sábado, janeiro 10, 2026

Isto não é uma mentira





 

 

 

 

 

O que torna um mentiroso um bom mentiroso? 

A palavra "mentira" vem do latim mentīri, que significa "enganar" ou "dizer falsidade", e está ligada à raiz de mens (mente) e menda (falha, defeito). Ou seja, há um defeito, uma falha na mente do mentiroso para seu próprio proveito.

O que eu vou contar em seguida não é uma mentira. 

Durante cerca de um ano, eu e o meu pai íamos juntos para o trabalho. Ele acordava-me às 07:20, ele já estava quase pronto. "Não tinha palha na cama" como se costuma dizer. Foi o meu primeiro trabalho a sério. Era a Epson em Perafita e ele trabalhava mais abaixo na ABB perto do Cabo do Mundo, junto à antiga Petrogal. Saíamos os dois cedo para enfrentar o trânsito da Ponte de Arrábida e depois a fila para entrar no nó de Francos. Quem mora no Porto sabe do que está a falar. Já havia trânsito na altura, mas não era a loucura que é agora. Isto foi há mais de vinte anos. Durante a viagem, raramente falávamos de algo importante. Eu conduzia, ele mandava vir com os outros condutores. Eu já tinha alguma coragem, mandava-o calar, ele calava-se. Estava a ficar velho. Mas pouco depois voltava a repetir os insultos para com outro condutor. Não gostava que eu desse passagem aos outros. Ele sabia dirigir, mas não tinha carta de condução. Deixava-o primeiro no seu local de trabalho e depois "fazia horas" no carro, em frente à praia do Cabo do Mundo. Tinha ainda 20, 30 minutos antes da minha hora de entrada. O carro tinha leitor de cd's e escutava quase sempre estes dois álbuns:

"Tiny Music... Songs from the Vatican Gift Shop" dos Stone Temple Pilots

"White Poney"
dos Deftones.

No "Tiny Music.." dos STP, depois da última faixa, "Seven Caged Tigers", há um fadeout de um tema escondido. Esse "não-tema" fazia-me sonhar e transportava-me para outra dimensão. Não estou mentir. Era um sentimento bom mas muito estranho, parecia que a minha alma queria sair do meu corpo. Não, não era dissociação ou desrealização, era uma injecção sensorio-melódica, um mini-êxtase que me fazia sentir Outro.

Non stop. O mar revolto à minha frente, o farol da Boa Nova, a "citadela" da Petrogal atrás de mim. Parecia uma cena de um livro do J. G. Ballard. Lenços usados no chão de terra batida. Rebaixava um pouco o meu assento e escutava os gritos angustiados do Chino Moreno; depois zarpava para o labor corporativo. O início auspicioso da minha tremenda carreira profissional.

Quando evoco estas memórias, o mais incrível no meio disto tudo é o modo piloto automático em que me encontrava na maior parte do tempo. Não questionava, não pensava, não sentia. Apenas executava. Aquele pedacinho de tempo entre o trabalho do meu pai e o meu era uma honrosa excepção.

No final do dia, ia buscar o seu Amaral à ABB. Às vezes, dizia-me para esperar lá dentro. Não sabia muito bem o que fazer: via-me rodeado de CNCs, de enormes tornos, de fresadoras, um cheiro intenso a óleo e a aço entrava-me pelas narinas. A "Ode Triunfal" do Álvaro de Campos ali materializada na ABB. Já desfardado, trocávamos algumas palavras e metiamo-nos no Polo. Regressávamos a casa quase sempre em silêncio.

Isto não é ficção, isto não é uma mentira.