quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Pontes

 Eurico sabia que não poderia partilhar a sua “condição” com muitas pessoas. Sabia que muitas não iriam compreender a sua angústia. Mesmo o seu terapeuta achava que o seu transtorno estava relacionado com a sua infância difícil. Como quase todos os transtornos e condições psicológicas. Mas Eurico tinha a inabalável convicção que esta sua peculiaridade era única e muito especial. Naturalmente, revirou a Web para tentar encontrar especialistas que o ajudassem a saber lidar com os pensamentos que tinha. Sem grande resultado. No Inverno era sempre pior; a falta de luz solar e a chuva constante pioravam a coisa ao ponto de Eurico não conseguir sair da cama.

Não, não era depressão. Embora esta sua condição pudesse gerar alguma depressividade, Eurico era um tipo afável, social, uma “pessoa de pessoas” como se costuma dizer. Mas afinal - perguntam vocês – qual era o problema de Eurico? 

Tudo começou há cerca de oito anos quando Eurico estava a ir para a aldeia dos pais para passar o fim-de-semana. Fazia-o pelo menos uma vez por mês, gostava de pensar que mais adiante na sua vida, iria escolher mudar-se para a aldeia, adorava a vida bucólica. Esqueci-me de dizer que Eurico era designer gráfico, embora não tenha grande relevância para a história.

Havia duas estradas para chegar à aldeia. Nessa sexta-feira, Eurico decidiu conduzir pela estrada da velha ponte. A recta final da estrada era ladeada por velhos plátanos cujos ramos se tocavam no alto formando um cinematográfico túnel verde. Eurico reduziu a velocidade do seu clássico Mercedes 190D para apreciar o entorno. Antes de atravessar a velha ponte de pedra, Eurico foi assolado por um pensamento estranho:

“E se conseguisse destruir a ponte apenas com o poder da mente?”

Não estava ninguém atrás de si, Eurico parou o carro por instantes. A velha ponte continuava de pé como sempre esteve durante anos. Do outro lado, aproximava-se lentamente um carro que vinha da aldeia. O designer sorriu perante o pensamento. "A vida era boa", pensou a seguir. No momento que Eurico acelera, um enorme estrondo ecoa por todo vale e, passados alguns segundos, a ponte colapsa à sua frente, levantando uma coluna de fumo sobre o riacho. 

Escusado será dizer, a vida de Eurico mudou nesse dia. Nunca mais atravessou pontes ou túneis com medo que acontecesse de novo o que ocorreu nessa fatídica sexta-feira. O trauma instalou-se no seu corpo ao ponto de se recusar ver filmes ou telejornais. E tudo - assim acreditava Eurico - por causa do tal "pensamento mágico".

Mas, e para quem não sabe, há 39% de probabilidades de aparecerem pontes em filmes ou telejornais.

Podem verificar estes e mais dados no Pordata. 


domingo, fevereiro 22, 2026

Mitos


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma boa parte das histórias que escrevo é quase sempre sobre mim. Às vezes até podem ser sobre outras pessoas, mas na maioria das vezes estes símbolos escritos que lêem é sobre a minha pessoa. Isso faz de mim um egocêntrico? Ou pior, um narcisista? Será que todos os ditos escritores são narcisistas? Segundo Ovídeo, Narciso era tão belo que desprezava todo o amor que lhe davam, fosse homem ou mulher. Ao debruçar-se num lago límpido para beber água, Narciso viu o seu reflexo pela primeira vez e fica paralisado de amor por si mesmo. Morreu de fome e sede. 

Ora bem, talvez haja uma percentagem de narcisismo aqui. No lugar onde me encontro, neste momento (seja lá o que isto queira dizer). As palavras são um reflexo de mim. Mas sei - em minha defesa - que posso ser muito abnegado e empático como os argonautas. 

Sim, eu sei, estou muito clássico hoje. 

Estou quase convencido (o meu ascendente Balança/Libra favorece a procura do equilíbrio, mas também gera dúvida, hesitação) que sou uma variante de Hércules com os meus "12 trabalhos". Não tão musculado, talvez.

É claro que a Hidra, o Javali de Erimanto, o Leão de Nimeia, a trupe toda, estão todos dentro da minha cabeça. São seres que metem medo, mas não passam de fabrições do inconsciente. Será que o Hércules era um neurótico, um "sobre pensador" (overthinker em inglês)?

Uma das tarefas de Hércules consistia em limpar num dia os currais do rei Augias que tinha três mil bois e que há trinta anos não eram limpos. Estavam tão fedorentos que exalavam um gás mortal. Hércules teve de desviar dois rios para os limpar. 

E é esta a tarefa de Hércules que mais me revejo: limpar e voltar a limpar os estábulos da minha mente que exalam gases fedorentos, nem que para isso tenha de desviar o rio Douro. 

Sim senhor, tal pode constituir uma tarefa verdadeiramente "hercúlea".

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Canga

Um peso maciço que trago sobre os ombros, uma canga de bois invisível que coloquei (ou colocaram-me) sobre esta parte do corpo que levo para onde quer que vá. 

A canga (ou jugo) era posta numa parelha de bois para depois ararem os campos, para transportarem grandes cargas.

E é precisamente isso que eu sinto, que estou a transportar algo volumoso, desconfortável - nem sempre, mas às vezes.

Antes que me aconselhem de forma paternalista "tens de saber largar esse peso, chegou a hora", sinto que devo carregá-la ainda algum tempo para arar a minha psique, para lavrar ordeiramente o meu passado. É uma alfaia pesada mas necessária. 

A minha canga é muito adornada, muito ornamentada, como não poderia deixar de ser. 

- Mas a canga não é para dois animais?

Certíssimo.

Estive a rever a obra da escultora Louise Bourgeois. Esta mulher da Luz e da Escuridão viveu quase até aos cem anos. Se ela fosse viva, teria a coragem para lhe pedir para conceber uma canga para mim. Teria de ser esta mulher porque só ela teria a sensibilidade e a cólera para o fazer. Tenho a certeza - Je suis sûr - que ela iria iria aceitar a minha encomenda.

O artista tem o privilégio e a vantagem de entrar em contacto com o seu inconsciente. E isso é sempre bom. 

 

  

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Quixote


 

 

 

 

 

 

 

 

Tem alturas em que me sinto um pouco "quixotizado". O que quero dizer com isto?

Alonso Quijano aka D. Quixote de La Mancha era um fidalgo sem guito que queria reviver os tempos gloriosos da velha aristocracia de La Mancha, no centro de Espanha. Quixote quer proteger os indefesos, salvar donzelas, repor a ordem. Quer exercer o seu controlo sobre uma realidade que a sua percepção não pode (ou quer) enxergar (adoro este verbo brasileiro). Vive num mundo fantasioso, de ilusões. Começa a ver gigantes ameaçadores em vez de moinhos. Nos dias de hoje, seria provavelmente internado numa instituição de saúde mental.

O único ser capaz de o chamar à Terra é o seu fiel escudeiro Panza, um homem do povo, sem pretensões, sem quimeras. É guiado pela sua barriga, Sancho vê o mundo "tal como ele é" (seja lá o que isto queira dizer).

Sim, tem alturas que me sinto um pouco "quixotizado". Não vejo moinhos nem azenhas, graças a Deus, mas a minha mente tem alguma tendência para extrapolar o real. Esta coisa funciona por dualismo, por contraste: por outro lado, parece que estou rodeado por "sanchizados", pessoas que são demasiado reais, demasiado pragmáticas, demasiado "Terra", que sofrem com coisas mundanas. E está tudo bem se assim for.

Alguns ainda não sabem, mas todos procuramos a via do "Meio", do "Tao". "No meio é que se encontra a Virtude", diz o bom povo, a grande família do Sancho. Mas e se a Virtude for demasiado aborrecida?

Não deixa de ser curioso que para com os outros, tenho tendência a "sanchizar", a apelar ao bom senso, a trazê-los à terra recorrendo a algum humor. Mas dentro de mim, há um Quixote que deseja a Glória, a Fantasia, que quer que o Inconsciente seja finalmente libertado, sem juízos de valor dos "sanchizados".

Confía en el tiempo, que suele dar dulces salidas a muchas amargas dificultades.

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Confessionário


Pelo menos uma vez por semana éramos obrigados a ir ao confessionário. 

Andava na 3a classe e vestíamos todos uma bata branca, frequentava um colégio católico. O padre confessor - vim a saber mais tarde - era de Timor. Tinha um sotaque estranho e mau hálito. 
- Quais foram os teus pecados, meu filho? 
Ou algo parecido. 
Às vezes ficava angustiado porque não tinha muitos pecados para partilhar com o seu padre e então inventava uns poucos. Tentava não repetir os pecados que tinha inventado na semana passada.
- Respondi torto à minha mãe.
Ou
- Não fiz os trabalhos de casa.
Como é óbvio, uns eram verdade, outros não.  

O seu padre de Timor dava-me o receituário habitual com x Avé-Marias e x Pai-nossos, benzia-me e dispensava-me. Eu voltava para o recreio e voltava a respirar ar fresco.
Passados quase 40 anos, gostaria de reencontrar esse padre timorense e talvez confessar-lhe alguns dos meus actuais pecados. Alguns, não todos. Não precisaria de inventar nada desta vez. Talvez precisasse de alguma coragem para os confessar a um perfeito desconhecido outorgado por Deus para escutar a vida privada dos cidadãos ditos católicos. 

É claro que se o velhinho padre de Timor continuasse ainda com mau hálito, talvez tivesse também a coragem de lhe oferecer um ou dois daqueles Halls extra strong.  

Do que falamos quando finalmente falamos

Era um dia chuvoso de Inverno. Mais um.

O pai chega a casa, coloca as chaves em cima do móvel de entrada. Pousa a mochila junto à arca chinesa como costumava fazer. Tira os sapatos. A mãe estava a retirar as coisas dos sacos e murmurou algo. 
- Chegaste há muito? - pergunta o pai.
- Não, acabei de chegar. - responde a mãe sem levantar a cabeça.
O filho deles estava sentado no sanita do WC de entrada a jogar Nintendo switch.
- Tudo bem miúdo? 
- Olá pai. - respondeu-lhe sem levantar a cabeça também.
Ele foi ao quarto e mudou de roupa. Pôs-se confortável e pegou no telemóvel. Mais cheias, mais diques a cederem, mais chuva. Pousa o telemóvel em cima de cama e dirige-se à sala onde ela já estava a pôr a mesa para o jantar. 
- Queres ajuda?
- Não, obrigado.
Ele fica parado na sala sem saber o que fazer. Hesita em ir para o escritório como costuma fazer antes do jantar. O miúdo ainda está na casa de banho.
- Vais demorar muito S?
- Já vou pai. - responde sem tirar os olhos do ecrã.
Ele volta para a sala e pergunta-lhe o que é o jantar.
- Fui aos meus pais e trouxe filetes de pescada e arroz.
- Não queres que te ajude a pôr a mesa?
- Não, obrigada.
Ela entra na cozinha como se fosse um autómato e continua a tirar coisas dos sacos.
- Como é que foi o teu dia? - pergunta o pai.
A mãe faz um compasso de espera e quase que revira os olhos, mas arrepende-se.
- Foi normal.
- Não vais perguntar como foi o meu?
- Como foi o teu? - a mãe continua a tirar coisas daqueles sacos sem fundo.
O pai olha para ela e não lhe responde.
Ele senta-se no sofá e liga a televisão.
- Pai, não quero ver programas chatos! - grita o miúdo da casa de banho.
O pai ignora-o e faz zapping. 
- S., lava as mãos, vamos jantar. - diz a mãe.
O pai pousa o comando, entra na cozinha e fecha a porta.
- Queres falar agora? - pergunta o pai.
- Agora? Agora vamos jantar.
- Estás mal-disposta?
- (...) Já não sei como é que estou. Importas-te de levar a comida para mesa?
- Mas então vamos falar.
Ela encara-o pela primeira vez nessa noite.
- Ok, vamos lá então.- diz ela.
- O que é que se passa? - pergunta o pai.
Ela revira os olhos, dá um profundo suspiro e quase que começa a chorar.

A televisão mostra imagens de um deslizamento de terras numa auto-estrada.

 

 




 



 

 



 

sábado, fevereiro 07, 2026

O Porto


 

 

 

 

 

 

 

 

Quando percorro as ruas esburacadas com os meus turistas, não tenho qualquer tipo de vergonha ou embaraço como alguns dos meus colegas. Isto não é Helsínquia ou Trondheim ou qualquer outra cidade nórdica imaculada. Esta cidade cinza é feita de buracos, de trincheiras, de paralelos espalhados e fora do sítio, com fios da electricidade ao dependuro, com bueiros a vomitar água barrenta e suja, etc. 

Etc não que ainda não acabei: quer eu queira, quer não queira, esta cidade com as vísceras de fora há mais de 10 anos por conta das obras do metro é um enorme museu vivo, às vezes visceral, onde há espaço para todos mesmo para aqueles que não queiram que haja espaço para todos. É claro que também tem boulevards e artérias limpas sem colestrol, mas esta cidade vive de imperfeições, de passadeiras provisórias, de prédios a caírem de podre onde as velhas vigas de madeira esperam um golpe de misericórdia vindo dos céus. 

"So many old buildings, why?" pergunta o norte-americano.

"Because.", respondo e continuo a caminhar, fazendo de conta que não entendi.

Eu não gosto de mulheres com plásticas, ou com muita maquilhagem, gosto de imperfeições, de assimetrias, de algumas rugas, de um cabelo desalinhado, tudo isso aumenta o meu desejo. Uma cidade deve ser assim, alguma desarmonia e caos (não muito) conferem muito carácter e um certo de tipo de beleza.

Esta cidade é feita de amputações urbanísticas, de desvios e afunilamentos, o trânsito às vezes é insuportável, mas ainda assim é mil vezes melhor do que Zurich ou Aarhus ou outra cidade onde quase todos são ateus practicantes ou calvinistas. É uma cidade azul e branca um pouco desdentada que não baixa a cabeça, que não aceita subserviências, gosta de fazer o que lhe dá na real gana.

Esta cidade pode muito bem ser um Amor de Perdição.


 

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

O homem que serviu o último rei de Portugal

Estava aqui a tentar escrever algo potencialmente genial sobre um homem que veio de 1910, que serviu o último rei de Portugal, D. Manuel II. Era um viajante do tempo. 

Queria escrever sobre este homem que viajou até aos dias de hoje e que apelaria ao voto naquele que pensa ser o único candidato que poderá recuperar o antigo e glorioso regime - apesar do país ser um estado de direito, democrático do qual ele se envergonha e abomina, naturalmente. Seria a história distópica de um homem que serviu o malogrado D. Manuel II bem como o seu pai, D.Carlos, e que depois viu em Salazar uma "espécie de mal menor" para a nação que tentou - vá lá - restabelecer respeito e bons costumes no nosso país. Também passaria por Lisboa em 1974 - obviamente um anno horribilis para o nosso monárquico que veio do passado - sendo quase atropelado por um dos tanques dos capitães. 

Queria mesmo escrever a história distópica deste homem que veio do passado e que serviu o último rei de Portugal e que queria um país para os portugueses, sem miscigenações perversas, sem emigrantes de longitudes estranhas, sem a ilusão do poder do escolha, porque acredita que o povo é iletrado e ignorante. Este homem que idolatra Paiva Couceiro e abomina Afonso Costa e toda a "corja republicana" consequente iria apelar ao voto no único candidato ultra-conservador poderia devolver Portugal aos portugueses. E talvez - talvez - ainda haja a esperança de reintroduzir a monarquia em Portugal e assim recuperar as antigas colónias.

Mas, por um motivo qualquer que me transcende, não consegui escrever ainda esta ficção para vosso gáudio e entretenimento. Fica aqui, no entanto, esta promessa de voltar a esta bela história de Bernardo Leal, o homem que serviu o último rei de Portugal.