sexta-feira, agosto 14, 2026

A loba

Hoje, tive uma loba ferida como colega de trabalho. Um dia bastante longo. Era doloroso sentir a sua dor. Era notório que a loba queria superar-se custasse o que custasse. Fingia que a dor não estava lá. Nada de novo. O rosto é sorridente, mas a máscara é por demais evidente. Perdeu muito peso nos últimos meses, pratica Krav Maga há muitos anos, adoptava uma postura "Alfa", de conquista, de 'perfuração", de mártir arrebatadora. Mas a dor está lá, muito instalada, senti-me meio abalroado. É uma dor de ausência de pais, de carinho, de ternura. Muita raiva. Quase que poderia apalpar a fúria. Encontrou no Krav Maga um escape, mas isso não chega. Como é evidente. 

Numa luta corpo a corpo, talvez ela assumisse uma vantagem inicial. Ela domina a técnica de combate. Bom, talvez fosse um bom catalisador para estimular e queimar a minha própria raiva. Uma loba ferida contra um urso que se força a sair todos os dias de uma hibernação muito peculiar. 

Amor. Tudo de se resume a isto. 



domingo, agosto 09, 2026

Sol e Lua

O calor tem este efeito em mim: dilata-me, expande-me as células, mas de uma forma desconfortável, às vezes até dolorosa. Eu que já sou uma entidade quente e radiante (não se riam porque é verdade), sinto a acção implacável das altas temperaturas até nos meus ossos. Está mais que visto que prospero em latitudes mais frias, mais "árticas", se quiserem. Tenho uma relação muito boa com o frio. 

Tem dias que o meu crânio dilata como um junta de uma ponte e parece que vai estalar a qualquer momento. Adoraria andar sempre com um capacete colorido e refrigerado até ao final do Verão. Pena que se o fizesse, as senhoras (e alguns homens,) não teriam a felicidade de admirar o meu rosto de Adónis (não se riam porque é verdade).

Eu gosto do Sol, atenção. Sou um adorador do Sol. Faço orações e invoco a nossa grande estrela. É um símbolo de poder e de vida. Só não gosto quando ele se aproxima muito de nós. Muito mal comparado, será como conhecer uma celebridade; poderá haver desconforto e desilusão. 

Por outro lado, talvez eu seja mais do tipo lunático e talvez este texto seja um reflexo disso mesmo. Humores que mudam como as marés, volúvel, irregular. Mas também sou nutrição, sou maternidade, afago quem me pede para ser afagado, banho a minha luz reflectida naqueles quando me pedem. 
Que Lunático.  

domingo, julho 26, 2026

Karma

 1. Há algo de kármico e justo quando um branco como eu transporta uma família da Costa do Marfim. Antes de me chamarem de segregacionista, deem-me a oportunidade de explicar. São católicos e querem ir a Fátima. A mãe usa um daqueles longos e coloridos vestidos africanos. É muito vistosa e tem sempre um sorriso tímido na cara. O pai tem um ar sereno e conhecedor. Os filhos vivem em Paris, são mais libertos, mais "cosmo". Há cinco séculos, os colonizadores portugueses fizeram "trinta por uma linha" (eufemismo do ano) na costa da Guiné, colonizando e separando vidas, implementando monogamia e monoteísmo, tudo "mono". O europeu branco sobrepôs ao africano formas de viver e de estar. Estes parecem não guardar rancor. Ficaram maravilhados com a Cova da Eiria. Fátima vem do árabe Fāṭimah ligado ao verbo fātama (desmamar ou separar). O nome também homenageia Fátima, filha do profeta Maomé e de Khadija, uma das mulheres mais veneradas na cultura muçulmana. Os Fatimidas passaram por aqui. Acho incrível como a maioria parte dos portugueses desconhece isto.

2. Hoje tenho um casal muito branco do Minnesota. Celebram o 25° aniversário de casamento. Muito civilizados, muito cordiais. Adoram Portugal e o velho continente em geral. Também a sua presença pode ser kármica para mim (tudo é na realidade). São-me uma distracção proveitosa, são apenas clientes. Ele é gestor na multinacional General Mills. Apesar da simpatia, não têm muito mais para me oferecer. Servem-me para me distrair da neurastenia do dia que hoje tem a ver com Deus (grande surpresa, esta é das antigas). O pragmatismo dos americanos ajuda-me a descer à Terra, devolve-me o lado funcional do meu cérebro. No final ofereceram-me um Tawny orgânico que aceitei de bom grado.

quinta-feira, julho 23, 2026

Surfista Prateado


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Existe um personagem/herói do mundo Marvel com o qual me identifico bastante - o Surfista Prateado. Jack Kerby estava bastante inspirado quando o criou.

Para aqueles que não sabem, o Surfista servia Galactus, o Devorador de Mundos. Muito resumidamente, o Surfista compadeceu-se dos habitantes da Terra e não entregou o nosso planeta ao seu mestre que precisava da energia de planetas inteiros para sobreviver. Como consequência, ficou aprisionado neste nosso planeta azul. 

O Surfista possui poderes incríveis, pode viajar pelo espaço sideral, pelo hiperespaço e através de barreiras dimensionais. Pode voar em velocidades praticamente ilimitadas na sua prancha e incorporar o hiperespaço quando excede a velocidade da luz. Já provou ser capaz de viajar no tempo em algumas ocasiões. Não precisa de comer, beber, respirar nem dormir, sendo sustentado inteiramente pelo poder cósmico. É imune aos extremos da temperatura e à maioria das radiações.

Apesar destes poderes todos, é claramente um personagem atormentado, solitário. Não pertence a nenhum dos mundos por onde passou. Questiona a moralidade das suas acções, é dado a questões existenciais. Ele ajuda e destrói. Ele salva e rejeita. 

Esta itenerância constante, esta mobilidade quase forçada, esta não-permanência que caracteriza o meu trabalho é o que me salva e o que me desgasta ao mesmo tempo. Pergunto-me muitas vezes porque sou assim, porque actuo desta forma. Não sirvo nenhum "devorador de mundos" (que eu saiba!), mas parece haver uma "força maior" que me impele a executar este cargo. Juro que não quero romantizar nada aqui.

O que vou dizer/escrever a seguir não é novidade para alguns vocês e poderão até identificar-se com este sentimento. Numa boa parte destas "missões", sinto-me tremendamente sozinho no meio de tantas pessoas. Como se estivesse a navegar entre mundos, tal como o Surfista. Sou confrontado por diferentes percepções e cognições que reconheço, mas parece que não me é permitido permanecer nesse estado de "identificação" durante muito tempo. A natureza deste trabalho descarta as pessoas (clientes) no fim do dia. No dia seguinte, surgem mais caras novas e assim sucessivamente. Não, não é um métier normal.
Para ser completamente honesto comigo mesmo, questiono-me amiúde porque faço aquilo que faço. Parece haver aqui uma nobreza de desígnio superior, mas sinto frequentemente aquilo que se chama um síndrome de impostor. Não porque finjo a minha empatia e/ou simpatia, mas porque a mecânica rotineira do cargo, a repetição árida obriga-me a uma certa postura que às vezes me parece artificial.

Talvez seja isto parte da experiência humana. Nós assim escolhemos antes de nascer. A Terra é de facto uma grande vivência cósmica. 


 

 

sábado, julho 18, 2026

Guia

Imaginem um guia turístico.

Agora imaginem um guia que, em vez de mostrar e descrever monumentos e factos históricos sobre um determinado local, falaria sobre como percorrer com sabedoria os meandros da mente de cada um. Um guia que, em vez de falar sobre o Românico ou o Gótico, ensinaria a invocar o deus ou a deusa de cada de nós para sermos melhores pessoas. Um guia que em vez de debitar datas e dados históricos sobre esta e aquela igreja, desvelaria os caminhos do coração de cada visitante. 

Não, não seria psicólogo nem sequer sacerdote ou mago. Seria um Guia. Um ser versado em autoconhecimento e autorealização, um ser em que os demais confiavam porque possuiria uma vasta experiência pessoal e profissional, o caminho que teve de percorrer falaria por si. Ele sabe o que é ficar imobilizado na  "Praça do Medo" com dezenas de pessoas ao seu redor, ele saberia percorrer de olhos fechados a obscura "Rua dos Traumas" que termina na "Avenida da Realização". 

"Pode dizer-me onde fica o "Beco das 1000 Angústias, é por aqui?"

"Hmmm tem a certeza que quer entrar aí sozinho? "

 "A Rua das Paixões fica ao lado da Travessa das Carícias?"

 "Com certeza, conheço muito bem, mas antes proponho o seguinte: esqueçam esses livrinhos e folhetos, e façamos aqui um pequeno círculo e olhem-se nos olhos uns dos outros. Sintam as mãos das pessoas que estão ao vosso lado".

Imaginem um guia altamente habilitado que poderia falar sobre Persefone e Hades, sobre Eurídice e Orfeu, sobre Osíris e Ísis, mas que preferia falar sobre o teu Herói, a tua Heroína, sobre o que és, o que trazes, o que tens para mostrar nesta grande e incrível Excursão da Vida. 

quarta-feira, julho 15, 2026

Ciúme

A trágica cena final de Otelo e Desdémona, gerado pela IA 

 

Shakespeare dizia em Otelo que o ciúme é um "monstro de olhos verdes que zomba do alimento de que se nutre". 
Eu tenho olhos verdes, mas ainda não me considero um monstro. Isto é, posso ter pensamentos bestiais, primitivos, de posse, de controlo, mas isso não faz de mim um monstro per se. Ainda não cheguei ao patamar de Otelo e dos seus sentimentos de ciúme doentio para com Desdémona. Ciúme doentio. Não há outra forma de ciúme, pois não? Não existe tal coisa como "ciúme saudável". É um sentimento que quase todos nós já fomos acometidos. E não é muito agradável. Se formos pessoas mais ou menos conscientes e não um "monstro" como o ciúme em si, arrependemo-nos pouco depois. É um sentimento denso, de desgaste emocional que pode se prolongar. Não é como a ira, a raiva que explode e depois passa. Mas se formos do tipo obsessivo, a coisa pode escalar e pode ficar descontrolada. Até pode não haver consumação, mas sofremos só com a ideia. O ciúme é sentimento muito curioso. Não pode ser uma consequência, um apêndice do Amor. A fórmula do verdadeiro Amor não inclui o componente "ciúme".

Convidaram-me há dias para desenhar um totem. O totem basicamente é um brasão de família para os ditos "povos primitivos", é um símbolo físico de memória e de protecção de um clã, de uma linhagem. Pode integrar animais na sua composição que podem representar os antepassados. É um símbolo de força. Agora que penso, poderia ter criado um monstro de olhos verdes, não para recordar ou venerar mas antes para sublimar e exorcizar sentimentos de ciúme no totem. Teria sido uma boa ideia.




 

 

 

 

 

 

quarta-feira, julho 08, 2026

Odradeks

Tenho a ligeira impressão que a minha casa é também a casa de "odradeks". O primeiro odradek foi avistado pela primeira vez por Franz Kafka. Segundo este grande explorador checo, a estranha criatura assemelha-se a um carretel de linhas e fios velhos e partidos e tem a forma de estrela. Não tem grande utilidade e aparece pelos cantos da casa. 

À noite, tenho a ligeira impressão que vejo odradeks pelo canto do olho enquanto estou a ler ou a ver televisão. No início, quando isto começou a ocorrer, assustavam-me um pouco, confesso. Agora invoco e rezo à minha divindade e aos meus mestres e eles vão-se embora. Faço-o já de uma forma automática. 

Parece que não, não sou o único, como diz a música. Ontem, durante o meu trabalho, acompanhei um grupo de padres muito bem-dispostos e galhofeiros e quando estávamos na belíssima igreja de Santa Clara, um deles desenhou uma cruz com o dedo sobre a trave do banco de madeira à sua frente. Estava convencido que os odradeks não gostavam de viver entre talhas douradas e marmoreados.

Posso estar enganado, mas estes homens que servem Deus devem ver muitos odradeks.