domingo, maio 31, 2026

Sobre Moby Dick e outras criaturas


Herman Melville. 
O autor de "Moby Dick", o famoso romance do capitão Ahab contra a gigantesca baleia. Quando um livro pode ser lido por alienígenas, adultos, adolescentes e até crianças - com diferentes leituras e percepções, é óbvio - significa que temos em mãos uma obra intemporal. Se me perguntarem (obrigado por o fazerem), acho que é a história de uma grande obsessão. Parece-me que se trata de uma grande metáfora, uma estranha imagética para o conflito mental e emocional de Ahab, a terrível baleia é o seu volumoso e temível demónio interior. Um leviatã vindo do inconsciente. Na verdade, o cetáceo é um cachalote que em inglês diz-se "sperm whale" - mais freudiano que isto é impossível. E, sim, eu sei que "Dick" também pode ser calão para o órgão sexual masculino, mas creio que no caso do título foi uma coincidência. Seja como for, não estamos perante apenas uma epopeia marítima. É muito mais do que isso, tem várias camadas, é um clássico universal. O livro foi um fracasso de vendas e, como acontece muitas das vezes, Melville só obteve reconhecimento depois de morto (1891).

Agora vamos falar um pouco de mim, se me permitem. No meu caso, não são tanto baleias, são mais peixes abissais fantasmagóricos que me fazem perder o norte. De vez em quando. Vou chamá-los de peixes-intrusivos. Acabei de baptizá-los. Com o risco de me repetir (porque é assim o seu "modus operandi"), mergulho nas minhas profundezas - sem querer, é importante frisá-lo - e, quando menos espero, aparecem-me estes peixes translúcidos, com olhos desproporcionais e dentes de serrilha que me fazem abanar um pouco. Irrompem do meu inconsciente para ficarem a gravitar na minha cabeça durante um bom pedaço, querem atenção plena. 
E o que é que eu faço? 
Deixo-os nadar no meu éter privado durante o tempo que quiserem e, eventualmente, esses peixinhos abissais acabam por ir-se embora. Não passam de pequenas sombras fantasmagóricas que só existem porque lhes dou atenção. Acho que vou usar o meu vigoroso arpão para outras práticas. Algo me diz que pode ajudar-me a dissipar estes peixinhos.