A heroína desta pequena história era uma devota de Santo António de Pádua (eu sei, só em Portugal é que o Fernando de Bulhões (seu nome de baptismo) é conhecido como Santo António de Lisboa; como todos os portugueses sabem, o santo nasceu efectivamente em Lisboa).
É-me tentador falar sobre Santo António, não vou esconder. Vou fazer um esforço descomunal para não o fazer e nem sequer estou a ser irónico aqui. Não desta vez. Amanhã vou em missão para Coimbra e vou levar seres humanos do Novo Mundo (norte-americanos) ao belíssimo Mosteiro de Santa Cruz onde, como qualquer coimbrão sabe, Fernando de Bulhões (ainda não era santo nesta altura) fez os seus estudos e se tornou missionário, partindo depois para outras paragens. Tornou-se um asceta, um pregador, um místico, quase todos os católicos têm um carinho especial por Santo António.
Bom, mas esta história não é sobre o santo, é sobre uma mulher de seu nome Yvone que, desde que se tornou mulher, nutria uma fé inabalável por Santo António. Foi noiva de Santo António, o seu casamento foi o dia mais feliz da sua vida. Yvone era uma mulher normal, de uma beleza discreta, tinha um olhar doce, uma tez luminosa, suave. Era viciada em M&Ms e adorava vestir calças brancas. Era recepcionista num centro de inspecção automóvel e pode dizer-se que era uma boa colega. Naturalmente, alguns inspectores gostavam de flirtar com ela de vez em quando, um gracejo aqui, outro ali, o costume. Ela não levava a mal e respondia à letra. Como não poderia deixar de ser, Yvone tinha a sua estatuazinha do Santo António a protegê-la atrás de si numa prateleira da recepção. No início, o gestor do centro torceu o nariz, mas Yvone tinha um encanto natural que era quase irresistível. Além disso, era uma excelente profissional.
O que vou contar-vos repete-se todos os dias e repetiu-se seguramente milhões de vezes desde que o homem é homem e a mulher é mulher. Olhem, desde Adão e Eva, se quiserem. A nossa Yvone, casada, com dois filhos, um com quatro, outro com nove, apaixonou-se perdidamente por um dos inspectores. "Perdidamente" deve ser o advérbio mais usado quando utilizamos o verbo "apaixonar", mas foi exactamente isso que aconteceu. Pedia todos os dias ao santo casamenteiro para fazer o contrário do seu dom, ou seja, ela pedia ao santo para se desapaixonar, para tirar aquela paixão assolapada de si, da sua boca, dos seus olhos, dos seus ombros, das suas pernas, do seu peito. Enfim, já perceberam a ideia (convém sempre a "paixão" ser acompanhada pelo adjectivo "assolapada", senão não é "Paixão"). Não vou dizer o nome dele, porque não sei bem. Creio que é Paulo ou Pedro, não tenho bem a certeza, é um nome bastante comum. Era o mais recente inspector do centro e era um tipo moreno, bem ajeitado de cara, musculado e tatuado com bom gosto. Tinha pin-ups americanas no braço esquerdo e, no braço direito, uma tatuagem muito bem feita de Santo António com o menino. Bom. Era um tipo reservado, muito profissional, era o único que não se metia com Yvone. Trocavam papéis de trabalho, as fichas, falavam o que tinha de falar, "bom dia", "boa tarde" e pouco mais. Para além da tatuagem com o santo da predilecção dos dois, o outro motivo que levou Yvone a apaixonar-se por Paulo (ou Pedro, não sei bem) era o facto de ele ser calado, de uma timidez desconcertante que não combinava com o facto de ser um homem musculado e tatuado.
Como isto é uma pequena história, uma short story como se diz agora, vou já revelar o que alguns de vocês já adivinharam. Yvone ou Paulo (ou Pedro) começaram a consumar a sua paixão várias vezes por semana, no WC do centro antes de fecharem, no jardim ao lado, no carro dele ou dela (que tinham a inspecção em dia como é obrigatório), num dos motéis da zona, etc. Houve até uma vez - quando todos tinham ido embora, como é óbvio - que o fizeram na sala de recepção com o olhar impassível de Santo António. Bom, o "olhar" também pode ser "impassível". Mas nem sempre.