Isabela já era uma "habituée" naquele corredor do hospital. Conhecia todos os cantos, todas as máquinas, todos os clínicos daquele piso. Desde que deu entrada na unidade oncológica há cerca de um ano nunca mais olhou para trás, como se costuma dizer. Era bem tratada, era muito querida por todos, enfermeiros, auxiliares, pacientes. Especialmente entre aqueles que tinham casos mais avançados, ela sabia como tranquilizá-los, como "falar ao coração". Isabela era uma "paciente-voluntária profissional ", tinha um jeito natural com pessoas. O facto de ser extremamente bonita ajudava bastante; tinha uma beleza do tipo renascentista, quase etérea, inefável, como se fosse um semi-anjo no corpo de uma mulher.
Isabela não sentia a mínima vontade em regressar para o mundo lá fora. Um mundo frio e inóspito. Aqui sabia com o que poderia contar. Sentia que o piso n.° 5 daquele hospital era agora o seu lar.
Antes de ter dado entrada naquele unidade, Isabela esteve perdidamente apaixonada por um homem. Mas esse homem tratou-a mal. Nada de novo aqui. Não fora a primeira e certamente não será a última. Ficou arrasada, ao ponto de ter quase desistido de viver. A relação terminou. Pouco tempo depois. foi-lhe descoberto um tumor no peito. Internamento e operação. A intervenção correu muito bem, a "coisa" não metastasiou, foi removida com êxito.
Como Isabela era muito bela e muito carismática, foi-lhe proposto permanecer no melhor quarto com as melhores vistas, com todas as despesas pagas (alimentação incluída) acrescido de um passe especial que poderia usar nas máquinas de café e de vending daquela unidade hospitalar. Um convite irrecusável para esta mulher muito especial.
Havia apenas uma condição: teria de ficar no hospital durante 14 (catorze) meses seguidos. O contracto poderia ser renovado por igual período de tempo mediante acordo de ambas as partes.
