"Brilhante e conveniente".
Leio isto na sweater de dois homens ao balcão deste café. Falam de futebol, claro. É a designação comercial de uma empresa de construção. Tudo indica que também pode ser um sinal do universo para mim.
amapedro@gmail.com | "Nunc est bibendum" - Horácio
"Brilhante e conveniente".
Leio isto na sweater de dois homens ao balcão deste café. Falam de futebol, claro. É a designação comercial de uma empresa de construção. Tudo indica que também pode ser um sinal do universo para mim.
O que é na verdade a estética, o belo?
O rocaille, o ultra barroco, o rococó é uma resposta lenta de Trento ao avanço racional e crítico do pensamento de Lutero. Não há vazio, não há lugar para o simples, para o essencial. É um vômito de cor, de curvas, de sensualidade (apelo aos sentidos, esmagamento quase). Foi assim que a igreja quis reconquistar as ovelhas tresmalhadas pelos protestantes. Na minha opinião, até poderia funcionar uma ou duas vezes, mas "o que é demais é moléstia" como diria a minha avó. Quando entro numa igreja barroca parece que desfaleço com o abarrotar lascivo de formas e cores. Parece que não há espaço para contemplar, para "ir para dentro" como poderia ocorrer num templo medievo românico, mais sóbrio, mais seco, menos sensual.
O barroco é pagão nesse sentido.
1. Ao colocar esta máscara todos os dias, veio-me à ideia que poderia ser um Batman local. Sofro da nobre e absurda intenção de querer ajudar todos os que pedem ajuda e ajudar os que não me pedem nada ("grande erro"); no final do dia, não sei muito bem como ajudar a mim próprio. O drama.
E é sempre assim, não é?
O Batman é um templário ao estilo comics que foi submetido - sem pedir nada a ninguém - a um ritual de iniciação terrível (morte dos pais) para bem da sua evolução. A partir deste episódio trágico, faz o caminho do guerreiro, desenvolve as suas capacidades supra-humanas para estar ao serviço. Encontrou-se, mas ainda tem de lutar contra os seus fantasmas de vez em quando, contra os seus Jokers e Green Goblins. Designações mais criativas e mais cool para querer dizer "neurastenias".
2. Arrasto pessoas para locais bonitos, porque me pagam para isso. É claro. Nos últimos tempos, é-me ainda mais evidente que apesar de sentir algum prazer naquilo faço (nem que seja pela exposição egóica em ser o centro de atenções que - pelos vistos - desejo inconscientemente), sinto que a balança está a cair cada vez mais para a necessidade em receber o chorudo soldo que me pagam em detrimento do dar a conhecer o país setentrional. Oops. Que falta de desígnio, P. Nenhum CEO ou chefe (os italianos chamam capo ao chefe, adoro) quer ouvir isto.
"Olhai os lírios do campo, olhai os belos terraços do Douro". «clique». Face. Insta. Like.
3. Sinto que devo fazer um agradecimento público ao ex-presidente do Conselho, Dr. António Oliveira Salazar. Devo muito da minha brilhante carreira profissional a este homem que está cada vez mais no coração dos portugueses.
Porquê?
Porque sinto que brilho mais quando falo sobre o Estado Novo e Abril aos turistas. Sem a existência de um homem chamado Oliveira Salazar, tal não seria possível. O Universo conspirou para que Salazar existisse para o meu bem, para a minha apoteose profissional. E brindou-nos recentemente com um novo (mais pequenino) Salazar. Os guias futuros vão agradecer também, espero.
"Oh my God, are talking serious right now? We have now our own Salazar, you know", é quase sempre a resposta dos americanos, coitados.
Uma senhora pede um livro ao funcionário da biblioteca. Uns minutos vem outro funcionário, mais velho do que o primeiro, que repete o título de livro à mulher.
- Queria o livro o Beco da Memória?
- Não, diz a mulher. Quero o Eco da Memória.
- Ah, estava a ver. O Eco da Memória! Não é o Beco.
O primeiro funcionário olha impassível para o colega. Este olhou-o com um ar paternalista quando repetiu o nome corrigido do livro à mulher.
Se calhar, na cabeça do primeiro funcionário, faria mais o sentido se o título fosse o "beco da memória" em vez do "eco da memória". Seria talvez um título mais adequado para um livro. "O beco" soa mais real, mais urbano, talvez mais existencialista. O outro, o que a mulher pretendia requisitar, é talvez mais pretensioso, mais intelectual, logo, menos interessante.
A minha memória, por exemplo. Ela tem ecos que ecoam nos becos que a habitam. Como em quase todos nós, creio.
Mas também quem se lembra de pedir um livro chamado "O Eco da Memória"?
Curiosa excursão ao Douro a de ontem. Os 8 turistas poderiam ser personagens-tipo de uma peça de um moderno Gil Vicente. Fiquei extenuado no fim.
Vamos começar pelos velhos aliados. Um casal sexagenário de Liverpool. A senhora era a mais alegre e a mais tontinha do grupo, era irritante mas de uma forma perfeita, sem nada a apontar no seu sotaque musical de Mersey. Eu acenava-lhe com a cabeça mas às vezes não percebia o que estava a tentar dizer e respondia-lhe "it is, isn't it?". Funcionava. Tinha sempre uma história aborrecida qualquer para contar. O marido também ficava algo constrangido; ele era o mais estudioso do grupo, tinha sido inspector de segurança em edifícios. Era muito conhecedor de vinhos e estabeleceu um paralelismo da toponímia Gal (Portus + Cale/Gal) com outros pontos célticos do norte da europa. Aqui o guia já tinha lido isto (claro) mas foi bom escutar pela boca de um turista. Normalmente só falam do quanto amam as natas e os azulejos.
O casal russo de Boston. Já estavam algo americanizados. Muito fechados e secos durante a apresentação. Ele mais do que ela. Ela poderia ter sido uma modelo, era esbelta, delgada. Parecia uma aleanígena no Douro profundo. A mais observadora do grupo. Começou a sorrir depois de uns tragos de Porto. À mesa, o homem revelou ser maratonista, tinha participado em várias provas, não comia carne e tinha um discurso muito funcional, parecia escolher as palavras todas antes de se pronunciar sobre algo. Era um russo americanizado muito bem parecido, de queixada forte mas com um olhar terno, paciente.
O casal jovem de Seattle. O moço era o mais jovial do grupo, o "ice-breaker". Tinha sempre uma expressão jocosa para tudo. Ocorreu-me que poderia ser a minha versão norte-americana mas ainda mais "goofy". Trabalhava na Amazon, claro. Um gajo porreiro mas que poderia se tornar chato passadas duas horas. Tinha a mesma voz do Seth Rogan. A namorada era a menos interessante do grupo. Não se destacava por nada em especial. Estava sempre a perder o seu creme hidratante que tinha uma planta qualquer de Madagáscar.
- Pausa para respirarem e irem ao WC -
Já está?
Let's go.
Também só me falta um casal, não vos vai custar nada. Mais outro casal jovem europeu. Viviam em Bona. Ele era alemão, muito alemão. Ficou muito rubro, muito falante ao fim de umas copadas. Os alemães quando bebem acham que são muito engraçados, mas o sentido de humor deles é um pouco básico. Mais ou menos como os espanhóis. A namorada era da Roménia, já vivia na Alemanha há algum tempo. Não era feia nem bonita. Tinha, no entanto, um corpo incrível e era muito simpática, sorria com o rosto todo. Quando lhe disse que estava a ler Mircea Eliade, quase que me abraçava e raptava.
No fim, gratificação choruda de 5 euros por parte do Ian, o senhor de Liverpool.
Tenho para mim (não gostava de ter tanta coisa para mim, na verdade) que Portugal e os portugueses suportaram 42 anos de ditadura para poder fazer uma revolução grandiosa, bonita, com flores. Se tivessem vivido apenas cinco anos de totalitarismo, o efeito do 25 de abril não teria sido tão espectacular. Ainda por cima uma revolução orquestrada por tenentes e capitães! São os meus postos militares favoritos. Mais acima disto - coronel, brigadeiro, general etc - é estar de conluio com o poder instituído. Há honrosas excepções, claro.
Não consigo encontrar nada mais português do que isto. É como marcar o golo do título no minuto 90+7.
(Um apontamento futebolístico de fino recorte aqui)
"Vamos esperar mais um aninho. Depois é que vai ser. O Caetano não é igual ao Salazar. Mais um pouco. Vai acontecer."
De certa forma os poetas e os músicos também precisam de uma ditadura de vez em quando. Compor apenas canções e poemas de amor acaba por ser tornar aborrecido.
Bom. Cravos na lapela amanhã.
Gostava de ter o super-poder de ver as "coisas tais como elas são". O que leva alguém a ficar iluminado ou - vá - esclarecido? Um acidente, uma certa inocência, um vislumbre divino, uma doença muito grave? Parece que tem de ser incluído algum sofrimento na equação para ver a Luz. Talvez ainda isto não passe de elaboradas ilusões do Ego para abrandar o processo que se iniciou no nosso nascimento. Chamem-me louco (por favor) mas eu acho que escolhemos esta vida antes de aterrarmos neste enorme e belo berlinde azul.
Estou em Fátima em serviço (e ao serviço ao que parece), guio as pessoas para aqui, contando a versão oficial das aparições Marianas. Se eu acredito? Respondo com esta resposta: é mais vago, mais fácil, mais cómodo dizer que não se acredita. E usa-se de uma certa presunção quando fazemos isto.
O estudo dos eventos reais é muito mais substantivo (e prazeroso) se nos dermos ao trabalho de o fazer.
Fica para outra oportunidade, para outro texto incrível.