domingo, março 22, 2026

Dentes


 

 

 

 

 

 

 

 

Estou sentado na melhor mesa deste café a ler um livro que se chama "As Misteriosas Estruturas da Vida Emocional" escrito por um americano chamado Joseph LeDoux. É um neurocientista com bastante notoriedade na sua especialidade e, como isso não bastasse, é muito competente a tocar guitarra. Um verdadeiro homem do Renascimento moderno.

Mas não é sobre LeDoux que quero falar. Dentes, quero falar sobre dentes.

O empregado de mesa tem um comprido avental verde preso atrás por uma correntinha de latão e traz-me o meu copo de aguardente de ameixa. Este café-bar tem a melhor selecção de aguardentes e cachaças da cidade. Aliás, atrevo-me a dizer que é o único estabelecimento deste burgo que vende exclusivamente aguardentes e cachaças. Depois de provar a Engenho São Luís da qual me apaixonei da última vez que cá estive, mandei vir esta Rujanska que também me faz voar. O sujeito da mesa ao lado pousou os óculos sobre mesa e sorriu para mim como que a abençoar a minha escolha. Quando chegou há cerca de uma hora atrás tinha o ar mais miserável do mundo. O seu esgar de dor atroz tinha dado lugar a uma beatífica expressão de felicidade. 

Este café é muito frequentado por pessoas que sofrem de dores de dentes e que ficaram desiludidas com os dentistas. São muitos a sofrerem em silêncio. Eu conto-me como uma dessas pessoas que nunca teve muita sorte com os chamados odontologistas. Mas, como sabem - se não sabem, ficam a saber - bochechar aguardente atenua bastante as dores de dentes e desincha gengivas inflamadas. As pessoas preferem pagar por uma boa aguardente do que pagar por um mau dentista. Naturalmente, o que acontece é que depois de bochecharem aguardente acabam sempre por ingerir alguma.

É um café belle epoque muito bonito, talvez o mais bonito da cidade. Pequenas colunas jónicas no centro suportam o tecto de estuque decorado com volutas e arabescos. Numa sala à parte, podemos encontrar quadros antigos que retratam a excruciante arte de extracção de dentes. Dir-se-ia que é uma espécie de terapia para dessensibilizar o cliente quando este já se encontra bastante anestesiado pelo álcool ingerido. As mesas tem tampo de mármore rosa, as cadeiras estão forradas com couro verde; nota-se que o dono é um homem requintado de bom gosto. Já ouvi dizer que ele era um "torna-viagem", foi dentista no Brasil, fez algum dinheiro mas que teve um esgotamento com tantas reclamações de pacientes. Como gostava muito de cachaça, resolveu recuperar este café e o resto é história como se costuma dizer.