segunda-feira, novembro 27, 2017

O atol da Felicidade

Encontrava-me numa daquelas praias paradisíacas onde tudo é azul, verde e dourado. Palmeiras, coqueiros, vegetação luxuriante numa ilha do Pacífico Sul. Não era bem uma ilha, era mais um atol. Todos aqueles que eu considerava meus amigos e minhas amigas estavam nesse atol. Gaugin era o salva-vidas, estava no alto daquelas cadeiras-girafa de vigilância. Freud estava sentado com os pés cruzados aos pés da cadeira, usava um fato branco, Fedora na cabeça e fumava o seu eterno charuto. Albatrozes grasnavam e voavam recortados em padrões escherianos sob o céu de um azul impossível. Enfim, o paraíso na Terra.
 
Os meus amigos tiraram as roupas e começaram a explorar os corpos alheios, a lamberem-se numa pantagruélica orgia de registo oral, sem qualquer insinuação de coito ou outro tipo de manobra física mais invasiva. Estavam proibidos por Gaugin. Freud largava espirais de fumo com a boca e de vez em quando coçava a barba. Os ventres morenos das minhas amigas reluziam e os ombros e tríceps dos meus amigos contraiam-se e dilatavam-se de forma compassada. O meu amigo mais casto (não vou dizer o nome dele como certamente compreenderão) exortava-os à virtude, ao resguardo moral, mas foi logo abocanhado pela minha amiga mais voraz. Ficou todo ensalivado de prazer e um esgar de êxtase ondulou o seu rosto e deitou-o por terra. A minha amiga lambeu o canto da boquita, soltou uma gargalhada e voltou para o resto do grupo. Aquele cenário era um verdadeiro manifesto de línguas e bocas, de pele suada. Havia cestos de maçãs e cerejas espalhados pela praia.
 
Esperem. O que se passa aqui? Enterrei a mão na areia fina. Mas isto não são grãos de areia. O que significa isto?! Centenas de pastilhas de Xanax e Prozac escorriam entre os meus dedos. A praia era um enorme depósito farmacêutico. Fingi-me chocado, encolhi os ombros e juntei-me ao grupo.