terça-feira, fevereiro 04, 2020

O Panda "Corona"

Um andarilho puxa um velho
(um cidadão sénior como dizem nos EUA)
a gravidade reclama as sacas do Pingo Doce
em cada mão
ele interrompe a marcha
como que a farejar o perigo
o lote de canaviais, plumas e televisores
esconde um perigo real:

o panda "corona" salta
e com uma patada
atira o velho para o meio da estrada

a mulher dentro do stand de vendas
(um contentor com A/C)
continua a falar ao telemóvel
como se nada tivesse passado

ninguém viu ninguém vê
o velho prostrado no meio da estrada
excepto eu e a minha cabeça

terça-feira, janeiro 28, 2020

Hendrix





Fiz o exercício racional de isolar os instrumentos. Mesmo sem Hendrix na equação, a secção rítmica faz um trabalho notável. Noel Redding & Mitch Mitchell. A estrutura óssea que segura os devaneios do guitarrista.

Depois, introduzi a guitarra. Já desisti de decifrar todos os acordes. Com o baixo é possível localizar a escala, mas depois ele salpica gotas musicais que não sei bem de onde vêm. Mas também para quê? Qual é o objectivo saber a tensão ou força da pincelada em Guernica?
E depois ele meteu a língua à mistura. Não queria tornar isto num chiste erótico de duvidosa qualidade, mas, a dada altura, já não sabemos onde a guitarra começa e o homem acaba. Ele está a tocar-se? Ou continua ainda a tocar uma guitarra? É um exibicionista? Um virtuoso?

A razão deu facilmente lugar a um exercício espiritual.

O menos assinável no tema é a voz (podem encolher os ombros). Ainda assim, o defeito é feitio mas já não é deste mundo.
Vamos relativizar as coisas e vamos pensar nos descendentes: o próprio Page, Prince, SRV, L. Kravitz, John Frusciante, Gary Clark jr. Estrelas com muito talento, sim, mas o sol é o Sol porque está mais perto de nós.

Vamos recuar aos ascendentes: Buddy Guy, Muddy Waters, T-Bone Walker, Robert Johnson. Estamos a falar de sofrimento, do blues, da África no Delta e depois para Chicago. Ele bebe o legado, respeita-o mas transfigura a coisa e faz o upgrade para o divino.  É o único tema musical deste universo que me faz chorar e rir ao mesmo tempo.




Nota: é importante mascar pastilha elástica enquanto se tece um novo salmo eléctrico. 

segunda-feira, janeiro 27, 2020

Orelhas

Já vos aconteceu irem a um café, pedirem um café e a empregada servir o café enquanto olha para a vossa boca?
Não? Sim?
Pois a mim acontece-me todos os dias.

Bom, mas hoje abriu-se uma excepção. A menina do café pousou o olhar nas minhas orelhas.
O que é que ela procurava? "Cera", restos de cotonete, um lóbulo para morder?

Dá muito nas vistas quando apreciamos as orelhas de alguém. Ou melhor, dá muito nas orelhas.
Vou pensar nisto o dia todo. Talvez passe lá daqui a pouco para pedir satisfações.
"Olhe ó menina porque é que estava a olhar para as minhas orelhas há bocado?"
...
Pensando melhor, é melhor não.

quarta-feira, janeiro 15, 2020

Castelhano - lição #34




Uma homenagem ao "cinema quinqui".
Visceral, violento, sexo, caballo, delinquência, desemprego, Fiat Ritmo, Fiat Mirafiori, roupas pré-Zara.
Sim, nem tudo era "Verão Azul" na Espanha dos anos 80.

terça-feira, janeiro 07, 2020

A voz dentro da cabeça

Em todas as histórias de heróis, há sempre um personagem que está a vigiar uma ponte, um portal, uma passagem, etc, envolto(a) numa bruma ameaçadora, misteriosa. O guardião pode ser humano (normalmente é mais velho, pode apresentar cicatrizes). Nas histórias fantásticas, poderá ser um "half breed" ou uma criatura de outra raça. Nas histórias mais verosímeis, poderá ser até a sua própria mãe, como foi o caso do nosso primeiro rei, o A.H..
E o sinal inevitável:
"Não Passarás".
Não passarás.
Não passarás, porque se o fizeres, vais morrer.
Muito raramente, nestas histórias, o herói volta para trás com medo. Porque, se o fizer, a história acaba ali. Medo. É isso de que estamos a falar não é? Do Medo com maiúscula que veste uma roupa demasiado grande para o seu verdadeiro tamanho. No entanto, é o Medo.
O herói é obrigado a combater o guardião da ponte ou decifrar um enigma, responder correctamente a uma adivinha.
O herói falha e volta a falhar. O guardião pergunta:
"Será este o teu caminho? Queres mesmo atravessar esta ponte? Vais morrer. Vais enlouquecer. Não estás preparado. Fica onde estás. Volta para trás, pobre imbecil."
E continua esta ladaínha ad nauseam, faz a mesma pergunta, vezes e vezes sem conta.
Naturalmente, o herói - porque estamos sempre a falar de um herói - ainda que possa falhar, não desiste. Como poderá desistir? É o herói de história.
Fica à espera que algo divino ocorra, faz a prece aos deuses, continua a tentar. O Tempo, embora não pareça nos primeiros tempos, é o seu maior aliado.
E, no fim, após diversas tentativas dolorosas, o herói reconhece que o guardião da ponte não é verdadeiramente o seu inimigo. E muito menos o Medo.

quinta-feira, dezembro 26, 2019

Loverboy

O vídeo foi filmado em Durdle Door, Inglaterra. 
Logo no início, Billy Ocean aparece pela primeira vez. Os efeitos da câmera deformam a imagem numa pirâmide e o universo aparece em segundo plano. 
O protagonista mascarado cavalga numa praia ao som da batida da música. Chegam a uma caverna de onde saem tubos prateados. Há uma festa com vários personagens estranhos, alienígenas. Música. Alguns personagens conversam, outros deambulam pelo bar. O herói observa uma "mulher" - bastante parecida com a Dark Crystal - que está sentada ao lado de outro personagem - que se assemelha bastante ao Beast Man dos Masters of the Universe. Talvez seja a personagem mais feia do vídeo. A "corte" do protagonista transforma-se num ritual de cio. Tensão no ar. Há um tiroteio com armas laser, o "vilão" é abatido e o protagonista/herói leva a mulher pela mão. Ambos fogem da caverna e cavalgam pelo areal fora.
O realizador deste vídeo incrível é o inglês Maurice Phillips (1948-2012).

sexta-feira, dezembro 20, 2019

Curtas & grossas: mais "greguerias"

- O meu sentido Aranha está desregulado há três anos. Parece que há uma ameaça de perigo eminente (em espanhol, "lucha o huida"), mas quando olho em redor, não há nenhum Dr. Octopus, nenhum Green Goblin, nenhum vilão, nada. Não há nada de realmente ameaçador.

- Faço backups (em espanhol, "copias de seguridad") de mim mesmo de meia hora em meia hora. Tenho medo de apagar sem querer a minha psique.


  - A senhora dos Roxette (antes de falecer) estava a dar-me formação de como conduzir um pesado. Não tirava os olhos dela, estava muito atento a tudo o que ela dizia e fazia. She's got the look. O veículo pesado era um daqueles camiões-cisterna com vinho do Porto. Só que em vez de transportar vinho, transportava leite. Sim, leite (em espanhol, "leche"). Todas as caves do vinho do Porto se tinham transformado em leitarias. Os turistas provavam cálices de leite vintage de 1971, 68, 63, etc. Havia fotos das melhores vacas dos melhores anos nas paredes das caves. Os telhados das "caves" eram de cor branca, as paredes eram de cor branca. Já ninguém se lembrava da Ferreirinha. A nova senhora do leite do Porto era agora a Marie Fredriksson, a vocalista dos Roxette.

- Preciso de uma aguça especial para afiar os meus sonhos e os meus pensamentos.

- Sempre que vou a casa de algum amigo que tem Budas espalhados por todos os cantos, penso em destruição. Apetece-me sempre escacar todos os quadros, todas as estátuas, todas os jardins zen com representações búdicas*.
*Sidarta, perdoa-me, mas tu sabes do que estou a falar.

- Pessoa é sobrevalorizado. Não estou a ser polémico. Estou a dizer o que me vai no coração. Foi o melhor poeta da minha adolescência e ser-lhe-ei sempre grato. Obrigado, ó Fernando.

- Todos nós temos ligação Bluetooth com o Divino. Alguns ainda não estão acoplados, mas todos nós temos essa funcionalidade básica. Eu descobri-o da pior forma e até me aleijei na cabeça.

- Os melhores jogadores de póquer que conheço trabalham nas repartições das finanças.

- Os comanches eram os vikings das Grandes Planícies. Destruíam tudo por onde passavam. Piores só mesmo os caras-pálidas, os cruzados do Oeste americano.



segunda-feira, novembro 25, 2019

The Housemartins - Build



"London 0 - Hull 4"

sexta-feira, novembro 08, 2019

Fernão de Magalhães

Os defensores da teoria da terra plana vêem Fernão de Magalhães como um anti-cristo. Ou simplesmente como um louco enganador. 
A perspectiva das coisas é uma coisa estranha. Somos seres estranhos. Como é que um tipo nascido no meio da serra mete na cabeça que tem de provar à humanidade que a Terra é redonda, derrubando as teorias ptolomaicas, "aniquilando" dragões, leviatãs e outras criaturas hediondas que povoavam o mar? 
"Não passarás as Colunas de Hércules", eis o 11.º mandamento dos pensadores do mundo antigo.
"Ai é, vou provar o contrário: eis-me quase circum-navegado", pontapeia Fernão M.

Quantas vezes fazemos circum-navegações à volta da nossa cabeça durante um dia? Não estou a plagiar Cortázar (como poderia!), mas quantas vezes o nosso ego nos prega partidas com medos e outros monstros durante um dia? Magalhães queria novas rotas de especiarias e prestígio (obviamente), mas o seu ego e o resto acabam por morrer às mãos de uma tribo local nas Filipinas. O primitivo mata o cristão. Assim reza a história. Naturalmente, o homem de Sabrosa permanece eterno.
Mas agora a pergunta que se impõe é:
O ego pode morrer depois de tantas e aturadas circum-navegações mentais para dar lugar a algo mais sublime, mais grandioso? A maya do ego pode ser rasgada?
Se me responderem que tudo isto faz parte da nossa experiência bípede e humana, digo-vos já que não irão ganhar o prémio para a resposta mais original.

segunda-feira, outubro 14, 2019

quinta-feira, outubro 03, 2019


quarta-feira, outubro 02, 2019

Mais um dia de trabalho

Tive o encanto de conhecer ontem quatro pessoas. Graças ao meu novo métier, conheço muitas pessoas todos os dias, de todos os cantos do mundo. 
Eram dois casais. Um casal jovem e outro mais velho. Muito mais velho - o senhor Eckart estava a celebrar o seu 81º aniversário. Fartou-se de receber chamadas durante todo o dia. O senhor Eckart era muito simpático, muito vigoroso, parecia ter menos vinte anos. O seu segredo? Ele e a mulher caminham cinco quilómetros todos os dias, andam muito de bicicleta e fazem sempre a saudação ao sol quando acordam. Para quem não sabe: a "saudação ao sol" é um asana/sequência de exercícios de ioga. O senhor Eckart é um apaixonado pela vida.
O casal mais jovem estava a percorrer o mundo. Ele era cozinheiro, já tinha trabalhado na Tailândia e Hong-Kong. Falava um Inglês temperado com sol e mediterrâneo. Por vezes desaparecia e surgia com uma SB ou uma Sagres na mão (estava claramente a marimbar-se para a nossa rivalidade norte-sul, para a nossa entediante guerra de secessão nas bancadas e fora delas). A companheira, uma moça franzina, sorria com os olhos e era a mais calada do grupo.

Quando perguntei de onde vinham, ocorreu-me imediatamente que iria ser um longo dia e que estavam reunidos os ingredientes para correr tudo mal.
Correria seguramente tudo mal se viajássemos setenta anos para trás e o ponto de encontro fosse algures na Alemanha. Ou simplesmente não correria
O senhor Eckart e a mulher eram de Hamburgo. 
O jovem casal vinha de Israel. Ele nasceu em Haifa e ela era russa. Ambos falavam hebraico.

De volta ao presente. Deram-se às mil maravilhas, foi um belo dia de trabalho e lazer. Os meus receios estereotipados caíram por terra. Não foram abertas feridas, a História do século XX ficou nos livros, o inconsciente colectivo não foi escavado.
Apenas um pormenor curioso: no final do dia, confessaram-se ateus. Todos os quatro (mais uma "estereotipada", na minha cabeça todos os israelitas são judeus). Abençoei-os na mesma e desejei-lhes uma vida longa e próspera.


quinta-feira, setembro 19, 2019

Purificação pelo fogo

Lembrei-me agora que se recolhêssemos todas as obras escritas para a gaveta, obteríamos uma bela e grandiosa fogueira. Ocorreu-me logo a seguir que se juntássemos todos os best-sellers do momento, tal empreitada daria uma belíssima e ainda mais grandiosa fogueira.

segunda-feira, setembro 09, 2019

O Senhor Colaço

Existe um painel de azulejos muito curioso na estação de São Bento, no Porto. 
É um painel pequeno, discreto, passa despercebido face à imponência dos outros painéis históricos.
Jorge Colaço, o grande criador dos azulejos, fez uma "espécie" de cartoon em que o engenheiro e o arquitecto da estação estão representados como duas velhas enquanto que o próprio Colaço representa-se como um músico galando as moças. 
A literatura também deveria ser assim. 
O autor não se leva muito a sério, faz pouco do politicamente correcto (fazer pouco é fazer muito, neste caso), tem uma visão irónica e bem humorada das coisas sem nunca perder a consciência do dramático. Nem sequer vou falar destas obras, porque tenho a certeza que vocês sabem quais são.
"Para triste já basta a vida", dizia-me uma senhora brasileira - brasileira, sim - que confessou não querer conhecer a Sé por dentro porque já sabia o que ia encontrar.

sábado, agosto 31, 2019

sexta-feira, agosto 09, 2019

Vida

E quando damos por ela (adoro esta expressão, quem é "ela", será a própria vida?), estamos a viver. Mal ou bem, estamos a viver. É o grande denominador comum entre um caçador do Alaska, um puto rico de Denver, CL, uma freira de Madras ou os romenos mudos que pedem no largo da Sé do Porto. Todos eles vivem.
Tento aplicar esta diversidade de vida nas minhas leituras. A louca biografia do Slash, o Novo Testamento (o Antigo deixa-me um pouco agoniado) e os "Contos Reunidos" do Felisberto Hernandez. 
A vida é também isto: fim de tarde em família, um bebé adolescente (os ingleses têm a categoria de "toddler" para este tipo de criatura) a rasgar as melhores páginas do Livro do Desassossego enquanto ri como um diabrete e vê a "Patrulha Pata". O novo a destruir o velho, a vida a regenerar-se, um sinal do universo a dizer-me que o paradigma pessoano já viveu melhores dias. Talvez seja impressão minha, nunca fui grande fã do Pessoa. Naturalmente, o grande neurótico será sempre melhor que qualquer um de nós. Urge beber absinto em vez de gin xpto ou cerveja artesanal que custa os olhos de cara. Vamos todos beber absinto dentro ou fora dos carros enquanto esperamos nas longas filas da Galp.

segunda-feira, julho 15, 2019


quinta-feira, julho 11, 2019

Cardo mariano

Este poema tem
um carácter
exclusivamente informativo:

deixei de acreditar
no "poder da poesia"
há bastante tempo.

O cardo mariano
é bom para todas
as maleitas da vesícula e do fígado:
cirrose, hepatite, etc.

Bêbedos do meu coração!
Tomai chá de cardo mariano
para curar as vossas ressacas.

Chá de alcachofra também serve
mas tem sabor a mijo
(nunca provei mijo
- uma forma de terapia -
mas deve ser parecido).

Já sabem: chá de cardo mariano*.
Garanto-vos que é melhor
do que "cholagute".


*Também é conhecido como
cardo-leiteiro,
cardo-santo ou
serralha-de-folha.

sexta-feira, julho 05, 2019

Little Nemo

Sim, o sonho foi mais ou menos assim.

terça-feira, julho 02, 2019

Sobreurbano

A tela das vistas da nova casa é preenchida por lotes com pequenos canaviais e arbustos. Alguns montes de terra escura revolvidos pelas escavadoras (muito modernas, nada retro) aguardam; camiões enormes a dizer "Transporte Excepcional" abanam a rua de meia em meia hora. Homens com coletes verdes entram e saem do novo estaleiro, mais um prédio na forja. Em segundo plano, estende-se um conhecido Pingo Doce - quando é a próxima promoção mesmo? Três nesgas de Atlântico lá ao longe completam esta provável "instalação" do Banksy. Tanto quanto sei, pode ser aquele "mano"/"filho" de boné a descer a rua de longboard ou o velho negro com as sacas cheias que pára de vez em quando para respirar.