1. Há algo de kármico e justo quando um branco como eu transporta uma família da Costa do Marfim. Antes de me chamarem de segregacionista, deem-me a oportunidade de explicar. São católicos e querem ir a Fátima. A mãe usa um daqueles longos e coloridos vestidos africanos. É muito vistosa e tem sempre um sorriso tímido na cara. O pai tem um ar sereno e conhecedor. Os filhos vivem em Paris, são mais libertos, mais "cosmo". Há cinco séculos, os colonizadores portugueses fizeram "trinta por uma linha" (eufemismo do ano) na costa da Guiné, colonizando e separando vidas, implementando monogamia e monoteísmo, tudo "mono". O europeu branco sobrepôs ao africano formas de viver e de estar. Estes parecem não guardar rancor. Ficaram maravilhados com a Cova da Eiria. Fátima vem do árabe Fāṭimah ligado ao verbo fātama (desmamar ou separar). O nome também homenageia Fátima, filha do profeta Maomé e de Khadija, uma das mulheres mais veneradas na cultura muçulmana. Os Fatimidas passaram por aqui. Acho incrível como a maioria parte dos portugueses desconhece isto.
2. Hoje tenho um casal muito branco do Minnesota. Celebram o 25° aniversário de casamento. Muito civilizados, muito cordiais. Adoram Portugal e o velho continente em geral. Também a sua presença pode ser kármica para mim (tudo é na realidade). São-me uma distracção proveitosa, são apenas clientes. Ele é gestor na multinacional General Mills. Apesar da simpatia, não têm muito mais para me oferecer. Servem-me para me distrair da neurastenia do dia que hoje tem a ver com Deus (grande surpresa, esta é das antigas). O pragmatismo dos americanos ajuda-me a descer à Terra, devolve-me o lado funcional do meu cérebro. No final ofereceram-me um Tawny orgânico que aceitei de bom grado.
