quinta-feira, janeiro 15, 2026

A Sentença

You touch me
I hear the sound of mandolins
You kiss me
With your kiss my life begins
You're spring to me, all things to me
Don't you know you're life itself?

"Wild is the Wind", Johnny Mathis 

 

A sentença do juiz era muita clara: o réu estava condenado a não amar para o resto da sua vida.

Vou repetir para o caso de não terem percebido à primeira:  

o réu estava condenado a não amar para o resto da sua vida. 

O mais inquietante para quem estava presente na audiência foi a não reacção do réu. Pálido e asseado, com um ar respeitável, levantou-se, virou as costas e saiu da sala de audiências ladeado por um dos agentes. O advogado abanou a cabeça, pegou nos papéis e seguiu-os.

Toda a sua vida, desde que nasceu, este homem só tinha conhecido um sentimento: Amor. Amava tudo e todos, sem discriminação, negros, brancos, amarelos, todos. Não conhecia nem o medo, nem a fúria, nem tampouco o tédio. Apenas sentia Amor, era literalmente mais forte do que ele. Nasceu para amar e para ser amado. Era o seu destino.

A vida, como todos sabem, pode ser muito cruel e madrasta* para aqueles que amam de verdade. Recusava trabalhos onde não pudesse exercer o seu Amor para com os colegas e clientes. Era facilmente admitido nas entrevistas por ter um ar tão compassivo, mas despedia-se ou era despedido pouco tempo depois por não ser suficientemente competitivo. Motivo de despedimento: Amor. Mas nem tudo era mau; as pessoas cediam-lhe lugar à mesa de um café ou de um restaurante; a partir do momento em que entrava num estabelecimento, exalava facilmente Amorosidade. 

Se eu fosse um autor clássico, diria que este homem tinha sido tocado ou bafejado pelo sopro de Vénus e por todas as 9 (nove) musas de Apolo. 

Vou agora falar de mulheres. 
Na primeira fase do relacionamento amoroso, David (nome fictício para proteger a sua identidade) era o sonho de qualquer mulher. Além de amar como ninguém, tinha uma cara...esperem, é mais fácil descrevê-lo assim: imaginem o actor americano James Stewart, mas moreno, versão mediterrânica. Não era de se jogar fora, como se costuma dizer. Não seria tão alto, mas era espadaúdo e bem feito. Só que as mulheres, como todos sabemos - a leitora irá seguramente concordar comigo - fartavam-se rapidamente de tanto Amor. Por favor, não sorriam, nem torçam o nariz, porque, no vosso âmago, sabem que é verdade. Os relacionamentos do David não duravam mais do que três, quatro meses. Elas ficavam fartas e enjoadas de tanto Amor, não conseguiam aguentar a overdose de Amor que David tinha para oferecer. Atenção, ele não era amoroso, não era lamechas ou algo do género, ele apenas limitava-se a oferecer Amor genuíno, há aqui uma diferença notória. Muito raramente o seu Amor era retribuído. 

A queixa-crime partiu da sua última companheira que não conseguiu resistir ao comportamento desviante de David. O processo arrastou-se durante meses e meses. David sofria em silêncio. Sofria por Amor, pelo tanto Amor que tinha para dar.

Não amar para o resto da sua vida.  

Tanto quanto sei, David refugiou-se numa aldeia do interior profundo e vive rodeado de cães e gatos. Os animais gostam muito do Amor que este homem tem para dar.

O caso de David é triste e inaudito ao mesmo tempo.  

 

*não tenho nada contra madrastas, atenção.