Pedro e o Lobo
amapedro@gmail.com | "Nunc est bibendum" - Horácio
terça-feira, junho 09, 2026
Banco
sexta-feira, junho 05, 2026
Alentejando
Grândola, Melides, Ferreira do Alentejo, Beja.
Planícies, oliveiras, sobreiros, pinheiros-mansos. Mais planícies. Toda esta imensa paisagem cinematográfica que não cabe no nosso campo visual. Nunca estamos preparados para o Alentejo. Somos sugados pelo céu azul e por longas rectas de abóbadas verdes. Uma náusea de beleza telúrica que em vez de me enraizar, torna-me um pouco mais dissociado. Povoações paradas na tempo, bastantes casas abandonadas. Canal Caveira. "Paris-Texas" à alentejana. Rostos queimados pelo sol, brutos e vermelhos. Traços celtas e mouros, tudo misturado. Beja foi uma boa surpresa, pena o museu Rainha D. Leonor estar fechado para remodelação. A Sé tem azulejos da "fase dos mestres" muito bonitos.
Amanhã, Comporta. Um outro Alentejo.
segunda-feira, junho 01, 2026
Apagão
Sento-me numa esplanada de café à espera. Do outro lado da vidraça, no Burguer King ao lado, vejo pilhas de medicamentos sobre a mesa. Um chama-me a atenção pelo nome, "Sedoxil". Não deve ser para os diabetes seguramente. Na mesa estão mãe e filho, negros. Fez-me alguma confusão. Na minha cabeça, as pessoas de cor não precisam de ansiolíticos. Meu Deus, que observação tão preconceituosa, tão estereotipada. Por falar nisso, hoje tive um ataque cerrado de neurastenia no meio do Douro. Porquê? Não sei. Grupo porreiro, interagiam. Um casal finlandês muito simpático de uma pequena cidade costeira, "Oulo". Assumi que faziam sauna. Verdade. Mais um clichê. Quatro franceses, 1 casal da Sabóia e outro de Bordéus. Muito agradáveis também. A senhora francesa era um amor, sentou-se ao meu lado.
"Vous savez, votre Français est très bon. Vous connaissez la France?"
O casal inglês, os mais velhos do grupo. Ele era um ex-pastor anglicano da zona de Bristol, a mulher praticamente não falava. Muito observadora, fleumática, olhar prescutador. Parece que estava à espera de um deslize, de um mau comportamento. A avozinha do grupo. O ex-pastor tinha a voz fina, caricatural, um personagem saído de uma série.
É claro que fiquei a zeros no fim.
"Merci, thanks, thanks em suomi, thanks em português".
Li algures na net que vai haver em breve novo apagão mundial de 3 dias e 2 noites. Temos de ir forçadamente para "dentro", parece que o Covid não foi suficiente.
domingo, maio 31, 2026
Sobre Moby Dick e outras criaturas

sábado, maio 23, 2026
No cais
quarta-feira, maio 20, 2026
Crane, Remark, Tolstoi
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| Erich M Remarque |
Amanhã vou para Aveiro, destacaram-me com toda a força. Ovos moles, moliceiros, flor de sal, art nouveau. É isto Aveiro.
Lembrei-me agora de um velho tema do Estado Novo cujo título é "Angola É Nossa", lembro-me dos meus pais me terem falado quando era miúdo. Anos 60. É um ritmo marcial, um pouco maníaco e assustador. O meu pai esteve em Angola. Creio que não me contou três quartos das coisas que viu e sofreu. Tudo muito recalcado, e o resultado ficou à vista anos depois. A dada altura creio que os meus avós paternos acharam que ele tinha morrido ou desaparecido. Voltou quase em glória três anos depois. O vulcão chamado J B Amaral entrou em erupção anos depois, fumava como se não houvesse amanhã, às vezes bebia como se não houvesse amanhã também. Triste geração. Os que sobreviveram vieram todos fodidos de África, desculpem-me a expressão. Se não me desculparem, paciência.
Lembrei-me também agora de dois grandes livros sobre guerra que li há quase vinte anos e causaram-me forte impressão na minha cabeça jovem e impoluta: "Red Badge of Courage" do Stephen Crane que fala sobre a a terrível Guerra Civil Americana e o "A Oeste Nada de Novo" (Im Westen nichts Neues em alemão) do Erich Maria Remarque que me prendeu do princípio ao fim, falava sobre a 1º G.M. A temática anti-guerra de Remarque levou o livro a ser considerado "antipatriótico" pelo ministro da propaganda nazi, o Goebbels. Nunca consegui ler de fio a pavio "O Guerra e a Paz" do Tolstoi, achava que ainda não tinha maturidade (ou até paciência) suficiente para o ler. Dizem que é genial e eu acredito, nem seria de esperar outra coisa. Tolstoi em russo significa "espesso" ou "gordo".
sábado, maio 16, 2026
O malaio
Hoje conheci um malaio que possuía aquilo que antigamente de chamava de "verve".
Usava um chapéu panamá, camisa de linho e parecia mais jovem quando falava um inglês muito BBC.
Muito eloquente, tinha um jeito elegante, cavalheiresco, encadeava assuntos com a maior das facilidades, era um humanista agnóstico, interessava-se por tudo. Parecia saído de um romance do Lawrence Durrell.
Ele e um dinamarquês muito dinamarquês sentaram-se ao meu lado durante o almoço numa quinta perdida no Douro, o homem ia celebrar o 70º aniversário para a semana, a conversa e o vinho fluíam muito bem.
Aprendi com ele (e com a filha que também era muito rápida) que as línguas portuguesa e malaia possuem palavras muito semelhantes. Malaca, ou “Melaka” em malaio, foi uma base importante para a expansão portuguesa nas Índias Orientais no século XVI, o temível Afonso de Albuquerque tomou conta daquele importante entreposto comercial. Chineses, ingleses, holandeses, todos queriam apoderar-se daquela cidade de localização privilegiada - o estreito de Malaca (em malaio Selat Melaka) era e é a principal passagem marítima entre os oceanos Índico e Pacífico. O Trump esteve a ler História de Portugal, é por demais evidente.
Bom, mas eis algumas das palavras:
Meja (mesa), kerusi (cadeira), lemari / almari (armário), sabun (sabão), tuala (toalha), keju (queijo), garfu (garfo), Gereja (igreja), sekolah (escola), bendera (bandeira), etc.
Mas apanhei-o na curva, como se costuma dizer, quando comecei a falar de música com o dinamarquês que se mostrou-se surpreendido quando lhe disse que conhecia os D:A:D (sigla para Disneyland After Dark), uma respeitadíssima instituição rock na Dinamarca. É claro que o septuagenário malaio quis brilhar e quis dizer o nome de uma outra banda dinamarquesa cujo nome era "longo e impronunciável", o homem queria lembrar-se do nome mas não conseguia. Ficou claro que a tal banda não existia. Eu e o dinamarquês entreolhamo-nos e lemos os balões de pensamento um do outro:
"Finalmente apanhamos o velho".
Estava a ver que não, o Afonso de Albuquerque se fosse vivo teria tido orgulho de mim.

