Os dias foram-se sucedendo. Uma semana, duas semanas, dois meses, três meses. Quase um ano. Ele faz uma retrospectiva do que tiveram, do que têm. Fica sentado no carro a olhar para o pára-brisas. Passados três, quatro minutos dá-se conta que tem o motor do carro ligado. Desliga a ignição e abre a porta. Um calor de morrer. Fica a olhar para as varandas com os guardas-sóis no prédio à frente. Apetecia-lhe fumar. Não tabaco, mas uma ervinha da boa. Atravessa a rua movimentada e senta-se nas escadas viradas para o rio. Os gansos e as gaivotas coexistem lá em baixo no areal. Os iates brancos atracados dão um ar de classe aquele afluente um pouco poluído. Põe-se a ler um livro sobre a Atlântida, arrasta a leitura há um mês. Em certas igrejas e monumentos públicos, vê-se estátuas de Atlantes musculados a suportar o peso do mundo e do Céu. A civilização perdida da Atlântida. Ele acredita que viveu várias vidas nessa civilização e que todo o seu interesse actual por História, pelo Esoterismo, pelo Exoterismo, pelo mundo espiritual vem dessa vida. Também acredita que às vezes traz o peso do mundo às suas costas e não sabe muito bem porquê. É prodigioso em criar e recriar cenários. Pensa no Amor e no Desamor.
"Porque é que és assim?", a cassete repete-se na sua cabeça.
Duas gaivotas lutam com os bicos na margem. Os gansos observam-nas e alguns começam a grasnar. Fecha o livro. Nesse momento, apetecia-lhe dançar com ela, nada mais. O sorriso dela era um filtro transparente, indelével sobre o cenário fluvial. Apetecia abraçá-la. Uma vontade enorme de esmagá-la docemente nos seus braços, no seu peito até à fusão final. Volta para o carro. É claro que ela não atende a chamada. Torna-se um pouco recorrente já. Sente uma pequena angústia dentro de si. O espelho retrovisor devolve o seu olhar verde. Passou os dedos pelo cabelo, que calor. Tem a t-shirt colada ao corpo. Usa o spray desinfectante para as mãos para se refrescar um pouco na pescoço e nos sovacos. Volta a pensar nela e faz conjunturas. Ele sabe. Ou melhor, ele pensa que sabe. Mas, lá no fundo, não sabe nada. Apenas sente e a lição desta vida é aprender a sentir. Um ex-atlante deve sentir, só o Conhecimento não serve de nada, há que sentir sobretudo.
"Está tudo bem, é o que tiver que ser", pensa.

