Acho que todas as pessoas desejam ser felizes. Mesmo aquelas que dizem que não merecem. Mesmo até aquelas que, para serem diferentes, dizem que gostam de se sentir miseráveis. That's bullshit, conversa da treta. Uma forma pateta de chamar a atenção do outro. No fundo, é claro que querem a felicidade. Por outro lado, há pessoas que não olham a meios para atingir a felicidade.
Camélia finalmente conhecera um homem que a fazia feliz. Queria-o a seu lado, queria ir com ele para todo o lado, era o amor da sua vida. Sim, estava obcecada por ele. Depois de tantos casos falhados, de tantas desilusões amorosas, finalmente e quando menos esperava, o seu príncipe encantado chegara. Era alto, bem parecido, espadaúdo. Era técnico de som e falava inglês e checo (vivera em Praga alguns anos, teve uma namorada checa). Sabia fazer lindos e complexos origamis. Quando saía de casa de Camélia, deixava sempre um origami escondido numa divisão. Camélia nem queria acreditar que existia um homem assim. É claro que tinha um ou outro defeito - como toda a gente - mas o balanço era bastante positivo como se costuma dizer.
Camélia adorava cozinhar para o seu amante. Gostava de se sentar ao seu lado enquanto o via a comer. Era um deleite vê-lo apreciar a sua comida. Gostava de passar a mão pelo seu peito, pelos ombros largos. Era mais forte do que ela, não conseguia resistir. O toque na sua pele, sentir aquele cheiro masculino ocre era fatal, um big turn-on como dizem agora. Mal acabava a refeição, iam para o quarto onde ouviam jazz e depois faziam amor.
Uma bela história de amor como tantas outras, mas esta era especial, especialmente para Camélia.
A obsessão passional de Camélia crescia de dia para dia. Já não imaginava a sua vida sem aquele homem. Uma noite encheu-se coragem e perguntou-lhe aquilo que desejava há muito perguntar. Camélia já tinha aflorado o assunto há algum tempo, mas nunca se sentira suficientemente confiante para fazer o pedido formalmente.
- Amanhã queres vir comigo para o escritório?
- Estava a ver que nunca mais perguntavas. Claro que sim, Camélia.
No dia seguinte, foram os dois juntos para a agência imobiliária onde Camélia trabalhava há quatro anos. Ela era uma das melhores vendedoras. Na secretária, havia um passepartout de Camélia com um ar confiante e de braços cruzados.
Ele sabia qual era a sua função, não seria preciso qualquer tipo de formação.
Sentou-se na secretária e ela começou a acariciá-lo enquanto fazia telefonemas. Sempre que fosse possível e sempre que assim o desejasse, Camélia metia a mão dentro da camisa do seu amante para tocar e afagar o seu corpo másculo. A sua produtividade e as suas vendas aumentaram drasticamente. Camélia vendera três villas luxuosas no bairro mais caro da cidade no espaço de um mês. Por mais do que uma vez, Camélia levou o seu amante para a casa de banho onde acabaram por ir mais longe do que as simples carícias. Ninguém no escritório se atrevia a questionar tal comportamento, porque Camélia era uma "máquina de vender casas". No período de dois meses, foi promovida a chefe de vendas da agência.
Camélia tinha, finalmente, encontrado a felicidade.