Eurico sabia que não poderia partilhar a sua “condição” com muitas pessoas. Sabia que muitas não iriam compreender a sua angústia. Mesmo o seu terapeuta achava que o seu transtorno estava relacionado com a sua infância difícil. Como quase todos os transtornos e condições psicológicas. Mas Eurico tinha a inabalável convicção que esta sua peculiaridade era única e muito especial. Naturalmente, revirou a Web para tentar encontrar especialistas que o ajudassem a saber lidar com os pensamentos que tinha. Sem grande resultado. No Inverno era sempre pior; a falta de luz solar e a chuva constante pioravam a coisa ao ponto de Eurico não conseguir sair da cama.
Não, não era depressão. Embora esta sua condição pudesse gerar alguma depressividade, Eurico era um tipo afável, social, uma “pessoa de pessoas” como se costuma dizer. Mas afinal - perguntam vocês – qual era o problema de Eurico?
Tudo começou há cerca de oito anos quando Eurico estava a ir para a aldeia dos pais para passar o fim-de-semana. Fazia-o pelo menos uma vez por mês, gostava de pensar que mais adiante na sua vida, iria escolher mudar-se para a aldeia, adorava a vida bucólica. Esqueci-me de dizer que Eurico era designer gráfico, embora não tenha grande relevância para a história.
Havia duas estradas para chegar à aldeia. Nessa sexta-feira, Eurico decidiu conduzir pela estrada da velha ponte. A recta final da estrada era ladeada por velhos plátanos cujos ramos se tocavam no alto formando um cinematográfico túnel verde. Eurico reduziu a velocidade do seu clássico Mercedes 190D para apreciar o entorno. Antes de atravessar a velha ponte de pedra, Eurico foi assolado por um pensamento estranho:
“E se conseguisse destruir a ponte apenas com o poder da mente?”
Não estava ninguém atrás de si, Eurico parou o carro por instantes. A velha ponte continuava de pé como sempre esteve durante anos. Do outro lado, aproximava-se lentamente um carro que vinha da aldeia. O designer sorriu perante o pensamento. "A vida era boa", pensou a seguir. No momento que Eurico acelera, um enorme estrondo ecoa por todo vale e, passados alguns segundos, a ponte colapsa à sua frente, levantando uma coluna de fumo sobre o riacho.
Escusado será dizer, a vida de Eurico mudou nesse dia. Nunca mais atravessou pontes ou túneis com medo que acontecesse de novo o que ocorreu nessa fatídica sexta-feira. O trauma instalou-se no seu corpo ao ponto de se recusar ver filmes ou telejornais. E tudo - assim acreditava Eurico - por causa do tal "pensamento mágico".
Mas, e para quem não sabe, há 39% de probabilidades de aparecerem pontes em filmes ou telejornais.
Podem verificar estes e mais dados no Pordata.


