quarta-feira, janeiro 07, 2026

Suck my kiss

Estava aqui a ler que um ciclista sprinter dos anos 60 chamado Piquemal que era ciclotímico, ou seja, esquecia-se às vezes de terminar uma corrida porque perdia-se nos seus humores ao longo da corrida. Um ciclista ciclotímico, que barbaridade, como dizem os espanhóis.

Quem nunca teve oscilações de humores que atire a primeira pedra. Seria a coisa mais óbvia para se dizer. Hoje está a ser um dia assim, de fortes humores a ganharem vida e a serem desconstruídos. O ócio proporciona-me isto nesta fase da minha vida. Estou num habitat familiar, querido, a assistir passivamente a um concerto dos Red Hot, num sofá bastante surrado e confortável. 

A minha mente roda freneticamente alheia ao som dos solos maníacos do Frusciante. Quando os vejo assim em palco, tão conectados entre si, após anos de coexistência, dá para apalpar o Amor que existe pela música e entre eles (Disclaimer: gosto muito de Red Hot, mas não sou fã, longe disso).

Humores. Se fosse budista, diria que são as nuvens que transitam no céu azul que pode ser visto como a nossa Consciência. Felizmente, não sou. Vou dizer algo mais arrojado enquanto escuto o "Suck my kiss": o Amor é um humor que se elevou finalmente e que deixou cair o "Hu", encontrando a redenção e a felicidade  nos pequenos gestos. Com o outro.



segunda-feira, janeiro 05, 2026

Escrever ou não escrever

Não escrever nada, porque se espera que chegue a inspiração é um truque que funciona sempre. Pelo menos para mim. Tento escrever sempre com ou sem inspiração (ou expiração). São vários os exemplos de escritores que nos últimos anos da sua vida (estamos a falar de 20, 30 anos em certos casos) não escreveram uma palavra: Walser, Juan Rulfo, Rimbaud, etc. Não quero, mas se chegar a este ponto está tudo bem. Prefiro escrever (uma saída à Bartleby, o escrivão, mas "ao contrário"). 

Eu tenho em crer que quanto mais se escreve, menos se pensa, e isso pode ser bom para muitos - eu, incluidíssimo, claro.

Por exemplo, hoje, queria escrever sobre D. João II, o Príncipe Perfeito, mas acabei por escrever sobre nada. No entanto, tenho para mim que escrever sobre "nada" é melhor do que não escrever. Tenho a certeza que D. João II, perfeito como ele só soube ser, entenderia esta divagação que acabaram de ler. 


sexta-feira, janeiro 02, 2026

O casal

Quando era mais jovem, via os apeadeiros como locais muito propícios ao romance, a despedidas dolorosas, a encontros amorosos intensos e fugazes. Cheguei a escrever um ou dois poemas de qualidade duvidosa sobre matchmaking em estações degradadas com painéis de azulejos vandalizados ou pichados com corações e outros órgãos menos românticos. Sim, nesses tempos ainda tinha um ventrículo cheio de romantismo naif no meu coração. Agora vejo as estações como um local funcional onde posso ir de A a B. Não, não me tornei insensível ou entorpecido pelos anos (isso seria muito previsível e aborrecido), mas os minutos acumulados de espera subtraíram-me algum romantismo, admito-o sem qualquer orgulho. Hoje, no entanto, presenciei um cena que tinha tanto de triste como de bela.

Assim que me sentei num dos lugares livres da carruagem, troquei olhares com um casal que estava sentado à minha frente. O meu olhar fugiu depois lá para fora, o Atlântico acompanhava o comboio ao longo do horizonte; eles revezavam-se a olhar para mim. O homem deveria ter a minha idade e tinha cara de fumador, de quem fazia bastantes horas extras; ela aparentava ser mais velha, não era bonita nem feia e exibia olheiras que pareciam ser de tristeza. Estavam rodeados de mochilas e sacas cheias aos pés. Parecia que estavam à espera que eu fizesse algo para quebrar aquele seu ar pesaroso. A rapariga que estava sentada dois bancos à minha esquerda estava mergulhada no telemóvel, era a perfeita figurante. Um outro homem passou no meio de nós e abriu a porta do WC. Um ar nauseabundo empestou esta parte da carruagem. "Que cheiro", balbuciou o homem do casal. O comboio parou mais uma vez. Ninguém entrou, ninguém saiu. O casal trocava beijos que não duravam mais de dois, três segundos. Ele acariciava-lhe o rosto enquanto ela olhava resignada lá para fora. Não se esperaria que um homem com um rosto mastigado pela vida e pelo tabaco fosse capaz de tais gestos de afecto. Toda a cena - tirando o guarda-roupa e os penteados - poderia ter sido retirada de um filme noir dos anos 40/50. A dada altura, dentro da minha cabeça, a troca de beijos tinha-se tornado um pouco patética e encenada. O comboio começou a abrandar novamente. Eles abraçaram-se pela última vez, a mulher estava a fazer um esforço enorme para conter as lágrimas. Pegou em algumas sacas e saiu. O homem continuou no seu lugar com a expressão de quem não tinha nada a perder. 

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Rio

 


 

Ao prolongar o meu olhar sobre o Douro (atrevo-me a dizer que vejo este rio quase todos os dias), ocorreu-me que a vida de um ser humano parece-se muito com aquilo que é ser um rio. Nascemos pequenos, ganhamos volume, caudal, contornamos terrenos difíceis, ficamos mais compridos, mais largos, recebemos outros rios afluentes (que podemos concebê-los como emoções, sentimentos - dor, alegria, raiva, melancolia, prazer, medo, etc. os quais podem ser gerados por outros seres humanos), acumulamos sedimentos no nosso leito (essas mesmas emoções que recalcamos), somos feitos de correntes (humores) dóceis, conturbados, transportamos lixo, troncos, galhos, etc, mas também podemos ser convidativos e ser brindados com pessoas que navegam ou se banham em nós. Algumas só por um dia, outras durante anos. 

(lembrei-me agora do filme Fitzcarraldo em que o louco protagonista, interpretado pelo intenso e desvairado Klaus Kinsky, dada a impossibilidade de continuar a viagem por água, faz avançar o seu barco, o Molly Alda, pelas margens e morros da floresta amazónica. O rio segue imperturbável.)

Esse mesmo rio acaba por desaguar num rio ainda maior ou no enorme mar-oceano. E é tentador pensar que o nosso rio, a nossa vida, não termina na foz. O mar-oceano pode muito bem ser a Eternidade.

sexta-feira, dezembro 26, 2025

Na casa dos avós

Quando era criança, passava muito tempo na casa dos meus avós maternos. Ermelinda e Joaquim eram os seus nomes. Uma das coisas que gostava de fazer era tocar e percorrer as nervuras do velho soalho da sala com a palma das mãos e com os dedos. Dava-me uma sensação de tranquilidade, não sei bem porquê. A minha avó estava na cozinha a fazer algo enquanto eu permanecia estendido com o rosto colado ao chão de madeira. Poderia ficar deitado vários minutos a afagar o velho soalho. A casa dos meus avós já tinha mais de cinquenta anos, estava cheia de manhas e histórias, mas deixava-me fazer aquelas coisas. Era interrompido pela minha avó que me pedia para trazer algo do frigorífico que estava na sala (e não na cozinha). Sempre que abria a porta pesada do frigorífico, vinha um cheiro estranho de dentro. Não era a estragado ou a podre, era cheiro a frigorífico velho. Todas as coisas velhas têm um cheiro. Sentia que o velho frigorífico não gostava muito de mim. 

Um dos objectos que mais gostava da casa dos meus avós era o velho relógio de parede. Se fosse uma pessoa, seria um daqueles senhores muito cavalheiros, muito corteses, que tiravam o chapéu sempre que passava uma senhora. Quando estava lá em casa, a minha avó pedia-me para dar corda àquele relógio. Ia buscar um banco branco (ela chamava-lhe de "mocho", não sei porquê), pois o relógio estava alto numa prateleira com alguns livros antigos. A D. Ermelinda dizia sempre que o "mocho" era traiçoeiro e para ter sempre cuidado ao descer.

Às vezes, quando estava mesmo entediado, ficava à janela a apreciar a placa das caves Ferreira, uma ema branca com uma ferradura na boca, e atrás, muito mais atrás, do outro lado do rio, o recorte dos prédios e das igrejas do Porto (durante muitos anos pensava que a ave da Ferreira era um cisne e não uma ema). O meu avô deixava o estojo de barbear no parapeito da janela por entre vasos, era aí que desfazia a barba, todas as manhãs. Eu entretinha-me a pôr a Torre dos Clérigos entre o dedo e o indicador, ou a tapar a Sé pelo pincel de barbear ou substituía o edifício moderno do JN pela gilette de aço. É claro que só fazia isto quando o Seu Joaquim não estava em casa, ele não gostava nada que lhe mexesse nas coisas de barbear.

segunda-feira, dezembro 22, 2025

Código Morsa

Tendo como mote um dos poemas do polaco Zbigniew Herbert, desejava também eu compreender a fundo:

- a Consciência divina
- a natureza do Medo
- as horas vazias e não produtivas do Rolando Toro
- o que Catarina de Bragança fazia para seduzir Carlos II
- a minha cabeça em dias pares
- a técnica de P. P. Rubens
- a escrita de B. Hrabal
- o Amor Incondicional
- a força e a paciência dos mestres construtores de catedrais
- o que é Real e o que não é Real
- identificar todas as árvores do mundo pelas suas folhas
- a patafisica do Alfred Jarry
- como limpar o meu inconsciente*
- mais cenas que não me lembro agora (...)


*Este meu icebergue inconsciente é grande e pode assumir manchas muito cinzentas em dias pares (em dias ímpares, vivo numa espécie de clímax existencial, pareço um beato de olhos verdes que seduz as meninas mais bonitas num raio de 10 km). No dia como o de hoje, o passado vem ao de cima e morsas pesadas e lentas banham-se ao sol na parte exposta desse meu icebergue enquanto digerem o peixe que devoraram. Já viram bem o aspecto de uma morsa? São gordas & feias, lamento. Os machos podem ser muito agressivos quando estão com o cio (tais como os elefantes-marinhos que são ainda mais feios) e muitas vezes lutam entre si para conseguir um lugar ao sol. Literalmente. 
Mas são necessárias estas morsas, obrigam-me a olhar para elas, trazem à tona ilusões e medos para serem expostos ao sol frio de inverno. 

Em vez de tentar decifrar o que quero dizer com este texto patafísico, ouçam o tema incrível e absurdo dos Beatles "I am the Walrus" (Eu sou a morsa). 

Com a variante que, ao contrário de Lenon, não precisei de LSD para escrever este texto. Foi uma morsa que me sussurrou ao ouvido.


sexta-feira, dezembro 19, 2025

Sombras

 (...) Uma estrada sinuosa que se faz numa noite de bruma onde pontualmente aparecem candeeiros para iluminar o caminho. Olho lá para fora, através do para-brisas, e vejo sombras a mexerem-se que parecem - parecem - merecer a minha atenção. Estas sombras são familiares. São reincidentes. Fazem de tudo para atraírem a minha atenção. O meu cérebro funciona assim. Desço o vidro e inspiro varias vezes o ar frio da noite e sinto uma espécie de "estalar" existencial até ao osso. 

"Outra vez" penso eu para com os meus botões de madrepérola.

Acelero mais um pouco. O Volvo responde-me à altura.

Admiro-me tanto por ser um mamífero raro.