sábado, dezembro 29, 2007

Revolução


Van Bolten

A Revolução é feita com armas. E também com algozes, crianças famintas e colheres barrocas. Anulem-se, apaguem de vez as vossas contra-indicações, respirem fundo. (...) Não, outra vez, as vértebras têm de estalar, de estalar! Abram bem essas bocarras. O meu tio disse-me uma vez enquanto nos dirigíamos para os Montes dos Castrados: "Podes chamar-me de tio, mas tens de saber manejar uma arma e um pouco de toponímia. Saber rapar as terrinas dos anfitriões também é um dom."
Morreu pouco tempo depois. O que quererá isto dizer.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

segunda-feira, dezembro 24, 2007


quando perdes
a página do teu Manual

dos Corações Incandescentes
é deus que te faz
um favor
os que trazem o
coração suspenso
por andas
não merecem
ser confortados.
quando perguntas
"a que distância fica o horizonte?"
cai um ominoso pingo
do teu nariz
e estremeces,
é deus que te bate
ao de leve:
curva-te antes
perante o oceano,
não deves saber
coisas sem importância.
quando a tua mão gela
antes de te tocares,
é deus que afaga a
sua mão na tua.
quando te ris
do nome Eustórgio
gravado na campa ao lado,
é deus que te repreende.
traiste-te:

ainda não dominas
a dor das beatas
encurvadas

deixa-o
usar as tuas costas
para afiar
a divina espada.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Coffee (as champagne)+Mahler+La Joie de Vivre



-Say it isn't true...
-...
-Well?
-What?
-I asked you to say isn't true...
-Say what isn't true?!
-(yawn) Never-never-nevermind.

sexta-feira, dezembro 14, 2007


Cartaz para a GUM
V. Mayakovskiy, A. Rodchenko, 1923


“A todos os convidados das cidades, vilas e aldeias, não gastem mais as vossas solas – venham à GUM onde poderão encontrar tudo – rápido, impecável e barato!”

segunda-feira, dezembro 10, 2007




O
s velhos dizem que sempre
que alguém acende um cigarro com uma vela
um marinheiro morre.

Suponho que, entre marinheiros,
existe a crença de que quando se barbeiam
numa direcção estranha, um académico morre.

Então, eles tentam não se barbear.
O importante aqui é pensarmos
Uns nos outros.

Kristin Dimitrova
Trad.: a minha
- Vinte e poucos anos depois ainda estou a tentar aprender o alfabeto. A isto chama-se um erro de palmatória.

sexta-feira, dezembro 07, 2007


Boris Mihalik

quarta-feira, dezembro 05, 2007

A Caçada


O velho caçador sacudiu a gloriosa gaita com alguma violência, subiu para o camião e lá seguiram caminho. Estava visivelmente irritado. Conseguiu lobrigar algumas manadas de seres bravios e pensantes que ruminavam ao longo das encostas vermelhas viradas a sul.
"Sem mel nem rima, sempre quero ver como hei-de caçá-los!", pensou. Cuspiu algo reluzente pela janela fora e voltou-se de súbito para o anão:
- Vou precisar de ti. Trouxeste aquilo que te pedi?
- Sim. Mas tenho medo.
- Cala-te. Não podes mostrar medo aquele imbecil.
- Está bem - anuiu o anão.
Percorreram cerca de cinco tortuosas milhas que maltrataram bastante os rins do velho caçador, quando, finalmente, avistaram a placa de aproximação da fronteira.
O posto das portas do deserto era guardado por um jovem praça que gostava de rasgar lençóis velhos e tirar fotografias com uma máquina "à la minute" a todos os cidadãos e bestas pensantes que eram pesados
pela primeira vez na báscula imperial.
- Então, e a caçada? Apanhaste algo decente desta vez? - indagou o guarda que disparava pequenos jactos de saliva sempre que proferia sibilantes.
- Nada. Estão cada vez mais espertos. Já não caiem nos engodos do costume - replicou o velho.
- Ça, c'est très mauvais, très mauvais. Et maintenant? E agora, como ficamos? - O guarda falava invariavelmente a língua de Napoleão quando tentava adoptar uma postura autoritária.
- Vou deixar aqui o meu anão mongol de barbicha branca como caução, para além do saco habitual que está cheio de belos diários comoventes. Apanhei bastantes desta vez. Vou pegar num à sorte e....
-
Non, non, pas du tout! Não quero cette merde que os seres pensantes largam pelos montes!...Huum. O anão sabe ao menos cantar?
- Como um rouxinol chinês.
- Toi là! Tu aí, já cantaste alguma vez? - dirigindo-se ao anão.
- Senhor, já não canto desde a última vez que mudei uma lâmpada! - exclamou o anão que estava de pé sobre o assento - Gosto muito de mudar lâmpadas. Fico muito excitado e dá-me para cantar.
- Bon. Vamos para dentro. Este sol abrasador dá-me cabo dos miolos. Mais, dépêche-vous, allons-y!

domingo, dezembro 02, 2007

Psycho Killer

Casaste-te com ele, e agora. Sai para a rua, entra na padaria do bairro e toca no ombro do primeiro homem que está à tua frente, na fila para o pão: parece-me um bom partido, a ti não?

Ghisi


A seu lado, dormiam os javardos. Agarrou um, com um certo nojo reticente e, de braços estendidos, manteve-o assim erguido. Era cor-de-rosa, com uma boquita húmida de polvo e olhos de carne engelhada. Desviando a cabeça, destapou um dos seios e estendeu-o ao javardo. Teve que lhe enfiar o bico do seio na boca, e só então ele crispou os punhos e as bochechas ficaram chupadas. Engolia a golada fazendo um horrível barulho com a garganta. Aquilo não era lá muito agradável. Aliviava um bocado, mas também mutilava um pouco. Tendo esvaziado dois terços do seio, o javardo lá se deu por satisfeito e, largando as duas mãos, pôs-se a ressonar como um porco. Clementina pousou-o a seu lado e ele, sem parar de ressonar, fez umas manobras esquisitas com a boca, ainda a chupar mesmo a dormir. Tinha uma penugem nojenta na cabeça, a moleirinha batia de maneira inquietante, dava vontade de carregar no meio para aquilo parar.


O Arranca Corações, Boris Vian
Livro B, Editorial Estampa

quarta-feira, novembro 28, 2007

Trabalho de Sísifo



O grande rochedo de mármore que nunca deixará de rolar pela montanha abaixo. Será sempre assim. Não há qualquer tipo de heroísmo aqui. Apenas um longo caminho fatalista que julgo contornar com palavras e pequenos prazeres que actuam como sedativos ou estimulantes. Ao longo desse caminho, senhoras de preto e meninas com um ar intrigado dão-me de beber. "O caminho é só um". Uma angústia agridoce percorre-me o corpo, o prazer do recomeço, regado e fortalecido pelo tempo. No entanto, sou mais forte do que Deus e mais feliz do que os pobres coitados que se iludem com a cenoura da imortalidade.

quinta-feira, novembro 22, 2007


Asger Jorn

quarta-feira, novembro 21, 2007

Prisão



Com as cordas partidas
e a borra da lua
Paganini fazia lagartos
sem cabeça
pela noite dentro
e punha-os na janela
quando o sol nascia

passariam anos
até que os lagartos
crescessem e
voltassem a ser dedos

chegara a hora

seguido pelo medo
conseguiu fugir
nunca olhou
para trás

"Pai"
foi o único espólio
que encontraram
no seu cárcere

quinta-feira, novembro 15, 2007

terça-feira, novembro 13, 2007



a árvore do meu jardim
chama-se Redenção

os frutos que irão cair maduros
querem
ser Poesia
antes de caírem no solo

por força da minha gravidade

sexta-feira, novembro 09, 2007



Son House (1902-1988)

terça-feira, novembro 06, 2007

O Monsenhor



Era frequente procurarem Monsenhor apenas para verem de perto a figura que andava na boca do povo naqueles dias. Monsenhor nunca se furtava de receber essas pesssoas em sua casa, embora não se sentisse particularmente envaidecido por tal curiosidade. Naturalmente, o velho caseiro de Monsenhor não tinha mãos a medir com tantas oblatas e lembranças que se acumulavam nos corredores. Mas Monsenhor não era um clérigo comum. Alimentava a fugaz esperança de poder vir a conhecer alguém extraordinário, alguma ovelha irreverente que se destacasse daquele monótono rebanho. Quando não estava a celebrar eucaristias, Monsenhor fazia questão de empregar a sua língua mãe, o romanche, o que lhe conferia um ar ainda mais distinto e reverencial. A esmagadora maioria dos fiéis limitava-se a acenar com a cabeça a tudo aquilo que Monsenhor proferia. Porém, Monsenhor era selectivo quando se dedicava ao sagrado sacramento da Confissão. Monsenhor gostava de cheirar rapé enquanto ouvia a ladainha dos seus penitentes e de cantarolar baixinho a Tosca que brotava do velho gramofone que guardava no confessionário. Os seus amados pais ofereceram a relíquia antes de Monsenhor partir para a sua primeira missão no Congo. Em boa verdade, Monsenhor segregava devotos para a Confissão: às Terças, ouvia apenas jovens poetas cujo primeiro nome fosse Tristan ou Hans, para além de todos os outros bastardos que comprovassem a sua condição; às Quintas, sentenciava as jovens mamãs da região, cães e outros quadrúpedes que faziam fila em torno da velha igreja. Decerto compreenderão que era extremamente penoso para Monsenhor libertar-se de velhos hábitos dadaístas que carregava consigo desde os tempos atribulados da sua mocidade. Era esta a sua verdadeira vocação.

domingo, novembro 04, 2007

O Verão vai embora

O cardo adula com penugem tenra

A papoila arroja de si o vestido
como uma grávida

A macela desfia
pelos botões

A chicória fecha-se
e encanece




"Poemas", Reiner Kunze
Trad.: Luiz Videira e Renato Correia
Paisagem Editora, 1984

Minguante nº 8

quarta-feira, outubro 31, 2007

- There's something strange in the neighborhood.
- Who you ya gonna call?
- The ghostbuster.

Morte


James Ensor

Mais um pobre solitário que não resistiu ao seu convite. Os cães viram-na e desataram a ladrar, completamente desvairados. O vizinho, o Vieira, estranhou o rádio a tocar noite e dia, desde sábado, e resolveu chamar a polícia. Eu tinha acabado de jantar e regressava a casa. Os bombeiros não conseguiam passar a ambulância pela rua afunilada. Os pobres diabos teriam de trazer o corpo à força de braços durante uns penosos trezentos metros. 23:35h. Os agentes constataram a ocorrência e foram-se embora. Acompanhei o estranho cortejo dos dois voluntários com o cadáver coberto com um lençol branco em cima da padiola, os tipos não sabiam o caminho de volta e o morto não era grande ajuda. Passámos pelo café manhoso. O quarteto da sueca continuou o seu jogo de sinaléticas, desviando-se em câmara lenta das balas de Ultramar que eram disparadas da televisão. Também eles já estavam mortos há muito.

domingo, outubro 28, 2007

isto aconteceu-me
uma vez:
uma jovem magiar
entrou na minha boca
agarrou-se
ao meu coração
e dançou dançou
rodopiando
com a língua

desviei o olhar:
a minha cabeça
cortada no
ecrã do bar
escorria
pelo balcão

os homens riam alto
e as senhoras
seguravam
as suas bocas

em casa
a língua áspera,
hermética de
Celan lambia-me
as feridas
enquanto dormia

quarta-feira, outubro 24, 2007

Xkcd


terça-feira, outubro 23, 2007

O Pássaro


Marc Chagall


O pássaro
Lança-me um olhar furtivo
E em seguida
Lança-se do ramo
Desaparece
De imediato
Como que a dizer
Há muito tempo os humanos apanharam uma terrível doença
Que não lhes deixa voar

Hiroshi Kawasaki
Trad.: a minha a partir da versão inglesa

sexta-feira, outubro 19, 2007

A Vaca



uma vaca
distinta
e sagrada
passeia
hindulente
pela Rua das Flores
bebe águas furtadas
e rumina ferro forjado
das varandas
do nascer
ao pôr-do-sol

não se sente à vontade
com a líbido
dos alfarrabistas
que a desejam
mais do que a
história da tauromaquia
do ribatejo,
lombada em pele,
Gráfica Portuguesa, 1948

não me atrevo
a tocá-la
digere
ainda tísicos
e tóxicos
que regurgita
com alguma
sofreguidão

a vaca morre
com a cidade
a altas horas
e ressuscita
no dia seguinte:
o super-herói local
já na casa dos 40
sente-se impotente
e não sabe o que fazer
o super-herói local
parece uma velha duquesa
falida

mas sorridente

quarta-feira, outubro 17, 2007

Não me canso de apregoar: tenham sempre uma bíblia à mão de semear. Nunca se sabe.

terça-feira, outubro 16, 2007

Eu não sou vermelho



Todos os patrões deveriam exercer a nobre função de porteiro. Todas as manhãs, a porta da empresa deveria ser aberta pela entidade patronal que deveria desejar um genuíno e sonoro bom dia a todos os funcionários (ou trabalhadores, consoante as vossas coordenadas partidárias). Valorização profissional. Bem-estar no trabalho. Em vez de Volvos ou BMWs, os administradores deveriam ter Renaults 4Ls ou Autobianchis. Imagem vincada, estilizada, redução de custos. Em vez dos torneios de golfe aos fins-de-semana, deveriam apostar nos torneios de pokemon ou magic: the gathering. Inteligência, rapidez de raciocínio. Em vez do sub-inglês comercial corrente, deveriam falar fluentemente bosquímano ou lojban - requisito obrigatório. Também poderiam assobiar Ligeti no wc em vez de perguntarem pela evolução do último projecto enquanto urinam.
Sim. E que tal aumentos ou passar aos quadros?
Não pedia tanto.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Caçadores


Banksy

sexta-feira, outubro 12, 2007

Bastava largarmos tudo agora, neste preciso instante, um minuto de hesitação seria tarde demais, bastava largarmos os nossos postos predefinidos e abalar. É certo que alguns de nós, os mais antigos, ofereciam resistência, sentiriam dor, têm os movimentos demasiado trôpegos, maquinais, mas bastava um grito marcial, uma voz líder e determinada, para quebrá-los. Alguém que ainda não conheço sugere um sacrifício para perpetuar o momento e seduzir os deuses da Fortuna. Ou pretende então que eu reveja algum documento urgente e inútil. Concordo de imediato, não há tempo a perder.
- O estagiário, porque não? Pouco ou nada sabe, não há laços ainda.
Não consigo lembrar-me de um cenário mais dramático do que um moderno openspace abandonado, a tecnologia desactivada, o bolor dos snacks em cima das secretárias, o pó e a natureza a reconquistarem o que é seu em cada canto. Tarkovsky ressuscitará ao terceiro dia e continuará a rodar o seu filme terminal. Não pode ser assim tão difícil.

quinta-feira, outubro 11, 2007

terça-feira, outubro 09, 2007

Born Magazine

Se reencaminhar estas missivas em branco para, pelo menos, dez pessoas, algo de maravilhoso irá acontecer na sua vida.

A natureza verdadeira revela-se no género epistolar, o papel liberta, desencarcera, o papel desperta o inconsciente, a seiva reconhece o sangue, a árvore cruza-se com homem e dá fruto.

Enfim, sigam o conselho da Born Magazine, explore, regenere-se.

quarta-feira, outubro 03, 2007



A Choldra

It's pure Madness, again and again.

"(...) A palavra «portugalizar» não é uma calunia. A Inglaterra guia-nos pelo labirinto da política internacional como um cicerone da Cook; a Inglaterra zanga-se, põe-nos de castigo e dá-nos torrões de assucar, em forma de "visita de esquadra" como os tutores fazem aos pupilos, segunda as suas travessuras ou os seus juizos. A Inglaterra faz mais: a Inglaterra, atravez "o professor" que a representa em Lisboa, escreve cartas aos jornais, premiando ou reprovando as campanhas que no jornalismo se iniciem.(...)"

Excerto retirado do periódico "A Choldra #1", 1926, disponível na Hemeroteca Digital

terça-feira, outubro 02, 2007



Não é costume neste blogue anunciar este tipo de eventos, porque, simplesmente, não é prática corrente nesta cidade. Há que louvar, divulgar e continuar.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Lubok



- Por favor afaste-se de mim, nada tenho a tratar consigo. Acercou-se de mim, agarrou no meu traseiro, assim não posso cozer o meu blini*. Sou contra os jogos de apalpa-o-cu, ainda vou arder por causa dos blinis. Espere, já sei: vou partir a minha pá na sua cabeça. Poderei até sentir vergonha ou pesar, mas juro-vos que irá se arrepender. Vossa senhoria não descansa, deixe-me em paz ou estrago-lhe a jaqueta.
- Está à vontade, bate-me se é esse o teu desejo, mas deixa-me apalpar o teu cu...Parece-me tão apetecível, o teu firme e redondo traseireinho. Esperei que todos partissem, enfim sós. Podes bater-me com o bastão, não te vou impedir, não importa. Tem dó de mim, ama-me , vem para a cama comigo.

*blini: pequena panqueca russa à base de levedura e trigo-sarraceno.

Trad.: a minha, composta a partir da versão inglesa.


"Por favor, Afaste-se de Mim" é um lubok de uma cena cómica e garbosa. Ilustra o diálogo "cortês" entre duas personagens em pleno galanteio, temperado por algumas expressões grosseiras.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Iluminismo electrónico



Leatherette: imitation leather, especially one that is made with paper and cloth, or from plastic. Leatherette bound books and cameras are good examples of leatherette. Leatherette clothing, including pants and lingeries also exist.

O Jardim


Adolf Wölfli


Cheirava a febre
não havia jardim
alguns estranhos casais caminhavam
traziam os sapatos calçados nas mãos
os pés descalços eram brancos, enormes
cabeças como luas selvagens, epilépticas
e rosas vermelhas que de súbito
brotavam
meses a fio
eram cuidadas e esmagadas
por cães-borboleta

Miltos Sachtouris
Trad.: a minha

segunda-feira, setembro 24, 2007

Autoharp



Pequenas demonstrações promocionais aqui e acolá.

sábado, setembro 15, 2007

Alentejo

vem para dentro
foge do sol forcado
dos compadres secos
bestas da canícula
peles de chaparro
e rabos-de-porco
dos olhos que disparam
rápido
montarias de línguas
torcidas de javali
homens de verde
galhardos
bebem

cospem bocados
de ensopado
cães cães
e mais cães

faz como eu
sacude as moscas
com a cauda
não te esqueças

tentaste plantar
bromélias e roseirais
para marcar a tua presença
o calor abafou-as
nesta paisagem do nada

a noite
é escrita
aos poucos
adormeces de mãos
abertas azuis
ao som hipnótico
das cigarras
que o luar esfaqueia

ao longe
um portão chia
e deixa entrar um
pedaço de paz
nesta despida noite
de setembro

sexta-feira, setembro 07, 2007

Dependência

a abelha-rainha
sempre embriagante
sempre ubíqua
realizou o voo nupcial
dentro de mim

(sempre sempre)

o mel acumulou-se
nos alvéolos da cama,
na minha barriga

ah! devorou-me uma
asa
ainda assim

não deixei de
voar entre
as flores.

quinta-feira, setembro 06, 2007


Georgia O'Keefe

A aridez implacável do deserto obriga as pessoas a cometerem actos desesperados. Não é o caso deste projecto, au contraire. Também aqui o acto de criação é uma questão de sobrevivência, dentro ou fora do deserto.
E, se pensarem outra vez, este dueto romântico não é assim tão improvável quanto possa parecer à primeira vista.

quarta-feira, setembro 05, 2007

- Nenhum destes sintomas são realmente novos, seu doutora, mas não sinto dor. Eu sei que não tinha hora marcada, seu doutora. Desculpe, seu doutora. É quase como um formigueiro que se sente quando se apoia todo o peso do corpo num determinado membro durante muito tempo, sabe? Essa parte do corpo é a minha cabeça. Passa-me então o P1 para a "raspagem" da cabeça, seu doutora? Quero ver se durmo esta noite, seu doutora. Muito obrigado, seu doutora. Não, não volta a acontecer, eu falo com a menina do atendimento. Com licença, seu doutora.

terça-feira, setembro 04, 2007


Milton Avery

Se souberes recortar cuidadosamente as parcelas douradas do Tempo, não envelheces nem esmoreces tão rapidamente. Terás de fazer esta operação delicada antes de te deitares. O Sono devora o Tempo e baralha as moléculas do consciente e do inconsciente. O teu Sono é como um mar convulso, encrespado, mas não tormentoso, que carrega finos vícios, pequenas ânsias de baixios, velhos sudários e uma espécie de Grande Obra que nunca virá à tona.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Lições de Trevas

Que limites existem para a luz? Veio alguém acender esta candeia. À nossa volta, uma pequena chama principia a erguer-se, mas em vão é que ela se conserva perto de nós, quando abrimos devagar as leves páginas cujo sentido se ignora e as fechamos depoissem esperança, como se fosse este o seu destino no interior da noite. Estamos ali adormecidos e havemos de encontrar uma outra luz, maior, que as permita ler.

"Lições de Trevas", Fernando Guimarães
Quasi Edições, 2002

Otto Dix

Uma mulher é poderosa segundo o grau de desgraça com que pode castigar o seu amante; por esta causa, quando não se tem mais que vaidade, qualquer mulher é útil e nenhuma é necessária; o êxito lisonjeiro fixa-se na conquista e não em conservar. Quando só se sentem desejos físicos procuram-se prostitutas; eis porque as prostitutas de França são encantadoras e as de Espanha não. Em França as prostitutas podem proporcionar a muitos homens tanto prazer como as mulheres honradas, isto é, prazer sem amor, mas há sempre uma coisa que um francês respeita mais que a sua querida, é a sua vaidade.

"Do Amor", Stendhal
Trad.: Adriano Valle
Portugal Press

segunda-feira, agosto 27, 2007

Conheci um Génio

hoje conheci um génio no
comboio
tinha 6 anos,
estava sentado ao meu lado
e enquanto o comboio
seguia ao longo da costa
chegámos ao oceano
e depois ele olhou para mim
e disse
não é bonito

foi a primeira vez que me
apercebi
disso.



Charles Bukowski
Versão de
Manuel A. Domingos

sexta-feira, agosto 24, 2007

A Ilha das Flores


Pigs, Franz Marc
- A partir deste instante a poesia deixa de ser poesia para ser outra coisa qualquer. Não haverá decerto maior desafio do que este.
- Peço autorização para falar com a tua boca seca e com o meu olho vermelho.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Prelúdio para um Poema Técnico


Wu Guanzhong

1. Leia com atenção
__este poema de
__segurança
__antes de
__iniciar
_____________________
__qualquer operaçãozinha.
________________________________
________________________________
2. Verifique se existem___________fugas
__a) e drene todos
__b) os versos.
________________________________
________________________________
3. Para mais informações, contacte o seu(?) representante local:
___________________________________
__________________________________
____________________
____________________
Modelo:__________________ N.º Série: ______

Revisão periód.:__________Data:__/__/___

terça-feira, agosto 21, 2007

Gansos


A madre superiora comprou gansos brancos. Os gansos andam à solta pelos claustros apagados do convento. As noviças já não têm motivos para sorrir quando acordam de manhãzinha. Os jovens da aldeia procuram agora trabalho na aldeia vizinha.
- Cheira-me a vinagre, mas não vem daqui.

domingo, agosto 19, 2007


Georges Braque


confirmei
agora mesmo:
aos pés da minha cama
jaz um pássaro de campanário

esse mesmo pássaro

nesse instante fatal
não me encontrava
na Praça de S. Marcos
nem em Jaipur
nem no quarto dos meus pais
posso prová-lo
mas só a si

nesse instante fatal,
a morte (um luxo)
senti a lassidão da morte
a fumegar na minha face
soltei um riso idiota
como poderia saber?

cantou os seus lábios
gretados de caju e o
fim de Deus
em noites quebradas por
borrascas diluvianas

amava mulheres
como quase todos
os pássaros
gostava de pendurar-se
em mastros vermelhos
de madeira norueguesa
e de maçãs muito maduras

o finado pássaro
alugava outros
pássaros para voar
(gaivotas não, por princípio)
vibrava com homicídios
involuntários em dias santos
chilreava por todo o bairro

fez-me jurar que
não iria imortalizá-lo
em versos sem casca
improváveis

afinal não passava
de um pássaro
e eu não passo
cartão a pássaros


quarta-feira, agosto 15, 2007

Os meninos de olhos escuros

Os meninos de olhos escuros penteiam delicadamente os brâmanes antes de afogarem a Paixão no Ganges. Os meninos crescem e tornaram-se jogadores, aprendem a cruzar as pernas e a venderem a nudez exótica. As amadas mães envergonham-se e lavam a vida toda no Ganges. Os mais orgulhosos roubam as chaves do cárcere e fogem para os grandes subúrbios de terracota, tornam-se jogadores de topo. Queres ser meu parceiro? Este bêbado é o joker, foi valete de copas mal amado, mas agora vale mais do que o ás.

segunda-feira, agosto 13, 2007


Nicolas De Staël

Não olhem para trás, meus filhos.
Um mar viscoso e ardente fica lá em baixo.
O ar áspero fere como se fosse areia

e aqui, por estes pilares salgados,
estão os que não perdoam. Segurem-se
ao rebordo da montanha, mesmo que

se desfaça em pó. Caminhem ou rastejam,
deixem que as rochas firam os pés sem piedade.
E esqueçam a cidade fumegante. Deus castiga os que se arrependem.


in Médium e outros poemas, Elaine Feinstein
Trad. colectiva, 1994
Poetas em Mateus, Quetzal Editores

sexta-feira, agosto 10, 2007

Ava



A ava (Piper methysticum) é uma planta pimenteira arbustiva, originária da Ásia e da Oceânia. Da sua raíz triturada pode preparar-se uma bebida intoxicante. As raízes secas e os rizomas revelaram-se eficazes contra a cistite, gota e doenças consumptivas. Sou o figurante que está a olhar-se ao espelho em 1:33.
Nunca consegui bater palmas ao contrário e as camas de dossel barrocas sempre me deixaram apreensivo.

As aspirações imperialistas de R. Kippling




quinta-feira, agosto 09, 2007

- Está aqui o meu amigo que não me deixa mentir.
- Sofro dos nervos.

Vasco Fernandes (Grão Vasco)

A seguir, perguntou-lhe pelos assuntos do seu comando. A produção baixara dramaticamente nas últimas semanas e exigia-me um relatório completo.
-
Às vezes, sim.
O ar estava coalhado, a janela deixava entrar uma brisa fétida que trazia o cheiro forte a alcatrão quente e a lixo que transbordava dos contentores. Existia-se no pico do Verão.
- Ao menos, abra-me esse olhos enquanto falo consigo, homem!
O jovem inclinou-se para trás e bocejou. Respondeu-lhe então que tinha passado a noite toda em vigília pelos Sete Gozos da Nossa Senhora, mas que, nesse preciso momento, se sentia elevado pelas iluminuras e réplicas de pinturas maneiristas que cobriam as paredes da firma. O trabalho tornara-se num local violento e havia que pacificar as almas.
- Aqui, têm de responder perante mim e Deus.
Pouco a pouco, o jovem abandonava os velhos hábitos de gentio, os scherzos e andantes
do Reicha, que saíam das velhas colunas de madeira instaladas em todos os comandos, convertiam bestas e sarracenos. Hoje de manhã, porém, estava no limiar do seu cansaço e o inconsciente apoderou-se dele:
- Tem um cigarro que me arranje. Quero viver devagar e beber leite de cabra. Construa o seu cerco do outro lado da sua cupidez, meu suserano, não deite todos estes anos de sacrifício a perder.
Eu ainda consigo sonhar e você?

segunda-feira, agosto 06, 2007

"Infância"


Kazimir Malevich


A recordação de um copo de
leite derramado
numa longínqua tarde de infância
iluminou____ com a sua brancura
a tristeza
de uma longa noite de Inverno.

Sergio Badilla Castillo
Trad.: a minha

quarta-feira, agosto 01, 2007

Os pronomes clíticos

O pobre tombava meio morto na cama de ferro, mas depois era assolado por berrantes pesadelos com pronomes clíticos, e românicas ênclises e próclises, não havia maneira de voltar a pregar olho (a insónia era agravada pelo brutal luar que importou de um país qualquer do hemisfério sul, maldita a hora!). Valia-lhe, porém, as grandiosas audiências semanais com o magnânimo Rei Ubu. Somente os seus versados arrazoados iluminavam e amaciavam a sua pobre alma perseguida.

Tudo (se) passa nesta vida.

segunda-feira, julho 30, 2007

Syrinx, Ficção Pastoral (I)


Sophie Calle

Vou pôr um anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
Que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro de água.
Vou querer que me ame e abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos.


in "Quatro caprichos", António Franco Alexandre
Assírio & Alvim, 1999

domingo, julho 29, 2007

Gabrielle d'Annunzio


Arthur Dove

Em 1898, Vitoria Bini, filha mais nova de um velho casal de condição humilde, encontrou uma pequena peça de tapeçaria enquanto brincava numa solitária praia da região de
Abruzzo. Apesar do mau estado de conservação do tecido, a menina identificou de imediato o cocuruto de Gabrielle d'Annunzio. A peça remonta ao séc. II a.c. e tudo indica que três mastins negros tentaram dilacerá-la para evitar o advento do nacionalismo italiano nos anos 20. D'Annunzio emerge do mar em pose messiânica e aponta com os indicadores para os dois pedaços de terra separados pela água. O(a) autor(a) emprega habilmente o sfumato (técnica normalmente associada à pintura), tirando partido das características do tecido. Em último plano, são ainda representados negros que dançam na terra queimada por um sol carmim, de dimensões desproporcionadas, enquanto que, na margem esquerda, figuram vários artíficies que sustentam uma enorme e intrigante ratazana cinzenta que parece estar a saudar o poeta.

quinta-feira, julho 26, 2007

Do Amor


Nancy Spero

Um homem sensível e franco, um antigo cavalheiro fazia-me esta noite uma confidência (no fundo do nosso barco batido pela tempestade no lago de Grade) da história dos seus amores, história cuja confidência não porei a público, mas da qual me creio com direito a extrair a conclusão de que o momento da intimidade é como os belos dias do mês de maio, um momento que pode ser fatal e manchar num instante as mais lisonjeiras esperanças.

in "Do Amor", Stendhal,
Trad.: Adriano Vale
Portugal Press

terça-feira, julho 24, 2007

Palavras II

Outra das causas possíveis do excesso ou falta de ideias - que tem vindo a assumir contornos preocupantes e irreversíveis no meu caso - está relacionada com a substituição da velha lâmpada azul-cobalto situada no fundo da língua. A lâmpada é uma peça essencial. As palavras podem sair com visíveis deficiências ou podem se apresentar difusas e redundantes. Não há um controlo rigoroso, os novos símbolos não são repostos quando apresentam indícios de desgaste intenso. O trabalho árido não é um motivo válido para o cumprimento desta instrução.

O facto dos anjos e demónios andarem arredados das suas obrigações também não ajuda muito. É da sua exclusiva responsabilidade aplicarem a pressão devida quando untam massa lubrificante na fronte e no coração em 10 ciclos sucessivos para, no fim do processo, se incorporarem no paciente ou criador.
Assim, o contrato que celebramos à nascença com Deus e representantes acima referidos não é respeitado, assiste-nos o direito de exigir uma rescisão.

- Fim?

segunda-feira, julho 23, 2007

Palavras

As palavras são nómadas, ciganas, têm de vir e partir. Não podemos aprisioná-las durante muito tempo no mesmo sítio. Não gosto do conceito de eternidade, de perenidade absoluta neste universo, tudo está em constante movimento. Parece-me que, neste momento, elas estão de partida e sei que tenho de aguardar pela próxima vaga, não adianta procurá-las. Pode ser a espera de uma vida e posso muito bem enganar-me com amostras para satisfazer apenas a minha vaidade ou obter prazer imediato.

Super ova pendenti gradu incidere



E assim avanço nos meus dias.

quinta-feira, julho 19, 2007

Ética


Edgar Degas

Chego em frente do mar, das suas ondas,
das marés que setembro enfurece, dos cinzentos
e azuis que alternam com verdes estranhos;
uma voz trata da loucura, ou do olhar vazio
dos peixes, ou de um tema ressequido como as algas
da maré baixa; um vento percorreu a praia,
no silêncio da tarde, devolvendo ao corpo das águas
uma unidade antiga. O mar, no entanto, supõe
que o esqueçam. Nos seus fundos dormem as imagens
que o sonho já não guarda; braços que se agarram
aos mastros do naufrágio. Um barco abstracto
passou devagar pelo horizonte que a manhã não viu,
entrando no outro lado da terra, esquecido
por instantes da música dos portos. O poema, disseram-me,
ignorou essa distracção: atravessou
o limite da eternidade, vestiu-se com as palavras
nocturnas, deixou que a morte o contaminasse.
À beira-mar, não dou por isso; e digo-o,
devagar, repetindo em voz baixa
todas as suas contradições.

Nuno Júdice in "Um canto na espessura do tempo"
Quetzal, 1992

segunda-feira, julho 16, 2007

Que grande medo temos, tu e eu


Franz Kline

Que grande medo temos, tu e eu,
Seu boquinha de raia, amigo meu!

Oh, como se esfarela este tabaco,
Quebra-nozes compincha, meu velhaco!

E eu podia ter assobiado a vida,
A bolinho de noz acompanhada,

Pois, mas não pode ser nada...

Ossip Mandelstam, "Guarda Minha Fala Para Sempre"
Trad.: Nina Guerra, Filipe Guerra
Assírio & Alvim

Cúmplice

Todos os dias são cometidos assassínios morais e éticos no local de trabalho. Acenas com cabeça. Aconteceu a Beltrano, ao noviço que entrou há duas semanas e não fizeste nada. Mereces então o pouco salário que ganhas, pois é bem mais grave ficar na sombra a assistir impavidamente, a encolher os ombros e deixar esses criminosos incólumes. Não te cabe a ti, não queres aborrecimentos para o teu lado ou expor-te de alguma maneira, porque podes ser alvo de retaliação? Acreditas que, mais cedo ou mais tarde, tudo será resolvido, confias na sapiência do teu chefe ou na justiça divina. Acreditas em Deus que não dorme nos dias úteis e só descansa aos domingos, e confias nos chefes e supervisores que têm os olhos vendados, tal como a Justiça?
Naturalmente, se,
amanhã, acontecer o mesmo a ti, nada terás a recear.

domingo, julho 15, 2007

Everyday


Claude Cahun

This is the coastal town
That they forgot to close down
Armageddon - come armageddon
Everyday is like sunday

Mosu - No Reino das Mulheres

A minoria étnica Mosu é um subgrupo dos Naxi (uma das 55 etnias chinesas), um povo de pastores nómadas originário do Tibete que vive nas margens do belo lago Lugu, na remota província de Yunnan.
O casamento é um "sacramento" inexistente entre os Mosu. As azhu (uniões livres) podem durar uma vida inteira e até ser monogâmicas, mas estão abertas a vários relacionamentos, livres de qualquer compromisso marital ou financeiro. Os homens vivem na casa materna durante o dia e passam a noite na casa das amantes ou namoradas (axia). A relação termina quando ele deixa de a procurar ou ela se recusa a dar-lhe abrigo nocturno. Esta liberdade sexual, praticada ao longo de séculos, foi banida durante a Revolução Cultural. Os Mosu foram obrigados a constituir famílias "normais". Quando as coisas acalmaram, os casais separaram-se, voltando aos velhos hábitos. Todas as crianças estão sob a custódia das mulheres e herdam o seu apelido de família. As mulheres supervisionam todos os assuntos domésticos, desde as finanças à produção agrícola. No entanto, tudo é partilhado. Não há registo de crimes.
Os Mosu possuem um velho idioma pictográfico com cerca 1000 anos. Não existe um termo para "guerra". As designações adquirem mais força quando a palavra "mulher" é acrescentada, fortalecendo o significado: por exemplo, "pedra" mais "mulher" significa "rochedo" ou "penedo", enquanto que "pedra" associada a "homem" significa "calhau", "seixo".

sexta-feira, julho 13, 2007

Proofreading DAV-X10/YIT_M643-38S-B

Antes de ligar o cabo de alimentação CA deste aparelho a uma tomada de parede, ligue todas as colunas ao aparelho quando se trabalha há muitos anos com os mesmos colegas na mesma empresa , acabamos por assimilar tiques singulares, certos trejeitos do colega do lado, a halitose do M. que morde clips a toda a hora já não nos causa repulsa, a F. da logística vai entrar entre hoje e amanhã na red zone e não nos traz o chãzinho de menta do costume, o departamento inteiro boceja em coro às 10.27h, já não pedimos desculpa pelo pequeno arroto involuntário, partilhamos o mesmo bioritmo, só falta darmos as mãos para ir ao WC ao mesmo tempo, homens e senhoras, em procissão mariana, acho que estou a ficar com o lábio leporino do A., perguntamos ao fumador compulsivo porque não foi soltar hoje uma fumaça lá fora, a mulher pediu divórcio, logo divorciamo-nos todos e oferecemos, solidários, aquilo o que não temos e aquilo que eles nunca tiveram, Patrão em viagem de negócios, dia santo na loja, produtividade desce para metade, somos cruéis com o elemento mais fraco, mas já não há paciência para o seu mau gosto musical, arranjamos o colarinho e esticamos as gravatas dos trezentos que compramos ontem depois do expediente, que coincidência, por aqui, para obter os melhores resultados, observe o seguinte:
– Coloque ambas as colunas com uma distância entre si igual à distância em relação à posição de audição (de modo a formar um triângulo isósceles).
– As colunas frontais devem ser colocadas com uma distância entre si de 0,6 m.
- Não deixe um espaço em frente às colunas frontais quando colocadas numa mesa ou estante, etc., por causa do reflexo.

Greve patafísica


Cildo Meireles

As senhoritas trouxeram as sombrinhas, perfeito. Podiam esperar cá fora. Estava determinado nessa manhã, mãos à obra, não havia tempo a perder. Chega finalmente o patrão.
- Posso saber o que está a fazer?
- Estou a assentar tijolos na entrada, não é bom de ver?
- Mas você está doido?! Assim ninguém pode trabalhar!
- Oiça bem. Antes de vir para aqui, besuntei manteiga nos cantos da boca e na ponta da língua para que as palavras deslizassem melhor. Estavam presas dentro de mim. Agora, basta. Aconselho-o a estar calado. Quer ser útil? Chegue-me esse saco de cimento de 10 Kg que diz Pascal Pia.
- Este? O Pasc.. O quê?! Vou chamar a minha mãe e ela vai chamar o meu advogado.
- Pois vá.
- Palerma! O homem ensandeceu de vez. Isto não fica assim, ouviu?
As estagiárias não sabiam o que fazer, estavam horrorizadas. Tudo isto era inédito. O chefe de produção foi buscar uma cadeira de baloiço à carroça e começou a fazer tricot. Ia ser pai daqui a uns meses, mas a mulher ainda não sabia.
Pouco tempo depois aparece a mãe. Advogado nem vê-lo:
- Mãe, és tu? - interroguei-lhe, enquanto limpava a fronte com um lenço.
- Sr. P! Já lhe disse que eu não sou sua mãe!
- Então nada feito. Retire-se, por favor.
A mulher ficou ensimesmada durante alguns instantes, voltou-se para trás e pregou um sonoro tabefe no filho verdadeiro. Deu um pontapé no balde, virou costas e começou a caminhar em passos curtos e ligeiros, muito senhora de si. O meu patrão ficou incrédulo e paralisado com a mão na face. Antes de entrar no carro, a pobre escorregou e caiu em cima de uma poça esverdeada.
- Que campesina, alguém disse baixinho.
Levantou-se um forte rajada de vento vinda do mar. O céu estava coberto de gaivotas que não paravam de grasnar.
- As gaivotas grasnam, sr. P?
- Chega-me esse tijolo fúcsia que diz "The End".
- Tenho de lhe confessar uma coisa, chefe.
- Sim?

quarta-feira, julho 11, 2007

Em Busca do Tempo Perdido



Ontem foi o 66º aniversário da minha querida tia Adelaide, irmã da minha mãe. Marcel Proust nasceu também a 10 de Julho. São ambos nativos de Caranguejo, primeiro decanato. São um poço sem fundo de emoções e não perdem uma oportunidade para verter a lágrima. A minha tia é catequista e recusa-se terminantemente a celebrar o seu aniversário com Marcel, pois desaprova por completo a sua tradução d' A Bíblia de Amiens de J. Ruskin.
Continuo a gostar muito dos dois.

terça-feira, julho 10, 2007

Os Doidos de Vila Nova

N'A Doida do Candal, Camilo descreve Vila Nova, o sítio onde cresci, como a maior taberna do mundo, asquerosa, cheia de becos imundos, que dá vinho a todo o mundo. Entre uma e outra cheia, inalei, em miúdo, quantidades bastante elevadas de gases libertados pelo vinho do Porto que escorria abundantemente em tintos regatos pela Calçada das Freiras (ou R. Serpa Pinto) abaixo. Mais tarde, turistas gordos americanos exclamariam, fascinados:
- Gee, it's amazing, the wine just grows up in the streets here!
A mãe e a avó falavam-me com alguma nostalgia dos carros de bois que transportavam as enormes pipas de carvalho cheias de vinho. Os pobres dos animais eram brutalmente vergastados enquanto galgavam a íngreme calçada até chegarem aos velhos armazéns. Depois vieram os ruidosos camiões com as cubas metálicas, os Leyland e os Mercedes, provenientes da Régua, largando fumos mortais e inúmeras moedas de chumbo. A avó mandava-me então recolher esses cunhos para vender à Gracindinha, a farrapeira da R. das Sete Passadas. Creio que hoje poderíamos designá-la de técnica do ambiente ou algo parecido. A senhora aparecia sempre sorridente por entre colunas empilhadas de cartão bafiento. É provável que também inalasse acidentalmente vapores de vinho. As paredes esburacadas da loja estavam revestidas aqui e ali por velhas embalagens de fertilizantes agrícolas e cartazes vintage sedutores de várias companhias vinícolas. Os cantos no tecto estavam remendados com teias de aranha centenárias das quais não conseguia desviar o olhar enquanto esperava pela Gracindinha. A Rua das Sete Passadas tem cerca de setenta, oitenta metros de extensão, nem a cavalo seria possível percorrê-la em apenas sete passadas. Toponímia feita por gigantes. Ou por bêbedos, sim.

De tanto snifar vinho, por volta dos meus dez, onze anos, já distinguia as subtis nuances entre o bouquet frutado e prometedor de um vintage e o aroma aveludado, corpulento de um velho tawny. Não estou a exagerar. Posso apresentar-vos aos meus amigos de infância que não me deixam mentir. Alguns ainda estão vivos, outros simplesmente não quiseram seguir a nobre pisada dos pais, enólogos de tasca, e prefiram a poeira ao vinho. Muito antes da febre dos desportos radicais, já faziam bungee jumping do tabuleiro superior da ponte sem cordão. Infelizmente, a ressaca era tão pesada que muitos batiam no fundo e só vinham à tona várias horas depois, nas margens da Afurada ou da Cantareira. De facto, há duas décadas atrás, as únicas riquezas dos lugares de Vila Nova e Sta. Marinha que rivalizavam com o vinho do Porto eram a heroína e a coca que se consumia desenfreadamente nos becos imundos de que falava Camilo. Os garrotes e as rolhas.

segunda-feira, julho 09, 2007

A Revolução n"Os Doze"


Capa do livro "Teatro" de A. Blok (1909)


(...)
V

Tens uma cicatriz no pescoço,
Kátia, a cicatriz de uma facada.
No peito, Kátia,
tens uma unhada fresca!

Eh, eh, dança!

Que pernas tão bonitas!

Levavas roupas de rendas;
por que não agora?
Fodias com oficiais,
por que não agora?

Fode, fode!
O coração salta-me no peito!

Recordas, Kátia, aquele oficial,
Que não se salvou da navalha…
Não te lembras dele?
Ou não tens a memória fresca?

Eh, eh, refresca-a,
mete-me na cama contigo!

Polainas cinzentas levavas,
e tomavas chocolate,
ias p’rà cama com cadetes…
Agora vais com soldados?

Eh, eh, peca, peca!
Vais sentir a alma mais leve!
(...)
Aleksandr Blok, Os Doze, in "Poetas Russos"
Trad.: Manuel de Seabra
Relógio d'Água