Tal como um xamã ou um feiticeiro que quer dominar os elementos, que deseja acalentar a angústia dos outros membros da tribo face à tempestade, à seca, à falta de alimentos, etc. realizando uma encenação, uma ritualização repetida até à exaustão - entrando em transe, lá está - também eu quero mitigar alguma ansiedade neste tempo acelerado em que vivemos.
Em vez de dançar (também o faço), em vez de pintar ou gravar bisontes ou espirais na rocha, redijo sinais, faço combinações de símbolos entendíveis por quase todos - a letra, a palavra - para auxiliar-me a estruturar o que me vai na mente. Entro num trânsito de consciência, num transe, em que o tempo é diferente e o sentido é mais consciente. Por vezes, surte efeito, apazigua-me mais do que a própria prece.
Não será escrever também um ritual, um momento único onde a emoção e o intelecto se unem? A resposta é mais do que evidente.
Naturalmente, quando o xamã da palavra obtém reconhecimento pelos pares, corre sempre o risco de usar um pouco de vaidade e depois torna-se insípido, obsoleto, tentando recuperar a magia inicial a todo custo. Rimbaud, Salinger, etc. foram grandes xamãs e pararam, nunca mais escreveram depois do gênio inicial. Tiveram lucidez. Lucidez vem de luz.
Felizmente, não corro esse risco, não passo de um aprendiz de feiticeiro e nem sequer tenho uma tribo que possa curar. Mas quero aprender, quero curar, sou um curador, sem falsa modéstia aqui. Quero a revelação para mim e para todos.
A minha Altamira, o meu Foz Côa está em todo o lado, desde que haja condições para escrever ou dançar.