terça-feira, setembro 01, 2026

Deus grego

Dois países em ruptura. Em contramão. Em contraciclo. 

O primeiro já vive assim há muito, muito tempo. A miséria normalizada nas ruas, a sujidade, tudo é improviso, tudo é recauchutado. Um dos berços da civilização turistificado ao máximo, sem qualquer proveito para a maioria. O país é um hino visceral e colorido à miséria. Centenas de línguas e dialectos, dezenas de cultos, milhares de ritos, parece que a Índia sempre quis cobrir tudo o que é possível em toda a praxis humana. Há dias fui contemplado com uma pequena "comitiva" de indianos de Mumbai, tinham vindo a Portugal para um casamento. A grande maioria era vegetariana, como é evidente. Não comem animais e está tudo bem.  Tive a sorte de encontrar um restaurante indiano nesta pequena cidade, ficaram felizes da vida. O dono era Sikh, era muito cordial, ainda que os meus clientes não fossem do Punjab. Se pensarmos bem, é espantoso como não há conflitos maiores no meio de tantos credos diferentes no subcontinente indiano. 

Não respeitavam horários. Não bebiam vinho. Algumas mulheres não comiam alho nem cebola, é a dieta sátvica, ainda mais rígida. Até podiam mostrar interesse pela cultura e história locais, mas no íntimo acreditam que a sua cultura e alimentação são superiores em tudo. Foi um dia longo como podem calcular. Confessaram-me que eu era muito parecido com um actor indiano ao qual chamavam de "deus grego". Fui obrigado a concordar com as semelhanças.

Bom, o outro país sobre o qual queria falar era Israel, mas o texto já vai longo e não me apetece falar agora de hasidims e comida kosher. Seria demasiado para o caro leitor, tenho a certeza. 

terça-feira, agosto 25, 2026

Gigolo e franciscano

O antropólogo Mircea Eliade dizia que a alimentação e a sexualidade não são apenas actos fisiológicos como também podem tornar-se actos sagrados, "sacramentos". 

Ainda não aprendi a conviver com a minha capacidade sexual. Isto não é um galanteio egoíco, ou um auto-elogio exarcebado, iludido. Na verdade, é uma afirmação de um potente acto de auto-cura e nesse sentido é sagrado. 

Mudando um pouco de registo (e de que maneira), ontem tive de levar com um jovem guia que pensava que sabia tudo. Os americanos têm uma boa lista de sinónimos para este tipo de seres:

Know-it-all

Smart Alecks

Smarty-pants

Prig

Fiz um esforço para me manter discreto e em segundo plano para o jovem brilhar e fazer o seu trabalho. Era competente, agia em modo automático, faltava-lhe densidade emocional. Eu sei, é um jovem. Não me olhava nos olhos. Talvez eu também já fui assim. Dei por mim a rebolar os olhos várias vezes sempre que ele fazia uma piada fácil com algo, forçando a seguir uma risadinha ao microfone. Algo patético. Mas, no momento seguinte, via-me a auto-recriminar e accionava logo as minhas reservas de compaixão. 

Terminei o dia exausto. 

Há algo em mim de gigolo de luxo e de pobre franciscano. Não se riam. São dois lados de personalidade que tendem a coexistir. Gostaria de ter a lucidez para explicar melhor estas duas personas mas para já tenho de ficar por aqui. 

domingo, agosto 23, 2026

Veneza

V

 

E       N     E 


Z

 

A

 

Labiríntica. Misteriosa. Decadente. Imponente. Sedutora.  

São Marcos. Palácio Ducal. Rialto. Ponte dos Suspiros. Tintoretto. Madonna dell’Orto. Ca’ Dario. Palazzo Grassi. Thomas Mann. Santa Maria della Salute. Ticiano. Gran Canal. Vidro de Murano. Lido. Máscaras.
Etc.

Talvez a única cidade italiana que pode rivalizar com Roma. Ou Florença. 

Os melhores pickpockets do mundo e hordas de turistas insaciáveis por fotos. 

Veneza pode ser uma experiência magnífica ou esmagadora. Para além das cúpulas e mosaicos de São Marcos e do túmulo do Tintoretto (por motivos diferentes), levo no coração um encontro que tive com um velho casal belga. Isto é, ela era belga, dava para ver que já foi muito bonita; ele era português do bairro da Graça que já estava radicado na Flandres há quase cinquenta anos. Octogenário, usava andarilho e tinha um olhar cansado mas meigo. Perguntei-lhe se precisava de ajuda mesmo em frente à Ponte dos Suspiros. Tinham vivido em Milão durante sete anos e estavam em Veneza por causa da Bienal. 

A vaga inclemente de calor húmido que pairou sobre Itália castigava tudo e todos. Nunca suei tanto na minha vida. Deixei o meu suor sobre a água dos canais. Veneza também ficou com uma recordação minha.


sexta-feira, agosto 14, 2026

A loba

Hoje, tive uma loba ferida como colega de trabalho. Um dia bastante longo. Era doloroso sentir a sua dor. Era notório que a loba queria superar-se custasse o que custasse. Fingia que a dor não estava lá. Nada de novo. O rosto é sorridente, mas a máscara é por demais evidente. Perdeu muito peso nos últimos meses, pratica Krav Maga há muitos anos, adoptava uma postura "Alfa", de conquista, de 'perfuração", de mártir arrebatadora. Mas a dor está lá, muito instalada, senti-me meio abalroado. É uma dor de ausência de pais, de carinho, de ternura. Muita raiva. Quase que poderia apalpar a fúria. Encontrou no Krav Maga um escape, mas isso não chega. Como é evidente. 

Numa luta corpo a corpo, talvez ela assumisse uma vantagem inicial. Ela domina a técnica de combate. Bom, talvez fosse um bom catalisador para estimular e queimar a minha própria raiva. Uma loba ferida contra um urso que se força a sair todos os dias de uma hibernação muito peculiar. 

Amor. Tudo de se resume a isto. 



domingo, agosto 09, 2026

Sol e Lua

O calor tem este efeito em mim: dilata-me, expande-me as células, mas de uma forma desconfortável, às vezes até dolorosa. Eu que já sou uma entidade quente e radiante (não se riam porque é verdade), sinto a acção implacável das altas temperaturas até nos meus ossos. Está mais que visto que prospero em latitudes mais frias, mais "árticas", se quiserem. Tenho uma relação muito boa com o frio. 

Tem dias que o meu crânio dilata como um junta de uma ponte e parece que vai estalar a qualquer momento. Adoraria andar sempre com um capacete colorido e refrigerado até ao final do Verão. Pena que se o fizesse, as senhoras (e alguns homens,) não teriam a felicidade de admirar o meu rosto de Adónis (não se riam porque é verdade).

Eu gosto do Sol, atenção. Sou um adorador do Sol. Faço orações e invoco a nossa grande estrela. É um símbolo de poder e de vida. Só não gosto quando ele se aproxima muito de nós. Muito mal comparado, será como conhecer uma celebridade; poderá haver desconforto e desilusão. 

Por outro lado, talvez eu seja mais do tipo lunático e talvez este texto seja um reflexo disso mesmo. Humores que mudam como as marés, volúvel, irregular. Mas também sou nutrição, sou maternidade, afago quem me pede para ser afagado, banho a minha luz reflectida naqueles quando me pedem. 
Que Lunático.  

domingo, julho 26, 2026

Karma

 1. Há algo de kármico e justo quando um branco como eu transporta uma família da Costa do Marfim. Antes de me chamarem de segregacionista, deem-me a oportunidade de explicar. São católicos e querem ir a Fátima. A mãe usa um daqueles longos e coloridos vestidos africanos. É muito vistosa e tem sempre um sorriso tímido na cara. O pai tem um ar sereno e conhecedor. Os filhos vivem em Paris, são mais libertos, mais "cosmo". Há cinco séculos, os colonizadores portugueses fizeram "trinta por uma linha" (eufemismo do ano) na costa da Guiné, colonizando e separando vidas, implementando monogamia e monoteísmo, tudo "mono". O europeu branco sobrepôs ao africano formas de viver e de estar. Estes parecem não guardar rancor. Ficaram maravilhados com a Cova da Eiria. Fátima vem do árabe Fāṭimah ligado ao verbo fātama (desmamar ou separar). O nome também homenageia Fátima, filha do profeta Maomé e de Khadija, uma das mulheres mais veneradas na cultura muçulmana. Os Fatimidas passaram por aqui. Acho incrível como a maioria parte dos portugueses desconhece isto.

2. Hoje tenho um casal muito branco do Minnesota. Celebram o 25° aniversário de casamento. Muito civilizados, muito cordiais. Adoram Portugal e o velho continente em geral. Também a sua presença pode ser kármica para mim (tudo é na realidade). São-me uma distracção proveitosa, são apenas clientes. Ele é gestor na multinacional General Mills. Apesar da simpatia, não têm muito mais para me oferecer. Servem-me para me distrair da neurastenia do dia que hoje tem a ver com Deus (grande surpresa, esta é das antigas). O pragmatismo dos americanos ajuda-me a descer à Terra, devolve-me o lado funcional do meu cérebro. No final ofereceram-me um Tawny orgânico que aceitei de bom grado.

quinta-feira, julho 23, 2026

Surfista Prateado


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Existe um personagem/herói do mundo Marvel com o qual me identifico bastante - o Surfista Prateado. Jack Kerby estava bastante inspirado quando o criou.

Para aqueles que não sabem, o Surfista servia Galactus, o Devorador de Mundos. Muito resumidamente, o Surfista compadeceu-se dos habitantes da Terra e não entregou o nosso planeta ao seu mestre que precisava da energia de planetas inteiros para sobreviver. Como consequência, ficou aprisionado neste nosso planeta azul. 

O Surfista possui poderes incríveis, pode viajar pelo espaço sideral, pelo hiperespaço e através de barreiras dimensionais. Pode voar em velocidades praticamente ilimitadas na sua prancha e incorporar o hiperespaço quando excede a velocidade da luz. Já provou ser capaz de viajar no tempo em algumas ocasiões. Não precisa de comer, beber, respirar nem dormir, sendo sustentado inteiramente pelo poder cósmico. É imune aos extremos da temperatura e à maioria das radiações.

Apesar destes poderes todos, é claramente um personagem atormentado, solitário. Não pertence a nenhum dos mundos por onde passou. Questiona a moralidade das suas acções, é dado a questões existenciais. Ele ajuda e destrói. Ele salva e rejeita. 

Esta itenerância constante, esta mobilidade quase forçada, esta não-permanência que caracteriza o meu trabalho é o que me salva e o que me desgasta ao mesmo tempo. Pergunto-me muitas vezes porque sou assim, porque actuo desta forma. Não sirvo nenhum "devorador de mundos" (que eu saiba!), mas parece haver uma "força maior" que me impele a executar este cargo. Juro que não quero romantizar nada aqui.

O que vou dizer/escrever a seguir não é novidade para alguns vocês e poderão até identificar-se com este sentimento. Numa boa parte destas "missões", sinto-me tremendamente sozinho no meio de tantas pessoas. Como se estivesse a navegar entre mundos, tal como o Surfista. Sou confrontado por diferentes percepções e cognições que reconheço, mas parece que não me é permitido permanecer nesse estado de "identificação" durante muito tempo. A natureza deste trabalho descarta as pessoas (clientes) no fim do dia. No dia seguinte, surgem mais caras novas e assim sucessivamente. Não, não é um métier normal.
Para ser completamente honesto comigo mesmo, questiono-me amiúde porque faço aquilo que faço. Parece haver aqui uma nobreza de desígnio superior, mas sinto frequentemente aquilo que se chama um síndrome de impostor. Não porque finjo a minha empatia e/ou simpatia, mas porque a mecânica rotineira do cargo, a repetição árida obriga-me a uma certa postura que às vezes me parece artificial.

Talvez seja isto parte da experiência humana. Nós assim escolhemos antes de nascer. A Terra é de facto uma grande vivência cósmica. 


 

 

sábado, julho 18, 2026

Guia

Imaginem um guia turístico.

Agora imaginem um guia que, em vez de mostrar e descrever monumentos e factos históricos sobre um determinado local, falaria sobre como percorrer com sabedoria os meandros da mente de cada um. Um guia que, em vez de falar sobre o Românico ou o Gótico, ensinaria a invocar o deus ou a deusa de cada de nós para sermos melhores pessoas. Um guia que em vez de debitar datas e dados históricos sobre esta e aquela igreja, desvelaria os caminhos do coração de cada visitante. 

Não, não seria psicólogo nem sequer sacerdote ou mago. Seria um Guia. Um ser versado em autoconhecimento e autorealização, um ser em que os demais confiavam porque possuiria uma vasta experiência pessoal e profissional, o caminho que teve de percorrer falaria por si. Ele sabe o que é ficar imobilizado na  "Praça do Medo" com dezenas de pessoas ao seu redor, ele saberia percorrer de olhos fechados a obscura "Rua dos Traumas" que termina na "Avenida da Realização". 

"Pode dizer-me onde fica o "Beco das 1000 Angústias, é por aqui?"

"Hmmm tem a certeza que quer entrar aí sozinho? "

 "A Rua das Paixões fica ao lado da Travessa das Carícias?"

 "Com certeza, conheço muito bem, mas antes proponho o seguinte: esqueçam esses livrinhos e folhetos, e façamos aqui um pequeno círculo e olhem-se nos olhos uns dos outros. Sintam as mãos das pessoas que estão ao vosso lado".

Imaginem um guia altamente habilitado que poderia falar sobre Persefone e Hades, sobre Eurídice e Orfeu, sobre Osíris e Ísis, mas que preferia falar sobre o teu Herói, a tua Heroína, sobre o que és, o que trazes, o que tens para mostrar nesta grande e incrível Excursão da Vida. 

quarta-feira, julho 15, 2026

Ciúme

A trágica cena final de Otelo e Desdémona, gerado pela IA 

 

Shakespeare dizia em Otelo que o ciúme é um "monstro de olhos verdes que zomba do alimento de que se nutre". 
Eu tenho olhos verdes, mas ainda não me considero um monstro. Isto é, posso ter pensamentos bestiais, primitivos, de posse, de controlo, mas isso não faz de mim um monstro per se. Ainda não cheguei ao patamar de Otelo e dos seus sentimentos de ciúme doentio para com Desdémona. Ciúme doentio. Não há outra forma de ciúme, pois não? Não existe tal coisa como "ciúme saudável". É um sentimento que quase todos nós já fomos acometidos. E não é muito agradável. Se formos pessoas mais ou menos conscientes e não um "monstro" como o ciúme em si, arrependemo-nos pouco depois. É um sentimento denso, de desgaste emocional que pode se prolongar. Não é como a ira, a raiva que explode e depois passa. Mas se formos do tipo obsessivo, a coisa pode escalar e pode ficar descontrolada. Até pode não haver consumação, mas sofremos só com a ideia. O ciúme é sentimento muito curioso. Não pode ser uma consequência, um apêndice do Amor. A fórmula do verdadeiro Amor não inclui o componente "ciúme".

Convidaram-me há dias para desenhar um totem. O totem basicamente é um brasão de família para os ditos "povos primitivos", é um símbolo físico de memória e de protecção de um clã, de uma linhagem. Pode integrar animais na sua composição que podem representar os antepassados. É um símbolo de força. Agora que penso, poderia ter criado um monstro de olhos verdes, não para recordar ou venerar mas antes para sublimar e exorcizar sentimentos de ciúme no totem. Teria sido uma boa ideia.




 

 

 

 

 

 

quarta-feira, julho 08, 2026

Odradeks

Tenho a ligeira impressão que a minha casa é também a casa de "odradeks". O primeiro odradek foi avistado pela primeira vez por Franz Kafka. Segundo este grande explorador checo, a estranha criatura assemelha-se a um carretel de linhas e fios velhos e partidos e tem a forma de estrela. Não tem grande utilidade e aparece pelos cantos da casa. 

À noite, tenho a ligeira impressão que vejo odradeks pelo canto do olho enquanto estou a ler ou a ver televisão. No início, quando isto começou a ocorrer, assustavam-me um pouco, confesso. Agora invoco e rezo à minha divindade e aos meus mestres e eles vão-se embora. Faço-o já de uma forma automática. 

Parece que não, não sou o único, como diz a música. Ontem, durante o meu trabalho, acompanhei um grupo de padres muito bem-dispostos e galhofeiros e quando estávamos na belíssima igreja de Santa Clara, um deles desenhou uma cruz com o dedo sobre a trave do banco de madeira à sua frente. Estava convencido que os odradeks não gostavam de viver entre talhas douradas e marmoreados.

Posso estar enganado, mas estes homens que servem Deus devem ver muitos odradeks. 

quarta-feira, julho 01, 2026

Ritual

Tal como um xamã ou um feiticeiro que quer dominar os elementos, que deseja acalentar a angústia dos outros membros da tribo face à tempestade, à seca, à falta de alimentos, etc. realizando uma encenação, uma ritualização repetida até à exaustão - entrando em transe, lá está - também eu quero mitigar alguma ansiedade neste tempo acelerado em que vivemos.

Em vez de dançar (também o faço), em vez de pintar ou gravar bisontes ou espirais na rocha, redijo sinais, faço combinações de símbolos entendíveis por quase todos - a letra, a palavra - para auxiliar-me a estruturar o que me vai na mente. Entro num trânsito de consciência, num transe, em que o tempo é diferente e o sentido é mais consciente. Por vezes, surte efeito, apazigua-me mais do que a própria prece.

Não será escrever também um ritual, um momento único onde a emoção e o intelecto se unem? A resposta é mais do que evidente.

Naturalmente, quando o xamã da palavra obtém reconhecimento pelos pares, corre sempre o risco de usar um pouco de vaidade e depois torna-se insípido, obsoleto, tentando recuperar a magia inicial a todo custo. Rimbaud, Salinger, etc. foram grandes xamãs e pararam, nunca mais escreveram depois do gênio inicial. Tiveram lucidez. Lucidez vem de luz.

Felizmente, não corro esse risco, não passo de um aprendiz de feiticeiro e nem sequer tenho uma tribo que possa curar. Mas quero aprender, quero curar, sou um curador, sem falsa modéstia aqui. Quero a revelação para mim e para todos.

A minha Altamira, o meu Foz Côa está em todo o lado, desde que haja condições para escrever ou dançar.

Fim de tarde

Os dias foram-se sucedendo. Uma semana, duas semanas, dois meses, três meses. Quase um ano. Ele faz uma retrospectiva do que tiveram, do que têm. Fica sentado no carro a olhar para o pára-brisas. Passados três, quatro minutos dá-se conta que tem o motor do carro ligado. Desliga a ignição e abre a porta. Um calor de morrer. Fica a olhar para as varandas com os guardas-sóis no prédio à frente. Apetecia-lhe fumar. Não tabaco, mas uma ervinha da boa. Atravessa a rua movimentada e senta-se nas escadas viradas para o rio. Os gansos e as gaivotas coexistem lá em baixo no areal. Os iates brancos atracados dão um ar de classe aquele afluente um pouco poluído. Põe-se a ler um livro sobre a Atlântida, arrasta a leitura há um mês. Em certas igrejas e monumentos públicos, vê-se estátuas de Atlantes musculados a suportar o peso do mundo e do Céu. A civilização perdida da Atlântida. Ele acredita que viveu várias vidas nessa civilização e que todo o seu interesse actual por História, pelo Esoterismo, pelo Exoterismo, pelo mundo espiritual vem dessa vida. Também acredita que às vezes traz o peso do mundo às suas costas e não sabe muito bem porquê. É prodigioso em criar e recriar cenários. Pensa no Amor e no Desamor. 

"Porque é que és assim?", a cassete repete-se na sua cabeça.

Duas gaivotas lutam com os bicos na margem. Os gansos observam-nas e alguns começam a grasnar. Fecha o livro. Nesse momento, apetecia-lhe dançar com ela, nada mais. O sorriso dela era um filtro transparente, indelével sobre o cenário fluvial. Apetecia abraçá-la. Uma vontade enorme de esmagá-la docemente nos seus braços, no seu peito até à fusão final. Volta para o carro. É claro que ela não atende a chamada. Torna-se um pouco recorrente já. Sente uma pequena angústia dentro de si. O espelho retrovisor devolve o seu olhar verde. Passou os dedos pelo cabelo, que calor. Tem a t-shirt colada ao corpo. Usa o spray desinfectante para as mãos para se refrescar um pouco na pescoço e nos sovacos. Volta a pensar nela e faz conjunturas. Ele sabe. Ou melhor, ele pensa que sabe. Mas, lá no fundo, não sabe nada. Apenas sente e a lição desta vida é aprender a sentir. Um ex-atlante deve sentir, só o Conhecimento não serve de nada, há que sentir sobretudo.

"Está tudo bem, é o que tiver que ser", pensa. 

 

quinta-feira, junho 25, 2026

Um caso

A heroína desta pequena história era devota de Santo António de Pádua. Eu sei, só em Portugal é que o Fernando de Bulhões (seu nome de baptismo) é conhecido como Santo António de Lisboa; como todos os portugueses sabem, o santo nasceu efectivamente em Lisboa. 

É-me tentador falar sobre Santo António, não vou esconder. Vou fazer um esforço descomunal para não o fazer. Não desta vez. Amanhã vou em missão laboral para Coimbra e vou levar seres humanos do Novo Mundo (norte-americanos) ao belíssimo Mosteiro de Santa Cruz onde, como qualquer coimbrão sabe, Fernando de Bulhões (ainda não era santo nesta altura) fez os seus estudos e se tornou missionário, partindo depois para outras paragens. Tornou-se um asceta, um pregador, um místico, quase todos os católicos têm um carinho especial por Santo António.

Bom, mas esta história não é sobre o santo, é sobre uma mulher de seu nome Yvone que, desde que se tornou mulher, nutria uma fé inabalável por Santo António. Foi noiva de Santo António, o seu casamento foi o dia mais feliz da sua vida. Yvone era uma mulher normal, de uma beleza discreta, tinha um olhar doce, uma tez luminosa, suave. Era viciada em M&Ms e adorava vestir calças brancas. Era recepcionista num centro de inspecção automóvel e pode dizer-se que era uma boa colega. Naturalmente, alguns inspectores gostavam de flirtar com ela de vez em quando, um gracejo aqui, outro ali, o costume. Ela não levava a mal e respondia à letra. Como não poderia deixar de ser, Yvone tinha a sua estatuazinha do Santo António a protegê-la atrás de si numa prateleira da recepção. No início, o gestor do centro torceu o nariz, mas Yvone tinha um encanto natural que era quase irresistível. Além disso, era uma excelente profissional. 

O que vou contar-vos repete-se todos os dias e repetiu-se seguramente milhões de vezes desde que o homem é homem e a mulher é mulher. Olhem, desde Adão e Eva, se quiserem. A nossa Yvone, casada, com dois filhos, um com quatro, outro com nove, apaixonou-se perdidamente por um dos inspectores. "Perdidamente" deve ser o advérbio mais usado quando utilizamos o verbo "apaixonar", mas foi exactamente isso que aconteceu. Pedia todos os dias ao santo casamenteiro para fazer o contrário do seu dom, ou seja, ela pedia ao santo para se desapaixonar, para tirar aquela paixão assolapada de si, da sua boca, dos seus olhos, dos seus ombros, das suas pernas, do seu peito. Enfim, já perceberam a ideia (convém sempre a "paixão" ser acompanhada pelo adjectivo "assolapada", senão não é "Paixão"). Não vou dizer o nome dele, porque não sei bem. Creio que é Paulo ou Pedro, não tenho bem a certeza, é um nome bastante comum. Era o mais recente inspector do centro e era um tipo moreno, bem ajeitado de cara, musculado e tatuado com bom gosto. Tinha pin-ups americanas no braço esquerdo e, no braço direito, uma tatuagem muito bem feita de Santo António com o menino. Bom. Era um tipo reservado, muito profissional, era o único que não se metia com Yvone. Trocavam papéis de trabalho, as fichas, falavam o que tinha de falar, "bom dia", "boa tarde" e pouco mais. Para além da tatuagem com o santo da predilecção dos dois, o outro motivo que levou Yvone a apaixonar-se por Paulo (ou Pedro, não sei bem) era o facto de ele ser calado, de uma timidez desconcertante que não combinava com o facto de ser um homem musculado e tatuado.

Como isto é uma pequena história, uma short story como se diz agora, vou já revelar o que alguns de vocês já adivinharam. Yvone ou Paulo (ou Pedro) começaram a consumar a sua paixão várias vezes por semana, no WC do centro antes de fecharem, no jardim ao lado, no carro dele ou dela (que tinham a inspecção em dia como é obrigatório), num dos motéis da zona, etc. Houve até uma vez - quando todos tinham ido embora, como é óbvio - que o fizeram na sala de recepção com o olhar impassível de Santo António. Bom, o "olhar" também pode ser "impassível". Mas nem sempre.

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, junho 22, 2026

Diário de Bordo XXXL

 Planeta Terra (conhecido também como "Urantia," "Gaia"), Sistema Solar. 

Calendário Holoceno: ano 12026

Calendário Rúnico: Ano 2226

Calendário Gregoriano: Dia 22/06/26, Ano 2026


Nós, os que Procuramos, sentimos que se aproxima o fim do Velho Ciclo. Término gradual dos velhos padrões de pensamento, da obsoleta e ilusória mundividência. Tentativas regulares para uma abertura plena para o Amor, para a Compaixão. Alguns atritos, conflitos, fissuras bélicas que atrasam o que é inevitável. Uma grelha invisível manipuladora que paira há milénios sobre este planeta e que o tornou numa enormíssima caverna de Platão -  excepto para alguns que tiveram a coragem, o discernimento, a inspiração "divina", se quiserem, para ver mais além - os Pioneiros.

"Disclosure", revelação. A exposição alienígena está agendada para breve. Primeiros contactos com Pleidianos, nossos parentes afastados. Seres de Luz que nos auxiliam há muito tempo. Há muito mais raças estelares.

O nosso prevalecente pensamento terráqueo que ainda rejeita a vida extra-terrestre. Os que acreditam são alienados (!), loucos, "nerds", viram demasiados filmes sci-fi. Racionalidade distorcida. Até aqui a manipulação reptiliana foi hábil, porque levou-nos a pensar que era ficção. Uma boa parte do enredo dos livros de fantasia e sci-fi aconteceram de facto noutros planos dimensionais. As guerras estelares foram e são uma realidade. 

Medidas graduais e regulares para a Dissolução do Medo. Alguma cautela. 

Eu sou Luz. Todos somos. Ainda há muita névoa, muitos resíduos e engodos sobre a nossa cognição que nos toldam, que não nos permitem ver O Que É. Joshua/Javé/Jesus tentou ajudar-nos. Outros de consciência e frequência elevadas também tentaram. 

Não sei se estou preparado. O medo dentro de mim ainda é forte, ainda resiste. Receio dos juízos pelos outros. Falta de segurança. A minha mente emite amiúde pulsões de ilusão que por vezes causa confusão, alguma angústia. No entanto, são intercalados com fragmentos de luz, de amor. Necessidade absoluta de enraizamento e de dinâmicas físicas e sociais. 

Aguardo activamente e com esperança.

Fim de transmissão. 


Capitão-agente: P. A.

Base: OPO, PT


sexta-feira, junho 19, 2026

Heróis

 O Conde de Monte Cristo – Wikipédia, a enciclopédia livre

 

Há dois heróis da literatura que me fascinam e me causam empatia - às vezes parecem-me mais reais do que os próprios autores.

O Quixote e o Conde de Monte Cristo. 

A palavra "empatia" que é usada e abusada actualmente vem do grego "pathos" que significa "sofrer", "suportar". Um impulso emotivo em que nos identificarmos com alguém que sofre por algum motivo. Estou a pensar também em "compaixão" mas, neste caso, o sujeito (nós) não tem necessariamente de ter sofrido para entender o sentimento de "sofrência" (alô Brasil!) do outro. Também pode ser algo muito católico se quiserem. Tens de sofrer para compreender o próximo e para compreender a paixão de Cristo. 

Seja como for. Adoro as alucinações do Quixote, um ser lunar (não lunático) que procurava a glória de um passado na imensa e monótona planície da Mancha. O seu criado Sancho era um chato de primeira, mas era um chato prático e necessário. Sou muito quixotesco na maior parte do tempo e talvez haja algum orgulho aqui quando digo isto. 

Monte Cristo. A vendetta, a raiva vingativa. O Conde que foi vítima de uma tremenda injustiça e procura vingança. Também é um símbolo de perseverança, de espera, de combate oculto. Não desejo vingar-me de ninguém neste momento. Tinha questões com o meu pai (não tão espectaculares como no livro) que creio que entraram na fase da aceitação (embora ache que nunca irão ficar totalmente sanadas). 

Como disse o Charlie Sheen em "Platoon" sobre os seus 2 sargentos: sinto que sou um filho desses 2 pais:

El Quijote & o Conde de Monte Cristo. 


segunda-feira, junho 15, 2026

O sonho

Não sei o que é fazer uma meditação; mudo de trilho mental com muita facilidade. "Oh meu querido, eu também, não és caso único", já ouço daqui. Eu sei, mas permitam-me falar de mim por breves momentos.

Tenho uma facilidade pouco invejável e pouco comum de afastar-me do tema que quero tratar. Salto por aqui e por ali por caminhos imprevisíveis.

Por exemplo.

Era meu desejo escrever sobre como a AI poderá também vir a ser uma ajuda para criar e elaborar os nossos sonhos. Já pensaram nisso? O meu script de prompts seria algo do género:

"Co-pilot/Claude/ChatGPT/não importa AI., faz-me um roteiro de um sonho em que sou um náufrago durante 1 dia com o meu criado, "Quinta-feira" (porque encontrei-o numa 5a. feira). Dois dias depois, quando chegamos ao ponto de não retorno de rever a nossa bússola sexual, faz aparecer - milagrosamente - uma jangada de Barbarellas voluptuosas, carregadas de melancias, presuntos, queijos e vinhos. D.O.C.. Quero que este mesmo sonho dure um mês seguido. 

Oh obrigado ChatGPT."

Mas não. A minha mente saltitante disse-me para falar-vos de outra coisa hiper-aborrecida, sobre pombas, vejam lá. Felizmente, sei ainda distinguir um texto genial de um texto não-tão-genial. Poupei-vos a algo muito chat.

terça-feira, junho 09, 2026

Banco

 



Um banco. 
Um banco de jardim onde nos sentamos. Para descansar, pensar, apreciar. Ou um banco para apenas ser
Um banco que num futuro não muito longínquo irá ser bem mais proveitoso do que um banco financeiro. As amarras sócio-culturais da moeda e do papel-moeda. Pôr dinheiro no banco a render, aqui está seguro. Amealhar, poupar. A ideia de cofre. O que nos conduziu a estes conceitos tão estranhos? Quero batatas. Aqui tens um pedaço de papel certificado por um banco nacional. Ou um cartão de plástico com um design incrível. Quem são estas instituições ditas credíveis que têm tamanho poder sobre nós? 

Mas a minha relação com o dinheiro é ambígua. Gosto de ter dinheiro (utilizo muito a palavra "guito") para gastos, não sou assim tão lírico; ao mesmo tempo, sinto um certo desprezo pela dependência que gera. 
Bom. Por momentos, fui próspero neste banco de jardim. Por breves instantes, fui Whitman em vez de Rockefeller.




sexta-feira, junho 05, 2026

Alentejando

Grândola, Melides, Ferreira do Alentejo, Beja. 

Planícies, oliveiras, sobreiros, pinheiros-mansos. Mais planícies. Toda esta imensa paisagem cinematográfica que não cabe no nosso campo visual. Nunca estamos preparados para o Alentejo. Somos sugados pelo céu azul e por longas rectas de abóbadas verdes. Uma náusea de beleza telúrica que em vez de me enraizar, torna-me um pouco mais dissociado. Povoações paradas na tempo, bastantes casas abandonadas. Canal Caveira. "Paris-Texas" à alentejana. Rostos queimados pelo sol, brutos e vermelhos. Traços celtas e mouros, tudo misturado. Beja foi uma boa surpresa, pena o museu Rainha D. Leonor estar fechado para remodelação. A Sé tem azulejos da "fase dos  mestres" muito bonitos. 

Amanhã, Comporta. Um outro Alentejo.

segunda-feira, junho 01, 2026

Apagão

Sento-me numa esplanada de café à espera. Do outro lado da vidraça, no Burguer King ao lado, vejo pilhas de medicamentos sobre a mesa. Um chama-me a atenção pelo nome, "Sedoxil". Não deve ser para os diabetes seguramente. Na mesa estão mãe e filho, negros. Fez-me alguma confusão. Na minha cabeça, as pessoas de cor não precisam de ansiolíticos. Meu Deus, que observação tão preconceituosa, tão estereotipada. Por falar nisso, hoje tive um ataque cerrado de neurastenia no meio do Douro. Porquê? Não sei. Grupo porreiro, interagiam. Um casal finlandês muito simpático de uma pequena cidade costeira, "Oulo". Assumi que faziam sauna. Verdade. Mais um clichê. Quatro franceses, 1 casal da Sabóia e outro de Bordéus. Muito agradáveis também. A senhora francesa era um amor, sentou-se ao meu lado. 

"Vous savez, votre Français est très bon. Vous connaissez la France?"

O casal inglês, os mais velhos do grupo. Ele era um ex-pastor anglicano da zona de Bristol, a mulher praticamente não falava. Muito observadora, fleumática, olhar prescutador. Parece que estava à espera de um deslize, de um mau comportamento. A avozinha do grupo. O ex-pastor tinha a voz fina, caricatural, um personagem saído de uma série.

É claro que fiquei a zeros no fim. 

"Merci, thanks, thanks em suomi, thanks em português".

Li algures na net que vai haver em breve novo apagão mundial de 3 dias e 2 noites. Temos de ir forçadamente para "dentro", parece que o Covid não foi suficiente.

domingo, maio 31, 2026

Sobre Moby Dick e outras criaturas


Herman Melville. 
O autor de "Moby Dick", o famoso romance do capitão Ahab contra a gigantesca baleia. Quando um livro pode ser lido por alienígenas, adultos, adolescentes e até crianças - com diferentes leituras e percepções, é óbvio - significa que temos em mãos uma obra intemporal. Se me perguntarem (obrigado por o fazerem), acho que é a história de uma grande obsessão. Parece-me que se trata de uma grande metáfora, uma estranha imagética para o conflito mental e emocional de Ahab, a terrível baleia é o seu volumoso e temível demónio interior. Um leviatã vindo do inconsciente. Na verdade, o cetáceo é um cachalote que em inglês diz-se "sperm whale" - mais freudiano que isto é impossível. E, sim, eu sei que "Dick" também pode ser calão para o órgão sexual masculino, mas creio que no caso do título foi uma coincidência. Seja como for, não estamos perante apenas uma epopeia marítima. É muito mais do que isso, tem várias camadas, é um clássico universal. O livro foi um fracasso de vendas e, como acontece muitas das vezes, Melville só obteve reconhecimento depois de morto (1891).

Agora vamos falar um pouco de mim, se me permitem. No meu caso, não são tanto baleias, são mais peixes abissais fantasmagóricos que me fazem perder o norte. De vez em quando. Vou chamá-los de peixes-intrusivos. Acabei de baptizá-los. Com o risco de me repetir (porque é assim o seu "modus operandi"), mergulho nas minhas profundezas - sem querer, é importante frisá-lo - e, quando menos espero, aparecem-me estes peixes translúcidos, com olhos desproporcionais e dentes de serrilha que me fazem abanar um pouco. Irrompem do meu inconsciente para ficarem a gravitar na minha cabeça durante um bom pedaço, querem atenção plena. 
E o que é que eu faço? 
Deixo-os nadar no meu éter privado durante o tempo que quiserem e, eventualmente, esses peixinhos abissais acabam por ir-se embora. Não passam de pequenas sombras fantasmagóricas que só existem porque lhes dou atenção. Acho que vou usar o meu vigoroso arpão para outras práticas. Algo me diz que pode ajudar-me a dissipar estes peixinhos.