Um peso maciço que trago sobre os ombros, uma canga de bois invisível que coloquei (ou colocaram-me) sobre esta parte do corpo que levo para onde quer que vá.
A canga (ou jugo) era posta numa parelha de bois para depois ararem os campos, para transportarem grandes cargas.
E é precisamente isso que eu sinto, que estou a transportar algo volumoso, desconfortável - nem sempre, mas às vezes.
Antes que me aconselhem de forma paternalista "tens de saber largar esse peso, chegou a hora", sinto que devo carregá-la ainda algum tempo para arar a minha psique, para lavrar ordeiramente o meu passado. É uma alfaia pesada mas necessária.
A minha canga é muito adornada, muito ornamentada, como não poderia deixar de ser.
- Mas a canga não é para dois animais?
Certíssimo.
Estive a rever a obra da escultora Louise Bourgeois. Esta mulher da Luz e da Escuridão viveu quase até aos cem anos. Se ela fosse viva, teria a coragem para lhe pedir para conceber uma canga para mim. Teria de ser esta mulher porque só ela teria a sensibilidade e a cólera para o fazer. Tenho a certeza - Je suis sûr - que ela iria iria aceitar a minha encomenda.
O artista tem o privilégio e a vantagem de entrar em contacto com o seu inconsciente. E isso é sempre bom.