sábado, maio 23, 2026

No cais

A meu lado uma freira está sentada a olhar para o outro lado do rio. Alguém está a tocar saxofone para animar a multidão. Calor abafado. O Douro é uma passarela de rabelos. A irmã é uma pequena ilha cinza e negra no meio de uma Disneylândia de galos de Barcelos, bacalhaus, natas e outras cenas tipicas. A mão direita está a apoiar o queixo, parece o Pensador do Rodin. É a mulher mais coberta da zona. Senti uma necessidade enorme de abraçá-la, lembrei-me da Sylvia Plath, não sei bem porquê. Espero pela minha família de Providence, Massachusetts para mostrar o resto. São um pouco estranhos, têm uma dinâmica muito própria. Ofereci a minha pulseira de olho de tigre ao "pai", ele ficou sem saber o que me dizer. O sotaque de Boston parte-me todo. "Departed".

quarta-feira, maio 20, 2026

Crane, Remark, Tolstoi

 

Erich M Remarque

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Amanhã vou para Aveiro, destacaram-me com toda a força. Ovos moles, moliceiros, flor de sal, art nouveau. É isto Aveiro.

Lembrei-me agora de um velho tema do Estado Novo cujo título é "Angola É Nossa", lembro-me dos meus pais me terem falado quando era miúdo. Anos 60. É um ritmo marcial, um pouco maníaco e assustador. O meu pai esteve em Angola. Creio que não me contou três quartos das coisas que viu e sofreu. Tudo muito recalcado, e o resultado ficou à vista anos depois. A dada altura creio que os meus avós paternos acharam que ele tinha morrido ou desaparecido. Voltou quase em glória três anos depois. O vulcão chamado J B Amaral entrou em erupção anos depois, fumava como se não houvesse amanhã, às vezes bebia como se não houvesse amanhã também. Triste geração. Os que sobreviveram vieram todos fodidos de África, desculpem-me a expressão. Se não me desculparem, paciência.

Lembrei-me também agora de dois grandes livros sobre guerra que li há quase vinte anos e causaram-me forte impressão na minha cabeça jovem e impoluta: "Red Badge of Courage" do Stephen Crane que fala sobre a a terrível Guerra Civil Americana e o "A Oeste Nada de Novo" (Im Westen nichts Neues em alemão) do Erich Maria Remarque que me prendeu do princípio ao fim, falava sobre a 1º G.M. A temática anti-guerra de Remarque levou o livro a ser considerado "antipatriótico" pelo ministro da propaganda nazi, o Goebbels. Nunca consegui ler de fio a pavio "O Guerra e a Paz" do Tolstoi, achava que ainda não tinha maturidade (ou até paciência) suficiente para o ler. Dizem que é genial e eu acredito, nem seria de esperar outra coisa. Tolstoi em russo significa "espesso" ou "gordo".

 

sábado, maio 16, 2026

O malaio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje conheci um malaio que possuía aquilo que antigamente de chamava de "verve". 
Usava um chapéu panamá, camisa de linho e parecia mais jovem quando falava um inglês muito BBC.
Muito eloquente, tinha um jeito elegante, cavalheiresco, encadeava assuntos com a maior das facilidades, era um humanista agnóstico, interessava-se por tudo. Parecia saído de um romance do Lawrence Durrell.
Ele e um dinamarquês muito dinamarquês sentaram-se ao meu lado durante o almoço numa quinta perdida no Douro, o homem ia celebrar o 70º aniversário para a semana, a conversa e o vinho fluíam muito bem.

Aprendi com ele (e com a filha que também era muito rápida) que as línguas portuguesa e malaia possuem palavras muito semelhantes. Malaca, ou “Melaka” em malaio, foi uma base importante para a expansão portuguesa nas Índias Orientais no século XVI, o temível Afonso de Albuquerque tomou conta daquele importante entreposto comercial. Chineses, ingleses, holandeses, todos queriam apoderar-se daquela cidade de localização privilegiada - o estreito de Malaca (em malaio Selat Melaka) era e é a principal passagem marítima entre os oceanos Índico e Pacífico. O Trump esteve a ler História de Portugal, é por demais evidente. 
Bom, mas eis algumas das palavras:
Meja (mesa), kerusi (cadeira), lemari / almari (armário), sabun (sabão), tuala (toalha), keju (queijo), garfu (garfo), Gereja (igreja), sekolah (escola), bendera (bandeira), etc. 

Mas apanhei-o na curva, como se costuma dizer, quando comecei a falar de música com o dinamarquês que se mostrou-se surpreendido quando lhe disse que conhecia os D:A:D (sigla para Disneyland After Dark), uma respeitadíssima instituição rock na Dinamarca. É claro que o septuagenário malaio quis brilhar e quis dizer o nome de uma outra banda dinamarquesa cujo nome era "longo e impronunciável", o homem queria lembrar-se do nome mas não conseguia. Ficou claro que a tal banda não existia. Eu e o dinamarquês entreolhamo-nos e lemos os balões de pensamento um do outro:
"Finalmente apanhamos o velho".
Estava a ver que não, o Afonso de Albuquerque se fosse vivo teria tido orgulho de mim.

quinta-feira, maio 14, 2026

Trabalho


Parece que estive todo o dia em jet lag e, no entanto, não saí deste Jardim Atlântico. Sete pessoas hoje para o vale do Douro que estava lindíssimo. 1 casal jovem, 1 casal idoso e uma família japonesa. Pu-los logo em sentido de manhã principalmente ao mais velho, antigo farmacêutico, era muito parecido com o capitão von Trapp. Faziam as perguntas do costume, sempre impressionados com o meu elevado nível de Inglês. Eu culpo sempre os Westerns que via em miúdo e o rock que ainda consumo. Os japoneses viviam em Nova Iorque. Brilhei um pouco com algumas palavras básicas. Alguma neura porque não corresponderam às minhas expectativas, revelaram-se todos bastante previsíveis. Vou agora para as aulas. Gosto dos meus colegas. São boas pessoas. Quem diria que iria voltar a sentar-me numa sala de aula.

Mas, sim, mudei um pouco desde o primeiro dia de escola há quarenta anos.

quarta-feira, maio 13, 2026

Mulheres

Acredito que tal como alguns países ao longo da História, há mulheres que não podem ser conquistadas. Podem ser ocupadas, por exemplo, mas não podem ser conquistadas. Por motivos religiosos, na maioria das vezes. 

"Isto agora é meu." Aqui não resulta. 

Vou chamar-lhes "Mulheres-Índia". Saris e olhos negros profundos. Quando são muito bonitas, elas não são deste mundo. 

Por outro lado, há mulheres que podem ser tocadas, insinuar uma tentativa de conquista, haver trocas (humm), mas não podem ser conquistadas. A sua arte, a sua cosmovisão, o seu combate, são tão diferentes do homem que tal empresa se afigura como quase impossível. Diferentes motivos das primeiras, porém. Distanciamento permanente. Aparentam submissão. As "Mulheres-Japão". 

Depois há as mulheres que se permitiram a tudo isso e mais além. Miscigenação completa. Uso da força no inicio, mas depois houve uma fusão, uma aglomeração, uma sedução. A "Mulher-Brasil". Uma certa rebeldia muito sedutora, tremendamente musical.

Finalmente, a "Mulher-África". Relação muito desigual, definida logo no começo da relação. Abuso. Passividade. Mas depois dá-se um processo inverso curioso de colonização do homem. O sexo é tão natural como comer e dançar. 

terça-feira, maio 12, 2026

Tango para 2

Estou convencido de que para escrever um história de fôlego, um romance, por exemplo, temos que extenuar o leitor para o depois resgatar. É uma "fórmula" que é utilizada constantemente pelos ditos grandes escritores.

Poderia escrever, por exemplo, a história de dois amantes que vivem num dos muitos subúrbios de Buenos Aires em que ele, para sobreviver, tem que dançar tango todas as noites. Não seria apenas uma necessidade psicológica, seria também uma necessidade física, visceral. Fá-lo de forma inconsciente, precisa do contacto, precisa de várias parceiras para manter uma espécie de sanidade mental. De dia, hiberna, não tem trabalho. O tango salva-o todas as noites de si mesmo. É um ciclo que deseja manter até se redimir.

"E ela, a amante, quando vais falar dela?", poderão perguntar.

"Ela espera por ele? Porque é que ela não o acompanha nessas intermináveis milongas? Ela tem outros homens, outros parceiros?"

Teria de vos cansar ainda mais, falando, caracterizando-o ad nauseum para depois finalmente começar a falar dela, do que ela pensa e sente.

E vocês? Como é que acham que a história poderá se desenvolver a partir daqui?

domingo, maio 10, 2026

Arroz de marisco

Embrenhado no que ando ainda a investigar, arquitectura religiosa de Entre-Douro e Minho, sinto que tenho de diminuir a passada mental; a minha cabeça parece que tem batentes de metal por fora que são usados de forma compulsiva. Como sou um ser espiritual (todos somos na verdade), acredito que sejam os meus mentores ou obsessores que gostam de me bater com força ou delicadeza, dependendo do lado. Isto até poderia ser uma boa imagem ou metáfora se não fosse verdade.

Uma das coisas em que estou a ficar bom nos últimos tempos é reconhecer ou prever que determinado encontro/reunião/serviço/jantar vai correr mal. Foi o que aconteceu ontem. Fui convidado para um jantar de amigos (um evento suburbano e familiar, muito entediante) e respondi à altura do meu anfitrião que é o tipo mais passivo-agressivo que conheço. Respondi com agressividade, nada passiva, creio que já estava um pouco "tocado" e o ambiente ficou chato. Tudo por causa dos miúdos que se chatearam. Não tenho paciência para adultos que ainda não cresceram. Além disso, o tipo tem uma risada que parece uma ratazana a ser atropelada. Cerrei tanto os dentes que quase ia partindo os incisivos.

Dizem que somos espelhos uns dos outros, não é? Talvez o tipo, o dono da casa, cumpra aqui uma função: talvez seja um reflexo de um espelho emocional retorcido que tenho dentro de mim e que preciso de trabalhar. Ou isso, ou é apenas um tipo irritante. 

O arroz de marisco estava bom, no entanto.




quinta-feira, maio 07, 2026

Carlos Alberto

Tudo regressou em força hoje. Quase tudo.

Uma mensagem forte e emotiva da minha irmã relacionada com o drama que a família vive há cerca de um ano. Um feudo familiar. Dinheiros, partilhas. Nada de novo. Sensação de tontura e vertigem na Costa Nova. Como se um fuso energético se abrisse no meio do cocuruto - uma palavra bonita para se utilizar nestas ocasiões. 

Revisitar a infância. Uma das clientes é amiga da minha mãe, uma mulher que já foi linda e agora sofre de artrite reumatoide. Já não nos víamos há quase trinta anos. Ela fala inocentemente sobre episódios daquelas ruas onde tudo aconteceu, onde tudo nos aconteceu. A ela, aos filhos, aos homens daquela época, à vida difícil que passou. Antigamente chamava-se Monte dos Judeus e deve haver ali um geokarma, um vórtice dimensional naquele lugar onde as vidas eram difíceis, de conflito, de permanente tensão. Deu para abalar um pouco a minha fundação. O dinheiro não é tudo, às vezes. Despedimo-nos com dois beijos, com a promessa de nos voltarmos a ver. 

Amanhã vou falar do príncipe Carlos Alberto na minha última apresentação de escola. 
Quem foi Carlos Alberto, perguntam?
Foi um príncipe real da Sardenha que perdeu a Batalha de Novara em 1848 contra os austríacos e que se exilou no Porto, com o nome de Conde de Barge, não queria ser reconhecido pelo povo. Não adiantou muito. O seu aspecto abatido e infeliz comoveu os portuenses. Era uma celebridade na época, foi recebido com honrarias. Ficou no Palacete dos Visconde de Balsemão durante 1 semana. Até o Paço Episcopal e o barão de Forrester lhe ofereceram casa. Mudou-se para a Quinta das Macieiras, actuais jardins do Palácio Cristal. Morreu ao fim de quatro meses, muito debilitado. 
A sua meia irmã Frederica Augusta de Montleart, uma mulher com um carácter desconcertante, mandou erigir a Capela em 1854. Demorou sete anos a ser construída com muitos avanços e recuos, à boa maneira portuguesa. Foi inaugurada em 25 de Dezembro de 1861. Sete anos (!) para construir um bonito cenotáfio (monumento ou túmulo funerário erguido em memória de uma pessoa cujos restos mortais estão noutro lado). 

Para terem uma ideia, a ponte ferroviária Maria Pia demorou ano e meio a ser construída. A propósito de Maria Pia, a tal princesa Frederica doou a capela a D. Luís que viria a casar-se com D. Maria Pia de Sabóia, neta de Carlos Alberto.
 

quarta-feira, maio 06, 2026

Brilhante e conveniente

"Brilhante e conveniente".

Leio isto na sweater de dois homens ao balcão deste café. Falam de futebol, claro. É a designação comercial de uma empresa de construção. Tudo indica que também pode ser um sinal do universo para mim. 

segunda-feira, maio 04, 2026

Barroco

 



O que é na verdade a estética, o belo?

O rocaille, o ultra barroco, o rococó é uma resposta lenta de Trento ao avanço racional e crítico do pensamento de Lutero. Não há vazio, não há lugar para o simples, para o essencial. É um vômito de cor, de curvas, de sensualidade (apelo aos sentidos, esmagamento quase). Foi assim que a igreja quis reconquistar as ovelhas tresmalhadas pelos protestantes. Na minha opinião, até poderia funcionar uma ou duas vezes, mas "o que é demais é moléstia" como diria a minha avó. Quando entro numa igreja barroca parece que desfaleço com o abarrotar lascivo de formas e cores. Parece que não há espaço para contemplar, para "ir para dentro" como poderia ocorrer num templo medievo românico, mais sóbrio, mais seco, menos sensual. 

O barroco é pagão nesse sentido. 

sábado, maio 02, 2026

Batman e Salazar

 

1. Ao colocar esta máscara todos os dias, veio-me à ideia que poderia ser um Batman local. Sofro da nobre e absurda intenção de querer ajudar todos os que pedem ajuda e ajudar os que não me pedem nada ("grande erro"); no final do dia, não sei muito bem como ajudar a mim próprio. O drama.
E é sempre assim, não é?
O Batman é um templário ao estilo comics que foi submetido - sem pedir nada a ninguém - a um ritual de iniciação terrível (morte dos pais) para bem da sua evolução. A partir deste episódio trágico, faz o caminho do guerreiro, desenvolve as suas capacidades supra-humanas para estar ao serviço. Encontrou-se, mas ainda tem de lutar contra os seus fantasmas de vez em quando, contra os seus Jokers e Green Goblins. Designações mais criativas e mais cool para querer dizer "neurastenias". 

2. Arrasto pessoas para locais bonitos, porque me pagam para isso. É claro. Nos últimos tempos, é-me ainda mais evidente que apesar de sentir algum prazer naquilo faço (nem que seja pela exposição egóica em ser o centro de atenções que - pelos vistos - desejo inconscientemente), sinto que a balança está a cair cada vez mais para a necessidade em receber o chorudo soldo que me pagam em detrimento do dar a conhecer o país setentrional. Oops. Que falta de desígnio, P. Nenhum CEO ou chefe (os italianos chamam capo ao chefe, adoro) quer ouvir isto. 
"Olhai os lírios do campo, olhai os belos terraços do Douro". «clique». Face. Insta. Like.

3. Sinto que devo fazer um agradecimento público ao ex-presidente do Conselho, Dr. António Oliveira Salazar. Devo muito da minha brilhante carreira profissional a este homem que está cada vez mais no coração dos portugueses. 
Porquê?
Porque sinto que brilho mais quando falo sobre o Estado Novo e Abril aos turistas. Sem a existência de um homem chamado Oliveira Salazar, tal não seria possível. O Universo conspirou para que Salazar existisse para o meu bem, para a minha apoteose profissional. E brindou-nos recentemente com um novo (mais pequenino) Salazar. Os guias futuros vão agradecer também, espero.
"Oh my God, are talking serious right now? We have now our own Salazar, you know", é quase sempre a resposta dos americanos, coitados.



 

quinta-feira, abril 30, 2026

O Beco da Memória

Uma senhora pede um livro ao funcionário da biblioteca. Uns minutos vem outro funcionário, mais velho do que o primeiro,  que repete o título de livro à mulher.

- Queria o livro o Beco da Memória?

- Não, diz a mulher. Quero o Eco da Memória.

- Ah, estava a ver. O Eco da Memória! Não é o Beco.

O primeiro funcionário olha impassível para o colega. Este olhou-o com um ar paternalista quando repetiu o nome corrigido do livro à mulher.

Se calhar, na cabeça do primeiro funcionário, faria mais o sentido se o título fosse o "beco da memória" em vez do "eco da memória". Seria talvez um título mais adequado para um livro. "O beco" soa mais real, mais urbano, talvez mais existencialista. O outro, o que a mulher pretendia requisitar, é talvez mais pretensioso, mais intelectual, logo, menos interessante.

A minha memória, por exemplo. Ela tem ecos que ecoam nos becos que a habitam. Como em quase todos nós, creio.

Mas também quem se lembra de pedir um livro chamado "O Eco da Memória"?

domingo, abril 26, 2026

A day in a life (of a tour guide)

Curiosa excursão ao Douro a de ontem. Os 8 turistas poderiam ser personagens-tipo de uma peça de um moderno Gil Vicente. Fiquei extenuado no fim.

Vamos começar pelos velhos aliados. Um casal sexagenário de Liverpool. A senhora era a mais alegre e a mais tontinha do grupo, era irritante mas de uma forma perfeita, sem nada a apontar no seu sotaque musical de Mersey. Eu acenava-lhe com a cabeça mas às vezes não percebia o que estava a tentar dizer e respondia-lhe "it is, isn't it?". Funcionava. Tinha sempre uma história aborrecida qualquer para contar. O marido também ficava algo constrangido; ele era o mais estudioso do grupo, tinha sido inspector de segurança em edifícios. Era muito conhecedor de vinhos e estabeleceu um paralelismo da toponímia Gal (Portus + Cale/Gal) com outros pontos célticos do norte da europa. Aqui o guia já tinha lido isto (claro) mas foi bom escutar pela boca de um turista. Normalmente só falam do quanto amam as natas e os azulejos. 

O casal russo de Boston. Já estavam algo americanizados. Muito fechados e secos durante a apresentação. Ele mais do que ela. Ela poderia ter sido uma modelo, era esbelta, delgada. Parecia uma aleanígena no Douro profundo. A mais observadora do grupo. Começou a sorrir depois de uns tragos de Porto. À mesa, o homem revelou ser maratonista, tinha participado em várias provas, não comia carne e tinha um discurso muito funcional, parecia escolher as palavras todas antes de se pronunciar sobre algo. Era um russo americanizado muito bem parecido, de queixada forte mas com um olhar terno, paciente.

O casal jovem de Seattle. O moço era o mais jovial do grupo, o "ice-breaker". Tinha sempre uma expressão jocosa para tudo. Ocorreu-me que poderia ser a minha versão norte-americana mas ainda mais "goofy". Trabalhava na Amazon, claro. Um gajo porreiro mas que poderia se tornar chato passadas duas horas. Tinha a mesma voz do Seth Rogan. A namorada era a menos interessante do grupo. Não se destacava por nada em especial. Estava sempre a perder o seu creme hidratante que tinha uma planta qualquer de Madagáscar.

- Pausa para respirarem e irem ao WC -

Já está? 

Let's go. 

Também só me falta um casal, não vos vai custar nada. Mais outro casal jovem europeu. Viviam em Bona. Ele era alemão, muito alemão. Ficou muito rubro, muito falante ao fim de umas copadas. Os alemães quando bebem acham que são muito engraçados, mas o sentido de humor deles é um pouco básico. Mais ou menos como os espanhóis. A namorada era da Roménia, já vivia na Alemanha há algum tempo. Não era feia nem bonita. Tinha, no entanto, um corpo incrível e era muito simpática, sorria com o rosto todo. Quando lhe disse que estava a ler Mircea Eliade, quase que me abraçava e raptava. 

No fim, gratificação choruda de 5 euros por parte do Ian, o senhor de Liverpool. 


sexta-feira, abril 24, 2026

Revolução

Tenho para mim (não gostava de ter tanta coisa para mim, na verdade) que Portugal e os portugueses suportaram 42 anos de ditadura para poder fazer uma revolução grandiosa, bonita, com flores. Se tivessem vivido apenas cinco anos de totalitarismo, o efeito do 25 de abril não teria sido tão espectacular. Ainda por cima uma revolução orquestrada por tenentes e capitães! São os meus postos militares favoritos. Mais acima disto - coronel, brigadeiro, general etc - é estar de conluio com o poder instituído. Há honrosas excepções, claro. 

Não consigo encontrar nada mais português do que isto. É como marcar o golo do título no minuto 90+7. 

(Um apontamento futebolístico de fino recorte aqui)

"Vamos esperar mais um aninho. Depois é que vai ser. O Caetano não é igual ao Salazar. Mais um pouco. Vai acontecer."

De certa forma os poetas e os músicos também precisam de uma ditadura de vez em quando. Compor apenas canções e poemas de amor acaba por ser tornar aborrecido. 

Bom. Cravos na lapela amanhã.

segunda-feira, abril 13, 2026

Fāṭimah

Gostava de ter o super-poder de ver as "coisas tais como elas são". O que leva alguém a ficar iluminado ou - vá - esclarecido? Um acidente, uma certa inocência, um vislumbre divino, uma doença muito grave? Parece que tem de ser incluído algum sofrimento na equação para ver a Luz. Talvez ainda isto não passe de elaboradas ilusões do Ego para abrandar o processo que se iniciou no nosso nascimento. Chamem-me louco (por favor) mas eu acho que escolhemos esta vida antes de aterrarmos neste enorme e belo berlinde azul.

Estou em Fátima em serviço (e ao serviço ao que parece), guio as pessoas para aqui, contando a versão oficial das aparições Marianas. Se eu acredito? Respondo com esta resposta: é mais vago, mais fácil, mais cómodo dizer que não se acredita. E usa-se de uma certa presunção quando fazemos isto. 

O estudo dos eventos reais é muito mais substantivo (e prazeroso) se nos dermos ao trabalho de o fazer. 

Fica para outra oportunidade, para outro texto incrível.

segunda-feira, abril 06, 2026

Cabras

Quando chega o Verão mesmo a sério, sinto-me com vontade de usar o meu boné de marinheiro, vestir uma camiseta às riscas e viajar num pequeno veleiro pelo Pacífico Sul. Levaria um velho gramofone para ouvir árias italianas enquanto manuseava as cordas e a vela. Bebia muito vermute e rum puro enquanto apreciava o magnífico coucher de soleil e sonhava de olhos abertos com velhas e futuras conquistas amorosas.  Talvez me maquilhasse para os espadartes ou golfinhos que dão incríveis saltos só para impressionar. Não consigo encontrar um motivo pelo qual não deva ou possa fazê-lo.

Enquanto esta fantasia não acontece, tento gerir lembranças do ano passado que me vêm bater à porta da minha cabeça. Vou chamar a essas lembranças de "cabras" porque balem como cabras e parece que me mastigam a moleirinha. Não é esse sentido da palavra que o leitor(a) mais mundano estava a pensar. Estou a referir-me mesmo aos caprinos que são um chatos e devoram tudo por onde passam, toda a gente sabe disso. Estas lembranças e alguns pensamentos são assim, saltam à minha frente, dão pinotes e já não têm pudor ou vergonha. Não me pedem autorização, limitam-se a surgir, assim do nada. As cabras são velhacas como dizia a minha avó. 

São Francisco não gostava de formigas (era o único bicho com o qual não simpatizava), já eu não sou santo e não gosto de cabras ou bodes. Cheiram mal. Não deixa de ser engraçado falar em santos, porque tenho à minha frente outro franciscano, uma pequena estatueta de outro santo, o Nando de Gusmões que mais tarde viria a ser conhecido como Santo António de Lisboa (ou de Pádua, mas ele só esteve em Itália em trabalho). Gosto muito dos dois porque acredito que também iriam gostar de viajar pelo Pacífico Sul comigo. Imaginem o que é ter os dois a conversarem um com o outro sobre os Evangelhos ou outra coisa qualquer, a porem Piz Buin na careca para se protegerem do sol, enquanto bebericava aquilo que diziam juntamente com o meu Martini. Que incrível seria.

Mas voltando às ditas cabras. São indelicadas e tem um olhar estranho, ausente. Às vezes parece que me dão coices dentro da cabeça com aqueles terríveis cascos e abanam-me todo durante alguns momentos. Fico um pouco mal, a sério. Quase, quase que dissocio. Eu sei que o meu mundo de associações é um pouco bizarro, mas alguns de nós tem essa capacidade, a de ser bizarro. Só está ao alcance de uns happy few. Não posso tentar prender as cabras com uma corda, seria pior a emenda do que o soneto. Vou deixá-las ruminar e balir pelo tempo que quiserem. Eventualmente vão acabar por ir à vidinha deles e eu vou voltar a sonhar com o Pacífico Sul e os santos.

 

sábado, abril 04, 2026

Touro e toureiro


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tenho um touro e um toureiro na minha cabeça. 

Um touro miura que representa os meus instintos mais primitivos, a minha força impulsiva, se quiserem. A minha cabeça é uma arena onde esse touro irrompe e investe contra quase tudo que lhe faça frente. O impulso do Inconsciente vem à luz do Consciente. A sombra é exposta à luz da arena. Aparece então o meu matador com o seu brilhante traje de luces. Ele não o despreza, o matador respeita a força bruta do animal e tenta dançar com ele. Fora da arena, ele tenta viver de forma normativa, pela regra, pelo instituído. É mais um no meio de milhões. Mas aqui ele enfrenta os seus medos e pulsões personificados naquele animal bestial que pode trucidá-lo a qualquer momento. 

O meu toureiro não foge; ele olha o touro no fundo dos olhos. Tenta "governá-lo", submetê-lo. A dança continua. O animal bruto já não parece tão assustador. A capa vermelha esvoaça graciosamente como se fosse uma enorme borboleta vermelha e rosa. 


quinta-feira, março 26, 2026

Um Bosque Encantado

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A lua aparece minguante, a sombra rodeia-me como se não houvesse amanhã - aliás, o seu objectivo era mesmo esse, fazer com que tivesse a sensação que não houvesse amanhã. Abraça-me e abafa-me. Enquanto caminho neste bosque encantado chamado Vida, meto-me às vezes por veredas, por senderos (adoro usar o espanhol) que parecem muito assustadores, muito sombrios. Ou melhor, o meu Ego continua a repetir-me vezes sem conta que "são assustadores". É um caminho cheio de espinhos, de covas ocultas, de lobos terríveis que me ameaçam entre velhas árvores retorcidas. São criaturas insidiosas que não me olham de frente, é sempre de lado, mas que de alguma forma parecem atingir na mouche o meu inconsciente. 

Às vezes, parece que esse medo nem sequer é meu, parece ancestral, que atravessa eras. A terapia mais estóica diz para observar, para não me envolver passionalmente, para "assinalar" e deixar passar esses animais de charme obscuro que usam espelhos côncavos e convexos (à moda da Feira Popular) para retorcer o meu reflexo. Eu digo: é como se fosse um cérebro que tenta ser mais lúcido e consciente a olhar para um cérebro que é mais sombra, mais primitivo. 

E qual é a alternativa, meus caros?

Caminhar, continuar a caminhar pelo bosque encantado chamado Vida até encontrar algumas clareiras e ver ou escutar passarinhos e passarinhas chilreantes. 

 

domingo, março 22, 2026

Dentes


 

 

 

 

 

 

 

 

Estou sentado na melhor mesa deste café a ler um livro que se chama "As Misteriosas Estruturas da Vida Emocional" escrito por um americano chamado Joseph LeDoux. É um neurocientista com bastante notoriedade na sua especialidade e, como isso não bastasse, é muito competente a tocar guitarra. Um verdadeiro homem do Renascimento moderno.

Mas não é sobre LeDoux que quero falar. Dentes, quero falar sobre dentes.

O empregado de mesa tem um comprido avental verde preso atrás por uma correntinha de latão e traz-me o meu copo de aguardente de ameixa. Este café-bar tem a melhor selecção de aguardentes e cachaças da cidade. Aliás, atrevo-me a dizer que é o único estabelecimento deste burgo que vende exclusivamente aguardentes e cachaças. Depois de provar a Engenho São Luís da qual me apaixonei da última vez que cá estive, mandei vir esta Rujanska que também me faz voar. O sujeito da mesa ao lado pousou os óculos sobre mesa e sorriu para mim como que a abençoar a minha escolha. Quando chegou há cerca de uma hora atrás tinha o ar mais miserável do mundo. O seu esgar de dor atroz tinha dado lugar a uma beatífica expressão de felicidade. 

Este café é muito frequentado por pessoas que sofrem de dores de dentes e que ficaram desiludidas com os dentistas. São muitos a sofrerem em silêncio. Eu conto-me como uma dessas pessoas que nunca teve muita sorte com os chamados odontologistas. Mas, como sabem - se não sabem, ficam a saber - bochechar aguardente atenua bastante as dores de dentes e desincha gengivas inflamadas. As pessoas preferem pagar por uma boa aguardente do que pagar por um mau dentista. Naturalmente, o que acontece é que depois de bochecharem aguardente acabam sempre por ingerir alguma.

É um café belle epoque muito bonito, talvez o mais bonito da cidade. Pequenas colunas jónicas no centro suportam o tecto de estuque decorado com volutas e arabescos. Numa sala à parte, podemos encontrar quadros antigos que retratam a excruciante arte de extracção de dentes. Dir-se-ia que é uma espécie de terapia para dessensibilizar o cliente quando este já se encontra bastante anestesiado pelo álcool ingerido. As mesas tem tampo de mármore rosa, as cadeiras estão forradas com couro verde; nota-se que o dono é um homem requintado de bom gosto. Já ouvi dizer que ele era um "torna-viagem", foi dentista no Brasil, fez algum dinheiro mas que teve um esgotamento com tantas reclamações de pacientes. Como gostava muito de cachaça, resolveu recuperar este café e o resto é história como se costuma dizer.


 

quarta-feira, março 18, 2026

A paciente

Isabela já era uma "habituée" naquele corredor do hospital. Conhecia todos os cantos, todas as máquinas, todos os clínicos daquele piso. Desde que deu entrada na unidade oncológica há cerca de um ano nunca mais olhou para trás, como se costuma dizer. Era bem tratada, era muito querida por todos, enfermeiros, auxiliares, pacientes. Especialmente entre aqueles que tinham casos mais avançados, ela sabia como tranquilizá-los, como "falar ao coração". Isabela era uma "paciente-voluntária profissional ", tinha um jeito natural com pessoas. O facto de ser extremamente bonita ajudava bastante; tinha uma beleza do tipo renascentista, quase etérea, inefável, como se fosse um semi-anjo no corpo de uma mulher. 

Isabela não sentia a mínima vontade em regressar para o mundo lá fora. Um mundo frio e inóspito. Aqui sabia com o que poderia contar. Sentia que o piso n.° 5 daquele hospital era agora o seu lar. 

Antes de ter dado entrada naquele unidade, Isabela esteve perdidamente apaixonada por um homem. Mas esse homem tratou-a mal. Nada de novo aqui. Não fora a primeira e certamente não será a última. Ficou arrasada, ao ponto de ter quase desistido de viver. A relação terminou. Pouco tempo depois. foi-lhe descoberto um tumor no peito. Internamento e operação. A intervenção correu muito bem, a "coisa" não metastasiou, foi removida com êxito.

Como Isabela era muito bela e muito carismática, foi-lhe proposto permanecer no melhor quarto com as melhores vistas, com todas as despesas pagas (alimentação incluída) acrescido de um passe especial que poderia usar nas máquinas de café e de vending daquela unidade hospitalar. Um convite irrecusável para esta mulher muito especial.

Havia apenas uma condição: teria de ficar no hospital durante 14 (catorze) meses seguidos. O contracto poderia ser renovado por igual período de tempo mediante acordo de ambas as partes.