quinta-feira, julho 16, 2015

Poor Boy Slim

Poor Boy Slim seguia pela estrada poeirenta numa passada arrastada e pesarosa (mais pesarosa do que arrastada talvez) em direcção a Norte. O sol inclemente apoia-se sob o seu ombro esquerdo, a guitarra pesava-lhe uma tonelada. Aproximava-se lentamente de uma encruzilhada, da famosa encruzilhada onde se diz que Robert Johnson vendeu a alma ao diabo há alguns anos. O pai de Poor Boy Slim era amigo de Robert Johnson e em miúdo ouviu muitas aventuras do famoso bluesman. Poor Boy Slim teve de esfregar os olhos. Pareceu-lhe ver um sapador bombeiro sentado na berma do cruzamento. Estava com ar cansado e desolado, talvez até mais desolado do que cansado. Antes de se sentar, Poor Boy Slim cumprimentou o velho bombeiro que devolveu o cumprimento tocando na pala metálica do capacete. O capacete era uma peça líndissima. Passada nem meia hora, os dois avistaram ao longe aquilo que parecia ser um chinês a pedalar uma daquelas bicicletas de gelados. O cruzamento estava uma fornalha àquela hora, os dois estavam completamente ensopados. À medida que o estranho vulto se aproximava, as suas suspeitas confirmaram-se. Era efectivamente um chinês a pedalar uma daquelas bicicletas de gelados.
- Vai um geladinho? - perguntou o chinês todo sorridente.
- Sim - responderam os dois ao mesmo tempo. - Quanto custa? - perguntaram os dois em coro.
- Não quero dinheiro - respondeu o chinês com um sorriso de orelha a orelha.