Portugal tem muitas tendas montadas em praças das duas grandes cidades deste país. É estranho ver agentes PSP a admirar as calças de licra das manifestantes enquanto fazem o ioga matinal entre o Millenium e o Rivoli.
Por falar em tendas, tenho de comprar uma para acampar com o meu filhote no interior profundo. Há já algum tempo que quero fazer isto. Um encontro com as estrelas onde inventaria um nome sempre que ele perguntasse o nome de uma estrela.
"Aquela ali, grande, chama-se "Kusturika", aquela ali ao lado é a "Maradona", aquela mais a sul é conhecida como "Sid Vicious", é muito rebelde."
"Oh pai, estás a inventar outra vez."
"O quê? Como te atreves?...Eih que barulho é este? Ouviste? É um grizzly lá fora, vamos ser o jantar de um grizzly..."
"Pai, por favor."
"Ok, está bem então. Vamos dormir."
Estas tendas velhas que tenho montadas na minha cabeça. Quando aparecem, são muito chatas, muito persistentes. Querem a atenção toda, são muito reivindicativas. Não pedem permissão a ninguém, ocupam os interstícios do córtex e ficam aí horas, dias até. Os agentes policiais do neo-córtex quer expulsá-las, mas é difícil.
Há uma falta de bom senso, de entendimento, de concórdia entre o meu cérebro reptiliano de esquerda e o meu neo-córtex de direita. Estou à espera que os dois se beijem apaixonadamente e que vivam felizes para sempre.
Pedro e o Lobo
amapedro@gmail.com | "Nunc est bibendum" - Horácio
segunda-feira, outubro 19, 2026
Armar a tenda
domingo, outubro 18, 2026
Hello Kitties!
Esta velha tendência para a "cisma". Esta lendária propensão para a ruminação como se fosse um belo e lustroso bovídeo prostrado no meio de um prado a remastigar erva.
Velhas incursões neuróticas que vêm ao de cima, parecem aquelas velhas bóias esburacadas com bandeiras a flutuarem no mar. Não se afundam. Recusam-se a afundar. Têm tanto de traumático como de risível. Contorno essas bóias-medos, encaro-as, já não abalo nem me abalam como antes. A minha mente pode ser um pequeno mar interior encrespado em que as margens são beijadas por embalagens de plástico velhas e rachadas.
Melhor que do que "bóias" ou embalagens: Hello Kitties!
Porquê? Porque sim.
Imagino estes medos e crenças como se fossem bonecas "Hello Kitties!" que perderam a cor, queimadas pelo sol e pelo sal e que agora andam à deriva pelo mar. O problema aqui será mesmo este: alguma imaginação com demasiado cortisol. Mas a origem, as causas desse mesmo problema estão no fundo deste mar interior. Já mergulhei, já os vi, mas tive de vir à tona para respirar.
Se conhecesse a artista Joana Vasconcelos e tivesse algum dinheiro, iria encomendar-lhe uma enorme tapeçaria na forma de uma enorme vaca multicolorida a mastigar uma enorme Hello Kitty! para depois colocá-la no meio do jardim do meu condomínio.
Porquê? Porquê sim.
sábado, outubro 03, 2026
Bilhar grande
Enquanto espero pelos meus clientes de hoje, um simpático casal com ascendência mexicana de Houston, Texas, aprecio o puzzle urbanístico do centro do Porto a partir da beira-rio de Gaia. Está um lindo dia de Outubro, a temperatura está amena. O céu azul convida a um passeio lento pelas ruelas e ruas do burgo. Nasci no Porto mas morei quase toda a minha vida na cidade-vila do outro lado do Douro. Garrett, Eça, Rentes de Carvalho viveram aqui. A cidade das caves. Há mesmo muito vinho aqui. Enquanto crescia, inalei qb o cheiro do vinho despejado das cubas, eram pequenos riachos tintos que desaguavam no grande rio. Havia também muitas rodelas de limão e seringas usadas pelas ruelas traseiras. Anos 80, princípios dos 90. Muita droga. Santa Marinha. O South Bronx do Porto. Muita coisa mudou, Gaia foi envernizada e polida com brunches, novos restaurantes e um maravilhoso e irresistível "world of wine", um artificial paraíso enólogo para adultos e crianças. Tive de subir a antiga e íngreme rua Direita para encontrar um café com preços decentes. Passei pela antiga leitaria onde a minha avó me mandava comprar o leite. A drogaria que já fechou. A velha "escola da praia". Mais acima morava a minha tia que agora está num lar em Coimbra com princípios de Alzheimer. Uma sombra de tristeza pairou sobre mim. Tomei o meu café, no balcão estavam dois homens a beber cerveja às 10:30 da manhã. Na prateleira da parede, o Santo António e Fátima protegiam o local entre garrafas de Aldeia Velha e Porto Messias. "Fala baixo", podia-se ler num papel escrito à mão. Baldes com esfregonas nos cantos, produtos de limpeza caídos no chão. Na sala ao fundo, uma velha mesa de bilhar esperava pelos jogadores de snooker do costume.
sábado, setembro 19, 2026
A Veneza Portuguesa
Pequenas insónias. Adormeço e acordo pouco tempo depois. Parece que sinto o cortisol a pulsar nas minhas veias, o meu coração quase sai disparado. Ponho um quartzo rosa no meu peito. Acho que o meu sistema está a ser calibrado, regulado.
Ontem, destacaram-me para a "Veneza portuguesa", que cognome tão desapropriado, como se fosse possível sequer comparar Aveiro e Veneza. Marketing pobre. Aveiro é uma cidade bonita, mas não está no mesmo patamar da cidade dos doge.
Tenho sempre sensações mistas (traduzi aqui o inglês) quando venho a esta cidade. A água dos canais induz-me leveza e fluidez. As cores dos azulejos, a arte nova nos edifícios são lindíssimas, consigo apreciar os pequenos pormenores, ainda que esteja quase sempre em "modo trabalho".
Mas a cidade causa-me outras coisas: nasci no Porto, mas tenho quase a certeza que fui concebido em Aveiro num pequeno hotel de uma pequena rua do centro. Anos 70. Ainda não havia Algarve e os meus pais não tinham dinheiro. Núpcias na Veneza portuguesa. Estou a imaginar os meus futuros e pobres pais a passearem num moliceiro, a comerem ovos moles para depois me fazerem num pequeno quarto. O universo envia-me regularmente para esta cidade-útero onde parece que sou obrigado a processar tudo o que sentia quando estava dentro da minha mãe. Desconforto, agitação, procura incessante.
Foi dia de neurastenia, principalmente da parte da tarde. Senti como se tivesse um cacto dentro da cabeça. Clientes pouco interessantes. Ao meu lado, vinha uma múmia de Minas Gerais, o homem praticamente não falava. A boca sempre semi-aberta, olhar vazio, rosto seco, muitas manchas de pele. No regresso ao Porto, caos na A1, incêndio. Em desespero, meti-me por umas ruelas de Cacia e Esgueira, os subúrbios proto-rurais da Veneza de Portugal. Como se costuma dizer, foi pior a emenda do que o soneto. Filas intermináveis de carros em estradas encolhidas. Uma raiva começou a destilar dentro de mim. Uma raiva antiga que não era de agora. Apetece-me abandonar o carro ali com os clientes lá dentro. Como nos filmes.
Tento respirar. Talvez precisasse daquilo. Talvez precisasse daquele congestionamento para descongestionar estas velhas camadas de fúria, de comoção, de medos recessos.
quarta-feira, setembro 09, 2026
Biscates
Levo você pra benzer
Fui pegar uma cor na praia
E só faltou me bater, é
Basta ver um rabo de saia
Pro bobo se derreter
Quem que te mandou tomar conhaque
Com o tíquete que te dei pro leite
Quieta que eu quero ouvir Flamengo e River Plate
Chamei lá em cima o Chico Buarque porque é um homem abençoado. Desde cedo começou a cumprir a sua missão de bardo e escritor. Que bênção tão merecida, o seu talento foi-lhe reconhecido ainda ele era bastante novo. A música dele é um blues tropical regado com pinga e calor. Os seus olhos azuis inesperados ajudaram a construir o mito à sua volta. A música passa-nos uma melancolia que se bebe lentamente como se fosse a melhor das cachaças.
Ainda não sei que Arquétipo vim aqui representar, mas tenho até ao final dos meus dias para saber. Às vezes e de uma forma algo bacoca, algo naif, penso que, no meu 89º aniversário terrestre, Deus vai servir-me a bandeja dourada com tudo aquilo que preciso de saber, mas, logo no dia seguinte, Ele chama-me para perto dele.
terça-feira, setembro 01, 2026
Deus grego
Dois países em ruptura. Em contramão. Em contraciclo.
O primeiro já vive assim há muito, muito tempo. A miséria normalizada nas ruas, a sujidade, tudo é improviso, tudo é recauchutado. Um dos berços da civilização turistificado ao máximo, sem qualquer proveito para a maioria. O país é um hino visceral e colorido à miséria. Centenas de línguas e dialectos, dezenas de cultos, milhares de ritos, parece que a Índia sempre quis cobrir tudo o que é possível em toda a praxis humana. Há dias fui contemplado com uma pequena "comitiva" de indianos de Mumbai, tinham vindo a Portugal para um casamento. A grande maioria era vegetariana, como é evidente. Não comem animais e está tudo bem. Tive a sorte de encontrar um restaurante indiano nesta pequena cidade, ficaram felizes da vida. O dono era Sikh, era muito cordial, ainda que os meus clientes não fossem do Punjab. Se pensarmos bem, é espantoso como não há conflitos maiores no meio de tantos credos diferentes no subcontinente indiano.
Não respeitavam horários. Não bebiam vinho. Algumas mulheres não comiam alho nem cebola, é a dieta sátvica, ainda mais rígida. Até podiam mostrar interesse pela cultura e história locais, mas no íntimo acreditam que a sua cultura e alimentação são superiores em tudo. Foi um dia longo como podem calcular. Confessaram-me que eu era muito parecido com um actor indiano ao qual chamavam de "deus grego". Fui obrigado a concordar com as semelhanças.
Bom, o outro país sobre o qual queria falar era Israel, mas o texto já vai longo e não me apetece falar agora de hasidims e comida kosher. Seria demasiado para o caro leitor, tenho a certeza.
terça-feira, agosto 25, 2026
Gigolo e franciscano
O antropólogo Mircea Eliade dizia que a alimentação e a sexualidade não são apenas actos fisiológicos como também podem tornar-se actos sagrados, "sacramentos".
Ainda não aprendi a conviver com a minha capacidade sexual. Isto não é um galanteio egoíco, ou um auto-elogio exarcebado, iludido. Na verdade, é uma afirmação de um potente acto de auto-cura e nesse sentido é sagrado.
Mudando um pouco de registo (e de que maneira), ontem tive de levar com um jovem guia que pensava que sabia tudo. Os americanos têm uma boa lista de sinónimos para este tipo de seres:
Know-it-all
Smart Alecks
Smarty-pants
Prig
Fiz um esforço para me manter discreto e em segundo plano para o jovem brilhar e fazer o seu trabalho. Era competente, agia em modo automático, faltava-lhe densidade emocional. Eu sei, é um jovem. Não me olhava nos olhos. Talvez eu também já fui assim. Dei por mim a rebolar os olhos várias vezes sempre que ele fazia uma piada fácil com algo, forçando a seguir uma risadinha ao microfone. Algo patético. Mas, no momento seguinte, via-me a auto-recriminar e accionava logo as minhas reservas de compaixão.
Terminei o dia exausto.
Há algo em mim de gigolo de luxo e de pobre franciscano. Não se riam. São dois lados de personalidade que tendem a coexistir. Gostaria de ter a lucidez para explicar melhor estas duas personas mas para já tenho de ficar por aqui.
