sábado, fevereiro 07, 2026

O Porto


 

 

 

 

 

 

 

 

Quando percorro as ruas esburacadas com os meus turistas, não tenho qualquer tipo de vergonha ou embaraço como alguns dos meus colegas. Isto não é Helsínquia ou Trondheim ou qualquer outra cidade nórdica imaculada. Esta cidade cinza é feita de buracos, de trincheiras, de paralelos espalhados e fora do sítio, com fios da electricidade ao dependuro, com bueiros a vomitar água barrenta e suja, etc. 

Etc não que ainda não acabei: quer eu queira, quer não queira, esta cidade com as vísceras de fora há mais de 10 anos por conta das obras do metro é um enorme museu vivo, às vezes visceral, onde há espaço para todos mesmo para aqueles que não queiram que haja espaço para todos. É claro que também tem boulevards e artérias limpas sem colestrol, mas esta cidade vive de imperfeições, de passadeiras provisórias, de prédios a caírem de podre onde as velhas vigas de madeira esperam um golpe de misericórdia vindo dos céus. 

"So many old buildings, why?" pergunta o norte-americano.

"Because.", respondo e continuo a caminhar, fazendo de conta que não entendi.

Eu não gosto de mulheres com plásticas, ou com muita maquilhagem, gosto de imperfeições, de assimetrias, de algumas rugas, de um cabelo desalinhado, tudo isso aumenta o meu desejo. Uma cidade deve ser assim, alguma desarmonia e caos (não muito) conferem muito carácter e um certo de tipo de beleza.

Esta cidade é feita de amputações urbanísticas, de desvios e afunilamentos, o trânsito às vezes é insuportável, mas ainda assim é mil vezes melhor do que Zurich ou Aarhus ou outra cidade onde quase todos são ateus practicantes ou calvinistas. É uma cidade azul e branca um pouco desdentada que não baixa a cabeça, que não aceita subserviências, gosta de fazer o que lhe dá na real gana.

Esta cidade pode muito bem ser um Amor de Perdição.


 

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

O homem que serviu o último rei de Portugal

Estava aqui a tentar escrever algo potencialmente genial sobre um homem que veio de 1910, que serviu o último rei de Portugal, D. Manuel II. Era um viajante do tempo. 

Queria escrever sobre este homem que viajou até aos dias de hoje e que apelaria ao voto naquele que pensa ser o único candidato que poderá recuperar o antigo e glorioso regime - apesar do país ser um estado de direito, democrático do qual ele se envergonha e abomina, naturalmente. Seria a história distópica de um homem que serviu o malogrado D. Manuel II bem como o seu pai, D.Carlos, e que depois viu em Salazar uma "espécie de mal menor" para a nação que tentou - vá lá - restabelecer respeito e bons costumes no nosso país. Também passaria por Lisboa em 1974 - obviamente um anno horribilis para o nosso monárquico que veio do passado - sendo quase atropelado por um dos tanques dos capitães. 

Queria mesmo escrever a história distópica deste homem que veio do passado e que serviu o último rei de Portugal e que queria um país para os portugueses, sem miscigenações perversas, sem emigrantes de longitudes estranhas, sem a ilusão do poder do escolha, porque acredita que o povo é iletrado e ignorante. Este homem que idolatra Paiva Couceiro e abomina Afonso Costa e toda a "corja republicana" consequente iria apelar ao voto no único candidato ultra-conservador poderia devolver Portugal aos portugueses. E talvez - talvez - ainda haja a esperança de reintroduzir a monarquia em Portugal e assim recuperar as antigas colónias.

Mas, por um motivo qualquer que me transcende, não consegui escrever ainda esta ficção para vosso gáudio e entretenimento. Fica aqui, no entanto, esta promessa de voltar a esta bela história de Bernardo Leal, o homem que serviu o último rei de Portugal.

quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Judas Iscariotes

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na minha cabeça, acontecem-me sempre coisas fixes em dias ímpares. É este o padrão. Em dias pares a coisa anda mais enviesada como se costuma dizer. Quero chamar à atenção do leitor que sou muito rigoroso e metódico nestas auto-observações (...). 

É claro que esta introdução foi inventada só para atrair a vossa atenção. 

Ou seja, esta introdução foi verdadeira durante 10 segundos, depois confessei a sua falsidade. E é sempre uma questão de perspectiva, não é? Ou de tempo, até se descobrir a verdade. Procuramos todos isso, a Verdade. 

Tenho pensado ultimamente em Judas Iscariotes e nas diversas teorias que existem à volta deste apóstolo. Será que a Crucificação de Jesus teria sido possível sem a alegada traição de Judas? Quero pensar que Judas não foi um erro de casting. A propósito, "Judas" significa (Yehudah) e significa "louvor a Deus" ou "agradecimento". Há uma consistente teoria que diz que Jesus pediu a Judas para o denunciar e que ele, Judas, não se enforcou de arrependimento. Partiu para o deserto em modo de auto-exílio e aí morreu. Santificou-se no deserto e não foi traidor. Por outro lado, Pedro, o "primeiro" de Jesus, também o negou três vezes, de acordo com o Novo Testamento. E Pedro será sempre Pedro. Isto confere a estes dois apóstolos um carácter muito, muito humano.

As camadas que nos revestem são espessas e cinzentas. As coisas tornam-se turvas, às vezes. Pedimos alguma luz e esclarecimento (evitei usar a palavra "iluminação" aqui) mas tarda a chegar. 

Tal como disse no início, hoje começou por ser um dia par. Mas também posso acabar por me sentir como se fosse um dia ímpar. 

Quero pensar que o Amor é sempre a constante inquestionável da equação complexa a que chamamos Vida. 

 

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Sábado à tarde

Há duas coisas sensoriais que me lembro dos sábados de tarde: o cheiro forte a óleo de cedro e o som interminável de uma chave a ser introduzida na fechadura da nossa porta. A minha mãe incumbia-me de aspirar a casa com um aspirador Sanyo. Era amarelo e preto e parecia uma nave especial doméstica. Era bastante competente a aspirar, posso dizê-lo. Depois tinha de limpar os móveis da sala com óleo de cedro. Talvez não fosse tão bom porque não conseguia fazê-lo como deve ser. Creio que já estava a antecipar a chegada do meu pai. A antever.
Parava de limpar e tremia durante um bom bocado. Depois olhava pela janela. Tremia outra vez. E era assim durante uma boa meia-hora ou mais, porque sabia mais ou menos quando é que meu pai iria chegar.
O tempo que o meu pai usava para tentar meter a chave na porta seria proporcional ao "tempo de qualidade" desse sábado à noite. 
Lembro-me da minha mãe dizer invariavelmente:
"Vamos ter festa".
Na esmagadora maioria das vezes, esta profecia estava certa. 


sábado, janeiro 31, 2026

Tormenta

Tenho mais cada vez mais a impressão que a nossa vida tem uma forma helicoidal, uma cadeia em espiral. Mais ou menos como o nosso ADN. Às vezes tombámos, deparámo-nos com algo de traumático ao qual o nosso ego se cola como se fosse velcro, mas, por outro lado, o acaso ou a vida em si acaba sempre por proporcionar conforto, amor, segurança. Há que desobstruir a mente. Ou seja, expandimos e contraímos como a espiral que não pára de girar em si mesma. Como a via láctea, como o próprio universo.

Lembrei-me agora da fluidez que é necessária para contornar a tormenta. Acabei de ver árvores tombadas por força da depressão que assolou a região de Leiria e pensei que nem sempre adianta estar "bem enraizado", bem ancorado. 

Naturalmente as árvores não se mexem, não se locomovem como nós. Uma lapalissada, eu sei. O Homem tem a capacidade para se desviar, para usar do movimento, da fluidez, temos aqui uma vantagem. Creio que isso também se pode aplicar ao intelecto e à dinâmica das emoções. Não devemos estagnar, não fomos feitos para ficamos no mesmo local (seja físico seja emocional). Vamos dançar, vamos correr, vamos fazer algo.

- Vem aí uma depressão, uma forte tempestade, mau tempo, o trauma beija-me a testa outra vez, o corpo paralisa, oh não, e agora o que vou fazer? 

"Keep going", como aconselha essa T-shirt. Em caso de dúvida, continua, sem olhar para trás. Atrás de uma montanha há sempre outra montanha. 

Hmmm. Isto é a coisa mais zen que eu escrevi este ano que ainda mal começou. 

quarta-feira, janeiro 28, 2026

Coração

Se somos uma série de recomeços, cada instante é uma oportunidade de recomeçar. Pode ser muito turvo às vezes. A ilusão - que também pode se mascarar de ilusão - pode ser muito desafiante e enganadora. O medo pode surgir e limitar o nosso horizonte. Oops. Aí vem ele, cuidado, um bichinho chamado desespero ou desesperança. Vamos dançar com ele. Também ele quer se visto. Que passos é que ele nos quer mostrar? A criança que não foi escutada, que foi  negligenciada? O adolescente que foi vitima de bullying? Um amor adulto intenso não correspondido? A perda de trabalho?

Não queria ir para este tipo de registo fácil, mas hoje o meu coração pediu-me. E como diz Tamaro (eu sei, eu sei), "vai onde te leva o coração".  

Há aqui uma torção, uma força do universo a acontecer que ainda não vislumbrei totalmente. 

Sentir. 

domingo, janeiro 25, 2026

A escarradeira


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na casa dos meus avós havia muitos objectos antigos e cheios de melancolia. A sala cheirava quase sempre a mofo por causa do velho soalho em madeira. Lembro-me bem da televisão de válvulas enorme que parecia comandar os outros objectos quando ninguém estava a ver. Havia uma fotografia a preto e branco da família real britânica dos anos 50. A rainha Isabel II deveria ter 18 anos nessa foto. Não me perguntem porque é que tinhamos essa foto pendurada, não somos ingleses. 

Mas o objecto que tenho mais presente era a escarradeira em esmalte do meu avô que mantinha sempre ao lado da cama. Era branca, redonda, muito bonita, com ramos e flores entrelaçados, cheios de volteios. O meu avô tossia muito durante a noite. No dia seguinte, a minha avó despejava o líquido espesso e multicolor nos vasos das janelas. Ela dizia que as "rainhas-da-sala" cresciam mais bonitas e viçosas e tinha razão. A dada altura, o quarto do meu avô parecia uma pequena selva (eles dormiam em quartos separados, não porque estavam chateados mas porque era mais confortável). 

Quando cresci um pouco mais, achava aquilo meio repugnante mas não me atrevia a contrariá-los, tanto eu como a minha mãe.  Agora penso que aquilo funcionava como um ritual de passagem, de transmutação, se quiserem. A partir de um caldo bacterial, meio pútrido, era possível dar vida a algo belo como uma planta ou uma flor.  E eu creio que, no fundo, os meus avós também sabiam disso.