quinta-feira, janeiro 31, 2019

Dia

Trabalho num escritório. Introduzo dados num programa de computador durante todo o dia. Às vezes, vou ao WC. Faço duas pausas de 15 minutos, uma de manhã, outra à tarde. Assino um livro de ponto no final do dia.
É isto. Acho que não me esqueci de nada.

quarta-feira, janeiro 30, 2019

Noite escura da alma - nota VII

Todas as armadilhas nos nossos caminhos, todos os grandes atrasos ou recuos, todas as deambulações fora da pista, tudo isto não é o que parece ser. Quero dizer que tudo o que parece ser um erro tremendo não é um erro tremendo, tudo o que parece erro não é erro; é, antes de mais, tudo o que tem de ser feito. O que parece ser um passo em falso não é mais do que o próximo passo.

No jardim

Sentei-me no meu banco do jardim favorito. As três árvores que estavam atrás de mim deixaram de falar. Interrompi-lhes a conversa. Fecho os olhos (não consigo fechar os ouvidos e seria ridículo tapar as orelhas). Cruzo os braços, uma motorizada desce a rua aos tropeções. O silêncio aproxima-se devagar. Não está ninguém no jardim àquela hora. Começo a escutar os primeiros murmúrios feitos pelas folhas. É quase sempre assim.
"Costas direitas" diz a mais entroncada, um velho carvalho.
"Como nós", acrescenta a bétula.
"Pés como raízes até tocares nas nossas raízes".
"Deixa cair as folhas secas".
Vejo clarões verdes com os olhos ainda fechados. Fico assim durante algum tempo.
Quando me levanto, olho para elas. 
À medida que me afasto, retomam a conversa que estavam a ter antes de eu chegar. Uma conversa naturalmente séria, em tom grave, fora do meu alcance.
 

quinta-feira, janeiro 24, 2019

Ainda a noite escura da alma

Aquele que procura irá deixar de ser o barro para ser o oleiro que molda esse mesmo barro.
Se, por um mero acaso, conseguir ser barro e oleiro, algo de muito extraordinário ocorre.

Lao-Tse e Confúcio sorriem.

segunda-feira, janeiro 21, 2019

Noite escura da alma, outro apontamento

Quando despertas, não podes voltar a dormir.

Noite escura da alma, um apontamento

Somos grãos de areia - nisto creio estarmos de acordo. Somos enrolados pelo mar, como diz a música, e depois esperamos ao sol. Esperamos que Ele, com a sua máquina de detectar metais, passe por cima de nós. Se escondermos algo precioso, Ele poderá parar e escavar. Somos então revolvidos, abanados, atirados para o ar. Ele acredita que vale a pena. Mas a praia é imensa e somos muitos.
Não há outro remédio senão aguardar um pouco.

sexta-feira, janeiro 18, 2019

Ana Sender, ilustração baseada na história tradicional russa "O Lobo"


sábado, janeiro 12, 2019


quinta-feira, janeiro 03, 2019


(clicar para ampliar)

Da pintora chinesa Leng Jun (冷军)

sábado, dezembro 22, 2018

Jingle de Natal

Até sabermos quem somos de verdade, todo o conhecimento que adquirimos, tudo o que aprendemos, é pura ignorância acumulada.

quarta-feira, dezembro 19, 2018

Beijo

Vou contar-vos o meu proto-sonho de hoje. 
Vocês não tem nada melhor para fazer e eu também não. Vamos a isso.

Jon Bon Jovi e aquele pessimista romeno, o Cioran, estavam em cima de um muro de pedra a contemplar o pôr-do-sol.
Bon Jovi começou a cantar "Living on a Prayer" ao ouvido de Cioran que tentava encontrar um sorriso sob os destroços daquela sua expressão de betão.
"És o último dos dandies", disse Cioran.
"Cresceste em mim. Semeaste a semente de mostarda do teu amor no meu coração e nunca mais fui o mesmo", desabafou JBJ.
Abraçaram-se e beijaram-se como só dois homens intensos e apaixonados se podem beijar.

terça-feira, dezembro 18, 2018

quarta-feira, dezembro 05, 2018


quinta-feira, novembro 29, 2018




Este tema tem o alto patrocínio da Maçonaria. Tenho quase, quase a certeza. A letra não engana.

sexta-feira, novembro 23, 2018

Em algumas peças de bordado, o lado que fica escondido é bastante diferente do lado que fica visível. Na frente, tudo é simétrico, colorido, bonito. Atrás, nem sempre é assim.
A minha professora de Têxteis dizia-nos que o lado tapado, a parte escondida da peça, deveria ficar o mais semelhante possível ao lado exposto, à parte para decoração.
Todos temos um elemento de duplicidade. O tempo acentua essa duplicidade até ficar insuportável.
Nem tudo é suposto estar na frente.
A uma determinada altura, vemo-nos obrigados a virar o lindo pano bordado e ver o que temos oculto, a parte menos bonita. Creio que aprendemos sempre algo com as pontas de fio soltas, com o "feio". Julgo que, deste modo, ficamos finalmente conscientes da peça toda. Poderá levar algum tempo, no entanto.

quarta-feira, novembro 21, 2018

O primeiro pensamento que me caiu em cima hoje de manhã ao acordar:

"Vais ligar ao Manuel Luís Goucha. Vais elogiar-lhe as fatiotas e propor-lhe redigir a biografia em jeito de ghost writer. Vais encontrar-te com ele numa grande estação ferroviária (ia usar o galicismo "gare" mas arrependi-me), tomar um capucino e pedir-lhe para falar sobre a sua vida antes da Cristina."

E é assim que se começa o dia.

sábado, novembro 03, 2018

quinta-feira, novembro 01, 2018

Mamoudou, o mauritano


Ando arredado deste blogue porque estou a atafulhar a minha cabeça com números e lentes.
As minhas desculpas ao meu único e estimado leitor que me segue da Mauritânia.
Mamoudou, o mauritano, vive numa aldeia a norte do intrigante "olho de África".
Confessou-me que gosta muito de Barry White e Sade (a cantora) e que se orgulha do seu passado de Atlante. O seu sonho é conhecer o Algarve de sotavento e barlavento e passar um mês num resort de "papo para o ar". Lê avidamente J. L. Borges e dispensa Pessoa porque acha-o muito chato e "previsível".
Mamoudou, o mauritano, pediu-me para escrever este pequeno texto para o único leitor deste blogue.
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terça-feira, outubro 23, 2018

Armistício

Hoje sonhei com o Marechal Foch.
Estava na sala de espera de uma destas modernas clínicas dentárias. Foch chegou, tirou as medidas à sala e olhou para mim durante uns bons dois minutos. Depois, sentou-se a meu lado (a sala estava praticamente vazia) e perguntou-me que horas eram.
- São três e vinte, meu General, disse-lhe.
Foch ainda não tinha sido distinguido com o posto de marechal.
- Está na hora, meu rapaz.

Sim, o momento chegou. Estou pronto para assinar o Armistício com a minha mente.