1. Finalmente, um Outono como deve ser, com O grande, como manda a lei. Finalmente, os dias a encolherem, algumas pessoas a encolherem também com amostras de frio e chuva fina. As folhas das árvores têm de cair, algumas folhas não sabiam se já era tempo de caírem. É tempo de recolher, de contrair, de ir para dentro. Quase ninguém gosta de ir para dentro, mas tem de ser. Tenho tido menos trabalho, menos horas ocupadas, mais tempo livre. Dou-me ao ócio que em grego traduz-se como skholé (daí a palavra "escola", espaço para pensar, para não trabalhar, eram os escravos que trabalhavam na Grécia Antiga), os abastados entregavam-se ao pensar, ao estudo. Com a industrialização, isto foi tudo por água abaixo, o tempo útil foi feito para trabalhar que aqui é o mesmo que dizer "produzir", "rentabilizar". O ócio (ou melhor, a ociosidade) é um vício moral, ou até um luxo. Ser trabalhador autónomo numa actividade sazonal dá-me poder de escolha, de gerir o meu tempo, mas não deixo de sentir um certo sentimento de culpa. Leio e estudo para apagar este sentimento.
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Tenho lido algumas passagens de Steinbeck e Faulkner e pergunto-me se alguma vez serei capaz de escrever como estes gigantes americanos. A literatura norte-americana do século XX é muito generosa, muito rica. Bellow, Hemingway, Salinger, McCarthy. Na verdade não quero escrever "como eles", quero sim encontrar o meu "gravitas" de escrita, a minha fórmula que me vai tornar único. Um registo tão especial, tão identificável que irá levar os leitores a exclamarem "este último do P. Amaral é o melhor até agora". Ou então "o primeiro dele é melhor, lê-se melhor", ou "se não lhe derem o 1º prémio, juro que nunca mais leio nada em português". Algo assim do género. Significa que consegui algo.
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2. Estou em posição segura de vos comunicar que tenho dois diabretes verdes na base posterior do crânio. Vivem lá há já algum tempo. Creio que não gostam muito do Outono, têm frio. Gostam de espetar os seus pequenos tridentes na minha nuca para espicaçar pensamentos moribundos. É como se alguém agitasse com uma vara as águas turvas e paradas de um charco. Às vezes, nem consigo rodar o pescoço de tão tenso e hirto. Filhos da mãe dos diabretes. Que bastardetes. Será que são filhos da culpa que falei em cima?
Vamos andado e vamos vendo.