Shakespeare dizia em Otelo que o ciúme é um "monstro de olhos verdes que zomba do alimento de que se nutre".
Eu tenho olhos verdes, mas ainda não me considero um monstro. Isto é, posso ter pensamentos bestiais, primitivos, de posse, de controlo, mas isso não faz de mim um monstro per se. Ainda não cheguei ao patamar de Otelo e dos seus sentimentos de ciúme doentio para com Desdémona. Ciúme doentio. Não há outra forma de ciúme, pois não? Não existe tal coisa como "ciúme saudável". É um sentimento que quase todos nós já fomos acometidos. E não é muito agradável. Se formos pessoas mais ou menos conscientes e não um "monstro" como o ciúme em si, arrependemo-nos pouco depois. É um sentimento denso, de desgaste emocional que pode se prolongar. Não é como a ira, a raiva que explode e depois passa. Mas se formos do tipo obsessivo, a coisa pode escalar e pode ficar descontrolada. Até pode não haver consumação, mas sofremos só com a ideia. O ciúme é sentimento muito curioso. Não pode ser uma consequência, um apêndice do Amor. A fórmula do verdadeiro Amor não inclui o componente "ciúme".
Convidaram-me há dias para desenhar um totem. O totem basicamente é um brasão de família para os ditos "povos primitivos", é um símbolo físico de memória e de protecção de um clã, de uma linhagem. Pode integrar animais na sua composição que podem representar os antepassados. É um símbolo de força. Agora que penso, poderia ter criado um monstro de olhos verdes, não para recordar ou venerar mas antes para sublimar e exorcizar sentimentos de ciúme no totem. Teria sido uma boa ideia.