre ao lado da cama. Era branca, redonda, muito bonita, com ramos e flores entrelaçados, cheios de volteios. O meu avô tossia muito durante a noite. No dia seguinte, a minha avó despejava o líquido espesso e multicolor nos vasos das janelas. Ela dizia que as "rainhas-da-sala" cresciam mais bonitas e viçosas e tinha razão. A dada altura, o quarto do meu avô parecia uma pequena selva (eles dormiam em quartos separados, não porque estavam chateados mas porque era mais confortável). 

Quando cresci um pouco mais, achava aquilo meio repugnante mas não me atrevia a contrariá-los, tanto eu como a minha mãe.  Agora penso que aquilo funcionava como um ritual de passagem, de transmutação, se quiserem. A partir de um caldo bacterial, meio pútrido, era possível dar vida a algo belo como uma planta ou uma flor.  E eu creio que, no fundo, os meus avós também sabiam disso.

quarta-feira, janeiro 21, 2026

Pensamentos-ninja

É curioso que de tanto ler textos sobre conflitos, rixas, conspirações, a minha mente se torne - às vezes - num campo de batalha. 

Quando me sinto atolado nos próprios pensamentos de pouca fé (que expressão tão bíblica), vem um cavaleiro paladino ou até um arqueiro de luz resgatar-me. Eles dão-me o seu braço e puxam-me para fora da cova enlameada. 

Ou então, quando tudo parece "irremediavelmente perdido", sinto uma leveza ou uma sustentação luminosa que me conduz para fora das trincheiras. A nossa mente, por vezes, ama testar-nos, adora catastrofizar o dia. 

Não sente isso, caro leitor? Serei o único nesta paróquia a chamar os bois pelos nomes?

Mas a força que vem de dentro, do coração, está sempre lá, mesmo que seja moída por pensamentos-ninja. Apelido-os de "ninja" porque são sorrateiros, dissimulados, furtivos. Nos videojogos, diz-se "modo stealth". Quando menos espero, sabotam-me e fazem de tudo para enfraquecer a minha força, a minha vitalidade. Também penso que poderá ser uma forma que o Universo encontrou para me fortalecer face a batalhas futuras. 

Oh, isto soou tão Alexandre Herculano, tão Walter Scott, mas em versão light mainstream. Em boa verdade, sou mais diletante, mais dandy do que austero, disciplinado. 

Tenho a certeza que seria um sucesso de vendas se investisse numa escrita de fôlego, de maratona, como, por exemplo, um romance histórico de 556 páginas a falar sobre a Batalha de Toro ou algo parecido.


segunda-feira, janeiro 19, 2026

Lobo temporário

Estou rodeado de gente quase todos os dias mas tenho um labor solitário (gosto mais de  usar o termo "labor" em vez de "trabalho"). Não queria cair na lamúria do costume mas há dias assim. Sou um lobo ibérico a vaguear pelas ruas cheias e desertas, pelos montes, por todo o lado e mais além. Um lobo poliglota que finge que saber um pouco de tudo. Um lobo privado que lhe pagam para dizer coisas bonitas e inteligentes. As minhas sombras também continuam aqui, mais presentes. Quando estamos sós, a coisa amplifica. Tenho, no entanto, muito tempo vago e vazio e aperfeiçoei a arte de manter o tempo ocupado. 

Por exemplo, tive tempo suficiente para escrever este texto incrível antes de estar com seres humanos novamente.

sábado, janeiro 17, 2026

Um pequeno sentimento libertador


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Parecia não estar seguro de si mesmo quando o convidou para entrar da primeira vez. O Medo não hesitou e avançou sem nunca tirar os olhos do dono da casa. Depois deteve-se no hall de entrada, espreitou para a sala e depois para a cozinha. Olhou de volta para Elias, o dono da casa.

- Amanhã estou aqui. À mesma hora - disse o Medo.

Elias estava desesperado. Sentia-se impotente, sentia que não podia fazer nada. Houve uma vez que ainda tentou impedir-lhe a entrada, mas de nada valeu. O Medo ameaçou-lhe de morte e o medo apoderou-se de Elias. A partir do momento em que deixamos que o Medo tome conta de nós, não há muito que possamos fazer. Ou pelo menos, é assim que achamos que a coisa funciona. Elias sabia disso, mas sentia que por agora não poderia fazer grande coisa. Uma voz ténue dizia-lhe para não impedir a entrada do Medo. Pelo menos, por agora.

No dia seguinte, à mesma hora e pela enésima vez, a campainha tocou. Elias abriu a porta e encarou o Medo. Algo estranho aconteceu desta vez. O Medo não olhou nos olhos de Elias, limitou-se a entrar. Em vez de espreitar para as divisões da casa, ficou parado na entrada a olhar para a parede, para o vazio. Depois foi-se embora, sem dizer uma palavra. 

Elias, pela primeira vez, sentiu aquilo que se poderá chamar de "um pequeno sentimento libertador".




 

 

quinta-feira, janeiro 15, 2026

A Sentença

You touch me
I hear the sound of mandolins
You kiss me
With your kiss my life begins
You're spring to me, all things to me
Don't you know you're life itself?

"Wild is the Wind", Johnny Mathis 

 

A sentença do juiz era muita clara: o réu estava condenado a não amar para o resto da sua vida.

Vou repetir para o caso de não terem percebido à primeira:  

o réu estava condenado a não amar para o resto da sua vida. 

O mais inquietante para quem estava presente na audiência foi a não reacção do réu. Pálido e asseado, com um ar respeitável, levantou-se, virou as costas e saiu da sala de audiências ladeado por um dos agentes. O advogado abanou a cabeça, pegou nos papéis e seguiu-os.

Toda a sua vida, desde que nasceu, este homem só tinha conhecido um sentimento: Amor. Amava tudo e todos, sem discriminação, negros, brancos, amarelos, todos. Não conhecia nem o medo, nem a fúria, nem tampouco o tédio. Apenas sentia Amor, era literalmente mais forte do que ele. Nasceu para amar e para ser amado. Era o seu destino.

A vida, como todos sabem, pode ser muito cruel e madrasta* para aqueles que amam de verdade. Recusava trabalhos onde não pudesse exercer o seu Amor para com os colegas e clientes. Era facilmente admitido nas entrevistas por ter um ar tão compassivo, mas despedia-se ou era despedido pouco tempo depois por não ser suficientemente competitivo. Motivo de despedimento: Amor. Mas nem tudo era mau; as pessoas cediam-lhe lugar à mesa de um café ou de um restaurante; a partir do momento em que entrava num estabelecimento, exalava facilmente Amorosidade. 

Se eu fosse um autor clássico, diria que este homem tinha sido tocado ou bafejado pelo sopro de Vénus e por todas as 9 (nove) musas de Apolo. 

Vou agora falar de mulheres. 
Na primeira fase do relacionamento amoroso, David (nome fictício para proteger a sua identidade) era o sonho de qualquer mulher. Além de amar como ninguém, tinha uma cara...esperem, é mais fácil descrevê-lo assim: imaginem o actor americano James Stewart, mas moreno, versão mediterrânica. Não era de se jogar fora, como se costuma dizer. Não seria tão alto, mas era espadaúdo e bem feito. Só que as mulheres, como todos sabemos - a leitora irá seguramente concordar comigo - fartavam-se rapidamente de tanto Amor. Por favor, não sorriam, nem torçam o nariz, porque, no vosso âmago, sabem que é verdade. Os relacionamentos do David não duravam mais do que três, quatro meses. Elas ficavam fartas e enjoadas de tanto Amor, não conseguiam aguentar a overdose de Amor que David tinha para oferecer. Atenção, ele não era amoroso, não era lamechas ou algo do género, ele apenas limitava-se a oferecer Amor genuíno, há aqui uma diferença notória. Muito raramente o seu Amor era retribuído. 

A queixa-crime partiu da sua última companheira que não conseguiu resistir ao comportamento desviante de David. O processo arrastou-se durante meses e meses. David sofria em silêncio. Sofria por Amor, pelo tanto Amor que tinha para dar.

Não amar para o resto da sua vida.  

Tanto quanto sei, David refugiou-se numa aldeia do interior profundo e vive rodeado de cães e gatos. Os animais gostam muito do Amor que este homem tem para dar.

O caso de David é triste e inaudito ao mesmo tempo.  

 

*não tenho nada contra madrastas, atenção. 

 

sábado, janeiro 10, 2026

Isto não é uma mentira





 

 

 

 

 

O que torna um mentiroso um bom mentiroso? 

A palavra "mentira" vem do latim mentīri, que significa "enganar" ou "dizer falsidade", e está ligada à raiz de mens (mente) e menda (falha, defeito). Ou seja, há um defeito, uma falha na mente do mentiroso para seu próprio proveito.

O que eu vou contar em seguida não é uma mentira. 

Durante cerca de um ano, eu e o meu pai íamos juntos para o trabalho. Ele acordava-me às 07:20, ele já estava quase pronto. "Não tinha palha na cama" como se costuma dizer. Foi o meu primeiro trabalho a sério. Era a Epson em Perafita e ele trabalhava mais abaixo na ABB perto do Cabo do Mundo, junto à antiga Petrogal. Saíamos os dois cedo para enfrentar o trânsito da Ponte de Arrábida e depois a fila para entrar no nó de Francos. Quem mora no Porto sabe do que está a falar. Já havia trânsito na altura, mas não era a loucura que é agora. Isto foi há mais de vinte anos. Durante a viagem, raramente falávamos de algo importante. Eu conduzia, ele mandava vir com os outros condutores. Eu já tinha alguma coragem, mandava-o calar, ele calava-se. Estava a ficar velho. Mas pouco depois voltava a repetir os insultos para com outro condutor. Não gostava que eu desse passagem aos outros. Ele sabia dirigir, mas não tinha carta de condução. Deixava-o primeiro no seu local de trabalho e depois "fazia horas" no carro, em frente à praia do Cabo do Mundo. Tinha ainda 20, 30 minutos antes da minha hora de entrada. O carro tinha leitor de cd's e escutava quase sempre estes dois álbuns:

"Tiny Music... Songs from the Vatican Gift Shop" dos Stone Temple Pilots

"White Poney"
dos Deftones.

No "Tiny Music.." dos STP, depois da última faixa, "Seven Caged Tigers", há um fadeout de um tema escondido. Esse "não-tema" fazia-me sonhar e transportava-me para outra dimensão. Não estou mentir. Era um sentimento bom mas muito estranho, parecia que a minha alma queria sair do meu corpo. Não, não era dissociação ou desrealização, era uma injecção sensorio-melódica, um mini-êxtase que me fazia sentir Outro.

Non stop. O mar revolto à minha frente, o farol da Boa Nova, a "citadela" da Petrogal atrás de mim. Parecia uma cena de um livro do J. G. Ballard. Lenços usados no chão de terra batida. Rebaixava um pouco o meu assento e escutava os gritos angustiados do Chino Moreno; depois zarpava para o labor corporativo. O início auspicioso da minha tremenda carreira profissional.

Quando evoco estas memórias, o mais incrível no meio disto tudo é o modo piloto automático em que me encontrava na maior parte do tempo. Não questionava, não pensava, não sentia. Apenas executava. Aquele pedacinho de tempo entre o trabalho do meu pai e o meu era uma honrosa excepção.

No final do dia, ia buscar o seu Amaral à ABB. Às vezes, dizia-me para esperar lá dentro. Não sabia muito bem o que fazer: via-me rodeado de CNCs, de enormes tornos, de fresadoras, um cheiro intenso a óleo e a aço entrava-me pelas narinas. A "Ode Triunfal" do Álvaro de Campos ali materializada na ABB. Já desfardado, trocávamos algumas palavras e metiamo-nos no Polo. Regressávamos a casa quase sempre em silêncio.

Isto não é ficção, isto não é uma mentira.

 

quarta-feira, janeiro 07, 2026

Suck my kiss

Estava aqui a ler o seguinte: um ciclista sprinter dos anos 60 chamado Piquemal que era ciclotímico, ou seja, esquecia-se às vezes de terminar uma corrida, porque perdia-se nos seus humores ao longo da corrida. Um ciclista ciclotímico, que barbaridade, como dizem os espanhóis.

Quem nunca teve oscilações de humores que atire a primeira pedra. Seria a coisa mais óbvia para se dizer. Hoje está a ser um dia assim, de fortes humores a ganharem vida e a serem desconstruídos. O ócio proporciona-me isto nesta fase da minha vida. Estou num habitat familiar, querido, a assistir passivamente a um concerto dos Red Hot, num sofá bastante surrado e confortável. 

A minha mente roda freneticamente alheia ao som dos solos maníacos do Frusciante. Quando os vejo assim em palco, tão conectados entre si, após anos de coexistência, dá para apalpar o Amor que existe pela música e entre eles (Disclaimer: gosto muito de Red Hot, mas não sou fã, longe disso).

Humores. Se fosse budista, diria que são as nuvens que transitam no céu azul que pode ser visto como a nossa Consciência. Felizmente, não sou. Vou dizer algo mais arrojado enquanto escuto o "Suck my kiss": o Amor é um humor que se elevou finalmente e que deixou cair o "Hu", encontrando a redenção e a felicidade  nos pequenos gestos. Com o outro.



segunda-feira, janeiro 05, 2026

Escrever ou não escrever

Não escrever nada, porque se espera que chegue a inspiração é um truque que funciona sempre. Pelo menos para mim. Tento escrever sempre com ou sem inspiração (ou expiração). São vários os exemplos de escritores que nos últimos anos da sua vida (estamos a falar de 20, 30 anos em certos casos) não escreveram uma palavra: Walser, Juan Rulfo, Rimbaud, etc. Não quero, mas se chegar a este ponto está tudo bem. Prefiro escrever (uma saída à Bartleby, o escrivão, mas "ao contrário"). 

Eu tenho em crer que quanto mais se escreve, menos se pensa, e isso pode ser bom para muitos - eu, incluidíssimo, claro.

Por exemplo, hoje, queria escrever sobre D. João II, o Príncipe Perfeito, mas acabei por escrever sobre nada. No entanto, tenho para mim que escrever sobre "nada" é melhor do que não escrever. Tenho a certeza que D. João II, perfeito como ele só soube ser, entenderia esta divagação que acabaram de ler. 


sexta-feira, janeiro 02, 2026

O casal

Quando era mais jovem, via os apeadeiros como locais muito propícios ao romance, a despedidas dolorosas, a encontros amorosos intensos e fugazes. Cheguei a escrever um ou dois poemas de qualidade duvidosa sobre matchmaking em estações degradadas com painéis de azulejos vandalizados ou pichados com corações e outros órgãos menos românticos. Sim, nesses tempos ainda tinha um ventrículo cheio de romantismo naif no meu coração. Agora vejo as estações como um local funcional onde posso ir de A a B. Não, não me tornei insensível ou entorpecido pelos anos (isso seria muito previsível e aborrecido), mas os minutos acumulados de espera subtraíram-me algum romantismo, admito-o sem qualquer orgulho. Hoje, no entanto, presenciei um cena que tinha tanto de triste como de bela.

Assim que me sentei num dos lugares livres da carruagem, troquei olhares com um casal que estava sentado à minha frente. O meu olhar fugiu depois lá para fora, o Atlântico acompanhava o comboio ao longo do horizonte; eles revezavam-se a olhar para mim. O homem deveria ter a minha idade e tinha cara de fumador, de quem fazia bastantes horas extras; ela aparentava ser mais velha, não era bonita nem feia e exibia olheiras que pareciam ser de tristeza. Estavam rodeados de mochilas e sacas cheias aos pés. Parecia que estavam à espera que eu fizesse algo para quebrar aquele seu ar pesaroso. A rapariga que estava sentada dois bancos à minha esquerda estava mergulhada no telemóvel, era a perfeita figurante. Um outro homem passou no meio de nós e abriu a porta do WC. Um ar nauseabundo empestou esta parte da carruagem. "Que cheiro", balbuciou o homem do casal. O comboio parou mais uma vez. Ninguém entrou, ninguém saiu. O casal trocava beijos que não duravam mais de dois, três segundos. Ele acariciava-lhe o rosto enquanto ela olhava resignada lá para fora. Não se esperaria que um homem com um rosto mastigado pela vida e pelo tabaco fosse capaz de tais gestos de afecto. Toda a cena - tirando o guarda-roupa e os penteados - poderia ter sido retirada de um filme noir dos anos 40/50. A dada altura, dentro da minha cabeça, a troca de beijos tinha-se tornado um pouco patética e encenada. O comboio começou a abrandar novamente. Eles abraçaram-se pela última vez, a mulher estava a fazer um esforço enorme para conter as lágrimas. Pegou em algumas sacas e saiu. O homem continuou no seu lugar com a expressão de quem não tinha nada a perder.