domingo, novembro 01, 2026

Ora et Labora

Convidei esta semana a minha mãe para irmos ao mosteiro de Tibães. A D. Carolina, como boa reformada que é, estava disponível para passear um pouco. 
Tibães. 
O grande mosteiro beneditino do Minho. O lema da regra de São Bento é "Ora et Labora" (reza e trabalha). Esta minha obsessão antiga por mosteiros e igrejas. Tenho uma explicação para isto - acredito que fui monge ou abade noutra vida, tenho quase a certeza. É um espaço onde me reencontro, onde pequenos fractais de mim se recompõem. Gosto de respirar aquele silêncio antigo, venerado. Não é a liturgia que me atrai. É o espaço que me parece familiar onde resgato e apodero parte de mim. O Homem tem a necessidade de se apoderar, de integrar-se no espaço onde se encontra. 

"Para a casa de Deus nada é demais, nada é excessivo".
Veio-me à cabeça esta frase sobre o Barroco. A magnificência, a exuberância dos retábulos portugueses do século 18. A decoração profusa e excessiva era a arma da Igreja Católica contra os movimentos protestantes de Lutero e Calvino que queriam tudo reduzido até ao "osso", tudo mirrado, sem artificialismos, sem ostentações.
A sempre presente talha dourada, lindíssimos painéis de azulejos, muitos quadros de abades e bispos (naturalmente). Longos corredores onde me deu vontade de correr. A minha mãe atrás de mim a falar de algo. Queixa-se de uma dor do joelho há já algum tempo. Ela falou centenas de quilómetros de palavras nesse dia. Tento distraí-la da dor falando das concheados, das volutas, das uvas presentes nos retábulos dourados. Ela acena com a cabeça, interessa-se momentaneamente. 
Achou piada aos grandes sátiros desdentados que suportam o imponente órgão do tubos da igreja. Os marotos dos sátiros foram condenados a sustentar para o órgão para todo o sempre. Em cima estão mulheres que representam as virtudes cristãs. 
 
No final do dia, senti-me pesado, confuso. Foi como se tivesse a integrar o espaço percepcionado desta tal existência monástica e as coisas que ainda tenho por resolver com a mãe. Talvez seja uma catarse que foi despoletada pela combinação de tudo isto. Como se fosse um enorme painel de azulejos onde caíram peças ou algumas estão partidas. O dia foi um excesso sensorial. Um excesso de imaginação, o mais provável. 
Tive de ir ao mar para lavar a alma, para me recompor. 
"Ora et Labora".