sábado, maio 16, 2026

O malaio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje conheci um malaio que possuía aquilo que antigamente de chamava de "verve". 
Usava um chapéu panamá, camisa de linho e parecia mais jovem quando falava um inglês muito BBC.
Muito eloquente, tinha um jeito elegante, cavalheiresco, encadeava assuntos com a maior das facilidades, era um humanista agnóstico, interessava-se por tudo. Parecia saído de um romance do Lawrence Durrell.
Ele e um dinamarquês muito dinamarquês sentaram-se ao meu lado durante o almoço numa quinta perdida no Douro, o homem ia celebrar o 70º aniversário para a semana, a conversa e o vinho fluíam muito bem.

Aprendi com ele (e com a filha que também era muito rápida) que as línguas portuguesa e malaia possuem palavras muito semelhantes. Malaca, ou “Melaka” em malaio, foi uma base importante para a expansão portuguesa nas Índias Orientais no século XVI, o temível Afonso de Albuquerque tomou conta daquele importante entreposto comercial. Chineses, ingleses, holandeses, todos queriam apoderar-se daquela cidade de localização privilegiada - o estreito de Malaca (em malaio Selat Melaka) era e é a principal passagem marítima entre os oceanos Índico e Pacífico. O Trump esteve a ler História de Portugal, é por demais evidente. 
Bom, mas eis algumas das palavras:
Meja (mesa), kerusi (cadeira), lemari / almari (armário), sabun (sabão), tuala (toalha), keju (queijo), garfu (garfo), Gereja (igreja), sekolah (escola), bendera (bandeira), etc. 

Mas apanhei-o na curva, como se costuma dizer, quando comecei a falar de música com o dinamarquês que se mostrou-se surpreendido quando lhe disse que conhecia os D:A:D (sigla para Disneyland After Dark), uma respeitadíssima instituição rock na Dinamarca. É claro que o septuagenário malaio quis brilhar e quis dizer o nome de uma outra banda dinamarquesa cujo nome era "longo e impronunciável", o homem queria lembrar-se do nome mas não conseguia. Ficou claro que a tal banda não existia. Eu e o dinamarquês entreolhamo-nos e lemos os balões de pensamento um do outro:
"Finalmente apanhamos o velho".
Estava a ver que não, o Afonso de Albuquerque se fosse vivo teria tido orgulho de mim.

quinta-feira, maio 14, 2026

Trabalho


Parece que estive todo o dia em jet lag e, no entanto, não saí deste Jardim Atlântico. Sete pessoas hoje para o vale do Douro que estava lindíssimo. 1 casal jovem, 1 casal idoso e uma família japonesa. Pu-los logo em sentido de manhã principalmente ao mais velho, antigo farmacêutico, era muito parecido com o capitão von Trapp. Faziam as perguntas do costume, sempre impressionados com o meu elevado nível de Inglês. Eu culpo sempre os Westerns que via em miúdo e o rock que ainda consumo. Os japoneses viviam em Nova Iorque. Brilhei um pouco com algumas palavras básicas. Alguma neura porque não corresponderam às minhas expectativas, revelaram-se todos bastante previsíveis. Vou agora para as aulas. Gosto dos meus colegas. São boas pessoas. Quem diria que iria voltar a sentar-me numa sala de aula.

Mas, sim, mudei um pouco desde o primeiro dia de escola há quarenta anos.

quarta-feira, maio 13, 2026

Mulheres

Acredito que tal como alguns países ao longo da História, há mulheres que não podem ser conquistadas. Podem ser ocupadas, por exemplo, mas não podem ser conquistadas. Por motivos religiosos, na maioria das vezes. 

"Isto agora é meu." Aqui não resulta. 

Vou chamar-lhes "Mulheres-Índia". Saris e olhos negros profundos. Quando são muito bonitas, elas não são deste mundo. 

Por outro lado, há mulheres que podem ser tocadas, insinuar uma tentativa de conquista, haver trocas (humm), mas não podem ser conquistadas. A sua arte, a sua cosmovisão, o seu combate, são tão diferentes do homem que tal empresa se afigura como quase impossível. Diferentes motivos das primeiras, porém. Distanciamento permanente. Aparentam submissão. As "Mulheres-Japão". 

Depois há as mulheres que se permitiram a tudo isso e mais além. Miscigenação completa. Uso da força no inicio, mas depois houve uma fusão, uma aglomeração, uma sedução. A "Mulher-Brasil". Uma certa rebeldia muito sedutora, tremendamente musical.

Finalmente, a "Mulher-África". Relação muito desigual, definida logo no começo da relação. Abuso. Passividade. Mas depois dá-se um processo inverso curioso de colonização do homem. O sexo é tão natural como comer e dançar. 

terça-feira, maio 12, 2026

Tango para 2

Estou convencido de que para escrever um história de fôlego, um romance, por exemplo, temos que extenuar o leitor para o depois resgatar. É uma "fórmula" que é utilizada constantemente pelos ditos grandes escritores.

Poderia escrever, por exemplo, a história de dois amantes que vivem num dos muitos subúrbios de Buenos Aires em que ele, para sobreviver, tem que dançar tango todas as noites. Não seria apenas uma necessidade psicológica, seria também uma necessidade física, visceral. Fá-lo de forma inconsciente, precisa do contacto, precisa de várias parceiras para manter uma espécie de sanidade mental. De dia, hiberna, não tem trabalho. O tango salva-o todas as noites de si mesmo. É um ciclo que deseja manter até se redimir.

"E ela, a amante, quando vais falar dela?", poderão perguntar.

"Ela espera por ele? Porque é que ela não o acompanha nessas intermináveis milongas? Ela tem outros homens, outros parceiros?"

Teria de vos cansar ainda mais, falando, caracterizando-o ad nauseum para depois finalmente começar a falar dela, do que ela pensa e sente.

E vocês? Como é que acham que a história poderá se desenvolver a partir daqui?

domingo, maio 10, 2026

Arroz de marisco

Embrenhado no que ando ainda a investigar, arquitectura religiosa de Entre-Douro e Minho, sinto que tenho de diminuir a passada mental; a minha cabeça parece que tem batentes de metal por fora que são usados de forma compulsiva. Como sou um ser espiritual (todos somos na verdade), acredito que sejam os meus mentores ou obsessores que gostam de me bater com força ou delicadeza, dependendo do lado. Isto até poderia ser uma boa imagem ou metáfora se não fosse verdade.

Uma das coisas em que estou a ficar bom nos últimos tempos é reconhecer ou prever que determinado encontro/reunião/serviço/jantar vai correr mal. Foi o que aconteceu ontem. Fui convidado para um jantar de amigos (um evento suburbano e familiar, muito entediante) e respondi à altura do meu anfitrião que é o tipo mais passivo-agressivo que conheço. Respondi com agressividade, nada passiva, creio que já estava um pouco "tocado" e o ambiente ficou chato. Tudo por causa dos miúdos que se chatearam. Não tenho paciência para adultos que ainda não cresceram. Além disso, o tipo tem uma risada que parece uma ratazana a ser atropelada. Cerrei tanto os dentes que quase ia partindo os incisivos.

Dizem que somos espelhos uns dos outros, não é? Talvez o tipo, o dono da casa, cumpra aqui uma função: talvez seja um reflexo de um espelho emocional retorcido que tenho dentro de mim e que preciso de trabalhar. Ou isso, ou é apenas um tipo irritante. 

O arroz de marisco estava bom, no entanto.




quinta-feira, maio 07, 2026

Carlos Alberto

Tudo regressou em força hoje. Quase tudo.

Uma mensagem forte e emotiva da minha irmã relacionada com o drama que a família vive há cerca de um ano. Um feudo familiar. Dinheiros, partilhas. Nada de novo. Sensação de tontura e vertigem na Costa Nova. Como se um fuso energético se abrisse no meio do cocuruto - uma palavra bonita para se utilizar nestas ocasiões. 

Revisitar a infância. Uma das clientes é amiga da minha mãe, uma mulher que já foi linda e agora sofre de artrite reumatoide. Já não nos víamos há quase trinta anos. Ela fala inocentemente sobre episódios daquelas ruas onde tudo aconteceu, onde tudo nos aconteceu. A ela, aos filhos, aos homens daquela época, à vida difícil que passou. Antigamente chamava-se Monte dos Judeus e deve haver ali um geokarma, um vórtice dimensional naquele lugar onde as vidas eram difíceis, de conflito, de permanente tensão. Deu para abalar um pouco a minha fundação. O dinheiro não é tudo, às vezes. Despedimo-nos com dois beijos, com a promessa de nos voltarmos a ver. 

Amanhã vou falar do príncipe Carlos Alberto na minha última apresentação de escola. 
Quem foi Carlos Alberto, perguntam?
Foi um príncipe real da Sardenha que perdeu a Batalha de Novara em 1848 contra os austríacos e que se exilou no Porto, com o nome de Conde de Barge, não queria ser reconhecido pelo povo. Não adiantou muito. O seu aspecto abatido e infeliz comoveu os portuenses. Era uma celebridade na época, foi recebido com honrarias. Ficou no Palacete dos Visconde de Balsemão durante 1 semana. Até o Paço Episcopal e o barão de Forrester lhe ofereceram casa. Mudou-se para a Quinta das Macieiras, actuais jardins do Palácio Cristal. Morreu ao fim de quatro meses, muito debilitado. 
A sua meia irmã Frederica Augusta de Montleart, uma mulher com um carácter desconcertante, mandou erigir a Capela em 1854. Demorou sete anos a ser construída com muitos avanços e recuos, à boa maneira portuguesa. Foi inaugurada em 25 de Dezembro de 1861. Sete anos (!) para construir um bonito cenotáfio (monumento ou túmulo funerário erguido em memória de uma pessoa cujos restos mortais estão noutro lado). 

Para terem uma ideia, a ponte ferroviária Maria Pia demorou ano e meio a ser construída. A propósito de Maria Pia, a tal princesa Frederica doou a capela a D. Luís que viria a casar-se com D. Maria Pia de Sabóia, neta de Carlos Alberto.
 

quarta-feira, maio 06, 2026

Brilhante e conveniente

"Brilhante e conveniente".

Leio isto na sweater de dois homens ao balcão deste café. Falam de futebol, claro. É a designação comercial de uma empresa de construção. Tudo indica que também pode ser um sinal do universo para mim.