terça-feira, agosto 25, 2026

Gigolo e franciscano

O antropólogo Mircea Eliade dizia que a alimentação e a sexualidade não são apenas actos fisiológicos como também podem tornar-se actos sagrados, "sacramentos". 

Ainda não aprendi a conviver com a minha capacidade sexual. Isto não é um galanteio egoíco, ou um auto-elogio exarcebado, iludido. Na verdade, é uma afirmação de um potente acto de auto-cura e nesse sentido é sagrado. 

Mudando um pouco de registo (e de que maneira), ontem tive de levar com um jovem guia que pensava que sabia tudo. Os americanos têm uma boa lista de sinónimos para este tipo de seres:

Know-it-all

Smart Alecks

Smarty-pants

Prig

Fiz um esforço para me manter discreto e em segundo plano para o jovem brilhar e fazer o seu trabalho. Era competente, agia em modo automático, faltava-lhe densidade emocional. Eu sei, é um jovem. Não me olhava nos olhos. Talvez eu também já fui assim. Dei por mim a rebolar os olhos várias vezes sempre que ele fazia uma piada fácil com algo, forçando a seguir uma risadinha ao microfone. Algo patético. Mas, no momento seguinte, via-me a auto-recriminar e accionava logo as minhas reservas de compaixão. 

Terminei o dia exausto. 

Há algo em mim de gigolo de luxo e de pobre franciscano. Não se riam. São dois lados de personalidade que tendem a coexistir. Gostaria de ter a lucidez para explicar melhor estas duas personas mas para já tenho de ficar por aqui. 

domingo, agosto 23, 2026

Veneza

V

 

E       N     E 


Z

 

A

 

Labiríntica. Misteriosa. Decadente. Imponente. Sedutora.  

São Marcos. Palácio Ducal. Rialto. Ponte dos Suspiros. Tintoretto. Madonna dell’Orto. Ca’ Dario. Palazzo Grassi. Thomas Mann. Santa Maria della Salute. Ticiano. Gran Canal. Vidro de Murano. Lido. Máscaras.
Etc.

Talvez a única cidade italiana que pode rivalizar com Roma. Ou Florença. 

Os melhores pickpockets do mundo e hordas de turistas insaciáveis por fotos. 

Veneza pode ser uma experiência magnífica ou esmagadora. Para além das cúpulas e mosaicos de São Marcos e do túmulo do Tintoretto (por motivos diferentes), levo no coração um encontro que tive com um velho casal belga. Isto é, ela era belga, dava para ver que já foi muito bonita; ele era português do bairro da Graça que já estava radicado na Flandres há quase cinquenta anos. Octogenário, usava andarilho e tinha um olhar cansado mas meigo. Perguntei-lhe se precisava de ajuda mesmo em frente à Ponte dos Suspiros. Tinham vivido em Milão durante sete anos e estavam em Veneza por causa da Bienal. 

A vaga inclemente de calor húmido que pairou sobre Itália castigava tudo e todos. Nunca suei tanto na minha vida. Deixei o meu suor sobre a água dos canais. Veneza também ficou com uma recordação minha.


sexta-feira, agosto 14, 2026

A loba

Hoje, tive uma loba ferida como colega de trabalho. Um dia bastante longo. Era doloroso sentir a sua dor. Era notório que a loba queria superar-se custasse o que custasse. Fingia que a dor não estava lá. Nada de novo. O rosto é sorridente, mas a máscara é por demais evidente. Perdeu muito peso nos últimos meses, pratica Krav Maga há muitos anos, adoptava uma postura "Alfa", de conquista, de 'perfuração", de mártir arrebatadora. Mas a dor está lá, muito instalada, senti-me meio abalroado. É uma dor de ausência de pais, de carinho, de ternura. Muita raiva. Quase que poderia apalpar a fúria. Encontrou no Krav Maga um escape, mas isso não chega. Como é evidente. 

Numa luta corpo a corpo, talvez ela assumisse uma vantagem inicial. Ela domina a técnica de combate. Bom, talvez fosse um bom catalisador para estimular e queimar a minha própria raiva. Uma loba ferida contra um urso que se força a sair todos os dias de uma hibernação muito peculiar. 

Amor. Tudo de se resume a isto. 



domingo, agosto 09, 2026

Sol e Lua

O calor tem este efeito em mim: dilata-me, expande-me as células, mas de uma forma desconfortável, às vezes até dolorosa. Eu que já sou uma entidade quente e radiante (não se riam porque é verdade), sinto a acção implacável das altas temperaturas até nos meus ossos. Está mais que visto que prospero em latitudes mais frias, mais "árticas", se quiserem. Tenho uma relação muito boa com o frio. 

Tem dias que o meu crânio dilata como um junta de uma ponte e parece que vai estalar a qualquer momento. Adoraria andar sempre com um capacete colorido e refrigerado até ao final do Verão. Pena que se o fizesse, as senhoras (e alguns homens,) não teriam a felicidade de admirar o meu rosto de Adónis (não se riam porque é verdade).

Eu gosto do Sol, atenção. Sou um adorador do Sol. Faço orações e invoco a nossa grande estrela. É um símbolo de poder e de vida. Só não gosto quando ele se aproxima muito de nós. Muito mal comparado, será como conhecer uma celebridade; poderá haver desconforto e desilusão. 

Por outro lado, talvez eu seja mais do tipo lunático e talvez este texto seja um reflexo disso mesmo. Humores que mudam como as marés, volúvel, irregular. Mas também sou nutrição, sou maternidade, afago quem me pede para ser afagado, banho a minha luz reflectida naqueles quando me pedem. 
Que Lunático.