Existe um personagem/herói do mundo Marvel com o qual me identifico bastante - o Surfista Prateado. Jack Kerby estava bastante inspirado quando o criou.
Para aqueles que não sabem, o Surfista servia Galactus, o Devorador de Mundos. Muito resumidamente, o Surfista compadeceu-se dos habitantes da Terra e não entregou o nosso planeta ao seu mestre que precisava da energia de planetas inteiros para sobreviver. Como consequência, ficou aprisionado neste nosso planeta azul.
O Surfista possui poderes incríveis, pode viajar pelo espaço sideral, pelo hiperespaço e através de barreiras dimensionais. Pode voar em velocidades praticamente ilimitadas na sua prancha e incorporar o hiperespaço quando excede a velocidade da luz. Já provou ser capaz de viajar no tempo em algumas ocasiões. Não precisa de comer, beber, respirar nem dormir, sendo sustentado inteiramente pelo poder cósmico. É imune aos extremos da temperatura e à maioria das radiações.
Apesar destes poderes todos, é claramente um personagem atormentado, solitário. Não pertence a nenhum dos mundos por onde passou. Questiona a moralidade das suas acções, é dado a questões existenciais. Ele ajuda e destrói. Ele salva e rejeita.
Esta itenerância constante, esta mobilidade quase forçada, esta não-permanência que caracteriza o meu trabalho é o que me salva e o que me desgasta ao mesmo tempo. Pergunto-me muitas vezes porque sou assim, porque actuo desta forma. Não sirvo nenhum "devorador de mundos" (que eu saiba!), mas parece haver uma "força maior" que me impele a executar este cargo. Juro que não quero romantizar nada aqui.
O que vou dizer/escrever a seguir não é novidade para alguns vocês e poderão até identificar-se com este sentimento. Numa boa parte destas "missões", sinto-me tremendamente sozinho no meio de tantas pessoas. Como se estivesse a navegar entre mundos, tal como o Surfista. Sou confrontado por diferentes percepções e cognições que reconheço, mas parece que não me é permitido permanecer nesse estado de "identificação" durante muito tempo. A natureza deste trabalho descarta as pessoas (clientes) no fim do dia. No dia seguinte, surgem mais caras novas e assim sucessivamente. Não, não é um métier normal.
Para ser completamente honesto comigo mesmo, questiono-me amiúde porque
faço aquilo que faço. Parece haver aqui uma nobreza de desígnio superior, mas sinto
frequentemente aquilo que se chama um síndrome de impostor. Não porque finjo a minha empatia e/ou simpatia, mas porque a mecânica rotineira do cargo, a repetição árida obriga-me a uma certa postura que às vezes me parece artificial.
Talvez seja isto parte da experiência humana. Nós assim escolhemos antes de nascer. A Terra é de facto uma grande vivência cósmica.
