quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Confessionário


Pelo menos uma vez por semana éramos obrigados a ir ao confessionário. 

Andava na 3a classe e vestíamos todos uma bata branca, frequentava um colégio católico. O padre confessor - vim a saber mais tarde - era de Timor. Tinha um sotaque estranho e mau hálito. 
- Quais foram os teus pecados, meu filho? 
Ou algo parecido. 
Às vezes ficava angustiado porque não tinha muitos pecados para partilhar com o seu padre e então inventava uns poucos. Tentava não repetir os pecados que tinha inventado na semana passada.
- Respondi torto à minha mãe.
Ou
- Não fiz os trabalhos de casa.
Como é óbvio, uns eram verdade, outros não.  

O seu padre de Timor dava-me o receituário habitual com x Avé-Marias e x Pai-nossos, benzia-me e dispensava-me. Eu voltava para o recreio e voltava a respirar ar fresco.
Passados quase 40 anos, gostaria de reencontrar esse padre timorense e talvez confessar-lhe alguns dos meus actuais pecados. Alguns, não todos. Não precisaria de inventar nada desta vez. Talvez precisasse de alguma coragem para os confessar a um perfeito desconhecido outorgado por Deus para escutar a vida privada dos cidadãos ditos católicos. 

É claro que se o velhinho padre de Timor continuasse ainda com mau hálito, talvez tivesse também a coragem de lhe oferecer um ou dois daqueles Halls extra strong.  

Do que falamos quando finalmente falamos

Era um dia chuvoso de Inverno. Mais um.

O pai chega a casa, coloca as chaves em cima do móvel de entrada. Pousa a mochila junto à arca chinesa como costumava fazer. Tira os sapatos. A mãe estava a retirar as coisas dos sacos e murmurou algo. 
- Chegaste há muito? - pergunta o pai.
- Não, acabei de chegar. - responde a mãe sem levantar a cabeça.
O filho deles estava sentado no sanita do WC de entrada a jogar Nintendo switch.
- Tudo bem miúdo? 
- Olá pai. - respondeu-lhe sem levantar a cabeça também.
Ele foi ao quarto e mudou de roupa. Pôs-se confortável e pegou no telemóvel. Mais cheias, mais diques a cederem, mais chuva. Pousa o telemóvel em cima de cama e dirige-se à sala onde ela já estava a pôr a mesa para o jantar. 
- Queres ajuda?
- Não, obrigado.
Ele fica parado na sala sem saber o que fazer. Hesita em ir para o escritório como costuma fazer antes do jantar. O miúdo ainda está na casa de banho.
- Vais demorar muito S?
- Já vou pai. - responde sem tirar os olhos do ecrã.
Ele volta para a sala e pergunta-lhe o que é o jantar.
- Fui aos meus pais e trouxe filetes de pescada e arroz.
- Não queres que te ajude a pôr a mesa?
- Não, obrigada.
Ela entra na cozinha como se fosse um autómato e continua a tirar coisas dos sacos.
- Como é que foi o teu dia? - pergunta o pai.
A mãe faz um compasso de espera e quase que revira os olhos, mas arrepende-se.
- Foi normal.
- Não vais perguntar como foi o meu?
- Como foi o teu? - a mãe continua a tirar coisas daqueles sacos sem fundo.
O pai olha para ela e não lhe responde.
Ele senta-se no sofá e liga a televisão.
- Pai, não quero ver programas chatos! - grita o miúdo da casa de banho.
O pai ignora-o e faz zapping. 
- S., lava as mãos, vamos jantar. - diz a mãe.
O pai pousa o comando, entra na cozinha e fecha a porta.
- Queres falar agora? - pergunta o pai.
- Agora? Agora vamos jantar.
- Estás mal-disposta?
- (...) Já não sei como é que estou. Importas-te de levar a comida para mesa?
- Mas então vamos falar.
Ela encara-o pela primeira vez nessa noite.
- Ok, vamos lá então.- diz ela.
- O que é que se passa? - pergunta o pai.
Ela revira os olhos, dá um profundo suspiro e quase que começa a chorar.

A televisão mostra imagens de um deslizamento de terras numa auto-estrada.

 

 




 



 

 



 

sábado, fevereiro 07, 2026

O Porto


 

 

 

 

 

 

 

 

Quando percorro as ruas esburacadas com os meus turistas, não tenho qualquer tipo de vergonha ou embaraço como alguns dos meus colegas. Isto não é Helsínquia ou Trondheim ou qualquer outra cidade nórdica imaculada. Esta cidade cinza é feita de buracos, de trincheiras, de paralelos espalhados e fora do sítio, com fios da electricidade ao dependuro, com bueiros a vomitar água barrenta e suja, etc. 

Etc não que ainda não acabei: quer eu queira, quer não queira, esta cidade com as vísceras de fora há mais de 10 anos por conta das obras do metro é um enorme museu vivo, às vezes visceral, onde há espaço para todos mesmo para aqueles que não queiram que haja espaço para todos. É claro que também tem boulevards e artérias limpas sem colestrol, mas esta cidade vive de imperfeições, de passadeiras provisórias, de prédios a caírem de podre onde as velhas vigas de madeira esperam um golpe de misericórdia vindo dos céus. 

"So many old buildings, why?" pergunta o norte-americano.

"Because.", respondo e continuo a caminhar, fazendo de conta que não entendi.

Eu não gosto de mulheres com plásticas, ou com muita maquilhagem, gosto de imperfeições, de assimetrias, de algumas rugas, de um cabelo desalinhado, tudo isso aumenta o meu desejo. Uma cidade deve ser assim, alguma desarmonia e caos (não muito) conferem muito carácter e um certo de tipo de beleza.

Esta cidade é feita de amputações urbanísticas, de desvios e afunilamentos, o trânsito às vezes é insuportável, mas ainda assim é mil vezes melhor do que Zurich ou Aarhus ou outra cidade onde quase todos são ateus practicantes ou calvinistas. É uma cidade azul e branca um pouco desdentada que não baixa a cabeça, que não aceita subserviências, gosta de fazer o que lhe dá na real gana.

Esta cidade pode muito bem ser um Amor de Perdição.


 

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

O homem que serviu o último rei de Portugal

Estava aqui a tentar escrever algo potencialmente genial sobre um homem que veio de 1910, que serviu o último rei de Portugal, D. Manuel II. Era um viajante do tempo. 

Queria escrever sobre este homem que viajou até aos dias de hoje e que apelaria ao voto naquele que pensa ser o único candidato que poderá recuperar o antigo e glorioso regime - apesar do país ser um estado de direito, democrático do qual ele se envergonha e abomina, naturalmente. Seria a história distópica de um homem que serviu o malogrado D. Manuel II bem como o seu pai, D.Carlos, e que depois viu em Salazar uma "espécie de mal menor" para a nação que tentou - vá lá - restabelecer respeito e bons costumes no nosso país. Também passaria por Lisboa em 1974 - obviamente um anno horribilis para o nosso monárquico que veio do passado - sendo quase atropelado por um dos tanques dos capitães. 

Queria mesmo escrever a história distópica deste homem que veio do passado e que serviu o último rei de Portugal e que queria um país para os portugueses, sem miscigenações perversas, sem emigrantes de longitudes estranhas, sem a ilusão do poder do escolha, porque acredita que o povo é iletrado e ignorante. Este homem que idolatra Paiva Couceiro e abomina Afonso Costa e toda a "corja republicana" consequente iria apelar ao voto no único candidato ultra-conservador poderia devolver Portugal aos portugueses. E talvez - talvez - ainda haja a esperança de reintroduzir a monarquia em Portugal e assim recuperar as antigas colónias.

Mas, por um motivo qualquer que me transcende, não consegui escrever ainda esta ficção para vosso gáudio e entretenimento. Fica aqui, no entanto, esta promessa de voltar a esta bela história de Bernardo Leal, o homem que serviu o último rei de Portugal.

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Judas Iscariotes

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na minha cabeça, acontecem-me sempre coisas fixes em dias ímpares. É este o padrão. Em dias pares a coisa anda mais enviesada como se costuma dizer. Quero chamar à atenção do leitor que sou muito rigoroso e metódico nestas auto-observações (...). 

É claro que esta introdução foi inventada só para atrair a vossa atenção. 

Ou seja, esta introdução foi verdadeira durante 10 segundos, depois confessei a sua falsidade. E é sempre uma questão de perspectiva, não é? Ou de tempo, até se descobrir a verdade. Procuramos todos isso, a Verdade. 

Tenho pensado ultimamente em Judas Iscariotes e nas diversas teorias que existem à volta deste apóstolo. Será que a Crucificação de Jesus teria sido possível sem a alegada traição de Judas? Quero pensar que Judas não foi um erro de casting. A propósito, "Judas" significa (Yehudah) e significa "louvor a Deus" ou "agradecimento". Há uma consistente teoria que diz que Jesus pediu a Judas para o denunciar e que ele, Judas, não se enforcou de arrependimento. Partiu para o deserto em modo de auto-exílio e aí morreu. Santificou-se no deserto e não foi traidor. Por outro lado, Pedro, o "primeiro" de Jesus, também o negou três vezes, de acordo com o Novo Testamento. E Pedro será sempre Pedro. Isto confere a estes dois apóstolos um carácter muito, muito humano.

As camadas que nos revestem são espessas e cinzentas. As coisas tornam-se turvas, às vezes. Pedimos alguma luz e esclarecimento (evitei usar a palavra "iluminação" aqui) mas tarda a chegar. 

Tal como disse no início, hoje começou por ser um dia par. Mas também posso acabar por me sentir como se fosse um dia ímpar. 

Quero pensar que o Amor é sempre a constante inquestionável da equação complexa a que chamamos Vida. 

 

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Sábado à tarde

Há duas coisas sensoriais que me lembro dos sábados de tarde: o cheiro forte a óleo de cedro e o som interminável de uma chave a ser introduzida na fechadura da nossa porta. A minha mãe incumbia-me de aspirar a casa com um aspirador Sanyo. Era amarelo e preto e parecia uma nave especial doméstica. Era bastante competente a aspirar, posso dizê-lo. Depois tinha de limpar os móveis da sala com óleo de cedro. Talvez não fosse tão bom porque não conseguia fazê-lo como deve ser. Creio que já estava a antecipar a chegada do meu pai. A antever.
Parava de limpar e tremia durante um bom bocado. Depois olhava pela janela. Tremia outra vez. E era assim durante uma boa meia-hora ou mais, porque sabia mais ou menos quando é que meu pai iria chegar.
O tempo que o meu pai usava para tentar meter a chave na porta seria proporcional ao "tempo de qualidade" desse sábado à noite. 
Lembro-me da minha mãe dizer invariavelmente:
"Vamos ter festa".
Na esmagadora maioria das vezes, esta profecia estava certa. 


sábado, janeiro 31, 2026

Tormenta

Tenho mais cada vez mais a impressão que a nossa vida tem uma forma helicoidal, uma cadeia em espiral. Mais ou menos como o nosso ADN. Às vezes tombámos, deparámo-nos com algo de traumático ao qual o nosso ego se cola como se fosse velcro, mas, por outro lado, o acaso ou a vida em si acaba sempre por proporcionar conforto, amor, segurança. Há que desobstruir a mente. Ou seja, expandimos e contraímos como a espiral que não pára de girar em si mesma. Como a via láctea, como o próprio universo.

Lembrei-me agora da fluidez que é necessária para contornar a tormenta. Acabei de ver árvores tombadas por força da depressão que assolou a região de Leiria e pensei que nem sempre adianta estar "bem enraizado", bem ancorado. 

Naturalmente as árvores não se mexem, não se locomovem como nós. Uma lapalissada, eu sei. O Homem tem a capacidade para se desviar, para usar do movimento, da fluidez, temos aqui uma vantagem. Creio que isso também se pode aplicar ao intelecto e à dinâmica das emoções. Não devemos estagnar, não fomos feitos para ficamos no mesmo local (seja físico seja emocional). Vamos dançar, vamos correr, vamos fazer algo.

- Vem aí uma depressão, uma forte tempestade, mau tempo, o trauma beija-me a testa outra vez, o corpo paralisa, oh não, e agora o que vou fazer? 

"Keep going", como aconselha essa T-shirt. Em caso de dúvida, continua, sem olhar para trás. Atrás de uma montanha há sempre outra montanha. 

Hmmm. Isto é a coisa mais zen que eu escrevi este ano que ainda mal começou. 

quarta-feira, janeiro 28, 2026

Coração

Se somos uma série de recomeços, cada instante é uma oportunidade de recomeçar. Pode ser muito turvo às vezes. A ilusão - que também pode se mascarar de ilusão - pode ser muito desafiante e enganadora. O medo pode surgir e limitar o nosso horizonte. Oops. Aí vem ele, cuidado, um bichinho chamado desespero ou desesperança. Vamos dançar com ele. Também ele quer se visto. Que passos é que ele nos quer mostrar? A criança que não foi escutada, que foi  negligenciada? O adolescente que foi vitima de bullying? Um amor adulto intenso não correspondido? A perda de trabalho?

Não queria ir para este tipo de registo fácil, mas hoje o meu coração pediu-me. E como diz Tamaro (eu sei, eu sei), "vai onde te leva o coração".  

Há aqui uma torção, uma força do universo a acontecer que ainda não vislumbrei totalmente. 

Sentir.