sábado, outubro 03, 2026

Bilhar grande


Enquanto espero pelos meus clientes de hoje, um simpático casal com ascendência mexicana de Houston, Texas, aprecio o puzzle urbanístico do centro do Porto a partir da beira-rio de Gaia. Está um lindo dia de Outubro, a temperatura está amena. O céu azul convida a um passeio lento pelas ruelas e ruas do burgo. Nasci no Porto mas morei quase toda a minha vida na cidade-vila do outro lado do Douro. Garrett, Eça, Rentes de Carvalho viveram aqui. A cidade das caves. Há mesmo muito vinho aqui. Enquanto crescia, inalei qb o cheiro do vinho despejado das cubas, eram pequenos riachos tintos que desaguavam no grande rio. Havia também muitas rodelas de limão e seringas usadas pelas ruelas traseiras. Anos 80, princípios dos 90. Muita droga. Santa Marinha. O South Bronx do Porto. Muita coisa mudou, Gaia foi envernizada e polida com brunches, novos restaurantes e um maravilhoso e irresistível "world of wine", um artificial paraíso enólogo para adultos e crianças. Tive de subir a antiga e íngreme rua Direita para encontrar um café com preços decentes. Passei pela antiga leitaria onde a minha avó me mandava comprar o leite. A drogaria que já fechou. A velha "escola da praia". Mais acima morava a minha tia que agora está num lar em Coimbra com princípios de Alzheimer. Uma sombra de tristeza pairou sobre mim. Tomei o meu café, no balcão estavam dois homens a beber cerveja às 10:30 da manhã. Na prateleira da parede, o Santo António e Fátima protegiam o local entre garrafas de Aldeia Velha e Porto Messias. "Fala baixo", podia-se ler num papel escrito à mão. Baldes com esfregonas nos cantos, produtos de limpeza caídos no chão. Na sala ao fundo, uma velha mesa de bilhar esperava pelos jogadores de snooker do costume.