quarta-feira, setembro 09, 2026

Biscates

Chamo você pra sambarLevo você pra benzerFui pegar uma cor na praiaE só faltou me bater, éBasta ver um rabo de saiaPro bobo se derreter
Vives na gandaia e esperas que eu te respeiteQuem que te mandou tomar conhaqueCom o tíquete que te dei pro leiteQuieta que eu quero ouvir Flamengo e River Plate
 
"Biscate", Chico Buarque 
 
 
Tal como Kierkegaard (o mesmo que dizia que "sem angústia não há escolha, sem escolha não há indivíduo") também penso que sem trocas intelectuais não há amizade. Também eu me sinto estéril quando não tenho feedback intelectual. E nem sou muito exigente porque não me considero muito inteligente. Sinto por vezes que sou um farsante porque aceno com a cabeça sem sentir interesse nenhum para com aquilo que estão a partilhar. Aquilo que peço secretamente (mas cada vez mais) é que deixem a boçalidade e a mediocridade em casa e deem-me exalações de algum pensar, de algum conhecimento que possa esgrimir com o meu. Que não se apresentem fáceis, nem ocos, nem pretensiosos. E não, não há qualquer tipo de arrogância nestas palavras, porque vêm-me do fundo da alma.

Chamei lá em cima o Chico Buarque porque é um homem abençoado. Desde cedo começou a cumprir a sua missão de bardo e escritor. Que bênção tão merecida, o seu talento foi-lhe reconhecido ainda ele era bastante novo. A música dele é um blues tropical regado com pinga e calor. Os seus olhos azuis inesperados ajudaram a construir o mito à sua volta. A música passa-nos uma melancolia que se bebe lentamente como se fosse a melhor das cachaças.
 
Bom. Mereço algum mérito por introduzir Kierkegaard e Chico Buarque no mesmo texto.

Ainda não sei que Arquétipo vim aqui representar, mas tenho até ao final dos meus dias para saber. Às vezes e de uma forma algo bacoca, algo naif, penso que, no meu 89º aniversário terrestre, Deus vai servir-me a bandeja dourada com tudo aquilo que preciso de saber, mas, logo no dia seguinte, Ele chama-me para perto dele.