quarta-feira, agosto 19, 2020
segunda-feira, agosto 10, 2020
"Il barone rampante" - O barão trepador
Italo Calvino compôs a trilogia O Visconde Cortado ao Meio, O Barão Trepador e Cavaleiro Inexistente. É legítimo afirmar aqui, neste espaço público, que estas personagens habitaram sempre em mim. Às vezes uma de cada vez, às vezes as três ao mesmo tempo. Quando digo "habitaram" não estou a usar uma figura de estilo, é mesmo assim, insidiaram-se e fui sendo obrigado a viver com elas ao ponto de não ser saber onde elas começam ou onde é que eu termino. Talvez o meu favorito seja O Barão Trepador.
Cosimo, um jovem nobre italiano do século XVIII, revolta-se contra a autoridade paterna, trepando para cima das árvores. Aí vai permanecer durante o resto da sua vida, adaptando-se eficazmente a uma existência arbórea – caça, semeia e colhe, joga vários jogos com amigos que têm os pés assentes na terra, combate incêndios florestais, resolve problemas de engenharia e até consegue manter casos amorosos. Do seu poleiro nas árvores, Cosimo vê passar os tempos de Voltaire e assiste à chegada do novo século.
Naturalmente, há esta necessidade de enraizar, de aterrar que eu tenho muita dificuldade em fazer (tal como o próprio Barão).
segunda-feira, julho 27, 2020
segunda-feira, julho 20, 2020
Tai Chi
sexta-feira, julho 03, 2020
Os Trolhas
E eis chegado o momento "Aconteceu no Oeste". O vento norte levanta a poeira, o sol já vai alto. Não há mais ninguém na rua. Beberam, encheram a barriga e têm de regressar. A grua range lá no alto com as rajadas de vento. Um deles deixa-se ficar para trás para acender um cigarro e olha por uns segundos para a minha janela enquanto solta o fumo. Podem acreditar quando digo que tem o mesmo olhar frio e azul do Frank (interpretado pelo Henry Fonda).
E é claro que ele já sabe. É claro que ele está farto de saber que estou aqui.
domingo, junho 28, 2020
Síndrome de Munchausen
E se tudo isto não passar de uma grande alucinação à escala mundial?
O primeiro a morrer, o designado "paciente 0", não morreu da doença. Morreu de causas naturais. Morreu porque Deus ou ele próprio achou que era chegado o tempo para morrer.
E se a pandemia estiver apenas nas nossas cabeças? O paciente 0 deu o mote. Uns querem imitá-lo, apropriam-se de uma doença que não existe (uma espécie de placebo ao contrário), os mais tristes escolhem morrer, os mais velhos encontram o verdadeiro motivo. É realizada a grande dramatização, colocamos máscaras, desinfectamo-nos até ficarmos translúcidos, vamos acabar por desaparecer.
Recolhemo-nos nos nossos casulos por várias semanas para desesperar, para romper, para reflectir, para ressuscitar.
Os mais pequenos não entendem muito bem o que estamos a fazer. A sua inocência protege-os da paranóia generalizada ou, se quiserem, da grande imposturice.
Talvez seja o Inconsciente Colectivo a dizer que as coisas como estão não podem continuar, a velha ordem têm que acabar de vez, há que acelerar o processo para a mudança. Morte, ressurreição, vida, e por aí fora.
"Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de construir. Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar; tempo de chorar e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las; tempo de abraçar e tempo de afastar."
Eclesiastes 3:1-17
Irmãos
"Orestes", P.A.
terça-feira, junho 09, 2020
quinta-feira, maio 28, 2020
O Método
R: Quando as temperaturas sobem, repito sempre o mesmo comportamento de risco: vou à prateleira, pego no Bukowski, no Carver, no Saroyan, no Fante e releio as passagens sublinhadas ao longo destes anos. Durante três dias, é este o meu "binge", a minha obsessão. É engraçado que só faço isto, só aplico este método no Verão. Talvez por serem autores tão "viscerais", têm uma força animal que os impele, a todos eles, talvez seja por isso que só o faço quando o calor aperta.
P: E então escreve?
R: Depois, esgazeado por uma embriaguez de alto teor literário, tento escrever algo e, claro, espremo, espremo e nada se aproveita. Ainda assim, sou muito persistente, não..., qual é a palavra? Resiliente. É isso, sou muito resiliente. Risco a maior parte e ponho algumas passagens, algumas frases de molho para voltá-las a ler com olhos de ver dentro de onze dias.
P: Onze? Porquê onze?
R: O onze é um número mestre na numerologia, na geometria sagrada, etc. É o meu número da sorte também.
P: Que interessante. Mas e então? Passados esses onze dias aproveita alguma dessas frases?
R: Não. É claro que não.
quarta-feira, maio 27, 2020
O Caça-Balões
O fim do repouso é ditado pelo senhor Alfredo ou Caça-Balões como aqui é conhecido. É o primeiro a sair de casa, anda sempre com uma barba de três dias, arrasta o andar até meio do terreiro do Monte e pára por uns segundos para lançar um olhar estranho sobre a roupa ressequida pendurada na pequena mata de estendais. O Monte está deserto, parece que está à espera que algo aconteça. O Monte é um Grand Canyon em ponto pequeno. O lábio inferior do senhor Caça-Balões tem uma pequena cova de lado para pousar o cigarro, como um cinzeiro. Ele ajeita as calças e monta a sua motorizada estafada, uma Sachs velhinha, que apesar da idade ainda tem forças para ir daqui ao sol e voltar. O senhor Caça-Balões sai de casa já com o capacete posto na cabeça alongada. Uma vez fui casa dele levar um arranjo de costura à mulher, à Martinha, a mando da minha mãe, e fiquei espantado ao vê-lo com a cabeça desprotegida, estava à espera de o ver de capacete dentro de casa e...parecia outro homem, mais magro ainda, cabelo só nos lados da cabeça, estava de calções sentado no sofá, as veias salientes a contornarem as pernas ossudas, as mãos enormes pousadas sobre os joelhos. Lembro-me que sorriu para mim com os seus olhos cinzentos, tinha umas enormes bolsas debaixo dos olhos que também acompanharam o sorriso, sorriam com o ar mais bondoso do mundo e convidou-me para entrar, "não fiques especado à entrada, entra, entra, o teu pai está bom?".
O barulho da Sachs do senhor Caça-Balões acorda toda a gente que mora no Monte e arredores, desde a Beira-Rio ao Candal. E então acaba-se o sossego dos sábados de tarde. A velha e caprichosa mota faz "ratéres" estrondosos quando bem lhe apetece, provocando a largada das mulheres e da canalha para a rua, todos a dispararem palavrões e chistes ao mesmo tempo. O senhor Caça-Balões é como aquele flautista alemão que atraiu os ratos e as crianças para fora da cidade, só que no caso dele, apenas as crianças o seguem, com os tímpanos rompidos, aos berros e aos pinotes, enquanto engolem um rasto de fumo preto.
Acredito que as pessoas mais velhas do Monte têm uma roda da sorte dentro da cabeça que as obriga a falar da maneira como falam. As palavras que dizem são sempre as mesmas, só que um dia dizem-nas de uma maneira, outro dia de outra; essas palavras parecem fazer sentido nas suas cabeças e então repetem-nas várias vezes por dia até os mais novos as encaixarem nas respectivas cabeças, mesmo quando não lhes apetece. Acho que à medida que crescemos e amadurecemos, a roda da sorte de palavras que temos dentro da nossa cabeça vai ficando cada vez maior até que chega uma altura em que a roda deixa de crescer e depois, sem darmos conta, é chegada a nossa vez de repetirmos as mesmas palavras que os falecidos diziam, por esta ou aquela ordem. Até que a tal roda da sorte das palavras encrava de vez ou então deixamos de ter forças para girá-la dentro da nossa cabeça e calamo-nos para sempre.
"Contos de Gaveta"
sexta-feira, maio 22, 2020
sexta-feira, maio 08, 2020
Choderlos de Laclos
"Quando uma mulher ataca o coração de outra, raramente falha, e a ferida é invariavelmente fatal".
"O nosso ridículo cresce na proporção em que dependemos dele."
Referência: https://citacoes.in/citacoes/566042-pierre-choderlos-de-laclos-o-nosso-ridiculo-cresce-na-proporcao-em-que-nos-de/
Laclos estudou na Escola Real de Artilharia de La Fère. Quando se formou, iniciou uma carreira de 25 anos no Exército. Como jovem tenente, serviu brevemente numa guarnição em La Rochelle até ao final da Guerra dos Sete Anos (1763) e passou mais tarde em Estrasburgo (1765-1769), Grenoble (1769-1775) e Besançon (1775-1776). A estadia de Laclos em Grenoble terá sido um dos períodos mais felizes da sua vida e terá servido de inspiração ao seu único romance, Les Liaisons Dangereuses ("Ligações Perigosas", 1782). Laclos foi promovido a capitão em 1771, mas sentia-se cada vez mais aborrecido com a vida militar e começou a dedicar o seu tempo livre à escrita.
Les Liaisons Dangereuses foi publicado por Durand Neveu em 1782; o livro foi considerado escandaloso, mas foi um sucesso generalizado, vendendo 1000 exemplares em um mês - um valor excepcional para a época. O romance foi considerado por alguns como um ataque à sociedade aristocrática e à moral sob o Ancien Régime; os superiores militares de Laclos ficaram indignados com o romance devido às suas implicações políticas e ordenaram imediatamente a Laclos que voltasse à sua guarnição na Bretanha. No ano seguinte, foi enviado para La Rochelle para colaborar na construção do novo arsenal e foi aqui que conheceu Marie-Soulange Duperré com quem se casaria em 1786.
Em 1985, Les Liaisons Dangereuses foi adaptado para uma peça de teatro da Companhia Real de Shakespeare pelo dramaturgo inglês Christopher Hampton. O seu sucesso levou ao filme "Ligações Perigosas" em 1988, realizado por Stephen Frears e protagonizado por John Malkovich, Glenn Close, Michelle Pfeiffer e Uma Thurman.
quarta-feira, maio 06, 2020
quinta-feira, abril 30, 2020
Ballard outra vez
"Arranha-Céus", J. G. Ballard
sábado, abril 25, 2020
terça-feira, abril 21, 2020
O pequeno ditador
Sei do que falo.
Eu estive lá, nas trincheiras domésticas, a combater o pequeno ditador de três anos. Guerra química, manchas nas paredes, granadas em forma de legos, etc. Destruição total. Uma infâmia, uma violência sem fim. Já nem falo da tortura do sono. Os diversos pedidos de clemência foram refutados com uma enorme sobranceria misturada com um desdém imperial. Mas a arma mais temível por parte do pequeno ditador é a guerra psi.
A ditadura/tirania instalou-se há muito nos meus domínios, "até onde a vista alcança".
Esqueçam lá o raio das petições.
quarta-feira, abril 15, 2020
A volta do parafuso
terça-feira, abril 14, 2020
sexta-feira, abril 10, 2020
A evolução da espécie
Se a quarentena se prolongasse por mais tempo - estou a pensar por uns bons milhares de anos (mais coisa, menos coisa) - é bastante provável que a nossa fisionomia, compleição, morfologia, atributos, etc. sofressem um lenta e sábia mutação. O que vão ler é um exercício puramente especulativo, mas que obedece aos conceitos basilares do darwinismo.
1. Deixaríamos de ter impressões digitais por causa do uso mais ou menos contínuo de luvas (ou seja, não teríamos contacto directo com superfícies; assim, a necessidade de agarrar, de apreender, seria negligenciada). No entanto, não estou em condições para me pronunciar sobre as linhas da mão (Vida, Coração, Mente, os vários montes, etc).
2. A capacidade de orientação e localização ficaria bastante condicionada: as trajectórias mais curtas e pouco diversificadas (supermercados, hospitais) iriam acabrunhar o lobo parietal, a área do cérebro responsável pela orientação espacial.
3. Rosto:
3.1. Nariz: não tenho a absoluta certeza de como seria a evolução deste incrível apêndice; tanto poderia ficar mais pequeno, mais achatado, por causa do uso prolongado da máscara, como poderia tornar-se mais bicudo, mais adunco, num esforço de diferenciação biológica dos restantes narizes já achatados. Sugiro uma leitura mais atenta da obra "O Nariz" de N. Gogol para esclarecimentos adicionais.
3.2 Olhos: ficariam mais redondos ou rasgados. Uma vez mais, dado o uso sistemático da máscara, a visão seria o sentido mais propenso a uma evolução para passarmos mensagens não verbais; os olhos assumiriam um lugar de destaque na comunicação humana - os olhos voltariam a ser o mensageiro privilegiado de paixões, tristezas, desagrados, enfados, entusiasmos, etc.
3.3. Orelhas: assumiriam uma forma mais parabólica, parece-me que aqui não há espaço para divergências. Iríamos estar mais atentos aos vários tons do silêncio, aos múltiplos sons da natureza (que sempre existiram), aos sons de animais selvagens que povoariam novos territórios (cidades, vilas). A ocupação gradual da malha urbana por predadores obrigar-nos-ia a um grau de alerta mais elevado.
3.4. Boca: as bocas seriam pequenos travessões, dado que não usaríamos mais os lábios para sedução. E muito menos para cantar em grandes recintos, logo acabaria por haver uma menor projecção da voz. A actual distância obrigatória de 1, 2 metros entre as pessoas não requer um aparelho fonador muito desenvolvido. Ou, se quiserem, não obriga a grandes bocas.
4. Pele mais clara, rosa, translúcida. Pouca exposição solar. Não vou debruçar-me muito sobre este ponto, porque parece-me por demais evidente.



