sexta-feira, março 13, 2026

Nina e Estela

A estreia da ópera "Luigi Rolla" de Frederico Ricci realizou-se no Real Teatro de S. João no Porto em Março de 1856.

Eu trabalhava como moço de recados, fazia tudo o que me pediam. Como sabem, os actores e as actrizes são muito "manientos", muito caprichosos; sendo apenas um miúdo a cair para o graúdo, as actrizes conversavam entre si como se eu não estivesse presente. Cheguei a pensar que faziam-no para me provocar dado o teor de algumas conversas. No final de uma dessas récitas que o público do Porto achou enfadonha, com direito a gritos selvagens, de fazer arrepiar os doentes do vizinho hospital do Terço, escutei esta conversa entre Nina Barbieri e uma secundária chamada Estela:

"Seria melhor ter trazido uma vara, 1 pau bem grande para lhes dar naquelas cabeças destes bárbaros ululantes", disse Nina.
"Não me fales em pau grande que estou com saudade", respondeu Estela.
"Sabes o que me apetecia agora?"
"O quê, mulher?"
"Favas com chouriço. Morria agora por elas."
"Ai não me fales em chouriço. Sinto tanto a falta!"
"Credo mulher, Deus nosso senhor nos salve."
"O Lombardi anda doido por ti, já notaste não já?"
"Sim, já cá veio. Não te incomodes."
"Ah sua gaiteira. És pior que as rameiras ali de baixo."
"Não tenho remédio, amiga. Ele ameaça-me trocar pela galdéria da Virginia para o lugar de soprano."
"Sabes que..ele...também me deseja."
"Já estiveste com ele não já?"
"Sim... não tive escolha. E.. ele sabe fazer-me bem."
"É nosso então amiga. Não vamos partilhar com ninguém!"
"E o Rossi, o barítono? Já o esqueceste?"
"Quem?!"

As duas deram uma risada tão alta e tão sincera que me senti muito constrangido por estar ali. Depois olharam as duas para mim e trocaram entre si umas risadinhas abafadas.

No dia seguinte, no último dia do espectáculo, o público mostrou o seu apreço, aplaudindo-as com calor e chamando-as três vezes ao proscénio. Ao que parece, o empresário Lombardi cumpriu com o que lhes prometera. 

Deram 65 récitas nesse ano de 1856.

sábado, março 07, 2026

Felicidade

Acho que todas as pessoas desejam ser felizes. Mesmo aquelas que dizem que não merecem. Mesmo até aquelas que, para serem diferentes, dizem que gostam de se sentir miseráveis. That's bullshit, conversa da treta. Uma forma pateta de chamar a atenção do outro. No fundo, é claro que querem a felicidade. Por outro lado, há pessoas que não olham a meios para atingir a felicidade. 

Camélia finalmente conhecera um homem que a fazia feliz. Queria-o a seu lado, queria ir com ele para todo o lado, era o amor da sua vida. Sim, estava obcecada por ele. Depois de tantos casos falhados, de tantas desilusões amorosas, finalmente e quando menos esperava, o seu príncipe encantado chegara. Era alto, bem parecido, espadaúdo. Era técnico de som e falava inglês e checo (vivera em Praga alguns anos, teve uma namorada checa). Sabia fazer lindos e complexos origamis. Quando saía de casa de Camélia, deixava sempre um origami escondido numa divisão. Camélia nem queria acreditar que existia um homem assim. É claro que tinha um ou outro defeito - como toda a gente - mas o balanço era bastante positivo como se costuma dizer. 

Camélia adorava cozinhar para o seu amante. Gostava de se sentar ao seu lado enquanto o via a comer. Era um deleite vê-lo apreciar a sua comida. Gostava de passar a mão pelo seu peito, pelos ombros largos. Era mais forte do que ela, não conseguia resistir. O toque na sua pele, sentir aquele cheiro masculino ocre era fatal, um big turn-on como dizem agora. Mal acabava a refeição, iam para o quarto onde ouviam jazz e depois faziam amor. 

Uma bela história de amor como tantas outras, mas esta era especial, especialmente para Camélia.

A obsessão passional de Camélia crescia de dia para dia. Já não imaginava a sua vida sem aquele homem. Uma noite encheu-se coragem e perguntou-lhe aquilo que desejava há muito perguntar. Camélia já tinha aflorado o assunto há algum tempo, mas nunca se sentira suficientemente confiante para fazer o pedido formalmente.

- Amanhã queres vir comigo para o escritório? 

- Estava a ver que nunca mais perguntavas. Claro que sim, Camélia.

No dia seguinte, foram os dois juntos para a agência imobiliária onde Camélia trabalhava há quatro anos. Ela era uma das melhores vendedoras. Na secretária, havia um passepartout de Camélia com um ar confiante e de braços cruzados.
Ele sabia qual era a sua função, não seria preciso qualquer tipo de formação. 
Sentou-se na secretária e ela começou a acariciá-lo enquanto fazia telefonemas. Sempre que fosse possível e sempre que assim o desejasse, Camélia metia a mão dentro da camisa do seu amante para tocar e afagar o seu corpo másculo. A sua produtividade e as suas vendas aumentaram drasticamente. Camélia vendera três villas luxuosas no bairro mais caro da cidade no espaço de um mês. Por mais do que uma vez, Camélia levou o seu amante para a casa de banho onde acabaram por ir mais longe do que as simples carícias. Ninguém no escritório se atrevia a questionar tal comportamento, porque Camélia era uma "máquina de vender casas". No período de dois meses, foi promovida a chefe de vendas da agência.

Camélia tinha, finalmente, encontrado a felicidade.

 

 

 

 

domingo, março 01, 2026

Pensamento-forma

Qualquer ataque de um país sobre o outro é uma agressão condenável. O que está a acontecer, neste momento, neste planeta, já ocorreu milhares de vezes na história da Humanidade. Talvez seja por isso que uma boa parte de nós não fique muito indignado, muito pesaroso, passada aquela reacção inicial de incredulidade. "É mais do mesmo", pensamos, encolhendo os ombros e continuamos com a nossa vidinha. Claro que se tal acontecesse onde vivemos ou aqui ao lado, a coisa mudaria de figura. Pânico geral, caos.

Como não sou comentador político nem tenho a pretensão nem o talento para o ser (e creio que já há demasiados), proponho-vos outra temática: o poder de pensamento. Sim, um súbito volt face temático.

Tal como o Irão, a nossa mente é bombardeada por vários pensamentos durante um dia. A mente pode ser um belo prado com lírios do campo ou um verdadeiro campo de batalha. Os pensamentos são coisas e coisas poderosas, e convém lembrar que cada um de nós está a gerá-los incessantemente, noite e dia. Ou a recebê-los, ainda não sei bem. 

Muitas vezes pode acontecer que, no momento, o nosso amigo esteja demasiado ocupado com o seu próprio sofrimento, ou talvez demasiado excitado, para receber e aceitar qualquer sugestão externa, mas chega um momento em que o nosso "pensamento-forma" pode penetrar e descarregar-se, e então, a nossa simpatia produzirá o resultado esperado. É verdade que a responsabilidade de usar tal poder é grande, mas não devemos recuar diante do nosso dever por causa disso. A intenção deste texto não é catequizar ninguém, atenção. Mas parece que já estou a ouvir alguns de vós:

"Mas o que é pensamento? O que é essência de cada um? A consciência?"

Pois, ainda não sei responder a isso. Não sou o António Damásio (tinha a pretensão mas não tenho o talento para o ser, neste caso).

Apetece-me ser fracturante agora: eu estou em crer que uma boa parte dos pensamentos ditos menos bons não são nossos. Eu, por exemplo, sou uma esponja, absorvo quase tudo ao meu redor, sou um Scotch-Brite humano. 

"Mas de onde vêm esses pensamentos, seu doutor?" 

"Ó menina, num sei. Num sei se é os chineses ou..."

Eu tenho para mim que somos todos emissores e receptores WIFI das emoções e pensamentos. Uns mais do que outros, como é evidente. E somos muitos. Bastantes. E não são poucos. Visíveis e invisíveis. 

 "Ah-ha, seu doutor, eu cá não acredito em fantasmas ou espíritos, etc."

Nem eu, mas não estou a falar de fantasmas. Apetece-me ser críptico e por agora não irei falar sobre a proveniência. O Inconsciente? Talvez. Mas, voltamos mais ou menos ao mesmo, não?

Chamei-lhes "pensamentos-forma", porque parecem-me que têm forma e cor. A Paixão imagino-a vermelha e voluptuosa. Um grande pompom escarlate. A Devoção, a Fé, imagino-as uma estrela azul-celeste, como não poderia deixar de ser. A Força, a Vitalidade, o Vigor são pequenos ou grandes sóis que irradiam a cor dourada. A sensação gerada por um abraço fraterno, a Fraternidade, é um semi-arco de várias cores vivas. O Medo são estilhaços cinza que se espalham pelo corpo. A Ganância, a luta pelo Poder são uma garra cinza e vermelho pálido misturados. Etc..


quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Pontes

 Eurico sabia que não poderia partilhar a sua “condição” com muitas pessoas. Sabia que muitas não iriam compreender a sua angústia. Mesmo o seu terapeuta achava que o seu transtorno estava relacionado com a sua infância difícil. Como quase todos os transtornos e condições psicológicas. Mas Eurico tinha a inabalável convicção que esta sua peculiaridade era única e muito especial. Naturalmente, revirou a Web para tentar encontrar especialistas que o ajudassem a saber lidar com os pensamentos que tinha. Sem grande resultado. No Inverno era sempre pior; a falta de luz solar e a chuva constante pioravam a coisa ao ponto de Eurico não conseguir sair da cama.

Não, não era depressão. Embora esta sua condição pudesse gerar alguma depressividade, Eurico era um tipo afável, social, uma “pessoa de pessoas” como se costuma dizer. Mas afinal - perguntam vocês – qual era o problema de Eurico? 

Tudo começou há cerca de oito anos quando Eurico estava a ir para a aldeia dos pais para passar o fim-de-semana. Fazia-o pelo menos uma vez por mês, gostava de pensar que mais adiante na sua vida, iria escolher mudar-se para a aldeia, adorava a vida bucólica. Esqueci-me de dizer que Eurico era designer gráfico, embora não tenha grande relevância para a história.

Havia duas estradas para chegar à aldeia. Nessa sexta-feira, Eurico decidiu conduzir pela estrada da velha ponte. A recta final da estrada era ladeada por velhos plátanos cujos ramos se tocavam no alto formando um cinematográfico túnel verde. Eurico reduziu a velocidade do seu clássico Mercedes 190D para apreciar o entorno. Antes de atravessar a velha ponte de pedra, Eurico foi assolado por um pensamento estranho:

“E se conseguisse destruir a ponte apenas com o poder da mente?”

Não estava ninguém atrás de si, Eurico parou o carro por instantes. A velha ponte continuava de pé como sempre esteve durante anos. Do outro lado, aproximava-se lentamente um carro que vinha da aldeia. O designer sorriu perante o pensamento. "A vida era boa", pensou a seguir. No momento que Eurico acelera, um enorme estrondo ecoa por todo vale e, passados alguns segundos, a ponte colapsa à sua frente, levantando uma coluna de fumo sobre o riacho. 

Escusado será dizer, a vida de Eurico mudou nesse dia. Nunca mais atravessou pontes ou túneis com medo que acontecesse de novo o que ocorreu nessa fatídica sexta-feira. O trauma instalou-se no seu corpo ao ponto de se recusar ver filmes ou telejornais. E tudo - assim acreditava Eurico - por causa do tal "pensamento mágico".

Mas, e para quem não sabe, há 39% de probabilidades de aparecerem pontes em filmes ou telejornais.

Podem verificar estes e mais dados no Pordata. 


domingo, fevereiro 22, 2026

Mitos


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma boa parte das histórias que escrevo é quase sempre sobre mim. Às vezes até podem ser sobre outras pessoas, mas na maioria das vezes estes símbolos escritos que lêem é sobre a minha pessoa. Isso faz de mim um egocêntrico? Ou pior, um narcisista? Será que todos os ditos escritores são narcisistas? Segundo Ovídeo, Narciso era tão belo que desprezava todo o amor que lhe davam, fosse homem ou mulher. Ao debruçar-se num lago límpido para beber água, Narciso viu o seu reflexo pela primeira vez e fica paralisado de amor por si mesmo. Morreu de fome e sede. 

Ora bem, talvez haja uma percentagem de narcisismo aqui. No lugar onde me encontro, neste momento (seja lá o que isto queira dizer). As palavras são um reflexo de mim. Mas sei - em minha defesa - que posso ser muito abnegado e empático como os argonautas. 

Sim, eu sei, estou muito clássico hoje. 

Estou quase convencido (o meu ascendente Balança/Libra favorece a procura do equilíbrio, mas também gera dúvida, hesitação) que sou uma variante de Hércules com os meus "12 trabalhos". Não tão musculado, talvez.

É claro que a Hidra, o Javali de Erimanto, o Leão de Nimeia, a trupe toda, estão todos dentro da minha cabeça. São seres que metem medo, mas não passam de fabrições do inconsciente. Será que o Hércules era um neurótico, um "sobre pensador" (overthinker em inglês)?

Uma das tarefas de Hércules consistia em limpar num dia os currais do rei Augias que tinha três mil bois e que há trinta anos não eram limpos. Estavam tão fedorentos que exalavam um gás mortal. Hércules teve de desviar dois rios para os limpar. 

E é esta a tarefa de Hércules que mais me revejo: limpar e voltar a limpar os estábulos da minha mente que exalam gases fedorentos, nem que para isso tenha de desviar o rio Douro. 

Sim senhor, tal pode constituir uma tarefa verdadeiramente "hercúlea".

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Canga

Um peso maciço que trago sobre os ombros, uma canga de bois invisível que coloquei (ou colocaram-me) sobre esta parte do corpo que levo para onde quer que vá. 

A canga (ou jugo) era posta numa parelha de bois para depois ararem os campos, para transportarem grandes cargas.

E é precisamente isso que eu sinto, que estou a transportar algo volumoso, desconfortável - nem sempre, mas às vezes.

Antes que me aconselhem de forma paternalista "tens de saber largar esse peso, chegou a hora", sinto que devo carregá-la ainda algum tempo para arar a minha psique, para lavrar ordeiramente o meu passado. É uma alfaia pesada mas necessária. 

A minha canga é muito adornada, muito ornamentada, como não poderia deixar de ser. 

- Mas a canga não é para dois animais?

Certíssimo.

Estive a rever a obra da escultora Louise Bourgeois. Esta mulher da Luz e da Escuridão viveu quase até aos cem anos. Se ela fosse viva, teria a coragem para lhe pedir para conceber uma canga para mim. Teria de ser esta mulher porque só ela teria a sensibilidade e a cólera para o fazer. Tenho a certeza - Je suis sûr - que ela iria iria aceitar a minha encomenda.

O artista tem o privilégio e a vantagem de entrar em contacto com o seu inconsciente. E isso é sempre bom. 

 

  

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Quixote


 

 

 

 

 

 

 

 

Tem alturas em que me sinto um pouco "quixotizado". O que quero dizer com isto?

Alonso Quijano aka D. Quixote de La Mancha era um fidalgo sem guito que queria reviver os tempos gloriosos da velha aristocracia de La Mancha, no centro de Espanha. Quixote quer proteger os indefesos, salvar donzelas, repor a ordem. Quer exercer o seu controlo sobre uma realidade que a sua percepção não pode (ou quer) enxergar (adoro este verbo brasileiro). Vive num mundo fantasioso, de ilusões. Começa a ver gigantes ameaçadores em vez de moinhos. Nos dias de hoje, seria provavelmente internado numa instituição de saúde mental.

O único ser capaz de o chamar à Terra é o seu fiel escudeiro Panza, um homem do povo, sem pretensões, sem quimeras. É guiado pela sua barriga, Sancho vê o mundo "tal como ele é" (seja lá o que isto queira dizer).

Sim, tem alturas que me sinto um pouco "quixotizado". Não vejo moinhos nem azenhas, graças a Deus, mas a minha mente tem alguma tendência para extrapolar o real. Esta coisa funciona por dualismo, por contraste: por outro lado, parece que estou rodeado por "sanchizados", pessoas que são demasiado reais, demasiado pragmáticas, demasiado "Terra", que sofrem com coisas mundanas. E está tudo bem se assim for.

Alguns ainda não sabem, mas todos procuramos a via do "Meio", do "Tao". "No meio é que se encontra a Virtude", diz o bom povo, a grande família do Sancho. Mas e se a Virtude for demasiado aborrecida?

Não deixa de ser curioso que para com os outros, tenho tendência a "sanchizar", a apelar ao bom senso, a trazê-los à terra recorrendo a algum humor. Mas dentro de mim, há um Quixote que deseja a Glória, a Fantasia, que quer que o Inconsciente seja finalmente libertado, sem juízos de valor dos "sanchizados".

Confía en el tiempo, que suele dar dulces salidas a muchas amargas dificultades.