You touch me
I hear the sound of mandolins
You kiss me
With your kiss my life begins
You're spring to me, all things to me
Don't you know you're life itself?
A sentença do juiz era muita clara: o réu estava condenado a não amar para o resto da sua vida.
Vou repetir para o caso de não terem percebido à primeira:
o réu estava condenado a não amar para o resto da sua vida.
O mais inquietante para quem estava presente na audiência foi a não reacção do réu. Pálido e asseado, com um ar respeitável, levantou-se, virou as costas e saiu da sala de audiências ladeado por um dos agentes. O advogado abanou a cabeça, pegou nos papéis e seguiu-os.
Toda a sua vida, desde que nasceu, este homem só tinha conhecido um sentimento: Amor. Amava tudo e todos, sem discriminação, negros, brancos, amarelos, todos. Não conhecia nem o medo, nem a fúria, nem tampouco o tédio. Apenas sentia Amor, era literalmente mais forte do que ele. Nasceu para amar e para ser amado. Era o seu destino.
A vida, como todos sabem, pode ser muito cruel e madrasta* para aqueles que amam de verdade. Recusava trabalhos onde não pudesse exercer o seu Amor para com os colegas e clientes. Era facilmente admitido nas entrevistas por ter um ar tão compassivo, mas despedia-se ou era despedido pouco tempo depois por não ser suficientemente competitivo. Motivo de despedimento: Amor. Mas nem tudo era mau; as pessoas cediam-lhe lugar à mesa de um café ou de um restaurante; a partir do momento em que entrava num estabelecimento, exalava facilmente Amorosidade.
Se eu fosse um autor clássico, diria que este homem tinha sido tocado ou bafejado pelo sopro de Vénus e por todas as 9 (nove) musas de Apolo.
Vou agora falar de mulheres.
Na primeira fase do relacionamento amoroso, David (nome fictício para proteger a sua identidade) era o sonho de qualquer mulher. Além de amar como ninguém, tinha uma cara...esperem, é mais fácil descrevê-lo assim: imaginem o actor americano James Stewart, mas moreno, versão mediterrânica. Não era de se jogar fora, como se costuma dizer. Não seria tão alto, mas era espadaúdo e bem feito. Só que as mulheres, como todos sabemos - a leitora irá seguramente concordar comigo - fartavam-se rapidamente de tanto Amor. Por favor, não sorriam, nem torçam o nariz, porque, no vosso âmago, sabem que é verdade. Os relacionamentos do David não duravam mais do que três, quatro meses. Elas ficavam fartas e enjoadas de tanto Amor, não conseguiam aguentar a overdose de Amor que David tinha para oferecer. Atenção, ele não era amoroso, não era lamechas ou algo do género, ele apenas limitava-se a oferecer Amor genuíno, há aqui uma diferença notória. Muito raramente o seu Amor era retribuído.
A queixa-crime partiu da sua última companheira que não conseguiu resistir ao comportamento desviante de David. O processo arrastou-se durante meses e meses. David sofria em silêncio. Sofria por Amor, pelo tanto Amor que tinha para dar.
Não amar para o resto da sua vida.
Tanto quanto sei, David refugiou-se numa aldeia do interior profundo e vive rodeado de cães e gatos. Os animais gostam muito do Amor que este homem tem para dar.
O caso de David é triste e inaudito ao mesmo tempo.
*não tenho nada contra madrastas, atenção.