Tem alturas em que me sinto um pouco "quixotizado". O que quero dizer com isto?
Alonso Quijano aka D. Quixote de La Mancha era um fidalgo sem guito que queria reviver os tempos gloriosos da velha aristocracia de La Mancha, no centro de Espanha. Quixote quer proteger os indefesos, salvar donzelas, repor a ordem. Quer exercer o seu controlo sobre uma realidade que a sua percepção não pode (ou quer) enxergar (adoro este verbo brasileiro). Vive num mundo fantasioso, de ilusões. Começa a ver gigantes ameaçadores em vez de moinhos. Nos dias de hoje, seria provavelmente internado numa instituição de saúde mental.
O único ser capaz de o chamar à Terra é o seu fiel escudeiro Panza, um homem do povo, sem pretensões, sem quimeras. É guiado pela sua barriga, Sancho vê o mundo "tal como ele é" (seja lá o que isto queira dizer).
Sim, tem alturas que me sinto um pouco "quixotizado". Não vejo moinhos nem azenhas, graças a Deus, mas a minha mente tem alguma tendência para extrapolar o real. Esta coisa funciona por dualismo, por contraste: por outro lado, parece que estou rodeado por "sanchizados", pessoas que são demasiado reais, demasiado pragmáticas, demasiado "Terra", que sofrem com coisas mundanas. E está tudo bem se assim for.
Alguns ainda não sabem, mas todos procuramos a via do "Meio", do "Tao". "No meio é que se encontra a Virtude", diz o bom povo, a grande família do Sancho. Mas e se a Virtude for demasiado aborrecida?
Não deixa de ser curioso que para com os outros, tenho tendência a "sanchizar", a apelar ao bom senso, a trazê-los à terra recorrendo a algum humor. Mas dentro de mim, há um Quixote que deseja a Glória, a Fantasia, que quer que o Inconsciente seja finalmente libertado, sem juízos de valor dos "sanchizados".
Confía en el tiempo, que suele dar dulces salidas a muchas amargas dificultades.
