sábado, fevereiro 07, 2026

O Porto


 

 

 

 

 

 

 

 

Quando percorro as ruas esburacadas com os meus turistas, não tenho qualquer tipo de vergonha ou embaraço como alguns dos meus colegas. Isto não é Helsínquia ou Trondheim ou qualquer outra cidade nórdica imaculada. Esta cidade cinza é feita de buracos, de trincheiras, de paralelos espalhados e fora do sítio, com fios da electricidade ao dependuro, com bueiros a vomitar água barrenta e suja, etc. 

Etc não que ainda não acabei: quer eu queira, quer não queira, esta cidade com as vísceras de fora há mais de 10 anos por conta das obras do metro é um enorme museu vivo, às vezes visceral, onde há espaço para todos mesmo para aqueles que não queiram que haja espaço para todos. É claro que também tem boulevards e artérias limpas sem colestrol, mas esta cidade vive de imperfeições, de passadeiras provisórias, de prédios a caírem de podre onde as velhas vigas de madeira esperam um golpe de misericórdia vindo dos céus. 

"So many old buildings, why?" pergunta o norte-americano.

"Because.", respondo e continuo a caminhar, fazendo de conta que não entendi.

Eu não gosto de mulheres com plásticas, ou com muita maquilhagem, gosto de imperfeições, de assimetrias, de algumas rugas, de um cabelo desalinhado, tudo isso aumenta o meu desejo. Uma cidade deve ser assim, alguma desarmonia e caos (não muito) conferem muito carácter e um certo de tipo de beleza.

Esta cidade é feita de amputações urbanísticas, de desvios e afunilamentos, o trânsito às vezes é insuportável, mas ainda assim é mil vezes melhor do que Zurich ou Aarhus ou outra cidade onde quase todos são ateus practicantes ou calvinistas. É uma cidade azul e branca um pouco desdentada que não baixa a cabeça, que não aceita subserviências, gosta de fazer o que lhe dá na real gana.

Esta cidade pode muito bem ser um Amor de Perdição.