Portugal tem muitas tendas montadas em praças das duas grandes cidades deste país. É estranho ver agentes PSP a admirar as calças de licra das manifestantes enquanto fazem o ioga matinal entre o Millenium e o Rivoli.
Por falar em tendas, tenho de comprar uma para acampar com o meu filhote no interior profundo. Há já algum tempo que quero fazer isto. Um encontro com as estrelas onde inventaria um nome sempre que ele perguntasse o nome de uma estrela.
"Aquela ali, grande, chama-se "Kusturika", aquela ali ao lado é a "Maradona", aquela mais a sul é conhecida como "Sid Vicious", é muito rebelde."
"Oh pai, estás a inventar outra vez."
"O quê? Como te atreves?...Eih que barulho é este? Ouviste? É um grizzly lá fora, vamos ser o jantar de um grizzly..."
"Pai, por favor."
"Ok, está bem então. Vamos dormir."
Estas tendas velhas que tenho montadas na minha cabeça. Quando aparecem, são muito chatas, muito persistentes. Querem a atenção toda, são muito reivindicativas. Não pedem permissão a ninguém, ocupam os interstícios do córtex e ficam aí horas, dias até. Os agentes policiais do neo-córtex quer expulsá-las, mas é difícil.
Há uma falta de bom senso, de entendimento, de concórdia entre o meu cérebro reptiliano de esquerda e o meu neo-córtex de direita. Estou à espera que os dois se beijem apaixonadamente e que vivam felizes para sempre.
segunda-feira, outubro 19, 2026
Armar a tenda
domingo, outubro 18, 2026
Hello Kitties!
Esta velha tendência para a "cisma". Esta lendária propensão para a ruminação como se fosse um belo e lustroso bovídeo prostrado no meio de um prado a remastigar erva.
Velhas incursões neuróticas que vêm ao de cima, parecem aquelas velhas bóias esburacadas com bandeiras a flutuarem no mar. Não se afundam. Recusam-se a afundar. Têm tanto de traumático como de risível. Contorno essas bóias-medos, encaro-as, já não abalo nem me abalam como antes. A minha mente pode ser um pequeno mar interior encrespado em que as margens são beijadas por embalagens de plástico velhas e rachadas.
Melhor que do que "bóias" ou embalagens: Hello Kitties!
Porquê? Porque sim.
Imagino estes medos e crenças como se fossem bonecas "Hello Kitties!" que perderam a cor, queimadas pelo sol e pelo sal e que agora andam à deriva pelo mar. O problema aqui será mesmo este: alguma imaginação com demasiado cortisol. Mas a origem, as causas desse mesmo problema estão no fundo deste mar interior. Já mergulhei, já os vi, mas tive de vir à tona para respirar.
Se conhecesse a artista Joana Vasconcelos e tivesse algum dinheiro, iria encomendar-lhe uma enorme tapeçaria na forma de uma enorme vaca multicolorida a mastigar uma enorme Hello Kitty! para depois colocá-la no meio do jardim do meu condomínio.
Porquê? Porquê sim.
sábado, outubro 03, 2026
Bilhar grande
Enquanto espero pelos meus clientes de hoje, um simpático casal com ascendência mexicana de Houston, Texas, aprecio o puzzle urbanístico do centro do Porto a partir da beira-rio de Gaia. Está um lindo dia de Outubro, a temperatura está amena. O céu azul convida a um passeio lento pelas ruelas e ruas do burgo. Nasci no Porto mas morei quase toda a minha vida na cidade-vila do outro lado do Douro. Garrett, Eça, Rentes de Carvalho viveram aqui. A cidade das caves. Há mesmo muito vinho aqui. Enquanto crescia, inalei qb o cheiro do vinho despejado das cubas, eram pequenos riachos tintos que desaguavam no grande rio. Havia também muitas rodelas de limão e seringas usadas pelas ruelas traseiras. Anos 80, princípios dos 90. Muita droga. Santa Marinha. O South Bronx do Porto. Muita coisa mudou, Gaia foi envernizada e polida com brunches, novos restaurantes e um maravilhoso e irresistível "world of wine", um artificial paraíso enólogo para adultos e crianças. Tive de subir a antiga e íngreme rua Direita para encontrar um café com preços decentes. Passei pela antiga leitaria onde a minha avó me mandava comprar o leite. A drogaria que já fechou. A velha "escola da praia". Mais acima morava a minha tia que agora está num lar em Coimbra com princípios de Alzheimer. Uma sombra de tristeza pairou sobre mim. Tomei o meu café, no balcão estavam dois homens a beber cerveja às 10:30 da manhã. Na prateleira da parede, o Santo António e Fátima protegiam o local entre garrafas de Aldeia Velha e Porto Messias. "Fala baixo", podia-se ler num papel escrito à mão. Baldes com esfregonas nos cantos, produtos de limpeza caídos no chão. Na sala ao fundo, uma velha mesa de bilhar esperava pelos jogadores de snooker do costume.
sábado, setembro 19, 2026
A Veneza Portuguesa
Pequenas insónias. Adormeço e acordo pouco tempo depois. Parece que sinto o cortisol a pulsar nas minhas veias, o meu coração quase sai disparado. Ponho um quartzo rosa no meu peito. Acho que o meu sistema está a ser calibrado, regulado.
Ontem, destacaram-me para a "Veneza portuguesa", que cognome tão desapropriado, como se fosse possível sequer comparar Aveiro e Veneza. Marketing pobre. Aveiro é uma cidade bonita, mas não está no mesmo patamar da cidade dos doge.
Tenho sempre sensações mistas (traduzi aqui o inglês) quando venho a esta cidade. A água dos canais induz-me leveza e fluidez. As cores dos azulejos, a arte nova nos edifícios são lindíssimas, consigo apreciar os pequenos pormenores, ainda que esteja quase sempre em "modo trabalho".
Mas a cidade causa-me outras coisas: nasci no Porto, mas tenho quase a certeza que fui concebido em Aveiro num pequeno hotel de uma pequena rua do centro. Anos 70. Ainda não havia Algarve e os meus pais não tinham dinheiro. Núpcias na Veneza portuguesa. Estou a imaginar os meus futuros e pobres pais a passearem num moliceiro, a comerem ovos moles para depois me fazerem num pequeno quarto. O universo envia-me regularmente para esta cidade-útero onde parece que sou obrigado a processar tudo o que sentia quando estava dentro da minha mãe. Desconforto, agitação, procura incessante.
Foi dia de neurastenia, principalmente da parte da tarde. Senti como se tivesse um cacto dentro da cabeça. Clientes pouco interessantes. Ao meu lado, vinha uma múmia de Minas Gerais, o homem praticamente não falava. A boca sempre semi-aberta, olhar vazio, rosto seco, muitas manchas de pele. No regresso ao Porto, caos na A1, incêndio. Em desespero, meti-me por umas ruelas de Cacia e Esgueira, os subúrbios proto-rurais da Veneza de Portugal. Como se costuma dizer, foi pior a emenda do que o soneto. Filas intermináveis de carros em estradas encolhidas. Uma raiva começou a destilar dentro de mim. Uma raiva antiga que não era de agora. Apetece-me abandonar o carro ali com os clientes lá dentro. Como nos filmes.
Tento respirar. Talvez precisasse daquilo. Talvez precisasse daquele congestionamento para descongestionar estas velhas camadas de fúria, de comoção, de medos recessos.
quarta-feira, setembro 09, 2026
Biscates
Levo você pra benzer
Fui pegar uma cor na praia
E só faltou me bater, é
Basta ver um rabo de saia
Pro bobo se derreter
Quem que te mandou tomar conhaque
Com o tíquete que te dei pro leite
Quieta que eu quero ouvir Flamengo e River Plate
Chamei lá em cima o Chico Buarque porque é um homem abençoado. Desde cedo começou a cumprir a sua missão de bardo e escritor. Que bênção tão merecida, o seu talento foi-lhe reconhecido ainda ele era bastante novo. A música dele é um blues tropical regado com pinga e calor. Os seus olhos azuis inesperados ajudaram a construir o mito à sua volta. A música passa-nos uma melancolia que se bebe lentamente como se fosse a melhor das cachaças.
Ainda não sei que Arquétipo vim aqui representar, mas tenho até ao final dos meus dias para saber. Às vezes e de uma forma algo bacoca, algo naif, penso que, no meu 89º aniversário terrestre, Deus vai servir-me a bandeja dourada com tudo aquilo que preciso de saber, mas, logo no dia seguinte, Ele chama-me para perto dele.
terça-feira, setembro 01, 2026
Deus grego
Dois países em ruptura. Em contramão. Em contraciclo.
O primeiro já vive assim há muito, muito tempo. A miséria normalizada nas ruas, a sujidade, tudo é improviso, tudo é recauchutado. Um dos berços da civilização turistificado ao máximo, sem qualquer proveito para a maioria. O país é um hino visceral e colorido à miséria. Centenas de línguas e dialectos, dezenas de cultos, milhares de ritos, parece que a Índia sempre quis cobrir tudo o que é possível em toda a praxis humana. Há dias fui contemplado com uma pequena "comitiva" de indianos de Mumbai, tinham vindo a Portugal para um casamento. A grande maioria era vegetariana, como é evidente. Não comem animais e está tudo bem. Tive a sorte de encontrar um restaurante indiano nesta pequena cidade, ficaram felizes da vida. O dono era Sikh, era muito cordial, ainda que os meus clientes não fossem do Punjab. Se pensarmos bem, é espantoso como não há conflitos maiores no meio de tantos credos diferentes no subcontinente indiano.
Não respeitavam horários. Não bebiam vinho. Algumas mulheres não comiam alho nem cebola, é a dieta sátvica, ainda mais rígida. Até podiam mostrar interesse pela cultura e história locais, mas no íntimo acreditam que a sua cultura e alimentação são superiores em tudo. Foi um dia longo como podem calcular. Confessaram-me que eu era muito parecido com um actor indiano ao qual chamavam de "deus grego". Fui obrigado a concordar com as semelhanças.
Bom, o outro país sobre o qual queria falar era Israel, mas o texto já vai longo e não me apetece falar agora de hasidims e comida kosher. Seria demasiado para o caro leitor, tenho a certeza.
terça-feira, agosto 25, 2026
Gigolo e franciscano
O antropólogo Mircea Eliade dizia que a alimentação e a sexualidade não são apenas actos fisiológicos como também podem tornar-se actos sagrados, "sacramentos".
Ainda não aprendi a conviver com a minha capacidade sexual. Isto não é um galanteio egoíco, ou um auto-elogio exarcebado, iludido. Na verdade, é uma afirmação de um potente acto de auto-cura e nesse sentido é sagrado.
Mudando um pouco de registo (e de que maneira), ontem tive de levar com um jovem guia que pensava que sabia tudo. Os americanos têm uma boa lista de sinónimos para este tipo de seres:
Know-it-all
Smart Alecks
Smarty-pants
Prig
Fiz um esforço para me manter discreto e em segundo plano para o jovem brilhar e fazer o seu trabalho. Era competente, agia em modo automático, faltava-lhe densidade emocional. Eu sei, é um jovem. Não me olhava nos olhos. Talvez eu também já fui assim. Dei por mim a rebolar os olhos várias vezes sempre que ele fazia uma piada fácil com algo, forçando a seguir uma risadinha ao microfone. Algo patético. Mas, no momento seguinte, via-me a auto-recriminar e accionava logo as minhas reservas de compaixão.
Terminei o dia exausto.
Há algo em mim de gigolo de luxo e de pobre franciscano. Não se riam. São dois lados de personalidade que tendem a coexistir. Gostaria de ter a lucidez para explicar melhor estas duas personas mas para já tenho de ficar por aqui.
domingo, agosto 23, 2026
Veneza
V
E N E
Z
A
Labiríntica. Misteriosa. Decadente. Imponente. Sedutora.
São Marcos. Palácio Ducal. Rialto. Ponte dos Suspiros. Tintoretto. Madonna dell’Orto. Ca’ Dario. Palazzo Grassi. Thomas Mann. Santa Maria della Salute. Ticiano. Gran Canal. Vidro de Murano. Lido. Máscaras.
Etc.
Talvez a única cidade italiana que pode rivalizar com Roma. Ou Florença.
Os melhores pickpockets do mundo e hordas de turistas insaciáveis por fotos.
Veneza pode ser uma experiência magnífica ou esmagadora. Para além das cúpulas e mosaicos de São Marcos e do túmulo do Tintoretto (por motivos diferentes), levo no coração um encontro que tive com um velho casal belga. Isto é, ela era belga, dava para ver que já foi muito bonita; ele era português do bairro da Graça que já estava radicado na Flandres há quase cinquenta anos. Octogenário, usava andarilho e tinha um olhar cansado mas meigo. Perguntei-lhe se precisava de ajuda mesmo em frente à Ponte dos Suspiros. Tinham vivido em Milão durante sete anos e estavam em Veneza por causa da Bienal.
A vaga inclemente de calor húmido que pairou sobre Itália castigava tudo e todos. Nunca suei tanto na minha vida. Deixei o meu suor sobre a água dos canais. Veneza também ficou com uma recordação minha.
sexta-feira, agosto 14, 2026
A loba
Hoje, tive uma loba ferida como colega de trabalho. Um dia bastante longo. Era doloroso sentir a sua dor. Era notório que a loba queria superar-se custasse o que custasse. Fingia que a dor não estava lá. Nada de novo. O rosto é sorridente, mas a máscara é por demais evidente. Perdeu muito peso nos últimos meses, pratica Krav Maga há muitos anos, adoptava uma postura "Alfa", de conquista, de 'perfuração", de mártir arrebatadora. Mas a dor está lá, muito instalada, senti-me meio abalroado. É uma dor de ausência de pais, de carinho, de ternura. Muita raiva. Quase que poderia apalpar a fúria. Encontrou no Krav Maga um escape, mas isso não chega. Como é evidente.
Numa luta corpo a corpo, talvez ela assumisse uma vantagem inicial. Ela domina a técnica de combate. Bom, talvez fosse um bom catalisador para estimular e queimar a minha própria raiva. Uma loba ferida contra um urso que se força a sair todos os dias de uma hibernação muito peculiar.
Amor. Tudo de se resume a isto.
domingo, agosto 09, 2026
Sol e Lua
domingo, julho 26, 2026
Karma
1. Há algo de kármico e justo quando um branco como eu transporta uma família da Costa do Marfim. Antes de me chamarem de segregacionista, deem-me a oportunidade de explicar. São católicos e querem ir a Fátima. A mãe usa um daqueles longos e coloridos vestidos africanos. É muito vistosa e tem sempre um sorriso tímido na cara. O pai tem um ar sereno e conhecedor. Os filhos vivem em Paris, são mais libertos, mais "cosmo". Há cinco séculos, os colonizadores portugueses fizeram "trinta por uma linha" (eufemismo do ano) na costa da Guiné, colonizando e separando vidas, implementando monogamia e monoteísmo, tudo "mono". O europeu branco sobrepôs ao africano formas de viver e de estar. Estes parecem não guardar rancor. Ficaram maravilhados com a Cova da Eiria. Fátima vem do árabe Fāṭimah ligado ao verbo fātama (desmamar ou separar). O nome também homenageia Fátima, filha do profeta Maomé e de Khadija, uma das mulheres mais veneradas na cultura muçulmana. Os Fatimidas passaram por aqui. Acho incrível como a maioria parte dos portugueses desconhece isto.
2. Hoje tenho um casal muito branco do Minnesota. Celebram o 25° aniversário de casamento. Muito civilizados, muito cordiais. Adoram Portugal e o velho continente em geral. Também a sua presença pode ser kármica para mim (tudo é na realidade). São-me uma distracção proveitosa, são apenas clientes. Ele é gestor na multinacional General Mills. Apesar da simpatia, não têm muito mais para me oferecer. Servem-me para me distrair da neurastenia do dia que hoje tem a ver com Deus (grande surpresa, esta é das antigas). O pragmatismo dos americanos ajuda-me a descer à Terra, devolve-me o lado funcional do meu cérebro. No final ofereceram-me um Tawny orgânico que aceitei de bom grado.
quinta-feira, julho 23, 2026
Surfista Prateado
Existe um personagem/herói do mundo Marvel com o qual me identifico bastante - o Surfista Prateado. Jack Kerby estava bastante inspirado quando o criou.
Para aqueles que não sabem, o Surfista servia Galactus, o Devorador de Mundos. Muito resumidamente, o Surfista compadeceu-se dos habitantes da Terra e não entregou o nosso planeta ao seu mestre que precisava da energia de planetas inteiros para sobreviver. Como consequência, ficou aprisionado neste nosso planeta azul.
O Surfista possui poderes incríveis, pode viajar pelo espaço sideral, pelo hiperespaço e através de barreiras dimensionais. Pode voar em velocidades praticamente ilimitadas na sua prancha e incorporar o hiperespaço quando excede a velocidade da luz. Já provou ser capaz de viajar no tempo em algumas ocasiões. Não precisa de comer, beber, respirar nem dormir, sendo sustentado inteiramente pelo poder cósmico. É imune aos extremos da temperatura e à maioria das radiações.
Apesar destes poderes todos, é claramente um personagem atormentado, solitário. Não pertence a nenhum dos mundos por onde passou. Questiona a moralidade das suas acções, é dado a questões existenciais. Ele ajuda e destrói. Ele salva e rejeita.
Esta itenerância constante, esta mobilidade quase forçada, esta não-permanência que caracteriza o meu trabalho é o que me salva e o que me desgasta ao mesmo tempo. Pergunto-me muitas vezes porque sou assim, porque actuo desta forma. Não sirvo nenhum "devorador de mundos" (que eu saiba!), mas parece haver uma "força maior" que me impele a executar este cargo. Juro que não quero romantizar nada aqui.
O que vou dizer/escrever a seguir não é novidade para alguns vocês e poderão até identificar-se com este sentimento. Numa boa parte destas "missões", sinto-me tremendamente sozinho no meio de tantas pessoas. Como se estivesse a navegar entre mundos, tal como o Surfista. Sou confrontado por diferentes percepções e cognições que reconheço, mas parece que não me é permitido permanecer nesse estado de "identificação" durante muito tempo. A natureza deste trabalho descarta as pessoas (clientes) no fim do dia. No dia seguinte, surgem mais caras novas e assim sucessivamente. Não, não é um métier normal.
Para ser completamente honesto comigo mesmo, questiono-me amiúde porque
faço aquilo que faço. Parece haver aqui uma nobreza de desígnio superior, mas sinto
frequentemente aquilo que se chama um síndrome de impostor. Não porque finjo a minha empatia e/ou simpatia, mas porque a mecânica rotineira do cargo, a repetição árida obriga-me a uma certa postura que às vezes me parece artificial.
Talvez seja isto parte da experiência humana. Nós assim escolhemos antes de nascer. A Terra é de facto uma grande vivência cósmica.
sábado, julho 18, 2026
Guia
Imaginem um guia turístico.
Agora imaginem um guia que, em vez de mostrar e descrever monumentos e factos históricos sobre um determinado local, falaria sobre como percorrer com sabedoria os meandros da mente de cada um. Um guia que, em vez de falar sobre o Românico ou o Gótico, ensinaria a invocar o deus ou a deusa de cada de nós para sermos melhores pessoas. Um guia que em vez de debitar datas e dados históricos sobre esta e aquela igreja, desvelaria os caminhos do coração de cada visitante.
Não, não seria psicólogo nem sequer sacerdote ou mago. Seria um Guia. Um ser versado em autoconhecimento e autorealização, um ser em que os demais confiavam porque possuiria uma vasta experiência pessoal e profissional, o caminho que teve de percorrer falaria por si. Ele sabe o que é ficar imobilizado na "Praça do Medo" com dezenas de pessoas ao seu redor, ele saberia percorrer de olhos fechados a obscura "Rua dos Traumas" que termina na "Avenida da Realização".
"Pode dizer-me onde fica o "Beco das 1000 Angústias, é por aqui?"
"Hmmm tem a certeza que quer entrar aí sozinho? "
"A Rua das Paixões fica ao lado da Travessa das Carícias?"
"Com certeza, conheço muito bem, mas antes proponho o seguinte: esqueçam esses livrinhos e folhetos, e façamos aqui um pequeno círculo e olhem-se nos olhos uns dos outros. Sintam as mãos das pessoas que estão ao vosso lado".
Imaginem um guia altamente habilitado que poderia falar sobre Persefone e Hades, sobre Eurídice e Orfeu, sobre Osíris e Ísis, mas que preferia falar sobre o teu Herói, a tua Heroína, sobre o que és, o que trazes, o que tens para mostrar nesta grande e incrível Excursão da Vida.
quarta-feira, julho 15, 2026
Ciúme
Shakespeare dizia em Otelo que o ciúme é um "monstro de olhos verdes que zomba do alimento de que se nutre".
Eu tenho olhos verdes, mas ainda não me considero um monstro. Isto é, posso ter pensamentos bestiais, primitivos, de posse, de controlo, mas isso não faz de mim um monstro per se. Ainda não cheguei ao patamar de Otelo e dos seus sentimentos de ciúme doentio para com Desdémona. Ciúme doentio. Não há outra forma de ciúme, pois não? Não existe tal coisa como "ciúme saudável". É um sentimento que quase todos nós já fomos acometidos. E não é muito agradável. Se formos pessoas mais ou menos conscientes e não um "monstro" como o ciúme em si, arrependemo-nos pouco depois. É um sentimento denso, de desgaste emocional que pode se prolongar. Não é como a ira, a raiva que explode e depois passa. Mas se formos do tipo obsessivo, a coisa pode escalar e pode ficar descontrolada. Até pode não haver consumação, mas sofremos só com a ideia. O ciúme é sentimento muito curioso. Não pode ser uma consequência, um apêndice do Amor. A fórmula do verdadeiro Amor não inclui o componente "ciúme".
Convidaram-me há dias para desenhar um totem. O totem basicamente é um brasão de família para os ditos "povos primitivos", é um símbolo físico de memória e de protecção de um clã, de uma linhagem. Pode integrar animais na sua composição que podem representar os antepassados. É um símbolo de força. Agora que penso, poderia ter criado um monstro de olhos verdes, não para recordar ou venerar mas antes para sublimar e exorcizar sentimentos de ciúme no totem. Teria sido uma boa ideia.
quarta-feira, julho 08, 2026
Odradeks
Tenho a ligeira impressão que a minha casa é também a casa de "odradeks". O primeiro odradek foi avistado pela primeira vez por Franz Kafka. Segundo este grande explorador checo, a estranha criatura assemelha-se a um carretel de linhas e fios velhos e partidos e tem a forma de estrela. Não tem grande utilidade e aparece pelos cantos da casa.
À noite, tenho a ligeira impressão que vejo odradeks pelo canto do olho enquanto estou a ler ou a ver televisão. No início, quando isto começou a ocorrer, assustavam-me um pouco, confesso. Agora invoco e rezo à minha divindade e aos meus mestres e eles vão-se embora. Faço-o já de uma forma automática.
Parece que não, não sou o único, como diz a música. Ontem, durante o meu trabalho, acompanhei um grupo de padres muito bem-dispostos e galhofeiros e quando estávamos na belíssima igreja de Santa Clara, um deles desenhou uma cruz com o dedo sobre a trave do banco de madeira à sua frente. Estava convencido que os odradeks não gostavam de viver entre talhas douradas e marmoreados.
Posso estar enganado, mas estes homens que servem Deus devem ver muitos odradeks.
quarta-feira, julho 01, 2026
Ritual
Tal como um xamã ou um feiticeiro que quer dominar os elementos, que deseja acalentar a angústia dos outros membros da tribo face à tempestade, à seca, à falta de alimentos, etc. realizando uma encenação, uma ritualização repetida até à exaustão - entrando em transe, lá está - também eu quero mitigar alguma ansiedade neste tempo acelerado em que vivemos.
Em vez de dançar (também o faço), em vez de pintar ou gravar bisontes ou espirais na rocha, redijo sinais, faço combinações de símbolos entendíveis por quase todos - a letra, a palavra - para auxiliar-me a estruturar o que me vai na mente. Entro num trânsito de consciência, num transe, em que o tempo é diferente e o sentido é mais consciente. Por vezes, surte efeito, apazigua-me mais do que a própria prece.
Não será escrever também um ritual, um momento único onde a emoção e o intelecto se unem? A resposta é mais do que evidente.
Naturalmente, quando o xamã da palavra obtém reconhecimento pelos pares, corre sempre o risco de usar um pouco de vaidade e depois torna-se insípido, obsoleto, tentando recuperar a magia inicial a todo custo. Rimbaud, Salinger, etc. foram grandes xamãs e pararam, nunca mais escreveram depois do gênio inicial. Tiveram lucidez. Lucidez vem de luz.
Felizmente, não corro esse risco, não passo de um aprendiz de feiticeiro e nem sequer tenho uma tribo que possa curar. Mas quero aprender, quero curar, sou um curador, sem falsa modéstia aqui. Quero a revelação para mim e para todos.
A minha Altamira, o meu Foz Côa está em todo o lado, desde que haja condições para escrever ou dançar.
Fim de tarde
Os dias foram-se sucedendo. Uma semana, duas semanas, dois meses, três meses. Quase um ano. Ele faz uma retrospectiva do que tiveram, do que têm. Fica sentado no carro a olhar para o pára-brisas. Passados três, quatro minutos dá-se conta que tem o motor do carro ligado. Desliga a ignição e abre a porta. Um calor de morrer. Fica a olhar para as varandas com os guardas-sóis no prédio à frente. Apetecia-lhe fumar. Não tabaco, mas uma ervinha da boa. Atravessa a rua movimentada e senta-se nas escadas viradas para o rio. Os gansos e as gaivotas coexistem lá em baixo no areal. Os iates brancos atracados dão um ar de classe aquele afluente um pouco poluído. Põe-se a ler um livro sobre a Atlântida, arrasta a leitura há um mês. Em certas igrejas e monumentos públicos, vê-se estátuas de Atlantes musculados a suportar o peso do mundo e do Céu. A civilização perdida da Atlântida. Ele acredita que viveu várias vidas nessa civilização e que todo o seu interesse actual por História, pelo Esoterismo, pelo Exoterismo, pelo mundo espiritual vem dessa vida. Também acredita que às vezes traz o peso do mundo às suas costas e não sabe muito bem porquê. É prodigioso em criar e recriar cenários. Pensa no Amor e no Desamor.
"Porque é que és assim?", a cassete repete-se na sua cabeça.
Duas gaivotas lutam com os bicos na margem. Os gansos observam-nas e alguns começam a grasnar. Fecha o livro. Nesse momento, apetecia-lhe dançar com ela, nada mais. O sorriso dela era um filtro transparente, indelével sobre o cenário fluvial. Apetecia abraçá-la. Uma vontade enorme de esmagá-la docemente nos seus braços, no seu peito até à fusão final. Volta para o carro. É claro que ela não atende a chamada. Torna-se um pouco recorrente já. Sente uma pequena angústia dentro de si. O espelho retrovisor devolve o seu olhar verde. Passou os dedos pelo cabelo, que calor. Tem a t-shirt colada ao corpo. Usa o spray desinfectante para as mãos para se refrescar um pouco na pescoço e nos sovacos. Volta a pensar nela e faz conjunturas. Ele sabe. Ou melhor, ele pensa que sabe. Mas, lá no fundo, não sabe nada. Apenas sente e a lição desta vida é aprender a sentir. Um ex-atlante deve sentir, só o Conhecimento não serve de nada, há que sentir sobretudo.
"Está tudo bem, é o que tiver que ser", pensa.
quinta-feira, junho 25, 2026
Um caso
A heroína desta pequena história era devota de Santo António de Pádua. Eu sei, só em Portugal é que o Fernando de Bulhões (seu nome de baptismo) é conhecido como Santo António de Lisboa; como todos os portugueses sabem, o santo nasceu efectivamente em Lisboa.
É-me tentador falar sobre Santo António, não vou esconder. Vou fazer um esforço descomunal para não o fazer. Não desta vez. Amanhã vou em missão laboral para Coimbra e vou levar seres humanos do Novo Mundo (norte-americanos) ao belíssimo Mosteiro de Santa Cruz onde, como qualquer coimbrão sabe, Fernando de Bulhões (ainda não era santo nesta altura) fez os seus estudos e se tornou missionário, partindo depois para outras paragens. Tornou-se um asceta, um pregador, um místico, quase todos os católicos têm um carinho especial por Santo António.
Bom, mas esta história não é sobre o santo, é sobre uma mulher de seu nome Yvone que, desde que se tornou mulher, nutria uma fé inabalável por Santo António. Foi noiva de Santo António, o seu casamento foi o dia mais feliz da sua vida. Yvone era uma mulher normal, de uma beleza discreta, tinha um olhar doce, uma tez luminosa, suave. Era viciada em M&Ms e adorava vestir calças brancas. Era recepcionista num centro de inspecção automóvel e pode dizer-se que era uma boa colega. Naturalmente, alguns inspectores gostavam de flirtar com ela de vez em quando, um gracejo aqui, outro ali, o costume. Ela não levava a mal e respondia à letra. Como não poderia deixar de ser, Yvone tinha a sua estatuazinha do Santo António a protegê-la atrás de si numa prateleira da recepção. No início, o gestor do centro torceu o nariz, mas Yvone tinha um encanto natural que era quase irresistível. Além disso, era uma excelente profissional.
O que vou contar-vos repete-se todos os dias e repetiu-se seguramente milhões de vezes desde que o homem é homem e a mulher é mulher. Olhem, desde Adão e Eva, se quiserem. A nossa Yvone, casada, com dois filhos, um com quatro, outro com nove, apaixonou-se perdidamente por um dos inspectores. "Perdidamente" deve ser o advérbio mais usado quando utilizamos o verbo "apaixonar", mas foi exactamente isso que aconteceu. Pedia todos os dias ao santo casamenteiro para fazer o contrário do seu dom, ou seja, ela pedia ao santo para se desapaixonar, para tirar aquela paixão assolapada de si, da sua boca, dos seus olhos, dos seus ombros, das suas pernas, do seu peito. Enfim, já perceberam a ideia (convém sempre a "paixão" ser acompanhada pelo adjectivo "assolapada", senão não é "Paixão"). Não vou dizer o nome dele, porque não sei bem. Creio que é Paulo ou Pedro, não tenho bem a certeza, é um nome bastante comum. Era o mais recente inspector do centro e era um tipo moreno, bem ajeitado de cara, musculado e tatuado com bom gosto. Tinha pin-ups americanas no braço esquerdo e, no braço direito, uma tatuagem muito bem feita de Santo António com o menino. Bom. Era um tipo reservado, muito profissional, era o único que não se metia com Yvone. Trocavam papéis de trabalho, as fichas, falavam o que tinha de falar, "bom dia", "boa tarde" e pouco mais. Para além da tatuagem com o santo da predilecção dos dois, o outro motivo que levou Yvone a apaixonar-se por Paulo (ou Pedro, não sei bem) era o facto de ele ser calado, de uma timidez desconcertante que não combinava com o facto de ser um homem musculado e tatuado.
Como isto é uma pequena história, uma short story como se diz agora, vou já revelar o que alguns de vocês já adivinharam. Yvone ou Paulo (ou Pedro) começaram a consumar a sua paixão várias vezes por semana, no WC do centro antes de fecharem, no jardim ao lado, no carro dele ou dela (que tinham a inspecção em dia como é obrigatório), num dos motéis da zona, etc. Houve até uma vez - quando todos tinham ido embora, como é óbvio - que o fizeram na sala de recepção com o olhar impassível de Santo António. Bom, o "olhar" também pode ser "impassível". Mas nem sempre.
segunda-feira, junho 22, 2026
Diário de Bordo XXXL
Planeta Terra (conhecido também como "Urantia," "Gaia"), Sistema Solar.
Calendário Holoceno: ano 12026
Calendário Rúnico: Ano 2226
Calendário Gregoriano: Dia 22/06/26, Ano 2026
Nós, os que Procuramos, sentimos que se aproxima o fim do Velho Ciclo. Término gradual dos velhos padrões de pensamento, da obsoleta e ilusória mundividência. Tentativas regulares para uma abertura plena para o Amor, para a Compaixão. Alguns atritos, conflitos, fissuras bélicas que atrasam o que é inevitável. Uma grelha invisível manipuladora que paira há milénios sobre este planeta e que o tornou numa enormíssima caverna de Platão - excepto para alguns que tiveram a coragem, o discernimento, a inspiração "divina", se quiserem, para ver mais além - os Pioneiros.
"Disclosure", revelação. A exposição alienígena está agendada para breve. Primeiros contactos com Pleidianos, nossos parentes afastados. Seres de Luz que nos auxiliam há muito tempo. Há muito mais raças estelares.
O nosso prevalecente pensamento terráqueo que ainda rejeita a vida extra-terrestre. Os que acreditam são alienados (!), loucos, "nerds", viram demasiados filmes sci-fi. Racionalidade distorcida. Até aqui a manipulação reptiliana foi hábil, porque levou-nos a pensar que era ficção. Uma boa parte do enredo dos livros de fantasia e sci-fi aconteceram de facto noutros planos dimensionais. As guerras estelares foram e são uma realidade.
Medidas graduais e regulares para a Dissolução do Medo. Alguma cautela.
Eu sou Luz. Todos somos. Ainda há muita névoa, muitos resíduos e engodos sobre a nossa cognição que nos toldam, que não nos permitem ver O Que É. Joshua/Javé/Jesus tentou ajudar-nos. Outros de consciência e frequência elevadas também tentaram.
Não sei se estou preparado. O medo dentro de mim ainda é forte, ainda resiste. Receio dos juízos pelos outros. Falta de segurança. A minha mente emite amiúde pulsões de ilusão que por vezes causa confusão, alguma angústia. No entanto, são intercalados com fragmentos de luz, de amor. Necessidade absoluta de enraizamento e de dinâmicas físicas e sociais.
Aguardo activamente e com esperança.
Fim de transmissão.
Capitão-agente: P. A.
Base: OPO, PT
sexta-feira, junho 19, 2026
Heróis

Há dois heróis da literatura que me fascinam e me causam empatia - às vezes parecem-me mais reais do que os próprios autores.
O Quixote e o Conde de Monte Cristo.
A palavra "empatia" que é usada e abusada actualmente vem do grego "pathos" que significa "sofrer", "suportar". Um impulso emotivo em que nos identificarmos com alguém que sofre por algum motivo. Estou a pensar também em "compaixão" mas, neste caso, o sujeito (nós) não tem necessariamente de ter sofrido para entender o sentimento de "sofrência" (alô Brasil!) do outro. Também pode ser algo muito católico se quiserem. Tens de sofrer para compreender o próximo e para compreender a paixão de Cristo.
Seja como for. Adoro as alucinações do Quixote, um ser lunar (não lunático) que procurava a glória de um passado na imensa e monótona planície da Mancha. O seu criado Sancho era um chato de primeira, mas era um chato prático e necessário. Sou muito quixotesco na maior parte do tempo e talvez haja algum orgulho aqui quando digo isto.
Monte Cristo. A vendetta, a raiva vingativa. O Conde que foi vítima de uma tremenda injustiça e procura vingança. Também é um símbolo de perseverança, de espera, de combate oculto. Não desejo vingar-me de ninguém neste momento. Tinha questões com o meu pai (não tão espectaculares como no livro) que creio que entraram na fase da aceitação (embora ache que nunca irão ficar totalmente sanadas).
Como disse o Charlie Sheen em "Platoon" sobre os seus 2 sargentos: sinto que sou um filho desses 2 pais:
El Quijote & o Conde de Monte Cristo.
segunda-feira, junho 15, 2026
O sonho
Não sei o que é fazer uma meditação; mudo de trilho mental com muita facilidade. "Oh meu querido, eu também, não és caso único", já ouço daqui. Eu sei, mas permitam-me falar de mim por breves momentos.
Tenho uma facilidade pouco invejável e pouco comum de afastar-me do tema que quero tratar. Salto por aqui e por ali por caminhos imprevisíveis.
Por exemplo.
Era meu desejo escrever sobre como a AI poderá também vir a ser uma ajuda para criar e elaborar os nossos sonhos. Já pensaram nisso? O meu script de prompts seria algo do género:
"Co-pilot/Claude/ChatGPT/não importa AI., faz-me um roteiro de um sonho em que sou um náufrago durante 1 dia com o meu criado, "Quinta-feira" (porque encontrei-o numa 5a. feira). Dois dias depois, quando chegamos ao ponto de não retorno de rever a nossa bússola sexual, faz aparecer - milagrosamente - uma jangada de Barbarellas voluptuosas, carregadas de melancias, presuntos, queijos e vinhos. D.O.C.. Quero que este mesmo sonho dure um mês seguido.
Oh obrigado ChatGPT."
Mas não. A minha mente saltitante disse-me para falar-vos de outra coisa hiper-aborrecida, sobre pombas, vejam lá. Felizmente, sei ainda distinguir um texto genial de um texto não-tão-genial. Poupei-vos a algo muito chat.
terça-feira, junho 09, 2026
Banco
sexta-feira, junho 05, 2026
Alentejando
Grândola, Melides, Ferreira do Alentejo, Beja.
Planícies, oliveiras, sobreiros, pinheiros-mansos. Mais planícies. Toda esta imensa paisagem cinematográfica que não cabe no nosso campo visual. Nunca estamos preparados para o Alentejo. Somos sugados pelo céu azul e por longas rectas de abóbadas verdes. Uma náusea de beleza telúrica que em vez de me enraizar, torna-me um pouco mais dissociado. Povoações paradas na tempo, bastantes casas abandonadas. Canal Caveira. "Paris-Texas" à alentejana. Rostos queimados pelo sol, brutos e vermelhos. Traços celtas e mouros, tudo misturado. Beja foi uma boa surpresa, pena o museu Rainha D. Leonor estar fechado para remodelação. A Sé tem azulejos da "fase dos mestres" muito bonitos.
Amanhã, Comporta. Um outro Alentejo.
segunda-feira, junho 01, 2026
Apagão
Sento-me numa esplanada de café à espera. Do outro lado da vidraça, no Burguer King ao lado, vejo pilhas de medicamentos sobre a mesa. Um chama-me a atenção pelo nome, "Sedoxil". Não deve ser para os diabetes seguramente. Na mesa estão mãe e filho, negros. Fez-me alguma confusão. Na minha cabeça, as pessoas de cor não precisam de ansiolíticos. Meu Deus, que observação tão preconceituosa, tão estereotipada. Por falar nisso, hoje tive um ataque cerrado de neurastenia no meio do Douro. Porquê? Não sei. Grupo porreiro, interagiam. Um casal finlandês muito simpático de uma pequena cidade costeira, "Oulo". Assumi que faziam sauna. Verdade. Mais um clichê. Quatro franceses, 1 casal da Sabóia e outro de Bordéus. Muito agradáveis também. A senhora francesa era um amor, sentou-se ao meu lado.
"Vous savez, votre Français est très bon. Vous connaissez la France?"
O casal inglês, os mais velhos do grupo. Ele era um ex-pastor anglicano da zona de Bristol, a mulher praticamente não falava. Muito observadora, fleumática, olhar prescutador. Parece que estava à espera de um deslize, de um mau comportamento. A avozinha do grupo. O ex-pastor tinha a voz fina, caricatural, um personagem saído de uma série.
É claro que fiquei a zeros no fim.
"Merci, thanks, thanks em suomi, thanks em português".
Li algures na net que vai haver em breve novo apagão mundial de 3 dias e 2 noites. Temos de ir forçadamente para "dentro", parece que o Covid não foi suficiente.
domingo, maio 31, 2026
Sobre Moby Dick e outras criaturas

sábado, maio 23, 2026
No cais
quarta-feira, maio 20, 2026
Crane, Remark, Tolstoi
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| Erich M Remarque |
Amanhã vou para Aveiro, destacaram-me com toda a força. Ovos moles, moliceiros, flor de sal, art nouveau. É isto Aveiro.
Lembrei-me agora de um velho tema do Estado Novo cujo título é "Angola É Nossa", lembro-me dos meus pais me terem falado quando era miúdo. Anos 60. É um ritmo marcial, um pouco maníaco e assustador. O meu pai esteve em Angola. Creio que não me contou três quartos das coisas que viu e sofreu. Tudo muito recalcado, e o resultado ficou à vista anos depois. A dada altura creio que os meus avós paternos acharam que ele tinha morrido ou desaparecido. Voltou quase em glória três anos depois. O vulcão chamado J B Amaral entrou em erupção anos depois, fumava como se não houvesse amanhã, às vezes bebia como se não houvesse amanhã também. Triste geração. Os que sobreviveram vieram todos fodidos de África, desculpem-me a expressão. Se não me desculparem, paciência.
Lembrei-me também agora de dois grandes livros sobre guerra que li há quase vinte anos e causaram-me forte impressão na minha cabeça jovem e impoluta: "Red Badge of Courage" do Stephen Crane que fala sobre a a terrível Guerra Civil Americana e o "A Oeste Nada de Novo" (Im Westen nichts Neues em alemão) do Erich Maria Remarque que me prendeu do princípio ao fim, falava sobre a 1º G.M. A temática anti-guerra de Remarque levou o livro a ser considerado "antipatriótico" pelo ministro da propaganda nazi, o Goebbels. Nunca consegui ler de fio a pavio "O Guerra e a Paz" do Tolstoi, achava que ainda não tinha maturidade (ou até paciência) suficiente para o ler. Dizem que é genial e eu acredito, nem seria de esperar outra coisa. Tolstoi em russo significa "espesso" ou "gordo".
sábado, maio 16, 2026
O malaio
Hoje conheci um malaio que possuía aquilo que antigamente de chamava de "verve".
Usava um chapéu panamá, camisa de linho e parecia mais jovem quando falava um inglês muito BBC.
Muito eloquente, tinha um jeito elegante, cavalheiresco, encadeava assuntos com a maior das facilidades, era um humanista agnóstico, interessava-se por tudo. Parecia saído de um romance do Lawrence Durrell.
Ele e um dinamarquês muito dinamarquês sentaram-se ao meu lado durante o almoço numa quinta perdida no Douro, o homem ia celebrar o 70º aniversário para a semana, a conversa e o vinho fluíam muito bem.
Aprendi com ele (e com a filha que também era muito rápida) que as línguas portuguesa e malaia possuem palavras muito semelhantes. Malaca, ou “Melaka” em malaio, foi uma base importante para a expansão portuguesa nas Índias Orientais no século XVI, o temível Afonso de Albuquerque tomou conta daquele importante entreposto comercial. Chineses, ingleses, holandeses, todos queriam apoderar-se daquela cidade de localização privilegiada - o estreito de Malaca (em malaio Selat Melaka) era e é a principal passagem marítima entre os oceanos Índico e Pacífico. O Trump esteve a ler História de Portugal, é por demais evidente.
Bom, mas eis algumas das palavras:
Meja (mesa), kerusi (cadeira), lemari / almari (armário), sabun (sabão), tuala (toalha), keju (queijo), garfu (garfo), Gereja (igreja), sekolah (escola), bendera (bandeira), etc.
Mas apanhei-o na curva, como se costuma dizer, quando comecei a falar de música com o dinamarquês que se mostrou-se surpreendido quando lhe disse que conhecia os D:A:D (sigla para Disneyland After Dark), uma respeitadíssima instituição rock na Dinamarca. É claro que o septuagenário malaio quis brilhar e quis dizer o nome de uma outra banda dinamarquesa cujo nome era "longo e impronunciável", o homem queria lembrar-se do nome mas não conseguia. Ficou claro que a tal banda não existia. Eu e o dinamarquês entreolhamo-nos e lemos os balões de pensamento um do outro:
"Finalmente apanhamos o velho".
Estava a ver que não, o Afonso de Albuquerque se fosse vivo teria tido orgulho de mim.
quinta-feira, maio 14, 2026
Trabalho
Parece que estive todo o dia em jet lag e, no entanto, não saí deste Jardim Atlântico. Sete pessoas hoje para o vale do Douro que estava lindíssimo. 1 casal jovem, 1 casal idoso e uma família japonesa. Pu-los logo em sentido de manhã principalmente ao mais velho, antigo farmacêutico, era muito parecido com o capitão von Trapp. Faziam as perguntas do costume, sempre impressionados com o meu elevado nível de Inglês. Eu culpo sempre os Westerns que via em miúdo e o rock que ainda consumo. Os japoneses viviam em Nova Iorque. Brilhei um pouco com algumas palavras básicas. Alguma neura porque não corresponderam às minhas expectativas, revelaram-se todos bastante previsíveis. Vou agora para as aulas. Gosto dos meus colegas. São boas pessoas. Quem diria que iria voltar a sentar-me numa sala de aula.
Mas, sim, mudei um pouco desde o primeiro dia de escola há quarenta anos.
quarta-feira, maio 13, 2026
Mulheres
Acredito que tal como alguns países ao longo da História, há mulheres que não podem ser conquistadas. Podem ser ocupadas, por exemplo, mas não podem ser conquistadas. Por motivos religiosos, na maioria das vezes.
"Isto agora é meu." Aqui não resulta.
Vou chamar-lhes "Mulheres-Índia". Saris e olhos negros profundos. Quando são muito bonitas, elas não são deste mundo.
Por outro lado, há mulheres que podem ser tocadas, insinuar uma tentativa de conquista, haver trocas (humm), mas não podem ser conquistadas. A sua arte, a sua cosmovisão, o seu combate, são tão diferentes do homem que tal empresa se afigura como quase impossível. Diferentes motivos das primeiras, porém. Distanciamento permanente. Aparentam submissão. As "Mulheres-Japão".
Depois há as mulheres que se permitiram a tudo isso e mais além. Miscigenação completa. Uso da força no inicio, mas depois houve uma fusão, uma aglomeração, uma sedução. A "Mulher-Brasil". Uma certa rebeldia muito sedutora, tremendamente musical.
Finalmente, a "Mulher-África". Relação muito desigual, definida logo no começo da relação. Abuso. Passividade. Mas depois dá-se um processo inverso curioso de colonização do homem. O sexo é tão natural como comer e dançar.
terça-feira, maio 12, 2026
Tango para 2
Estou convencido de que para escrever um história de fôlego, um romance, por exemplo, temos que extenuar o leitor para o depois resgatar. É uma "fórmula" que é utilizada constantemente pelos ditos grandes escritores.
Poderia escrever, por exemplo, a história de dois amantes que vivem num dos muitos subúrbios de Buenos Aires em que ele, para sobreviver, tem que dançar tango todas as noites. Não seria apenas uma necessidade psicológica, seria também uma necessidade física, visceral. Fá-lo de forma inconsciente, precisa do contacto, precisa de várias parceiras para manter uma espécie de sanidade mental. De dia, hiberna, não tem trabalho. O tango salva-o todas as noites de si mesmo. É um ciclo que deseja manter até se redimir.
"E ela, a amante, quando vais falar dela?", poderão perguntar.
"Ela espera por ele? Porque é que ela não o acompanha nessas intermináveis milongas? Ela tem outros homens, outros parceiros?"
Teria de vos cansar ainda mais, falando, caracterizando-o ad nauseum para depois finalmente começar a falar dela, do que ela pensa e sente.
E vocês? Como é que acham que a história poderá se desenvolver a partir daqui?
domingo, maio 10, 2026
Arroz de marisco
Embrenhado no que ando ainda a investigar, arquitectura religiosa de Entre-Douro e Minho, sinto que tenho de diminuir a passada mental; a minha cabeça parece que tem batentes de metal por fora que são usados de forma compulsiva. Como sou um ser espiritual (todos somos na verdade), acredito que sejam os meus mentores ou obsessores que gostam de me bater com força ou delicadeza, dependendo do lado. Isto até poderia ser uma boa imagem ou metáfora se não fosse verdade.
Uma das coisas em que estou a ficar bom nos últimos tempos é reconhecer ou prever que determinado encontro/reunião/serviço/jantar vai correr mal. Foi o que aconteceu ontem. Fui convidado para um jantar de amigos (um evento suburbano e familiar, muito entediante) e respondi à altura do meu anfitrião que é o tipo mais passivo-agressivo que conheço. Respondi com agressividade, nada passiva, creio que já estava um pouco "tocado" e o ambiente ficou chato. Tudo por causa dos miúdos que se chatearam. Não tenho paciência para adultos que ainda não cresceram. Além disso, o tipo tem uma risada que parece uma ratazana a ser atropelada. Cerrei tanto os dentes que quase ia partindo os incisivos.
Dizem que somos espelhos uns dos outros, não é? Talvez o tipo, o dono da casa, cumpra aqui uma função: talvez seja um reflexo de um espelho emocional retorcido que tenho dentro de mim e que preciso de trabalhar. Ou isso, ou é apenas um tipo irritante.
O arroz de marisco estava bom, no entanto.
quinta-feira, maio 07, 2026
Carlos Alberto
Tudo regressou em força hoje. Quase tudo.
Uma mensagem forte e emotiva da minha irmã relacionada com o drama que a família vive há cerca de um ano. Um feudo familiar. Dinheiros, partilhas. Nada de novo. Sensação de tontura e vertigem na Costa Nova. Como se um fuso energético se abrisse no meio do cocuruto - uma palavra bonita para se utilizar nestas ocasiões.
Revisitar a infância. Uma das clientes é amiga da minha mãe, uma mulher que já foi linda e agora sofre de artrite reumatoide. Já não nos víamos há quase trinta anos. Ela fala inocentemente sobre episódios daquelas ruas onde tudo aconteceu, onde tudo nos aconteceu. A ela, aos filhos, aos homens daquela época, à vida difícil que passou. Antigamente chamava-se Monte dos Judeus e deve haver ali um geokarma, um vórtice dimensional naquele lugar onde as vidas eram difíceis, de conflito, de permanente tensão. Deu para abalar um pouco a minha fundação. O dinheiro não é tudo, às vezes. Despedimo-nos com dois beijos, com a promessa de nos voltarmos a ver.
Amanhã vou falar do príncipe Carlos Alberto na minha última apresentação de escola.
Quem foi Carlos Alberto, perguntam?
Foi um príncipe real da Sardenha que perdeu a Batalha de Novara em 1848 contra os austríacos e que se exilou no Porto, com o nome de Conde de Barge, não queria ser reconhecido pelo povo. Não adiantou muito. O seu aspecto abatido e infeliz comoveu os portuenses. Era uma celebridade na época, foi recebido com honrarias. Ficou no Palacete dos Visconde de Balsemão durante 1 semana. Até o Paço Episcopal e o barão de Forrester lhe ofereceram casa. Mudou-se para a Quinta das Macieiras, actuais jardins do Palácio Cristal. Morreu ao fim de quatro meses, muito debilitado.
A sua meia irmã Frederica Augusta de Montleart, uma mulher com um carácter desconcertante, mandou erigir a Capela em 1854. Demorou sete anos a ser construída com muitos avanços e recuos, à boa maneira portuguesa. Foi inaugurada em 25 de Dezembro de 1861. Sete anos (!) para construir um bonito cenotáfio (monumento ou túmulo funerário erguido em memória de uma pessoa cujos restos mortais estão noutro lado).
Para terem uma ideia, a ponte ferroviária Maria Pia demorou ano e meio a ser construída. A propósito de Maria Pia, a tal princesa Frederica doou a capela a D. Luís que viria a casar-se com D. Maria Pia de Sabóia, neta de Carlos Alberto.
quarta-feira, maio 06, 2026
Brilhante e conveniente
"Brilhante e conveniente".
Leio isto na sweater de dois homens ao balcão deste café. Falam de futebol, claro. É a designação comercial de uma empresa de construção. Tudo indica que também pode ser um sinal do universo para mim.
segunda-feira, maio 04, 2026
Barroco
O que é na verdade a estética, o belo?
O rocaille, o ultra barroco, o rococó é uma resposta lenta de Trento ao avanço racional e crítico do pensamento de Lutero. Não há vazio, não há lugar para o simples, para o essencial. É um vômito de cor, de curvas, de sensualidade (apelo aos sentidos, esmagamento quase). Foi assim que a igreja quis reconquistar as ovelhas tresmalhadas pelos protestantes. Na minha opinião, até poderia funcionar uma ou duas vezes, mas "o que é demais é moléstia" como diria a minha avó. Quando entro numa igreja barroca parece que desfaleço com o abarrotar lascivo de formas e cores. Parece que não há espaço para contemplar, para "ir para dentro" como poderia ocorrer num templo medievo românico, mais sóbrio, mais seco, menos sensual.
O barroco é pagão nesse sentido.
sábado, maio 02, 2026
Batman e Salazar
1. Ao colocar esta máscara todos os dias, veio-me à ideia que poderia ser um Batman local. Sofro da nobre e absurda intenção de querer ajudar todos os que pedem ajuda e ajudar os que não me pedem nada ("grande erro"); no final do dia, não sei muito bem como ajudar a mim próprio. O drama.
E é sempre assim, não é?
O Batman é um templário ao estilo comics que foi submetido - sem pedir nada a ninguém - a um ritual de iniciação terrível (morte dos pais) para bem da sua evolução. A partir deste episódio trágico, faz o caminho do guerreiro, desenvolve as suas capacidades supra-humanas para estar ao serviço. Encontrou-se, mas ainda tem de lutar contra os seus fantasmas de vez em quando, contra os seus Jokers e Green Goblins. Designações mais criativas e mais cool para querer dizer "neurastenias".
2. Arrasto pessoas para locais bonitos, porque me pagam para isso. É claro. Nos últimos tempos, é-me ainda mais evidente que apesar de sentir algum prazer naquilo faço (nem que seja pela exposição egóica em ser o centro de atenções que - pelos vistos - desejo inconscientemente), sinto que a balança está a cair cada vez mais para a necessidade em receber o chorudo soldo que me pagam em detrimento do dar a conhecer o país setentrional. Oops. Que falta de desígnio, P. Nenhum CEO ou chefe (os italianos chamam capo ao chefe, adoro) quer ouvir isto.
"Olhai os lírios do campo, olhai os belos terraços do Douro". «clique». Face. Insta. Like.
3. Sinto que devo fazer um agradecimento público ao ex-presidente do Conselho, Dr. António Oliveira Salazar. Devo muito da minha brilhante carreira profissional a este homem que está cada vez mais no coração dos portugueses.
Porquê?
Porque sinto que brilho mais quando falo sobre o Estado Novo e Abril aos turistas. Sem a existência de um homem chamado Oliveira Salazar, tal não seria possível. O Universo conspirou para que Salazar existisse para o meu bem, para a minha apoteose profissional. E brindou-nos recentemente com um novo (mais pequenino) Salazar. Os guias futuros vão agradecer também, espero.
"Oh my God, are talking serious right now? We have now our own Salazar, you know", é quase sempre a resposta dos americanos, coitados.
quinta-feira, abril 30, 2026
O Beco da Memória
Uma senhora pede um livro ao funcionário da biblioteca. Uns minutos vem outro funcionário, mais velho do que o primeiro, que repete o título de livro à mulher.
- Queria o livro o Beco da Memória?
- Não, diz a mulher. Quero o Eco da Memória.
- Ah, estava a ver. O Eco da Memória! Não é o Beco.
O primeiro funcionário olha impassível para o colega. Este olhou-o com um ar paternalista quando repetiu o nome corrigido do livro à mulher.
Se calhar, na cabeça do primeiro funcionário, faria mais o sentido se o título fosse o "beco da memória" em vez do "eco da memória". Seria talvez um título mais adequado para um livro. "O beco" soa mais real, mais urbano, talvez mais existencialista. O outro, o que a mulher pretendia requisitar, é talvez mais pretensioso, mais intelectual, logo, menos interessante.
A minha memória, por exemplo. Ela tem ecos que ecoam nos becos que a habitam. Como em quase todos nós, creio.
Mas também quem se lembra de pedir um livro chamado "O Eco da Memória"?
domingo, abril 26, 2026
A day in a life (of a tour guide)
Curiosa excursão ao Douro a de ontem. Os 8 turistas poderiam ser personagens-tipo de uma peça de um moderno Gil Vicente. Fiquei extenuado no fim.
Vamos começar pelos velhos aliados. Um casal sexagenário de Liverpool. A senhora era a mais alegre e a mais tontinha do grupo, era irritante mas de uma forma perfeita, sem nada a apontar no seu sotaque musical de Mersey. Eu acenava-lhe com a cabeça mas às vezes não percebia o que estava a tentar dizer e respondia-lhe "it is, isn't it?". Funcionava. Tinha sempre uma história aborrecida qualquer para contar. O marido também ficava algo constrangido; ele era o mais estudioso do grupo, tinha sido inspector de segurança em edifícios. Era muito conhecedor de vinhos e estabeleceu um paralelismo da toponímia Gal (Portus + Cale/Gal) com outros pontos célticos do norte da europa. Aqui o guia já tinha lido isto (claro) mas foi bom escutar pela boca de um turista. Normalmente só falam do quanto amam as natas e os azulejos.
O casal russo de Boston. Já estavam algo americanizados. Muito fechados e secos durante a apresentação. Ele mais do que ela. Ela poderia ter sido uma modelo, era esbelta, delgada. Parecia uma aleanígena no Douro profundo. A mais observadora do grupo. Começou a sorrir depois de uns tragos de Porto. À mesa, o homem revelou ser maratonista, tinha participado em várias provas, não comia carne e tinha um discurso muito funcional, parecia escolher as palavras todas antes de se pronunciar sobre algo. Era um russo americanizado muito bem parecido, de queixada forte mas com um olhar terno, paciente.
O casal jovem de Seattle. O moço era o mais jovial do grupo, o "ice-breaker". Tinha sempre uma expressão jocosa para tudo. Ocorreu-me que poderia ser a minha versão norte-americana mas ainda mais "goofy". Trabalhava na Amazon, claro. Um gajo porreiro mas que poderia se tornar chato passadas duas horas. Tinha a mesma voz do Seth Rogan. A namorada era a menos interessante do grupo. Não se destacava por nada em especial. Estava sempre a perder o seu creme hidratante que tinha uma planta qualquer de Madagáscar.
- Pausa para respirarem e irem ao WC -
Já está?
Let's go.
Também só me falta um casal, não vos vai custar nada. Mais outro casal jovem europeu. Viviam em Bona. Ele era alemão, muito alemão. Ficou muito rubro, muito falante ao fim de umas copadas. Os alemães quando bebem acham que são muito engraçados, mas o sentido de humor deles é um pouco básico. Mais ou menos como os espanhóis. A namorada era da Roménia, já vivia na Alemanha há algum tempo. Não era feia nem bonita. Tinha, no entanto, um corpo incrível e era muito simpática, sorria com o rosto todo. Quando lhe disse que estava a ler Mircea Eliade, quase que me abraçava e raptava.
No fim, gratificação choruda de 5 euros por parte do Ian, o senhor de Liverpool.
sexta-feira, abril 24, 2026
Revolução
Tenho para mim (não gostava de ter tanta coisa para mim, na verdade) que Portugal e os portugueses suportaram 42 anos de ditadura para poder fazer uma revolução grandiosa, bonita, com flores. Se tivessem vivido apenas cinco anos de totalitarismo, o efeito do 25 de abril não teria sido tão espectacular. Ainda por cima uma revolução orquestrada por tenentes e capitães! São os meus postos militares favoritos. Mais acima disto - coronel, brigadeiro, general etc - é estar de conluio com o poder instituído. Há honrosas excepções, claro.
Não consigo encontrar nada mais português do que isto. É como marcar o golo do título no minuto 90+7.
(Um apontamento futebolístico de fino recorte aqui)
"Vamos esperar mais um aninho. Depois é que vai ser. O Caetano não é igual ao Salazar. Mais um pouco. Vai acontecer."
De certa forma os poetas e os músicos também precisam de uma ditadura de vez em quando. Compor apenas canções e poemas de amor acaba por ser tornar aborrecido.
Bom. Cravos na lapela amanhã.
segunda-feira, abril 13, 2026
Fāṭimah
Gostava de ter o super-poder de ver as "coisas tais como elas são". O que leva alguém a ficar iluminado ou - vá - esclarecido? Um acidente, uma certa inocência, um vislumbre divino, uma doença muito grave? Parece que tem de ser incluído algum sofrimento na equação para ver a Luz. Talvez ainda isto não passe de elaboradas ilusões do Ego para abrandar o processo que se iniciou no nosso nascimento. Chamem-me louco (por favor) mas eu acho que escolhemos esta vida antes de aterrarmos neste enorme e belo berlinde azul.
Estou em Fátima em serviço (e ao serviço ao que parece), guio as pessoas para aqui, contando a versão oficial das aparições Marianas. Se eu acredito? Respondo com esta resposta: é mais vago, mais fácil, mais cómodo dizer que não se acredita. E usa-se de uma certa presunção quando fazemos isto.
O estudo dos eventos reais é muito mais substantivo (e prazeroso) se nos dermos ao trabalho de o fazer.
Fica para outra oportunidade, para outro texto incrível.
segunda-feira, abril 06, 2026
Cabras
Quando chega o Verão mesmo a sério, sinto-me com vontade de usar o meu boné de marinheiro, vestir uma camiseta às riscas e viajar num pequeno veleiro pelo Pacífico Sul. Levaria um velho gramofone para ouvir árias italianas enquanto manuseava as cordas e a vela. Bebia muito vermute e rum puro enquanto apreciava o magnífico coucher de soleil e sonhava de olhos abertos com velhas e futuras conquistas amorosas. Talvez me maquilhasse para os espadartes ou golfinhos que dão incríveis saltos só para impressionar. Não consigo encontrar um motivo pelo qual não deva ou possa fazê-lo.
Enquanto esta fantasia não acontece, tento gerir lembranças do ano passado que me vêm bater à porta da minha cabeça. Vou chamar a essas lembranças de "cabras" porque balem como cabras e parece que me mastigam a moleirinha. Não é esse sentido da palavra que o leitor(a) mais mundano estava a pensar. Estou a referir-me mesmo aos caprinos que são um chatos e devoram tudo por onde passam, toda a gente sabe disso. Estas lembranças e alguns pensamentos são assim, saltam à minha frente, dão pinotes e já não têm pudor ou vergonha. Não me pedem autorização, limitam-se a surgir, assim do nada. As cabras são velhacas como dizia a minha avó.
São Francisco não gostava de formigas (era o único bicho com o qual não simpatizava), já eu não sou santo e não gosto de cabras ou bodes. Cheiram mal. Não deixa de ser engraçado falar em santos, porque tenho à minha frente outro franciscano, uma pequena estatueta de outro santo, o Nando de Gusmões que mais tarde viria a ser conhecido como Santo António de Lisboa (ou de Pádua, mas ele só esteve em Itália em trabalho). Gosto muito dos dois porque acredito que também iriam gostar de viajar pelo Pacífico Sul comigo. Imaginem o que é ter os dois a conversarem um com o outro sobre os Evangelhos ou outra coisa qualquer, a porem Piz Buin na careca para se protegerem do sol, enquanto bebericava aquilo que diziam juntamente com o meu Martini. Que incrível seria.
Mas voltando às ditas cabras. São indelicadas e tem um olhar estranho, ausente. Às vezes parece que me dão coices dentro da cabeça com aqueles terríveis cascos e abanam-me todo durante alguns momentos. Fico um pouco mal, a sério. Quase, quase que dissocio. Eu sei que o meu mundo de associações é um pouco bizarro, mas alguns de nós tem essa capacidade, a de ser bizarro. Só está ao alcance de uns happy few. Não posso tentar prender as cabras com uma corda, seria pior a emenda do que o soneto. Vou deixá-las ruminar e balir pelo tempo que quiserem. Eventualmente vão acabar por ir à vidinha deles e eu vou voltar a sonhar com o Pacífico Sul e os santos.
sábado, abril 04, 2026
Touro e toureiro
Tenho um touro e um toureiro na minha cabeça.
Um touro miura que representa os meus instintos mais primitivos, a minha força impulsiva, se quiserem. A minha cabeça é uma arena onde esse touro irrompe e investe contra quase tudo que lhe faça frente. O impulso do Inconsciente vem à luz do Consciente. A sombra é exposta à luz da arena. Aparece então o meu matador com o seu brilhante traje de luces. Ele não o despreza, o matador respeita a força bruta do animal e tenta dançar com ele. Fora da arena, ele tenta viver de forma normativa, pela regra, pelo instituído. É mais um no meio de milhões. Mas aqui ele enfrenta os seus medos e pulsões personificados naquele animal bestial que pode trucidá-lo a qualquer momento.
O meu toureiro não foge; ele olha o touro no fundo dos olhos. Tenta "governá-lo", submetê-lo. A dança continua. O animal bruto já não parece tão assustador. A capa vermelha esvoaça graciosamente como se fosse uma enorme borboleta vermelha e rosa.
quinta-feira, março 26, 2026
Um Bosque Encantado
A lua aparece minguante, a sombra rodeia-me como se não houvesse amanhã - aliás, o seu objectivo era mesmo esse, fazer com que tivesse a sensação que não houvesse amanhã. Abraça-me e abafa-me. Enquanto caminho neste bosque encantado chamado Vida, meto-me às vezes por veredas, por senderos (adoro usar o espanhol) que parecem muito assustadores, muito sombrios. Ou melhor, o meu Ego continua a repetir-me vezes sem conta que "são assustadores". É um caminho cheio de espinhos, de covas ocultas, de lobos terríveis que me ameaçam entre velhas árvores retorcidas. São criaturas insidiosas que não me olham de frente, é sempre de lado, mas que de alguma forma parecem atingir na mouche o meu inconsciente.
Às vezes, parece que esse medo nem sequer é meu, parece ancestral, que atravessa eras. A terapia mais estóica diz para observar, para não me envolver passionalmente, para "assinalar" e deixar passar esses animais de charme obscuro que usam espelhos côncavos e convexos (à moda da Feira Popular) para retorcer o meu reflexo. Eu digo: é como se fosse um cérebro que tenta ser mais lúcido e consciente a olhar para um cérebro que é mais sombra, mais primitivo.
E qual é a alternativa, meus caros?
Caminhar, continuar a caminhar pelo bosque encantado chamado Vida até encontrar algumas clareiras e ver ou escutar passarinhos e passarinhas chilreantes.
domingo, março 22, 2026
Dentes
Estou sentado na melhor mesa deste café a ler um livro que se chama "As Misteriosas Estruturas da Vida Emocional" escrito por um americano chamado Joseph LeDoux. É um neurocientista com bastante notoriedade na sua especialidade e, como isso não bastasse, é muito competente a tocar guitarra. Um verdadeiro homem do Renascimento moderno.
Mas não é sobre LeDoux que quero falar. Dentes, quero falar sobre dentes.
O empregado de mesa tem um comprido avental verde preso atrás por uma correntinha de latão e traz-me o meu copo de aguardente de ameixa. Este café-bar tem a melhor selecção de aguardentes e cachaças da cidade. Aliás, atrevo-me a dizer que é o único estabelecimento deste burgo que só vende exclusivamente aguardentes e cachaças. Depois de provar a Engenho São Luís da qual me apaixonei da última vez que cá estive, mandei vir esta Rujanska que também me faz voar. O sujeito da mesa ao lado pousou os óculos sobre mesa e sorriu para mim como que a abençoar a minha escolha. Quando chegou há cerca de uma hora atrás tinha o ar mais miserável do mundo. O seu esgar de dor atroz tinha dado lugar a uma beatífica expressão de felicidade.
Este café é muito frequentado por pessoas que sofrem de dores de dentes e que ficaram desiludidas com os dentistas. São muitos a sofrerem em silêncio. Eu conto-me como uma dessas pessoas que nunca teve muita sorte com os chamados odontologistas. Mas, como sabem - se não sabem, ficam a saber - bochechar aguardente atenua bastante as dores de dentes e desincha gengivas inflamadas. As pessoas preferem pagar por uma boa aguardente do que pagar por um mau dentista. Naturalmente, o que acontece é que depois de bochecharem aguardente acabam sempre por ingerir alguma.
É um café belle epoque muito bonito, talvez o mais bonito da cidade. Pequenas colunas jónicas no centro suportam o tecto de estuque decorado com volutas e arabescos. Numa sala à parte, podemos encontrar quadros antigos que retratam a excruciante arte de extracção de dentes. Dir-se-ia que é uma espécie de terapia para dessensibilizar o cliente quando este já se encontra bastante anestesiado pelo álcool ingerido. As mesas tem tampo de mármore rosa, as cadeiras estão forradas com couro verde; nota-se que o dono é um homem requintado de bom gosto. Já ouvi dizer que ele era um "torna-viagem", foi dentista no Brasil, fez algum dinheiro mas que teve um esgotamento com tantas reclamações de pacientes. Como gostava muito de cachaça, resolveu recuperar este café e o resto é história como se costuma dizer.
quarta-feira, março 18, 2026
A paciente
Isabela já era uma "habituée" naquele corredor do hospital. Conhecia todos os cantos, todas as máquinas, todos os clínicos daquele piso. Desde que deu entrada na unidade oncológica há cerca de um ano nunca mais olhou para trás, como se costuma dizer. Era bem tratada, era muito querida por todos, enfermeiros, auxiliares, pacientes. Especialmente entre aqueles que tinham casos mais avançados, ela sabia como tranquilizá-los, como "falar ao coração". Isabela era uma "paciente-voluntária profissional ", tinha um jeito natural com pessoas. O facto de ser extremamente bonita ajudava bastante; tinha uma beleza do tipo renascentista, quase etérea, inefável, como se fosse um semi-anjo no corpo de uma mulher.
Isabela não sentia a mínima vontade em regressar para o mundo lá fora. Um mundo frio e inóspito. Aqui sabia com o que poderia contar. Sentia que o piso n.° 5 daquele hospital era agora o seu lar.
Antes de ter dado entrada naquele unidade, Isabela esteve perdidamente apaixonada por um homem. Mas esse homem tratou-a mal. Nada de novo aqui. Não fora a primeira e certamente não será a última. Ficou arrasada, ao ponto de ter quase desistido de viver. A relação terminou. Pouco tempo depois. foi-lhe descoberto um tumor no peito. Internamento e operação. A intervenção correu muito bem, a "coisa" não metastasiou, foi removida com êxito.
Como Isabela era muito bela e muito carismática, foi-lhe proposto permanecer no melhor quarto com as melhores vistas, com todas as despesas pagas (alimentação incluída) acrescido de um passe especial que poderia usar nas máquinas de café e de vending daquela unidade hospitalar. Um convite irrecusável para esta mulher muito especial.
Havia apenas uma condição: teria de ficar no hospital durante 14 (catorze) meses seguidos. O contracto poderia ser renovado por igual período de tempo mediante acordo de ambas as partes.
sexta-feira, março 13, 2026
Nina e Estela
"Seria melhor ter trazido uma vara, um pau bem grande para lhes dar naquelas cabeças destes bárbaros ululantes", disse Nina.
"Não me fales em pau grande que estou com saudade", respondeu Estela.
"Sabes o que me apetecia agora?"
"O quê, mulher?"
"Favas com chouriço. Morria agora por elas."
"Ai não me fales em chouriço. Sinto tanto a falta!"
"Credo mulher, Deus nosso senhor nos salve."
"O Lombardi anda doido por ti, já notaste não já?"
"Sim, já cá veio. Não te incomodes."
"Ah sua gaiteira. És pior que as rameiras ali de baixo."
"Não tenho remédio, amiga. Ele ameaça-me trocar pela galdéria da Virginia para o lugar de soprano."
"Sabes que..ele...também me deseja."
"Já estiveste com ele não já?"
"Sim... não tive escolha. E.. ele sabe fazer-me bem."
"É nosso então amiga. Não vamos partilhar com ninguém!"
"E o Rossi, o barítono? Já o esqueceste?"
"Quem?!"
As duas deram uma risada tão alta e tão sincera que me senti muito constrangido por estar ali. Depois olharam as duas para mim e trocaram entre si umas risadinhas abafadas.
No dia seguinte, no último dia do espectáculo, o público mostrou o seu apreço, aplaudindo-as com calor e chamando-as três vezes ao proscénio. Ao que parece, o empresário Lombardi cumpriu com o que lhes prometera. Deram 65 récitas nesse ano de 1856.
sábado, março 07, 2026
Felicidade
Acho que todas as pessoas desejam ser felizes. Mesmo aquelas que dizem que não merecem. Mesmo até aquelas que, para serem diferentes, dizem que gostam de se sentir miseráveis. That's bullshit, conversa da treta. Uma forma pateta de chamar a atenção do outro. No fundo, é claro que querem a felicidade. Por outro lado, há pessoas que não olham a meios para atingir a felicidade.
Camélia finalmente conhecera um homem que a fazia feliz. Queria-o a seu lado, queria ir com ele para todo o lado, era o amor da sua vida. Sim, estava obcecada por ele. Depois de tantos casos falhados, de tantas desilusões amorosas, finalmente e quando menos esperava, o seu príncipe encantado chegara. Era alto, bem parecido, espadaúdo. Era técnico de som e falava inglês e checo (vivera em Praga alguns anos, teve uma namorada checa). Sabia fazer lindos e complexos origamis. Quando saía de casa de Camélia, deixava sempre um origami escondido numa divisão. Camélia nem queria acreditar que existia um homem assim. É claro que tinha um ou outro defeito - como toda a gente - mas o balanço era bastante positivo como se costuma dizer.
Camélia adorava cozinhar para o seu amante. Gostava de se sentar ao seu lado enquanto o via a comer. Era um deleite vê-lo apreciar a sua comida. Gostava de passar a mão pelo seu peito, pelos ombros largos. Era mais forte do que ela, não conseguia resistir. O toque na sua pele, sentir aquele cheiro masculino ocre era fatal, um big turn-on como dizem agora. Mal acabava a refeição, iam para o quarto onde ouviam jazz e depois faziam amor.
Uma bela história de amor como tantas outras, mas esta era especial, especialmente para Camélia.
A obsessão passional de Camélia crescia de dia para dia. Já não imaginava a sua vida sem aquele homem. Uma noite encheu-se coragem e perguntou-lhe aquilo que desejava há muito perguntar. Camélia já tinha aflorado o assunto há algum tempo, mas nunca se sentira suficientemente confiante para fazer o pedido formalmente.
- Amanhã queres vir comigo para o escritório?
- Estava a ver que nunca mais perguntavas. Claro que sim, Camélia.
No dia seguinte, foram os dois juntos para a agência imobiliária onde Camélia trabalhava há quatro anos. Ela era uma das melhores vendedoras. Na secretária, havia um passepartout de Camélia com um ar confiante e de braços cruzados.
Ele sabia qual era a sua função, não seria preciso qualquer tipo de formação.
Sentou-se na secretária e ela começou a acariciá-lo enquanto fazia telefonemas. Sempre que fosse possível e sempre que assim o desejasse, Camélia metia a mão dentro da camisa do seu amante para tocar e afagar o seu corpo másculo. A sua produtividade e as suas vendas aumentaram drasticamente. Camélia vendera três villas luxuosas no bairro mais caro da cidade no espaço de um mês. Por mais do que uma vez, Camélia levou o seu amante para a casa de banho onde acabaram por ir mais longe do que as simples carícias. Ninguém no escritório se atrevia a questionar tal comportamento, porque Camélia era uma "máquina de vender casas". No período de dois meses, foi promovida a chefe de vendas da agência.
Camélia tinha, finalmente, encontrado a felicidade.
domingo, março 01, 2026
Pensamento-forma
Qualquer ataque de um país sobre o outro é uma agressão condenável. O que está a acontecer, neste momento, neste planeta, já ocorreu milhares de vezes na história da Humanidade. Talvez seja por isso que uma boa parte de nós não fique muito indignado, muito pesaroso, passada aquela reacção inicial de incredulidade. "É mais do mesmo", pensamos, encolhendo os ombros e continuamos com a nossa vidinha. Claro que se tal acontecesse onde vivemos ou aqui ao lado, a coisa mudaria de figura. Pânico geral, caos.
Como não sou comentador político nem tenho a pretensão nem o talento para o ser (e creio que já há demasiados), proponho-vos outra temática: o poder de pensamento. Sim, um súbito volt face temático.
Tal como o Irão, a nossa mente é bombardeada por vários pensamentos durante um dia. A mente pode ser um belo prado com lírios do campo ou um verdadeiro campo de batalha. Os pensamentos são coisas e coisas poderosas, e convém lembrar que cada um de nós está a gerá-los incessantemente, noite e dia. Ou a recebê-los, ainda não sei bem.
Muitas vezes pode acontecer que, no momento, o nosso amigo esteja demasiado ocupado com o seu próprio sofrimento, ou talvez demasiado excitado, para receber e aceitar qualquer sugestão externa, mas chega um momento em que o nosso "pensamento-forma" pode penetrar e descarregar-se, e então, a nossa simpatia produzirá o resultado esperado. É verdade que a responsabilidade de usar tal poder é grande, mas não devemos recuar diante do nosso dever por causa disso. A intenção deste texto não é catequizar ninguém, atenção. Mas parece que já estou a ouvir alguns de vós:
"Mas o que é pensamento? O que é essência de cada um? A consciência?"
Pois, ainda não sei responder a isso. Não sou o António Damásio (tinha a pretensão mas não tenho o talento para o ser, neste caso).
Apetece-me ser fracturante agora: eu estou em crer que uma boa parte dos pensamentos ditos menos bons não são nossos. Eu, por exemplo, sou uma esponja, absorvo quase tudo ao meu redor, sou um Scotch-Brite humano.
"Mas de onde vêm esses pensamentos, seu doutor?"
"Ó menina, num sei. Num sei se é os chineses ou..."
Eu tenho para mim que somos todos emissores e receptores WIFI das emoções e pensamentos. Uns mais do que outros, como é evidente. E somos muitos. Bastantes. E não são poucos. Visíveis e invisíveis.
"Ah-ha, seu doutor, eu cá não acredito em fantasmas ou espíritos, etc."
Nem eu, mas não estou a falar de fantasmas. Apetece-me ser críptico e por agora não irei falar sobre a proveniência. O Inconsciente? Talvez. Mas, voltamos mais ou menos ao mesmo, não?
Chamei-lhes "pensamentos-forma", porque parecem-me que têm forma e cor. A Paixão imagino-a vermelha e voluptuosa. Um grande pompom escarlate. A Devoção, a Fé, imagino-as uma estrela azul-celeste, como não poderia deixar de ser. A Força, a Vitalidade, o Vigor são pequenos ou grandes sóis que irradiam a cor dourada. A sensação gerada por um abraço fraterno, a Fraternidade, é um semi-arco de várias cores vivas. O Medo são estilhaços cinza que se espalham pelo corpo. A Ganância, a luta pelo Poder são uma garra cinza e vermelho pálido misturados. Etc..
quarta-feira, fevereiro 25, 2026
Pontes
Eurico sabia que não poderia partilhar a sua “condição” com muitas pessoas. Sabia que muitas não iriam compreender a sua angústia. Mesmo o seu terapeuta achava que o seu transtorno estava relacionado com a sua infância difícil. Como quase todos os transtornos e condições psicológicas. Mas Eurico tinha a inabalável convicção que esta sua peculiaridade era única e muito especial. Naturalmente, revirou a Web para tentar encontrar especialistas que o ajudassem a saber lidar com os pensamentos que tinha. Sem grande resultado. No Inverno era sempre pior; a falta de luz solar e a chuva constante pioravam a coisa ao ponto de Eurico não conseguir sair da cama.
Não, não era depressão. Embora esta sua condição pudesse gerar alguma depressividade, Eurico era um tipo afável, social, uma “pessoa de pessoas” como se costuma dizer. Mas afinal - perguntam vocês – qual era o problema de Eurico?
Tudo começou há cerca de oito anos quando Eurico estava a ir para a aldeia dos pais para passar o fim-de-semana. Fazia-o pelo menos uma vez por mês, gostava de pensar que mais adiante na sua vida, iria escolher mudar-se para a aldeia, adorava a vida bucólica. Esqueci-me de dizer que Eurico era designer gráfico, embora não tenha grande relevância para a história.
Havia duas estradas para chegar à aldeia. Nessa sexta-feira, Eurico decidiu conduzir pela estrada da velha ponte. A recta final da estrada era ladeada por velhos plátanos cujos ramos se tocavam no alto formando um cinematográfico túnel verde. Eurico reduziu a velocidade do seu clássico Mercedes 190D para apreciar o entorno. Antes de atravessar a velha ponte de pedra, Eurico foi assolado por um pensamento estranho:
“E se conseguisse destruir a ponte apenas com o poder da mente?”
Não estava ninguém atrás de si, Eurico parou o carro por instantes. A velha ponte continuava de pé como sempre esteve durante anos. Do outro lado, aproximava-se lentamente um carro que vinha da aldeia. O designer sorriu perante o pensamento. "A vida era boa", pensou a seguir. No momento que Eurico acelera, um enorme estrondo ecoa por todo vale e, passados alguns segundos, a ponte colapsa à sua frente, levantando uma coluna de fumo sobre o riacho.
Escusado será dizer, a vida de Eurico mudou nesse dia. Nunca mais atravessou pontes ou túneis com medo que acontecesse de novo o que ocorreu nessa fatídica sexta-feira. O trauma instalou-se no seu corpo ao ponto de se recusar ver filmes ou telejornais. E tudo - assim acreditava Eurico - por causa do tal "pensamento mágico".
Mas, e para quem não sabe, há 39% de probabilidades de aparecerem pontes em filmes ou telejornais.
Podem verificar estes e mais dados no Pordata.
domingo, fevereiro 22, 2026
Mitos
Uma boa parte das histórias que escrevo é quase sempre sobre mim. Às vezes até podem ser sobre outras pessoas, mas na maioria das vezes estes símbolos escritos que lêem é sobre a minha pessoa. Isso faz de mim um egocêntrico? Ou pior, um narcisista? Será que todos os ditos escritores são narcisistas? Segundo Ovídeo, Narciso era tão belo que desprezava todo o amor que lhe davam, fosse homem ou mulher. Ao debruçar-se num lago límpido para beber água, Narciso viu o seu reflexo pela primeira vez e fica paralisado de amor por si mesmo. Morreu de fome e sede.
Ora bem, talvez haja uma percentagem de narcisismo aqui. No lugar onde me encontro, neste momento (seja lá o que isto queira dizer). As palavras são um reflexo de mim. Mas sei - em minha defesa - que posso ser muito abnegado e empático como os argonautas.
Sim, eu sei, estou muito clássico hoje.
Estou quase convencido (o meu ascendente Balança/Libra favorece a procura do equilíbrio, mas também gera dúvida, hesitação) que sou uma variante de Hércules com os meus "12 trabalhos". Não tão musculado, talvez.
É claro que a Hidra, o Javali de Erimanto, o Leão de Nimeia, a trupe toda, estão todos dentro da minha cabeça. São seres que metem medo, mas não passam de fabrições do inconsciente. Será que o Hércules era um neurótico, um "sobre pensador" (overthinker em inglês)?
Uma das tarefas de Hércules consistia em limpar num dia os currais do rei Augias que tinha três mil bois e que há trinta anos não eram limpos. Estavam tão fedorentos que exalavam um gás mortal. Hércules teve de desviar dois rios para os limpar.
E é esta a tarefa de Hércules que mais me revejo: limpar e voltar a limpar os estábulos da minha mente que exalam gases fedorentos, nem que para isso tenha de desviar o rio Douro.
Sim senhor, tal pode constituir uma tarefa verdadeiramente "hercúlea".







