domingo, abril 26, 2026

A day in a life (of a tour guide)

Curiosa excursão ao Douro a de ontem. Os 8 turistas poderiam ser personagens-tipo de uma peça de um moderno Gil Vicente. Fiquei extenuado no fim.

Vamos começar pelos velhos aliados. Um casal sexagenário de Liverpool. A senhora era a mais alegre e a mais tontinha do grupo, era irritante mas de uma forma perfeita, sem nada a apontar no seu sotaque musical de Mersey. Eu acenava-lhe com a cabeça mas às vezes não percebia o que estava a tentar dizer e respondia-lhe "it is, isn't it?". Funcionava. Tinha sempre uma história aborrecida qualquer para contar. O marido também ficava algo constrangido; ele era o mais estudioso do grupo, tinha sido inspector de segurança em edifícios. Era muito conhecedor de vinhos e estabeleceu um paralelismo da toponímia Gal (Portus + Cale/Gal) com outros pontos célticos do norte da europa. Aqui o guia já tinha lido isto (claro) mas foi bom escutar pela boca de um turista. Normalmente só falam do quanto amam as natas e os azulejos. 

O casal russo de Boston. Já estavam algo americanizados. Muito fechados e secos durante a apresentação. Ele mais do que ela. Ela poderia ter sido uma modelo, era esbelta, delgada. Parecia uma aleanígena no Douro profundo. A mais observadora do grupo. Começou a sorrir depois de uns tragos de Porto. À mesa, o homem revelou ser maratonista, tinha participado em várias provas, não comia carne e tinha um discurso muito funcional, parecia escolher as palavras todas antes de se pronunciar sobre algo. Era um russo americanizado muito bem parecido, de queixada forte mas com um olhar terno, paciente.

O casal jovem de Seattle. O moço era o mais jovial do grupo, o "ice-breaker". Tinha sempre uma expressão jocosa para tudo. Ocorreu-me que poderia ser a minha versão norte-americana mas ainda mais "goofy". Trabalhava na Amazon, claro. Um gajo porreiro mas que poderia se tornar chato passadas duas horas. Tinha a mesma voz do Seth Rogan. A namorada era a menos interessante do grupo. Não se destacava por nada em especial. Estava sempre a perder o seu creme hidratante que tinha uma planta qualquer de Madagáscar.

- Pausa para respirarem e irem ao WC -

Já está? 

Let's go. 

Também só me falta um casal, não vos vai custar nada. Mais outro casal jovem europeu. Viviam em Bona. Ele era alemão, muito alemão. Ficou muito rubro, muito falante ao fim de umas copadas. Os alemães quando bebem acham que são muito engraçados, mas o sentido de humor deles é um pouco básico. Mais ou menos como os espanhóis. A namorada era da Roménia, já vivia na Alemanha há algum tempo. Não era feia nem bonita. Tinha, no entanto, um corpo incrível e era muito simpática, sorria com o rosto todo. Quando lhe disse que estava a ler Mircea Eliade, quase que me abraçava e raptava. 

No fim, gratificação choruda de 5 euros por parte do Ian, o senhor de Liverpool. 


sexta-feira, abril 24, 2026

Revolução

Tenho para mim (não gostava de ter tanta coisa para mim, na verdade) que Portugal e os portugueses suportaram 42 anos de ditadura para poder fazer uma revolução grandiosa, bonita, com flores. Se tivessem vivido apenas cinco anos de totalitarismo, o efeito do 25 de abril não teria sido tão espectacular. Ainda por cima uma revolução orquestrada por tenentes e capitães! São os meus postos militares favoritos. Mais acima disto - coronel, brigadeiro, general etc - é estar de conluio com o poder instituído. Há honrosas excepções, claro. 

Não consigo encontrar nada mais português do que isto. É como marcar o golo do título no minuto 90+7. 

(Um apontamento futebolístico de fino recorte aqui)

"Vamos esperar mais um aninho. Depois é que vai ser. O Caetano não é igual ao Salazar. Mais um pouco. Vai acontecer."

De certa forma os poetas e os músicos também precisam de uma ditadura de vez em quando. Compor apenas canções e poemas de amor acaba por ser tornar aborrecido. 

Bom. Cravos na lapela amanhã.

segunda-feira, abril 13, 2026

Fāṭimah

Gostava de ter o super-poder de ver as "coisas tais como elas são". O que leva alguém a ficar iluminado ou - vá - esclarecido? Um acidente, uma certa inocência, um vislumbre divino, uma doença muito grave? Parece que tem de ser incluído algum sofrimento na equação para ver a Luz. Talvez ainda isto não passe de elaboradas ilusões do Ego para abrandar o processo que se iniciou no nosso nascimento. Chamem-me louco (por favor) mas eu acho que escolhemos esta vida antes de aterrarmos neste enorme e belo berlinde azul.

Estou em Fátima em serviço (e ao serviço ao que parece), guio as pessoas para aqui, contando a versão oficial das aparições Marianas. Se eu acredito? Respondo com esta resposta: é mais vago, mais fácil, mais cómodo dizer que não se acredita. E usa-se de uma certa presunção quando fazemos isto. 

O estudo dos eventos reais é muito mais substantivo (e prazeroso) se nos dermos ao trabalho de o fazer. 

Fica para outra oportunidade, para outro texto incrível.

segunda-feira, abril 06, 2026

Cabras

Quando chega o Verão mesmo a sério, sinto-me com vontade de usar o meu boné de marinheiro, vestir uma camiseta às riscas e viajar num pequeno veleiro pelo Pacífico Sul. Levaria um velho gramofone para ouvir árias italianas enquanto manuseava as cordas e a vela. Bebia muito vermute e rum puro enquanto apreciava o magnífico coucher de soleil e sonhava de olhos abertos com velhas e futuras conquistas amorosas.  Talvez me maquilhasse para os espadartes ou golfinhos que dão incríveis saltos só para impressionar. Não consigo encontrar um motivo pelo qual não deva ou possa fazê-lo.

Enquanto esta fantasia não acontece, tento gerir lembranças do ano passado que me vêm bater à porta da minha cabeça. Vou chamar a essas lembranças de "cabras" porque balem como cabras e parece que me mastigam a moleirinha. Não é esse sentido da palavra que o leitor(a) mais mundano estava a pensar. Estou a referir-me mesmo aos caprinos que são um chatos e devoram tudo por onde passam, toda a gente sabe disso. Estas lembranças e alguns pensamentos são assim, saltam à minha frente, dão pinotes e já não têm pudor ou vergonha. Não me pedem autorização, limitam-se a surgir, assim do nada. As cabras são velhacas como dizia a minha avó. 

São Francisco não gostava de formigas (era o único bicho com o qual não simpatizava), já eu não sou santo e não gosto de cabras ou bodes. Cheiram mal. Não deixa de ser engraçado falar em santos, porque tenho à minha frente outro franciscano, uma pequena estatueta de outro santo, o Nando de Gusmões que mais tarde viria a ser conhecido como Santo António de Lisboa (ou de Pádua, mas ele só esteve em Itália em trabalho). Gosto muito dos dois porque acredito que também iriam gostar de viajar pelo Pacífico Sul comigo. Imaginem o que é ter os dois a conversarem um com o outro sobre os Evangelhos ou outra coisa qualquer, a porem Piz Buin na careca para se protegerem do sol, enquanto bebericava aquilo que diziam juntamente com o meu Martini. Que incrível seria.

Mas voltando às ditas cabras. São indelicadas e tem um olhar estranho, ausente. Às vezes parece que me dão coices dentro da cabeça com aqueles terríveis cascos e abanam-me todo durante alguns momentos. Fico um pouco mal, a sério. Quase, quase que dissocio. Eu sei que o meu mundo de associações é um pouco bizarro, mas alguns de nós tem essa capacidade, a de ser bizarro. Só está ao alcance de uns happy few. Não posso tentar prender as cabras com uma corda, seria pior a emenda do que o soneto. Vou deixá-las ruminar e balir pelo tempo que quiserem. Eventualmente vão acabar por ir à vidinha deles e eu vou voltar a sonhar com o Pacífico Sul e os santos.

 

sábado, abril 04, 2026

Touro e toureiro


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tenho um touro e um toureiro na minha cabeça. 

Um touro miura que representa os meus instintos mais primitivos, a minha força impulsiva, se quiserem. A minha cabeça é uma arena onde esse touro irrompe e investe contra quase tudo que lhe faça frente. O impulso do Inconsciente vem à luz do Consciente. A sombra é exposta à luz da arena. Aparece então o meu matador com o seu brilhante traje de luces. Ele não o despreza, o matador respeita a força bruta do animal e tenta dançar com ele. Fora da arena, ele tenta viver de forma normativa, pela regra, pelo instituído. É mais um no meio de milhões. Mas aqui ele enfrenta os seus medos e pulsões personificados naquele animal bestial que pode trucidá-lo a qualquer momento. 

O meu toureiro não foge; ele olha o touro no fundo dos olhos. Tenta "governá-lo", submetê-lo. A dança continua. O animal bruto já não parece tão assustador. A capa vermelha esvoaça graciosamente como se fosse uma enorme borboleta vermelha e rosa.