Quando chega o Verão mesmo a sério, sinto-me com vontade de usar o meu boné de marinheiro, vestir uma camiseta às riscas e viajar num pequeno veleiro pelo Pacífico Sul. Levaria um velho gramofone para ouvir árias italianas enquanto manuseava as cordas e a vela. Bebia muito vermute e rum puro enquanto apreciava o magnífico coucher de soleil e sonhava de olhos abertos com velhas e futuras conquistas amorosas. Talvez me maquilhasse para os espadartes ou golfinhos que dão incríveis saltos só para impressionar. Não consigo encontrar um motivo pelo qual não deva ou possa fazê-lo.
Enquanto esta fantasia não acontecesse, tento gerir lembranças do ano passado que me vêm bater à porta da minha cabeça como não quer a coisa. Vou chamar a essas lembranças de "cabras" porque balem como cabras e parece que me mastigam a moleirinha. Não é esse sentido da palavra que o leitor(a) mais mundano estava a pensar. Estou a referir-me mesmo aos caprinos que são um chatos e devoram tudo por onde passam, toda a gente sabe disso. Estas lembranças e alguns pensamentos são assim, saltam à minha frente, dão pinotes e já não têm pudor ou vergonha. Não me pedem autorização, limitam-se a surgir, assim do nada. As cabras são velhacas como dizia a minha avó.
São Francisco não gostava de formigas (era o único bicho com o qual não simpatizava), já eu não sou santo e não gosto de cabras ou bodes. Cheiram mal. Não deixa de ser engraçado falar em santos, porque tenho à minha frente outro franciscano, uma pequena estatueta de outro santo, o Nando de Gusmões que mais tarde viria a ser conhecido como Santo António de Lisboa (ou de Pádua, mas ele só esteve em Itália em trabalho). Gosto muito dos dois porque acredito que também iriam gostar de viajar pelo Pacífico Sul comigo. Imaginem o que é ter os dois a conversarem um com o outro sobre os Evangelhos ou outra coisa qualquer, a porem Piz Buin na careca para se protegerem do sol, enquanto bebericava aquilo que diziam juntamente com o meu Martini. Que incrível seria.
Mas voltando às ditas cabras. São indelicadas e tem um olhar estranho, ausente. Às vezes parece que me dão coices dentro da cabeça com aqueles terríveis cascos e abanam-me todo durante alguns momentos. Fico um pouco mal, a sério. Quase, quase que dissocio. Eu sei que o meu mundo de associações é um pouco bizarro, mas alguns de nós tem essa capacidade, a de ser bizarro. Só está ao alcance de uns happy few. Não posso tentar prender as cabras com uma corda, seria pior a emenda do que o soneto. Vou deixá-las ruminar e balir pelo tempo que quiserem. Eventualmente vão acabar por ir à vidinha deles e eu vou voltar a sonhar com o Pacífico Sul e os santos.