Na casa dos meus avós havia muitos objectos antigos e cheios de melancolia. A sala cheirava quase sempre a mofo por causa do velho soalho em madeira. Lembro-me bem da televisão de válvulas enorme que parecia comandar os outros objectos quando ninguém estava a ver. Havia uma fotografia a preto e branco da família real britânica dos anos 50. A rainha Isabel II deveria ter 18 anos nessa foto. Não me perguntem porque é que tinhamos essa foto pendurada, não somos ingleses.
Mas o objecto que tenho mais presente era a escarradeira em esmalte do meu avô que mantinha sempre ao lado da cama. Era branca, redonda, muito bonita, com ramos e flores entrelaçados, cheios de volteios. O meu avô tossia muito durante a noite. No dia seguinte, a minha avó despejava o líquido espesso e multicolor nos vasos das janelas. Ela dizia que as "rainhas-da-sala" cresciam mais bonitas e viçosas e tinha razão. A dada altura, o quarto do meu avô parecia uma pequena selva (eles dormiam em quartos separados, não porque estavam chateados mas porque era mais confortável).
Quando cresci um pouco mais, achava aquilo meio repugnante mas não me atrevia a contrariá-los, tanto eu como a minha mãe. Agora penso que aquilo funcionava como um ritual de passagem, de transmutação, se quiserem. A partir de um caldo bacterial, meio pútrido, era possível dar vida a algo belo como uma planta ou uma flor. E eu creio que, no fundo, os meus avós também sabiam disso.
