sábado, janeiro 17, 2026

Um pequeno sentimento libertador


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Parecia não estar seguro de si mesmo quando o convidou para entrar da primeira vez. O Medo não hesitou e avançou sem nunca tirar os olhos do dono da casa. Depois deteve-se no hall de entrada, espreitou para a sala e depois para a cozinha. Olhou de volta para Elias, o dono da casa.

- Amanhã estou aqui. À mesma hora - disse o Medo.

Elias estava desesperado. Sentia-se impotente, sentia que não podia fazer nada. Houve uma vez que ainda tentou impedir-lhe a entrada, mas de nada valeu. O Medo ameaçou-lhe de morte e o medo apoderou-se de Elias. A partir do momento em que deixamos que o Medo tome conta de nós, não há muito que possamos fazer. Ou pelo menos, é assim que achamos que a coisa funciona. Elias sabia disso, mas sentia que por agora não poderia fazer grande coisa. Uma voz ténue dizia-lhe para não impedir a entrada do Medo. Pelo menos, por agora.

No dia seguinte, à mesma hora e pela enésima vez, a campainha tocou. Elias abriu a porta e encarou o Medo. Algo estranho aconteceu desta vez. O Medo não olhou nos olhos de Elias, limitou-se a entrar. Em vez de espreitar para as divisões da casa, ficou parado na entrada a olhar para a parede, para o vazio. Depois foi-se embora, sem dizer uma palavra. 

Elias, pela primeira vez, sentiu aquilo que se poderá chamar de "um pequeno sentimento libertador".