quinta-feira, junho 25, 2026

Um caso

A heroína desta pequena história era uma devota de Santo António de Pádua (eu sei, só em Portugal é que o Fernando de Bulhões (seu nome de baptismo) é conhecido como Santo António de Lisboa; como todos os portugueses sabem, o santo nasceu efectivamente em Lisboa). 

É-me tentador falar sobre Santo António, não vou esconder. Vou fazer um esforço descomunal para não o fazer e nem sequer estou a ser irónico aqui. Não desta vez. Amanhã vou em missão para Coimbra e vou levar seres humanos do Novo Mundo (norte-americanos) ao belíssimo Mosteiro de Santa Cruz onde, como qualquer coimbrão sabe, Fernando de Bulhões (ainda não era santo nesta altura) fez os seus estudos e se tornou missionário, partindo depois para outras paragens. Tornou-se um asceta, um pregador, um místico, quase todos os católicos têm um carinho especial por Santo António.

Bom, mas esta história não é sobre o santo, é sobre uma mulher de seu nome Yvone que, desde que se tornou mulher, nutria uma fé inabalável por Santo António. Foi noiva de Santo António, o seu casamento foi o dia mais feliz da sua vida. Yvone era uma mulher normal, de uma beleza discreta, tinha um olhar doce, uma tez luminosa, suave. Era viciada em M&Ms e adorava vestir calças brancas. Era recepcionista num centro de inspecção automóvel e pode dizer-se que era uma boa colega. Naturalmente, alguns inspectores gostavam de flirtar com ela de vez em quando, um gracejo aqui, outro ali, o costume. Ela não levava a mal e respondia à letra. Como não poderia deixar de ser, Yvone tinha a sua estatuazinha do Santo António a protegê-la atrás de si numa prateleira da recepção. No início, o gestor do centro torceu o nariz, mas Yvone tinha um encanto natural que era quase irresistível. Além disso, era uma excelente profissional. 

O que vou contar-vos repete-se todos os dias e repetiu-se seguramente milhões de vezes desde que o homem é homem e a mulher é mulher. Olhem, desde Adão e Eva, se quiserem. A nossa Yvone, casada, com dois filhos, um com quatro, outro com nove, apaixonou-se perdidamente por um dos inspectores. "Perdidamente" deve ser o advérbio mais usado quando utilizamos o verbo "apaixonar", mas foi exactamente isso que aconteceu. Pedia todos os dias ao santo casamenteiro para fazer o contrário do seu dom, ou seja, ela pedia ao santo para se desapaixonar, para tirar aquela paixão assolapada de si, da sua boca, dos seus olhos, dos seus ombros, das suas pernas, do seu peito. Enfim, já perceberam a ideia (convém sempre a "paixão" ser acompanhada pelo adjectivo "assolapada", senão não é "Paixão"). Não vou dizer o nome dele, porque não sei bem. Creio que é Paulo ou Pedro, não tenho bem a certeza, é um nome bastante comum. Era o mais recente inspector do centro e era um tipo moreno, bem ajeitado de cara, musculado e tatuado com bom gosto. Tinha pin-ups americanas no braço esquerdo e, no braço direito, uma tatuagem muito bem feita de Santo António com o menino. Bom. Era um tipo reservado, muito profissional, era o único que não se metia com Yvone. Trocavam papéis de trabalho, as fichas, falavam o que tinha de falar, "bom dia", "boa tarde" e pouco mais. Para além da tatuagem com o santo da predilecção dos dois, o outro motivo que levou Yvone a apaixonar-se por Paulo (ou Pedro, não sei bem) era o facto de ele ser calado, de uma timidez desconcertante que não combinava com o facto de ser um homem musculado e tatuado.

Como isto é uma pequena história, uma short story como se diz agora, vou já revelar o que alguns de vocês já adivinharam. Yvone ou Paulo (ou Pedro) começaram a consumar a sua paixão várias vezes por semana, no WC do centro antes de fecharem, no jardim ao lado, no carro dele ou dela (que tinham a inspecção em dia como é obrigatório), num dos motéis da zona, etc. Houve até uma vez - quando todos tinham ido embora, como é óbvio - que o fizeram na sala de recepção com o olhar impassível de Santo António. Bom, o "olhar" também pode ser "impassível". Mas nem sempre.

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, junho 22, 2026

Diário de Bordo XXXL

 Planeta Terra (conhecido também como "Urantia," "Gaia"), Sistema Solar. 

Calendário Holoceno: ano 12026

Calendário Rúnico: Ano 2226

Calendário Gregoriano: Dia 22/06/26, Ano 2026


Nós, os que Procuramos, sentimos que se aproxima o fim do Velho Ciclo. Término gradual dos velhos padrões de pensamento, da obsoleta e ilusória mundividência. Tentativas regulares para uma abertura plena para o Amor, para a Compaixão. Alguns atritos, conflitos, fissuras bélicas que atrasam o que é inevitável. Uma grelha invisível manipuladora que paira há milénios sobre este planeta e que o tornou numa enormíssima caverna de Platão -  excepto para alguns que tiveram a coragem, o discernimento, a inspiração "divina", se quiserem, para ver mais além - os Pioneiros.

"Disclosure", revelação. A exposição alienígena está agendada para breve. Primeiros contactos com Pleidianos, nossos parentes afastados. Seres de Luz que nos auxiliam há muito tempo. Há muito mais raças estelares.

O nosso prevalecente pensamento terráqueo que ainda rejeita a vida extra-terrestre. Os que acreditam são alienados (!), loucos, "nerds", viram demasiados filmes sci-fi. Racionalidade distorcida. Até aqui a manipulação reptiliana foi hábil, porque levou-nos a pensar que era ficção. Uma boa parte do enredo dos livros de fantasia e sci-fi aconteceram de facto noutros planos dimensionais. As guerras estelares foram e são uma realidade. 

Medidas graduais e regulares para a Dissolução do Medo. Alguma cautela. 

Eu sou Luz. Todos somos. Ainda há muita névoa, muitos resíduos e engodos sobre a nossa cognição que nos toldam, que não nos permitem ver O Que É. Joshua/Javé/Jesus tentou ajudar-nos. Outros de consciência e frequência elevadas também tentaram. 

Não sei se estou preparado. O medo dentro de mim ainda é forte, ainda resiste. Receio dos juízos pelos outros. Falta de segurança. A minha mente emite amiúde pulsões de ilusão que por vezes causa confusão, alguma angústia. No entanto, são intercalados com fragmentos de luz, de amor. Necessidade absoluta de enraizamento e de dinâmicas físicas e sociais. 

Aguardo activamente e com esperança.

Fim de transmissão. 


Capitão-agente: P. A.

Base: OPO, PT


sexta-feira, junho 19, 2026

Heróis

 O Conde de Monte Cristo – Wikipédia, a enciclopédia livre

 

Há dois heróis da literatura que me fascinam e me causam empatia - às vezes parecem-me mais reais do que os próprios autores.

O Quixote e o Conde de Monte Cristo. 

A palavra "empatia" que é usada e abusada actualmente vem do grego "pathos" que significa "sofrer", "suportar". Um impulso emotivo em que nos identificarmos com alguém que sofre por algum motivo. Estou a pensar também em "compaixão" mas, neste caso, o sujeito (nós) não tem necessariamente de ter sofrido para entender o sentimento de "sofrência" (alô Brasil!) do outro. Também pode ser algo muito católico se quiserem. Tens de sofrer para compreender o próximo e para compreender a paixão de Cristo. 

Seja como for. Adoro as alucinações do Quixote, um ser lunar (não lunático) que procurava a glória de um passado na imensa e monótona planície da Mancha. O seu criado Sancho era um chato de primeira, mas era um chato prático e necessário. Sou muito quixotesco na maior parte do tempo e talvez haja algum orgulho aqui quando digo isto. 

Monte Cristo. A vendetta, a raiva vingativa. O Conde que foi vítima de uma tremenda injustiça e procura vingança. Também é um símbolo de perseverança, de espera, de combate oculto. Não desejo vingar-me de ninguém neste momento. Tinha questões com o meu pai (não tão espectaculares como no livro) que creio que entraram na fase da aceitação (embora ache que nunca irão ficar totalmente sanadas). 

Como disse o Charlie Sheen em "Platoon" sobre os seus 2 sargentos: sinto que sou um filho desses 2 pais:

El Quijote & o Conde de Monte Cristo. 


segunda-feira, junho 15, 2026

O sonho

Não sei o que é fazer uma meditação; mudo de trilho mental com muita facilidade. "Oh meu querido, eu também, não és caso único", já ouço daqui. Eu sei, mas permitam-me falar de mim por breves momentos.

Tenho uma facilidade pouco invejável e pouco comum de afastar-me do tema que quero tratar. Salto por aqui e por ali por caminhos imprevisíveis.

Por exemplo.

Era meu desejo escrever sobre como a AI poderá também vir a ser uma ajuda para criar e elaborar os nossos sonhos. Já pensaram nisso? O meu script de prompts seria algo do género:

"Co-pilot/Claude/ChatGPT/não importa AI., faz-me um roteiro de um sonho em que sou um náufrago durante 1 dia com o meu criado, "Quinta-feira" (porque encontrei-o numa 5a. feira). Dois dias depois, quando chegamos ao ponto de não retorno de rever a nossa bússola sexual, faz aparecer - milagrosamente - uma jangada de Barbarellas voluptuosas, carregadas de melancias, presuntos, queijos e vinhos. D.O.C.. Quero que este mesmo sonho dure um mês seguido. 

Oh obrigado ChatGPT."

Mas não. A minha mente saltitante disse-me para falar-vos de outra coisa hiper-aborrecida, sobre pombas, vejam lá. Felizmente, sei ainda distinguir um texto genial de um texto não-tão-genial. Poupei-vos a algo muito chat.

terça-feira, junho 09, 2026

Banco

 



Um banco. 
Um banco de jardim onde nos sentamos. Para descansar, pensar, apreciar. Ou um banco para apenas ser
Um banco que num futuro não muito longínquo irá ser bem mais proveitoso do que um banco financeiro. As amarras sócio-culturais da moeda e do papel-moeda. Pôr dinheiro no banco a render, aqui está seguro. Amealhar, poupar. A ideia de cofre. O que nos conduziu a estes conceitos tão estranhos? Quero batatas. Aqui tens um pedaço de papel certificado por um banco nacional. Ou um cartão de plástico com um design incrível. Quem são estas instituições ditas credíveis que têm tamanho poder sobre nós? 

Mas a minha relação com o dinheiro é ambígua. Gosto de ter dinheiro (utilizo muito a palavra "guito") para gastos, não sou assim tão lírico; ao mesmo tempo, sinto um certo desprezo pela dependência que gera. 
Bom. Por momentos, fui próspero neste banco de jardim. Por breves instantes, fui Whitman em vez de Rockefeller.




sexta-feira, junho 05, 2026

Alentejando

Grândola, Melides, Ferreira do Alentejo, Beja. 

Planícies, oliveiras, sobreiros, pinheiros-mansos. Mais planícies. Toda esta imensa paisagem cinematográfica que não cabe no nosso campo visual. Nunca estamos preparados para o Alentejo. Somos sugados pelo céu azul e por longas rectas de abóbadas verdes. Uma náusea de beleza telúrica que em vez de me enraizar, torna-me um pouco mais dissociado. Povoações paradas na tempo, bastantes casas abandonadas. Canal Caveira. "Paris-Texas" à alentejana. Rostos queimados pelo sol, brutos e vermelhos. Traços celtas e mouros, tudo misturado. Beja foi uma boa surpresa, pena o museu Rainha D. Leonor estar fechado para remodelação. A Sé tem azulejos da "fase dos  mestres" muito bonitos. 

Amanhã, Comporta. Um outro Alentejo.

segunda-feira, junho 01, 2026

Apagão

Sento-me numa esplanada de café à espera. Do outro lado da vidraça, no Burguer King ao lado, vejo pilhas de medicamentos sobre a mesa. Um chama-me a atenção pelo nome, "Sedoxil". Não deve ser para os diabetes seguramente. Na mesa estão mãe e filho, negros. Fez-me alguma confusão. Na minha cabeça, as pessoas de cor não precisam de ansiolíticos. Meu Deus, que observação tão preconceituosa, tão estereotipada. Por falar nisso, hoje tive um ataque cerrado de neurastenia no meio do Douro. Porquê? Não sei. Grupo porreiro, interagiam. Um casal finlandês muito simpático de uma pequena cidade costeira, "Oulo". Assumi que faziam sauna. Verdade. Mais um clichê. Quatro franceses, 1 casal da Sabóia e outro de Bordéus. Muito agradáveis também. A senhora francesa era um amor, sentou-se ao meu lado. 

"Vous savez, votre Français est très bon. Vous connaissez la France?"

O casal inglês, os mais velhos do grupo. Ele era um ex-pastor anglicano da zona de Bristol, a mulher praticamente não falava. Muito observadora, fleumática, olhar prescutador. Parece que estava à espera de um deslize, de um mau comportamento. A avozinha do grupo. O ex-pastor tinha a voz fina, caricatural, um personagem saído de uma série.

É claro que fiquei a zeros no fim. 

"Merci, thanks, thanks em suomi, thanks em português".

Li algures na net que vai haver em breve novo apagão mundial de 3 dias e 2 noites. Temos de ir forçadamente para "dentro", parece que o Covid não foi suficiente.