sábado, julho 18, 2026

Guia

Imaginem um guia turístico.

Agora imaginem um guia que, em vez de mostrar e descrever monumentos e factos históricos sobre um determinado local, falaria sobre como percorrer com sabedoria os meandros da mente de cada um. Um guia que, em vez de falar sobre o Românico ou o Gótico, ensinaria a invocar o deus ou a deusa de cada de nós para sermos melhores pessoas. Um guia que em vez de debitar datas e dados históricos sobre esta e aquela igreja, desvelaria os caminhos do coração de cada visitante. 

Não, não seria psicólogo nem sequer sacerdote ou mago. Seria um Guia. Um ser versado em autoconhecimento e autorealização, um ser em que os demais confiavam porque possuiria uma vasta experiência pessoal e profissional, o caminho que teve de percorrer falaria por si. Ele sabe o que é ficar imobilizado na  "Praça do Medo" com dezenas de pessoas ao seu redor, ele saberia percorrer de olhos fechados a obscura "Rua dos Traumas" que termina na "Avenida da Realização". 

"Pode dizer-me onde fica o "Beco das 1000 Angústias, é por aqui?"

"Hmmm tem a certeza que quer entrar aí sozinho? "

 "A Rua das Paixões fica ao lado da Travessa das Carícias?"

 "Com certeza, conheço muito bem, mas antes proponho o seguinte: esqueçam esses livrinhos e folhetos, e façamos aqui um pequeno círculo e olhem-se nos olhos uns dos outros. Sintam as mãos das pessoas que estão ao vosso lado".

Imaginem um guia altamente habilitado que poderia falar sobre Persefone e Hades, sobre Eurídice e Orfeu, sobre Osíris e Ísis, mas que preferia falar sobre o teu Herói, a tua Heroína, sobre o que és, o que trazes, o que tens para mostrar nesta grande e incrível Excursão da Vida. 

quarta-feira, julho 15, 2026

Ciúme

A trágica cena final de Otelo e Desdémona, gerado pela IA 

 

Shakespeare dizia em Otelo que o ciúme é um "monstro de olhos verdes que zomba do alimento de que se nutre". 
Eu tenho olhos verdes, mas ainda não me considero um monstro. Isto é, posso ter pensamentos bestiais, primitivos, de posse, de controlo, mas isso não faz de mim um monstro per se. Ainda não cheguei ao patamar de Otelo e dos seus sentimentos de ciúme doentio para com Desdémona. Ciúme doentio. Não há outra forma de ciúme, pois não? Não existe tal coisa como "ciúme saudável". É um sentimento que quase todos nós já fomos acometidos. E não é muito agradável. Se formos pessoas mais ou menos conscientes e não um "monstro" como o ciúme em si, arrependemo-nos pouco depois. É um sentimento denso, de desgaste emocional que pode se prolongar. Não é como a ira, a raiva que explode e depois passa. Mas se formos do tipo obsessivo, a coisa pode escalar e pode ficar descontrolada. Até pode não haver consumação, mas sofremos só com a ideia. O ciúme é sentimento muito curioso. Não pode ser uma consequência, um apêndice do Amor. A fórmula do verdadeiro Amor não inclui o componente "ciúme".

Convidaram-me há dias para desenhar um totem. O totem basicamente é um brasão de família para os ditos "povos primitivos", é um símbolo físico de memória e de protecção de um clã, de uma linhagem. Pode integrar animais na sua composição que podem representar os antepassados. É um símbolo de força. Agora que penso, poderia ter criado um monstro de olhos verdes, não para recordar ou venerar mas antes para sublimar e exorcizar sentimentos de ciúme no totem. Teria sido uma boa ideia.




 

 

 

 

 

 

quarta-feira, julho 08, 2026

Odradeks

Tenho a ligeira impressão que a minha casa é também a casa de "odradeks". O primeiro odradek foi avistado pela primeira vez por Franz Kafka. Segundo este grande explorador checo, a estranha criatura assemelha-se a um carretel de linhas e fios velhos e partidos e tem a forma de estrela. Não tem grande utilidade e aparece pelos cantos da casa. 

À noite, tenho a ligeira impressão que vejo odradeks pelo canto do olho enquanto estou a ler ou a ver televisão. No início, quando isto começou a ocorrer, assustavam-me um pouco, confesso. Agora invoco e rezo à minha divindade e aos meus mestres e eles vão-se embora. Faço-o já de uma forma automática. 

Parece que não, não sou o único, como diz a música. Ontem, durante o meu trabalho, acompanhei um grupo de padres muito bem-dispostos e galhofeiros e quando estávamos na belíssima igreja de Santa Clara, um deles desenhou uma cruz com o dedo sobre a trave do banco de madeira à sua frente. Estava convencido que os odradeks não gostavam de viver entre talhas douradas e marmoreados.

Posso estar enganado, mas estes homens que servem Deus devem ver muitos odradeks. 

quarta-feira, julho 01, 2026

Ritual

Tal como um xamã ou um feiticeiro que quer dominar os elementos, que deseja acalentar a angústia dos outros membros da tribo face à tempestade, à seca, à falta de alimentos, etc. realizando uma encenação, uma ritualização repetida até à exaustão - entrando em transe, lá está - também eu quero mitigar alguma ansiedade neste tempo acelerado em que vivemos.

Em vez de dançar (também o faço), em vez de pintar ou gravar bisontes ou espirais na rocha, redijo sinais, faço combinações de símbolos entendíveis por quase todos - a letra, a palavra - para auxiliar-me a estruturar o que me vai na mente. Entro num trânsito de consciência, num transe, em que o tempo é diferente e o sentido é mais consciente. Por vezes, surte efeito, apazigua-me mais do que a própria prece.

Não será escrever também um ritual, um momento único onde a emoção e o intelecto se unem? A resposta é mais do que evidente.

Naturalmente, quando o xamã da palavra obtém reconhecimento pelos pares, corre sempre o risco de usar um pouco de vaidade e depois torna-se insípido, obsoleto, tentando recuperar a magia inicial a todo custo. Rimbaud, Salinger, etc. foram grandes xamãs e pararam, nunca mais escreveram depois do gênio inicial. Tiveram lucidez. Lucidez vem de luz.

Felizmente, não corro esse risco, não passo de um aprendiz de feiticeiro e nem sequer tenho uma tribo que possa curar. Mas quero aprender, quero curar, sou um curador, sem falsa modéstia aqui. Quero a revelação para mim e para todos.

A minha Altamira, o meu Foz Côa está em todo o lado, desde que haja condições para escrever ou dançar.

Fim de tarde

Os dias foram-se sucedendo. Uma semana, duas semanas, dois meses, três meses. Quase um ano. Ele faz uma retrospectiva do que tiveram, do que têm. Fica sentado no carro a olhar para o pára-brisas. Passados três, quatro minutos dá-se conta que tem o motor do carro ligado. Desliga a ignição e abre a porta. Um calor de morrer. Fica a olhar para as varandas com os guardas-sóis no prédio à frente. Apetecia-lhe fumar. Não tabaco, mas uma ervinha da boa. Atravessa a rua movimentada e senta-se nas escadas viradas para o rio. Os gansos e as gaivotas coexistem lá em baixo no areal. Os iates brancos atracados dão um ar de classe aquele afluente um pouco poluído. Põe-se a ler um livro sobre a Atlântida, arrasta a leitura há um mês. Em certas igrejas e monumentos públicos, vê-se estátuas de Atlantes musculados a suportar o peso do mundo e do Céu. A civilização perdida da Atlântida. Ele acredita que viveu várias vidas nessa civilização e que todo o seu interesse actual por História, pelo Esoterismo, pelo Exoterismo, pelo mundo espiritual vem dessa vida. Também acredita que às vezes traz o peso do mundo às suas costas e não sabe muito bem porquê. É prodigioso em criar e recriar cenários. Pensa no Amor e no Desamor. 

"Porque é que és assim?", a cassete repete-se na sua cabeça.

Duas gaivotas lutam com os bicos na margem. Os gansos observam-nas e alguns começam a grasnar. Fecha o livro. Nesse momento, apetecia-lhe dançar com ela, nada mais. O sorriso dela era um filtro transparente, indelével sobre o cenário fluvial. Apetecia abraçá-la. Uma vontade enorme de esmagá-la docemente nos seus braços, no seu peito até à fusão final. Volta para o carro. É claro que ela não atende a chamada. Torna-se um pouco recorrente já. Sente uma pequena angústia dentro de si. O espelho retrovisor devolve o seu olhar verde. Passou os dedos pelo cabelo, que calor. Tem a t-shirt colada ao corpo. Usa o spray desinfectante para as mãos para se refrescar um pouco na pescoço e nos sovacos. Volta a pensar nela e faz conjunturas. Ele sabe. Ou melhor, ele pensa que sabe. Mas, lá no fundo, não sabe nada. Apenas sente e a lição desta vida é aprender a sentir. Um ex-atlante deve sentir, só o Conhecimento não serve de nada, há que sentir sobretudo.

"Está tudo bem, é o que tiver que ser", pensa.