segunda-feira, abril 06, 2026

Cabras

Quando chega o Verão mesmo a sério, sinto-me com vontade de usar o meu boné de marinheiro, vestir uma camiseta às riscas e viajar num pequeno veleiro pelo Pacífico Sul. Levaria um velho gramofone para ouvir árias italianas enquanto manuseava as cordas e a vela. Bebia muito vermute e rum puro enquanto apreciava o magnífico coucher de soleil e sonhava de olhos abertos com velhas e futuras conquistas amorosas.  Talvez me maquilhasse para os espadartes ou golfinhos que dão incríveis saltos só para impressionar. Não consigo encontrar um motivo pelo qual não deva ou possa fazê-lo.

Enquanto esta fantasia não acontecesse, tento gerir lembranças do ano passado que me vêm bater à porta da minha cabeça como não quer a coisa. Vou chamar a essas lembranças de "cabras" porque balem como cabras e parece que me mastigam a moleirinha. Não é esse sentido da palavra que o leitor(a) mais mundano estava a pensar. Estou a referir-me mesmo aos caprinos que são um chatos e devoram tudo por onde passam, toda a gente sabe disso. Estas lembranças e alguns pensamentos são assim, saltam à minha frente, dão pinotes e já não têm pudor ou vergonha. Não me pedem autorização, limitam-se a surgir, assim do nada. As cabras são velhacas como dizia a minha avó. 

São Francisco não gostava de formigas (era o único bicho com o qual não simpatizava), já eu não sou santo e não gosto de cabras ou bodes. Cheiram mal. Não deixa de ser engraçado falar em santos, porque tenho à minha frente outro franciscano, uma pequena estatueta de outro santo, o Nando de Gusmões que mais tarde viria a ser conhecido como Santo António de Lisboa (ou de Pádua, mas ele só esteve em Itália em trabalho). Gosto muito dos dois porque acredito que também iriam gostar de viajar pelo Pacífico Sul comigo. Imaginem o que é ter os dois a conversarem um com o outro sobre os Evangelhos ou outra coisa qualquer, a porem Piz Buin na careca para se protegerem do sol, enquanto bebericava aquilo que diziam juntamente com o meu Martini. Que incrível seria.

Mas voltando às ditas cabras. São indelicadas e tem um olhar estranho, ausente. Às vezes parece que me dão coices dentro da cabeça com aqueles terríveis cascos e abanam-me todo durante alguns momentos. Fico um pouco mal, a sério. Quase, quase que dissocio. Eu sei que o meu mundo de associações é um pouco bizarro, mas alguns de nós tem essa capacidade, a de ser bizarro. Só está ao alcance de uns happy few. Não posso tentar prender as cabras com uma corda, seria pior a emenda do que o soneto. Vou deixá-las ruminar e balir pelo tempo que quiserem. Eventualmente vão acabar por ir à vidinha deles e eu vou voltar a sonhar com o Pacífico Sul e os santos.

 

sábado, abril 04, 2026

Touro e toureiro


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tenho um touro e um toureiro na minha cabeça. 

Um touro miura que representa os meus instintos mais primitivos, a minha força impulsiva, se quiserem. A minha cabeça é uma arena onde esse touro irrompe e investe contra quase tudo que lhe faça frente. O impulso do Inconsciente vem à luz do Consciente. A sombra é exposta à luz da arena. Aparece então o meu matador com o seu brilhante traje de luces. Ele não o despreza, o matador respeita a força bruta do animal e tenta dançar com ele. Fora da arena, ele tenta viver de forma normativa, pela regra, pelo instituído. É mais um no meio de milhões. Mas aqui ele enfrenta os seus medos e pulsões personificados naquele animal bestial que pode trucidá-lo a qualquer momento. 

O meu toureiro não foge; ele olha o touro no fundo dos olhos. Tenta "governá-lo", submetê-lo. A dança continua. O animal bruto já não parece tão assustador. A capa vermelha esvoaça graciosamente como se fosse uma enorme borboleta vermelha e rosa. 


quinta-feira, março 26, 2026

Um Bosque Encantado

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A lua aparece minguante, a sombra rodeia-me como se não houvesse amanhã - aliás, o seu objectivo era mesmo esse, fazer com que tivesse a sensação que não houvesse amanhã. Abraça-me e abafa-me. Enquanto caminho neste bosque encantado chamado Vida, meto-me às vezes por veredas, por senderos (adoro usar o espanhol) que parecem muito assustadores, muito sombrios. Ou melhor, o meu Ego continua a repetir-me vezes sem conta que "são assustadores". É um caminho cheio de espinhos, de covas ocultas, de lobos terríveis que me ameaçam entre velhas árvores retorcidas. São criaturas insidiosas que não me olham de frente, é sempre de lado, mas que de alguma forma parecem atingir na mouche o meu inconsciente. 

Às vezes, parece que esse medo nem sequer é meu, parece ancestral, que atravessa eras. A terapia mais estóica diz para observar, para não me envolver passionalmente, para "assinalar" e deixar passar esses animais de charme obscuro que usam espelhos côncavos e convexos (à moda da Feira Popular) para retorcer o meu reflexo. Eu digo: é como se fosse um cérebro que tenta ser mais lúcido e consciente a olhar para um cérebro que é mais sombra, mais primitivo. 

E qual é a alternativa, meus caros?

Caminhar, continuar a caminhar pelo bosque encantado chamado Vida até encontrar algumas clareiras e ver ou escutar passarinhos e passarinhas chilreantes. 

 

domingo, março 22, 2026

Dentes


 

 

 

 

 

 

 

 

Estou sentado na melhor mesa deste café a ler um livro que se chama "As Misteriosas Estruturas da Vida Emocional" escrito por um americano chamado Joseph LeDoux. É um neurocientista com bastante notoriedade na sua especialidade e, como isso não bastasse, é muito competente a tocar guitarra. Um verdadeiro homem do Renascimento moderno.

Mas não é sobre LeDoux que quero falar. Dentes, quero falar sobre dentes.

O empregado de mesa tem um comprido avental verde preso atrás por uma correntinha de latão e traz-me o meu copo de aguardente de ameixa. Este café-bar tem a melhor selecção de aguardentes e cachaças da cidade. Aliás, atrevo-me a dizer que é o único estabelecimento deste burgo que vende exclusivamente aguardentes e cachaças. Depois de provar a Engenho São Luís da qual me apaixonei da última vez que cá estive, mandei vir esta Rujanska que também me faz voar. O sujeito da mesa ao lado pousou os óculos sobre mesa e sorriu para mim como que a abençoar a minha escolha. Quando chegou há cerca de uma hora atrás tinha o ar mais miserável do mundo. O seu esgar de dor atroz tinha dado lugar a uma beatífica expressão de felicidade. 

Este café é muito frequentado por pessoas que sofrem de dores de dentes e que ficaram desiludidas com os dentistas. São muitos a sofrerem em silêncio. Eu conto-me como uma dessas pessoas que nunca teve muita sorte com os chamados odontologistas. Mas, como sabem - se não sabem, ficam a saber - bochechar aguardente atenua bastante as dores de dentes e desincha gengivas inflamadas. As pessoas preferem pagar por uma boa aguardente do que pagar por um mau dentista. Naturalmente, o que acontece é que depois de bochecharem aguardente acabam sempre por ingerir alguma.

É um café belle epoque muito bonito, talvez o mais bonito da cidade. Pequenas colunas jónicas no centro suportam o tecto de estuque decorado com volutas e arabescos. Numa sala à parte, podemos encontrar quadros antigos que retratam a excruciante arte de extracção de dentes. Dir-se-ia que é uma espécie de terapia para dessensibilizar o cliente quando este já se encontra bastante anestesiado pelo álcool ingerido. As mesas tem tampo de mármore rosa, as cadeiras estão forradas com couro verde; nota-se que o dono é um homem requintado de bom gosto. Já ouvi dizer que ele era um "torna-viagem", foi dentista no Brasil, fez algum dinheiro mas que teve um esgotamento com tantas reclamações de pacientes. Como gostava muito de cachaça, resolveu recuperar este café e o resto é história como se costuma dizer.


 

quarta-feira, março 18, 2026

A paciente

Isabela já era uma "habituée" naquele corredor do hospital. Conhecia todos os cantos, todas as máquinas, todos os clínicos daquele piso. Desde que deu entrada na unidade oncológica há cerca de um ano nunca mais olhou para trás, como se costuma dizer. Era bem tratada, era muito querida por todos, enfermeiros, auxiliares, pacientes. Especialmente entre aqueles que tinham casos mais avançados, ela sabia como tranquilizá-los, como "falar ao coração". Isabela era uma "paciente-voluntária profissional ", tinha um jeito natural com pessoas. O facto de ser extremamente bonita ajudava bastante; tinha uma beleza do tipo renascentista, quase etérea, inefável, como se fosse um semi-anjo no corpo de uma mulher. 

Isabela não sentia a mínima vontade em regressar para o mundo lá fora. Um mundo frio e inóspito. Aqui sabia com o que poderia contar. Sentia que o piso n.° 5 daquele hospital era agora o seu lar. 

Antes de ter dado entrada naquele unidade, Isabela esteve perdidamente apaixonada por um homem. Mas esse homem tratou-a mal. Nada de novo aqui. Não fora a primeira e certamente não será a última. Ficou arrasada, ao ponto de ter quase desistido de viver. A relação terminou. Pouco tempo depois. foi-lhe descoberto um tumor no peito. Internamento e operação. A intervenção correu muito bem, a "coisa" não metastasiou, foi removida com êxito.

Como Isabela era muito bela e muito carismática, foi-lhe proposto permanecer no melhor quarto com as melhores vistas, com todas as despesas pagas (alimentação incluída) acrescido de um passe especial que poderia usar nas máquinas de café e de vending daquela unidade hospitalar. Um convite irrecusável para esta mulher muito especial.

Havia apenas uma condição: teria de ficar no hospital durante 14 (catorze) meses seguidos. O contracto poderia ser renovado por igual período de tempo mediante acordo de ambas as partes.

sexta-feira, março 13, 2026

Nina e Estela

A estreia da ópera "Luigi Rolla" de Frederico Ricci realizou-se no Real Teatro de S. João no Porto em Março de 1856. Eu trabalhava como moço de recados no teatro, fazia tudo o que me pediam. Como sabem, actores e actrizes são muito "manientos", muito caprichosos; sendo apenas um miúdo a cair para o graúdo, as actrizes conversavam entre si como se eu não estivesse presente. Cheguei a pensar que faziam-no para me provocar, dado o teor de algumas conversas. No final de uma dessas récitas que o público do Porto achou enfadonha, com direito a gritos selvagens, de fazer arrepiar os doentes do vizinho hospital do Terço, escutei esta conversa entre Nina Barbieri e uma secundária chamada Estela:

"Seria melhor ter trazido uma vara, um pau bem grande para lhes dar naquelas cabeças destes bárbaros ululantes", disse Nina.
"Não me fales em pau grande que estou com saudade", respondeu Estela.
"Sabes o que me apetecia agora?"
"O quê, mulher?"
"Favas com chouriço. Morria agora por elas."
"Ai não me fales em chouriço. Sinto tanto a falta!"
"Credo mulher, Deus nosso senhor nos salve."
"O Lombardi anda doido por ti, já notaste não já?"
"Sim, já cá veio. Não te incomodes."
"Ah sua gaiteira. És pior que as rameiras ali de baixo."
"Não tenho remédio, amiga. Ele ameaça-me trocar pela galdéria da Virginia para o lugar de soprano."
"Sabes que..ele...também me deseja."
"Já estiveste com ele não já?"
"Sim... não tive escolha. E.. ele sabe fazer-me bem."
"É nosso então amiga. Não vamos partilhar com ninguém!"
"E o Rossi, o barítono? Já o esqueceste?"
"Quem?!"

As duas deram uma risada tão alta e tão sincera que me senti muito constrangido por estar ali. Depois olharam as duas para mim e trocaram entre si umas risadinhas abafadas.

No dia seguinte, no último dia do espectáculo, o público mostrou o seu apreço, aplaudindo-as com calor e chamando-as três vezes ao proscénio. Ao que parece, o empresário Lombardi cumpriu com o que lhes prometera. Deram 65 récitas nesse ano de 1856.

sábado, março 07, 2026

Felicidade

Acho que todas as pessoas desejam ser felizes. Mesmo aquelas que dizem que não merecem. Mesmo até aquelas que, para serem diferentes, dizem que gostam de se sentir miseráveis. That's bullshit, conversa da treta. Uma forma pateta de chamar a atenção do outro. No fundo, é claro que querem a felicidade. Por outro lado, há pessoas que não olham a meios para atingir a felicidade. 

Camélia finalmente conhecera um homem que a fazia feliz. Queria-o a seu lado, queria ir com ele para todo o lado, era o amor da sua vida. Sim, estava obcecada por ele. Depois de tantos casos falhados, de tantas desilusões amorosas, finalmente e quando menos esperava, o seu príncipe encantado chegara. Era alto, bem parecido, espadaúdo. Era técnico de som e falava inglês e checo (vivera em Praga alguns anos, teve uma namorada checa). Sabia fazer lindos e complexos origamis. Quando saía de casa de Camélia, deixava sempre um origami escondido numa divisão. Camélia nem queria acreditar que existia um homem assim. É claro que tinha um ou outro defeito - como toda a gente - mas o balanço era bastante positivo como se costuma dizer. 

Camélia adorava cozinhar para o seu amante. Gostava de se sentar ao seu lado enquanto o via a comer. Era um deleite vê-lo apreciar a sua comida. Gostava de passar a mão pelo seu peito, pelos ombros largos. Era mais forte do que ela, não conseguia resistir. O toque na sua pele, sentir aquele cheiro masculino ocre era fatal, um big turn-on como dizem agora. Mal acabava a refeição, iam para o quarto onde ouviam jazz e depois faziam amor. 

Uma bela história de amor como tantas outras, mas esta era especial, especialmente para Camélia.

A obsessão passional de Camélia crescia de dia para dia. Já não imaginava a sua vida sem aquele homem. Uma noite encheu-se coragem e perguntou-lhe aquilo que desejava há muito perguntar. Camélia já tinha aflorado o assunto há algum tempo, mas nunca se sentira suficientemente confiante para fazer o pedido formalmente.

- Amanhã queres vir comigo para o escritório? 

- Estava a ver que nunca mais perguntavas. Claro que sim, Camélia.

No dia seguinte, foram os dois juntos para a agência imobiliária onde Camélia trabalhava há quatro anos. Ela era uma das melhores vendedoras. Na secretária, havia um passepartout de Camélia com um ar confiante e de braços cruzados.
Ele sabia qual era a sua função, não seria preciso qualquer tipo de formação. 
Sentou-se na secretária e ela começou a acariciá-lo enquanto fazia telefonemas. Sempre que fosse possível e sempre que assim o desejasse, Camélia metia a mão dentro da camisa do seu amante para tocar e afagar o seu corpo másculo. A sua produtividade e as suas vendas aumentaram drasticamente. Camélia vendera três villas luxuosas no bairro mais caro da cidade no espaço de um mês. Por mais do que uma vez, Camélia levou o seu amante para a casa de banho onde acabaram por ir mais longe do que as simples carícias. Ninguém no escritório se atrevia a questionar tal comportamento, porque Camélia era uma "máquina de vender casas". No período de dois meses, foi promovida a chefe de vendas da agência.

Camélia tinha, finalmente, encontrado a felicidade.