sexta-feira, janeiro 02, 2026

O casal

Quando era mais jovem, via os apeadeiros como locais muito propícios ao romance, a encontros amorosos intensos e fugazes. Cheguei a escrever um ou dois poemas de qualidade duvidosa sobre matchmaking em estações degradadas com painéis de azulejos vandalizados ou pichados com corações e outros órgãos menos românticos. Sim, nesses tempos ainda tinha um ventrículo cheio de romantismo naif no meu coração. Agora vejo as estações como um local funcional onde posso ir de A a B. Não, não me tornei insensível ou entorpecido pelos anos (isso seria muito previsível e aborrecido), mas os minutos acumulados de espera subtraíram-me algum romantismo, admito-o sem qualquer orgulho. Hoje, no entanto, presenciei um cena que tinha tanto de triste como de bela.

Assim que me sentei num dos lugares livres da carruagem, troquei olhares com um casal que estava sentado à minha frente. O meu olhar fugiu depois lá para fora, o Atlântico acompanhava o comboio ao longo do horizonte; eles revezavam-se a olhar para mim. O homem deveria ter a minha idade e tinha cara de fumador, de quem fazia bastantes horas extras; ela aparentava ser mais velha, não era bonita nem feia e exibia olheiras que pareciam ser de tristeza. Estavam rodeados de mochilas e sacas cheias aos pés. Parecia que estavam à espera que eu fizesse algo para quebrar aquele seu ar pesaroso. A rapariga que estava sentada dois bancos à minha esquerda estava mergulhada no telemóvel, era a perfeita figurante. Um outro homem passou no meio de nós e abriu a porta do WC. Um ar nauseabundo empestou esta parte da carruagem. "Que cheiro", balbuciou o homem do casal. O comboio parou mais uma vez. Ninguém entrou, ninguém saiu. O casal trocava beijos que não duravam mais de dois, três segundos. Ele acariciava-lhe o rosto enquanto ela olhava resignada lá para fora. Não se esperaria que um homem com um rosto mastigado pela vida e pelo tabaco fosse capaz de tais gestos de afecto. Toda a cena - tirando o guarda-roupa e os penteados - poderia ter sido retirada de um filme noir dos anos 40/50. A dada altura, dentro da minha cabeça, a troca de beijos tinha-se tornado um pouco patética e encenada. O comboio começou a abrandar novamente. Eles abraçaram-se pela última vez, a mulher estava a fazer um esforço enorme para conter as lágrimas. Pegou em algumas sacas e saiu. O homem continuou no seu lugar com a expressão de quem não tinha nada a perder.