Pelo menos uma vez por semana éramos obrigados a ir ao confessionário.
Andava na 3a classe e vestíamos todos uma bata branca, frequentava um colégio católico. O padre confessor - vim a saber mais tarde - era de Timor. Tinha um sotaque estranho e mau hálito.
- Quais foram os teus pecados, meu filho?
Ou algo parecido.
Às vezes ficava angustiado porque não tinha muitos pecados para partilhar com o seu padre e então inventava uns poucos. Tentava não repetir os pecados que tinha inventado na semana passada.
- Respondi torto à minha mãe.
Ou
- Não fiz os trabalhos de casa.
Como é óbvio, uns eram verdade, outros não.
O seu padre de Timor dava-me o receituário habitual com x Avé-Marias e x Pai-nossos, benzia-me e dispensava-me. Eu voltava para o recreio e voltava a respirar ar fresco.
Passados quase 40 anos, gostaria de reencontrar esse padre timorense e talvez confessar-lhe alguns dos meus actuais pecados. Alguns, não todos. Não precisaria de inventar nada desta vez. Talvez precisasse de alguma coragem para os confessar a um perfeito desconhecido outorgado por Deus para escutar a vida privada dos cidadãos ditos católicos.
É claro que se o velhinho padre de Timor continuasse ainda com mau hálito, talvez tivesse também a coragem de lhe oferecer um ou dois daqueles Halls extra strong.