quinta-feira, junho 16, 2005

"As mulheres"



É bom cheirar as mulheres. Cheirar as mães e as filhas. Cheirá-las quando descem do autocarro, quando estão à espera, quando não se pentearam ainda. Quando de mau humor recolhem os lençóis de repelão e sentem nelas a grande miséria do dia, quando mandam alguém por sabão ou cebolas ou tomam um copo. É bom cheirar de vez em quando a santa, oportunamente a puta, valentemente a própria mulher. Há que cheirar a casa quando se veste, cheirar as abelhas e o café quando já abalou. Cheirar o canto da porta e a serradura. As folhas de rascunho, o mecanismo do guarda-chuva, o anel esquecido, o jornal ainda morno. Há que cheirá-las quando se movem. Cheirá-las profundamente quando se retiram. Cheirar as saliências da pedra, cheirar a sopa e a noz quando se assustam. Há que cheirá-las sem ter medo dos seus bolsos, cheirar a sua respiração e o seu vazio, o seu mar e a sua pesca.É bom cheirar as mulheres e dizer: isto é pó, isto é cera, isto é pasto.

"Novíssimos poetas da Costa Rica" in Matérika