segunda-feira, julho 21, 2008

O Vendedor de Esporas


- Quanto? Creio que não entendi bem.
- Por ser para si, minha cara senhora, leva um par de esporas por uns míseros 130 Cruéis. E não se fala mais nisso!
Slaaam! A mulher bateu a porta com tal violência que o pobre vendedor não teve tempo para esboçar sequer um gesto. Gassiot virou-se e desceu o único degrau do alpendre, pousou no sintéctico a velha maleta, companheira de milhares de quilómetros terrestres e do dobro dos insucessos, olhou para a constelação de Crânio de Vsulatte durante cerca de dez barbhas* e foi um ar que se lhe deu: desatou a correr pela alameda das Mandíbulas como um sprinter desalmado, com a língua vermelhusca de fora como os
extintos coiotes, deixando cair esporas dos bolsos pelo caminho. Alguns colonos abanavam com a cabeça em sinal de reprovação, outros recolhiam as esporas do chão, enquanto outros riam trocistas. Logo atrás de Gassiot, formou-se um pelotão de crianças aos berros e de schoppencanis que largavam pequenos grânulos pastosos altamente corrosivos, muito semelhantes às caganitas de ratos-alados ou pombos sagrados.
Quando finalmente parou na orla da Grande Floresta Virginal, apoiou-se com o braço num tronco viscoso para recuperar o fôlego. A pequena multidão de ocasião tinha ficado para trás. Sentou-se, meteu a cabeça entre as pernas com as mãos enlaçadas em cima da nuca. Gassiot começou a suspirar por belas barítonas de peitos roliços que poderia receber se a Fortuna o ajudasse a descobrir novos pontos cardeais. O Grão-Pai assistiu a tudo isto (incluindo naturalmente o sonho acordado de Gassiot) através do BioMonitor e iniciou oficialmente o seu sofrimento em silêncio, impotente.


*equivalente a 14,5 segundos em unidades temporais antigas