sábado, setembro 19, 2026

Aveiro

Pequenas insónias. Adormeço e acordo pouco tempo depois. Parece que sinto o cortisol a pulsar nas minhas veias, o meu coração quase sai disparado. Ponho um quartzo rosa no meu peito. Acho que o meu sistema está a ser calibrado, regulado. 

Ontem, destacaram-me para a "Veneza portuguesa", que cognome tão desapropriado, como se fosse possível sequer comparar Aveiro e Veneza. Marketing pobre. Aveiro é uma cidade bonita, mas não está no mesmo patamar da cidade dos ducce. 

Tenho sempre sensações mistas (traduzi o inglês) quando venho a esta cidade. A água dos canais induz-me leveza e fluidez. As cores dos azulejos, a arte nova nos edifícios são lindíssimas, consigo apreciar os pequenos pormenores, ainda que esteja quase sempre em "modo trabalho". 

Mas a cidade causa-me outras coisas: nasci no Porto, mas tenho quase a certeza que fui concebido em Aveiro num pequeno hotel de uma pequena rua do centro. Anos 70. Ainda não havia Algarve e os meus pais não tinham dinheiro. Núpcias na Veneza portuguesa. Estou a imaginar os meus futuros e pobres pais a passearem num moliceiro, a comerem ovos moles para depois me fazerem num pequeno quarto. O universo envia-me regularmente para esta cidade-útero onde parece que sou obrigado a processar tudo o que sentia quando estava dentro da minha mãe. Desconforto, agitação, procura incessante.

Foi dia de neuroestenia, principalmente da parte da tarde. Senti como se tivesse um cacto dentro da cabeça. Clientes pouco interessantes. Ao meu lado, vinha uma múmia de Minas Gerais, o homem praticamente não falava. A boca sempre semi-aberta, olhar vazio, rosto seco, muitas manchas de pele. No regresso ao Porto, caos na A1, incêndio. Em desespero, meti-me por umas ruelas de Cacia e Esgueira, os subúrbios proto-rurais da Veneza de Portugal. Como se costuma dizer, foi pior a emenda do que o soneto. Filas intermináveis de carros em estradas encolhidas. Uma raiva começou a destilar dentro de mim. Uma raiva antiga que não era de agora. Apetece-me abandonar o carro ali com os clientes lá dentro. Como nos filmes. 

Tento respirar. Talvez precisasse daquilo. Talvez precisasse daquele congestionamento para descongestionar estas velhas camadas de fúria, de comoção, de medos recessos.