Há duas coisas sensoriais que me lembro dos sábados de tarde: o cheiro forte a óleo de cedro e o som interminável de uma chave a ser introduzida na fechadura da nossa porta. A minha mãe incumbia-me de aspirar a casa com um aspirador Sanyo. Era amarelo e preto e parecia uma nave especial doméstica. Era bastante competente a aspirar, posso dizê-lo. Depois tinha de limpar os móveis da sala com óleo de cedro. Talvez não fosse tão bom porque não conseguia fazê-lo como deve ser. Creio que já estava a antecipar a chegada do meu pai. A antever.
Parava de limpar e tremia durante um bom bocado. Depois olhava pela janela. Tremia outra vez. E era assim durante uma boa meia-hora ou mais, porque sabia mais ou menos quando é que meu pai iria chegar.
O tempo que o meu pai usava para tentar meter a chave na porta seria proporcional ao "tempo de qualidade" desse sábado à noite.
Lembro-me da minha mãe dizer invariavelmente:
"Vamos ter festa".
Na esmagadora maioria das vezes, esta profecia estava certa.