Pedro e o Lobo

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Segunda-feira, Junho 30, 2008

Génesis



Allegro Assai
trazia entre dentes
o Balde sagrado
repleto de coisas rosadas
e botões carnudos
em forma de G
que segregavam
fluidos lácteos, de
polpa quase virgem

Allegro sentou-se e
ficou a olhar
para o crucifixo
em cima da
cama de um deus

moribundo

se estivesse alguém
naquele quarto,
poderia jurar
a pés juntos
que deus esboçou

um sorriso.
Sorveu por uma
palha aquele soro

milagroso e espalhou
o resto pelo ar

ao contrário do que
videntes e
marionetas apregoam,
deus criou primeiro
a lua para se maquilhar -
"Tenho de me recompor
e criar a Terra e o resto"

ainda num estado
que suscitava algumas
reservas, levantou-se e

soprou o pó da lua.
A Terra brotou

com todo o seu vigor
paleolítico

no ar bafiento do
quarto

o balde tinha um
pequeno furo,
imperceptível ao olho
clínico de deus:
formou-se aos pés da cama

uma poça
esbranquiçada, polposa -
o berço-do-homem

ao contrário do que
abatinados e
astroiluminados afirmam
deus descansou
ao fim do primeiro dia.

Sexta-feira, Junho 27, 2008

Djuna

Djuna está sentada na velha poltrona que o pai incestuoso lhe deixara. A velha biblioteca esfumaçada pela boquilha é o seu casulo durante o dia. Aguarda fatalmente pela cantora que vai saciar os apelos inúteis da carne. Ainda em jejum, vê da longa janela orelhas, torsos, melenas, dentes projectados no céu sanguíneo pelo pôr-do-sol. Vê também o seu pai a cavalgar no ar uma carpa com cara de monge, seguido em baixo por um lobo furtivo com patas de carneiro. Um grupo de camponeses ajoelha-se, vomitam notas desafinadas com flautas enterradas no cu até ao Ré. De repente, batem à porta. Dionísio põe a língua de fora enquanto sodomiza cabras e virgens florentinas de olhos azuis, perto de um pequeno precipício. Santo Antão era o seu pai.

Terça-feira, Junho 24, 2008




quando me inclinei
para limpar a mostarda

que pingava do
bolso roto
vi na mancha amarela
uma jovem viúva que
declinou gentilmente
o convite para ir à ópera
não, o cavalheiro
não era eu mas alguém
muito parecido
comigo

um aeronauta
pouco hábil que
não pede indicações

quando está perdido

a mostarda foi criada por
Cristo na famosa fase
amarela Gourmet

Segunda-feira, Junho 23, 2008


As maiko mais novas
podem fazer estragos irreparáveis
nos jovens amantes que
esperam ser colhidos
da terra.

O ardor das mais viciosas
pode mesmo matar
os futuros companheiros
que as ajudarão
a ser geishas.

As mais velhas
humedecem o indicador
e o anelar na língua
das companheiras
para depois esgadanhar
a terra prenhe e escura.
Esperam pacientemente
que o sol se levante.
Sabem que
as árvores de sombra
leitosa guardam
os melhores amantes
debaixo das raízes.

Os velhos da aldeia
observam-nas
das colinas
com as lunetas telescópicas
que os nanbam-jin,
os «bárbaros do sul»,
deixaram na ilha
como prova
das suas boas intenções.

Sexta-feira, Junho 20, 2008

Sir Winstom Churcill




- Could you please hold my cigar for a second?
Lord Randolph, pai de Winstom Churcill, antevia um futuro brilhante para o seu filho como florista. Porém, o Destino é senhor de si e de todos aqueles que se passeiam neste mundo por sua obra e graça.
Churcill não seria uma excepção. Numa daquelas tardes de domingo pardacentas, o ainda rapazola Winston ficou assombrado com as coisas que se podiam fazer com um mero ancinho e uma tesoura de poda enferrujada. Ainda com as pupilas dilatadas e a tremer de excitação (como varas verdes, será a expressão?), pôs um manto de serapilheira nas costas, pegou furiosamente no regador verde e correu para o topo de pedra mais alta do jardim. Ajeitou a capa e exclamou em viva voz para esquilos e gralhas que eram bichos pródigos em ignorar pessoas e o próprio destino:
- Sim! Como nunca antes se viu! Serei o líder dos jardineiros desta nação! Oh sua Majestade! -
dizia em estado febril, enquanto girava excitado sobre o seu eixo, exibindo o "V" de vitória com os dedinhos aos animais daquele pequeno reino.

Quinta-feira, Junho 12, 2008

S. Bento




Apenas a boca de São Bento foi
poupada, os homens do poder
reconciliam-se beijando
a boca do santo num gesto

de luxúria parlamentar
sem precedentes. Os mais novos
espumam de prazer enquanto
solfejam decretos e projectos até
sangrarem dos dedos, até caírem os
dentes do siso, até o cabelo ficar
ralo no cocuruto.

São Bento dormia
de barriga
para baixo.
Pústulas ou afrontamento?

Quarta-feira, Junho 11, 2008

Pequei terrivelmente e rebolei para a varanda minúscula onde a juba da lua me encorajou a grunhir como um mabeco com cio, mais ou menos como uma mãe carnuda com o seio desnudo que estala e põe a sua prole imediatamente em silêncio. O marido não vai a casa há dois dias. Por cada traição...desengane-se. Já está? Não vou narrar uma historieta diáfana de adultério: este homem recto, digno, com rugas de quase meia idade, expele fragmentos minúsculos de grão de bico acobreado pelo canto do olho quando se sente ameaçado ou quando o fazem sorrir contrafeito. Poderia conhecer também a minha vizinha de cima de pele macilenta e expressão predial muito característica das vizinhas de 4º andar. A Okinaua (não sei o seu nome, por isso baptizei-a de Okinaua, é um nome tão bom como outro qualquer) deu-me uma violenta chicotada quando nos cruzamos nas escadas, na manhã seguinte. Empinou-se três degraus acima e com o dedo indicador em riste disse:
- O senhor é essencialmente um tolo em estado semi-gasoso. Não torne a repetir a gracinha. Ai não volta não. Compre uma palmeira e roce-se no tronco se quiser, mas nada de urros a altas horas. Vá pegue lá.
E ofereceu-me duas cerejas envernizadas que mais pareciam dois grandes melões cor de cereja envernizada. Vou guardar os caroços no bolso do casaco para me lembrar deste dia.

Domingo, Junho 08, 2008

Delta drone blues

R.L. Burnside & Johnny Woods - Telephone Blues

Sexta-feira, Junho 06, 2008




Pouco ou nada há a fazer
quando se tem tantas gavetas abertas
como eu tenho
dentro da cabeça,
com os fundos forrados de
papel
cornucópia velho,
o bicho ataca-me onde mais preciso -
faço-me uma vénia pela manhã,
a minha cabeça apodrece e já não
se segura enquanto me abotoo ao
espelho.
oh que desconsolo! esfrego-me
de lado e não passa! o bicho ataca
onde mais preciso - prometo que
faço luto quando não conseguir
abrir a braguilha. Sou um puro-
sangue da cintura para baixo e bisneto
da melancolia em noites de lua cheia -
quero um pouquinho de mim agora,
não espero nem mais um minuto,
doem-me as têmporas, o bicho ataca
onde mais preciso. A minha mãe
chora por mim quando descasco uma
cebola brava, por ela faço jejum. Quatro
paredes caiadas e um cheirinho a mijo
de gato, o bicho ataca-me onde mais
preciso. Estou a sangrar na cabeça,
quem é que me bateu agora?
foste tu? Ou tu? Ou até mesmo
.
.
. tu?

Quinta-feira, Junho 05, 2008

Senhor! Madame! Para onde olham? Passem, passem, psss! Aqui não há nada de interessante. Andor. Uma costura aqui, outra costura, um pesponto feito à pressa, irra que dói. Morreu o costureiro zarolho, viva, viva! Nascido para os remendos, assoava-se com o velho lenço amarelecido do avô. Não velem por ele por favor.
Mas quem é aquele? É o filho mais novo não é? E porque ri? Que família, parecem albaneses. Vamos cear que já se faz tarde. Andor, andor!

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