1. Há algo de kármico e justo quando um branco como eu transporta uma família da Costa do Marfim. Antes de me chamarem de segregacionista, dêem-me a oportunidade de explicar. São católicos e querem ir a Fátima. A mãe usa um daqueles longos e coloridos vestidos africanos. O pai tem um ar sereno e conhecedor. Os filhos vivem em Paris. Há 6, 5 séculos, os colonizadores portugueses fizeram "trinta por uma linha" (eufemismo do ano) na costa da Guiné, colonizando e separando vidas, implementando monogamia e monoteísm, tudo "mono". O europeu branco sobrepôs ao africano formas de viver e de estar. Estes parecem não guardar rancor. Não sei se houve algum antepassado meu envolvido nesse pedaço triste da História Mundial, mas não importa muito pois não?
2. Hoje tenho 1 casal do Minnesota. Celebram o 25° aniversário de casamento. Muito civilizados, muito corteses. Admiração confessa por Portugal e pelo velho continente em geral. Não sei como, mas também a sua presença pode ser kármica para mim (tudo é na realidade). São-me uma distracção proveitosa, são apenas clientes. Apesar da simpatia, não me acrescentam muito, o que é pena. Servem-me para me distrair da neuroestenia do dia que hoje tem a ver com Deus (grande surpresa, esta é das antigas). O pragmatismo dos americanos ajuda-me a descer à Terra, devolve-me o lado funcional do meu cérebro.