Uma boa parte das histórias que escrevo é quase sempre sobre mim. Às vezes até podem ser sobre outras pessoas, mas na maioria das vezes estes símbolos escritos que lêem é sobre a minha pessoa. Isso faz de mim um egocêntrico? Ou pior, um narcisista? Será que todos os ditos escritores são narcisistas? Segundo Ovídeo, Narciso era tão belo que desprezava todo o amor que lhe davam, fosse homem ou mulher. Ao debruçar-se num lago límpido para beber água, Narciso viu o seu reflexo pela primeira vez e fica paralisado de amor por si mesmo. Morreu de fome e sede.
Ora bem, talvez haja uma percentagem de narcisismo aqui. No lugar onde me encontro, neste momento (seja lá o que isto queira dizer). As palavras são um reflexo de mim. Mas sei - em minha defesa - que posso ser muito abnegado e empático como os argonautas.
Sim, eu sei, estou muito clássico hoje.
Estou quase convencido (o meu ascendente Balança/Libra favorece a procura do equilíbrio, mas também gera dúvida, hesitação) que sou uma variante de Hércules com os meus "12 trabalhos". Não tão musculado, talvez.
É claro que a Hidra, o Javali de Erimanto, o Leão de Nimeia, a trupe toda, estão todos dentro da minha cabeça. São seres que metem medo, mas não passam de fabrições do inconsciente. Será que o Hércules era um neurótico, um "sobre pensador" (overthinker em inglês)?
Uma das tarefas de Hércules consistia em limpar num dia os currais do rei Augias que tinha três mil bois e que há trinta anos não eram limpos. Estavam tão fedorentos que exalavam um gás mortal. Hércules teve de desviar dois rios para os limpar.
E é esta a tarefa de Hércules que mais me revejo: limpar e voltar a limpar os estábulos da minha mente que exalam gases fedorentos, nem que para isso tenha de desviar o rio Douro.
Sim senhor, tal pode constituir uma tarefa verdadeiramente "hercúlea".



