sexta-feira, outubro 27, 2017

O Meu Mercado da Beira-Rio



Lá consegui pegar no sono, mas acordei pouco depois estendido em pleno mercado da Beira-Rio ao qual toda a gente chama de Praça, despertei com a algazarra habitual dos sábados de manhã. A Praça estava apinhada, procurei pela minha avó, sentia-me ainda meio atarantado com os restos de sono na minha cabeça. A minha avó conhece toda a gente. Desde o Bernardino da Padaria, o senhor Aguiar do Talho, ao senhor Silvino e à Mariazinha dos Frangos, dá-se com todas lavradeiras que vêm dos confins de Gaia que para mim era a mesma coisa que Trás-os-Montes, fala com todas elas. As mais velhas falam até acabar o ar nos tubos, às vezes falam de sítios e de épocas que me são estranhos. Tive de esfregar bem os olhos para acordar, apesar da confusão e do barulho.

Na parte do mercado onde estavam alinhadas as vendedoras de galinhas e de pintainhos, vi uma galinha enorme, com um peito enorme que tapava quase todo o avental que trazia à cintura e, à sua frente, havia uma gaiola com meia dúzia de mulheres anãs. Estas mulheres anãs tinham os pés descalços, vestiam uma roupa muito colorida e não pareciam estar muito incomodadas por estarem engaioladas. O mercado tinha sempre mais mulheres do que homens. As mulheres estavam divididas em dois grupos: as que tinham um corpo em pirâmide e as que tinham o corpo em pirâmide invertida. As mulheres-pirâmide tinham pernas muito gordas (algumas até tinham os tornozelos gordos como se as peles e a gordura das pernas tivessem caído de uma vez só) e as mulheres-pirâmide invertida tinham o peito muito, muito grande e roçavam-se sempre nas outras pessoas quando conversavam, parecia que traziam uma varanda debaixo do pescoço, com dois vasos redondos enormes. Andavam sempre tarefadas, essas mulheres tropeçavam em mim e quase que me calcavam para depois me deitarem um olhar de poucos amigos. Levantei-me. Dei duas voltas à Praça para tentar encontrar a minha avó. Percorri toda a rua de trás, a rua das Alminhas, que estava também cheia de gente. Estavam a descarregar sacos de batatas de pequenos camiões encavalitados uns em cima dos outros, do céu choviam pés de alface, tronchudas, agriões, nabos, nabiças, cenouras, pimentos de todas as cores, réstias de cebolas, tomates, fruta de todo o tipo, etc., etc., todos falavam ao mesmo tempo e todos se entendiam, quando alguém não entendia o que o outro lhe estava a dizer, essa pessoa berrava um palavrão e aí o outro já entendia. Fiquei um pouco tonto com tudo aquilo, ainda era muito cedo e eu estava em jejum, procurei por moedas nos bolsos, ainda tinha algumas embrulhadas em cotão do troco do dinheiro dos maços de tabaco para o meu pai.


Tornei a meter-me pela "rua de trás" quando senti uma espécie de um "cachaço" muito leve, muito meigo, como se me estivessem a fazer festas na nuca. Virei-me e a vinte metros de mim reparei numa menina muito bonita dentro de uma furgoneta a cair de podre. Deveria ser filha de um dos vendedores e estava a olhar fixamente para mim. A menina fez-me sinal com o dedo para eu me aproximar e depois apontou com o mesmo dedito para a minha avó que estava no talho do senhor Aguiar. Como é que ela conhecia a minha avó? Não me lembro de ter visto esta miúda antes e vou à Praça com a minha avó quase todos os sábados. Deslizei pelas folhas de couve e de alface esmagadas no chão até chegar ao talho. Mais uma vez, a minha avó e o senhor Aguiar do Talho estavam a falar de coisas muito antigas, da primeira grande guerra, da fome, da miséria, etc. e quando apareci por entre as fitas coloridas da soleira, a minha avó fartou-se de me insultar. Levei uma descompostura daquelas à frente do senhor Aguiar que não parava de cortar ossos. Atrás dele, havia um quadro dos Alpes com uma vaca deitada num enorme prado verde a olhar para nós. Já era quase meio-dia e a minha avó estava cansada de acartar com as sacas das compras de um lado para o outro. Ainda tentei arranjar desculpas, “Mas óh bó, mas óh bó”, mas a minha avó lançou aquele seu olhar de morte que me trespassou a cabeça e eu calei-me logo. Não posso ser pardal quando a minha avó se zanga, ela podia matar-me só com os olhos que parecem estar sempre a desembaracem-se dos nós feitos pelas muitas rugas que ela tem nas covas dos olhos. O Manel desatou logo às gargalhadas. O Manel é filho do senhor Aguiar e seu ajudante. Eu gosto do Manel, anda sempre com a barba por fazer e é daquelas pessoas que estão sempre a sorrir. Traz a bata toda ensanguentada, cheia de medalhas de sangue, nunca vi aquela bata limpa, isto só pode querer dizer que ele adora o seu trabalho. O senhor Aguiar pediu-lhe para ir buscar carne do vazio. Ele abriu a porta da enorme e antiga câmara frigorífica, imaginem uma roulotte sem janelas e sem rodas metida num talho, vestiu um kispo, entrou e fechou a porta grossa atrás de si. Quando eu e a minha avó nos despedimos do senhor Aguiar, o Manel ainda não tinha saído. Saimos sem a carne do vazio. Ele é como eu, adora o frio, um dos meus sonhos é ir à Lapónia ou ao Pólo Norte. Eu acho que a câmara frigorífica tem um acesso secreto a um longo túnel que vai dar ao fundo do oceano e que depois sobe até ao Pólo Norte onde o Manel anda à caça de focas. Talvez seja por isso que o Manel demora tanto tempo a sair da câmara. Talvez seja por isso que os dois, o Manel e o pai, chamam-na de carne do vazio, porque o Pólo Norte é um imenso vazio branco.

terça-feira, outubro 24, 2017

Adoro a Alison

Período





















Às vezes, sinto que o meu período está em consonância com o período de algumas mulheres.
Dou por mim a acabar as frases delas e vice-versa.
Também pode acontecer com alguns homens de signos de Água, mas é mais comum acontecer-me com senhoras. A única condição para os cavalheiros é que têm de estar (ou estiveram) todos torrados da cabeça.

E sim, até prova em contrário, sou um soberbo representante dos cromos XY.


domingo, outubro 22, 2017


quinta-feira, outubro 19, 2017

Máfia

A nossa mente é a nossa Máfia. Ninguém fique impune no primeiro ataque. Pânico total. Os joelhos transformam-se em água. A alma sai do corpo.
Mas depois esses ataques deixam de nos impressionar e constatamos que a terrível Máfia não passa de um bando de rapazinhos traquinas.
"Schiu, vão brincar para outro lado."

quarta-feira, outubro 18, 2017

O que dizem os teus olhos














- O que dizem os seus olhos?
- Os três?
- ....Não vale a pena ser malcriado.
- Estava a referir-me ao 3º olho, ao chacra 6.
- Ah perdão. E o que dizem então?
- Os três?
- Sim.
- Dizem que isto é uma treta. Estou a apanhar uma seca saariana.

- O senhor é estranho. E malcriado.
- E o senhor é feio e incompetente. E não precisei do 3º olho para dizer isto.

(este foi o diálogo que a minha mente encenou enquanto esperava pela minha vez na Repartição de Finanças. Há ainda alguns inuendos com a quarentona do balcão 11, mas não vale a pena falarmos disso. Envolve cordas e mitenes de napa monoluvas de napa vermelhas. Bom, apesar de espera, foi uma boa manhã).

terça-feira, outubro 17, 2017

Adoro o John

Versalhes de dor


Quando um pensamento parasita invade a nossa mente e acolhémo-lo como se fosse uma membro da Realeza, isto é, estendemos um tapete vermelho, fazemos vénias até ficarmos curvados ao nível do chão (sem darmos conta), etc, esse bastardo real tende a ficar, porque gosta de ser mimado e deslumbrado pelos motivos mais ilusórios e mais errados. O pensamento não tem de fazer nada, basta adorá-lo como se fosse o Menino. E depois traz consigo uma corte de pensamentos parasitas como ele. Uma Versalhes de dor e sofrimento. Um séquito de dúvida e de medo. Ficamos siderados pelo seu "poder", porque, muito simplesmente, estamos frágeis, estamos cá em baixo.

Um pensamento deste tipo só pode governar se houver povo para governar. Sozinho não tem muito poder. 

O problema é quando esse povo não sabe viver doutro modo. Fica aconchegadinho à dor. 
"Hmm que bom, dor. Já te conheço, és-me familiar, és a minha rainha, para o bem e para o mal."

Eventualmente, o povo irá fartar-se de tanto se empanturrar com tamanha dor. Chafurda no fosso do Inconsciente para tentar conquistar o castelo. Fica obstipado e aquilo tem de sair por algum lado. Pode durar algum tempito. Algumas escaramuças angustiantes pelo meio, algumas tentativas de depor o poder opressor que reage sem clemência, alguns ataques de pânico e dissociações.

No fim, dá-se a Grande Revolução. Por incrível que pareça, poderá haver ajuda espiritual. Camadas de raiva e de pura fúria irão escorrer por dentro e fora do corpo. Algumas cabeças irão rolar (no bom sentido). Aquilo que foi recalcado durante tanto tempo tem de vir cá para fora, regurgitado. O povo está a subir de frequência, a reclamar consciência. Melhor do que o Medo e a Apatia. O pensamento parasita, que não passa de um mercenário enviado por Id, o Primitivo, ainda irá estrebuchar para tentar manter-se no trono, mas os dados já foram lançados, alea jacta est*.

* um apontamentozinho de Latim para tornar o texto mais trabalhado, mais verosímil.


segunda-feira, outubro 16, 2017

Incêndios

Um país em cinzas.

Cabeças em cinzas.

Está tudo como há-de ir basicamente.
Que venha a put@ da chuva.

Nunca vi nada assim.



sábado, outubro 14, 2017

Iluminação

Okamoto-Kiichi
























Li algures que atingimos a Iluminação 500 vezes por dia. Se não pensarmos durante 1 segundo, somos o "Buda de 1 segundo". Se não pensarmos durante 2 segundos, somos o "Buda de 2 segundos." Etc.

Quando comemos, devemos comer apenas. Quando bebemos, devemos beber apenas. Quando estamos com a pessoa de quem gostamos (amigo(a), amante, consorte, homem do fraque, picheleiro, etc), devemos apenas estar com essa pessoa.

A Iluminação não é nada de especial. Basta deixar-nos ir, levar, fluir.

Mas será que quero? ("quero", um verbo muito pouco iluminado)
Ou será que, no fundo, desejo continuar a ser o Louco dos Olhos Esmeralda* do costume?



* O meu Ego a funcionar na plenitude. Um modesto "gaba-te cesta".


quinta-feira, outubro 12, 2017

Adoro a Lily






Libido


"Still here, boss. Hey down here."
"...Have we met before? Oh wait, it's you. I remember you. How are you, buddy? Awrite then. Let's do this."


Exemplo de um texto muito pouco "iluminado".
Sim, eu e ela (libido) falamos sempre em inglês. É detestável, mas é uma cena nossa. Muito lixo televisivo na adolescência.
Às vezes - às vezes - adoro o meu ego. Outras, nem tanto. Como quase toda a gente.

Parabéns, senhor Freud
Mas também, parabéns senhor Jung. 
Tiro o meu chapéu aos dois.
Apenas o chapéu.



quarta-feira, outubro 11, 2017

Balanço

Como uma ligadura de gesso
o tempo enrolou-se à volta das
minhas pernas,
nada vejo à minha volta
ou parece que tudo desapareceu.


Diz Jannah.


Deixei de ver demónios e walkers, anjos e santos decepados, para cair e ver a realidade à minha volta. Mudei as lentes da percepção. A coisa é muito mais assustadora.

O Despertar já foi há algum tempo. Enraizo. Aceitar, integrar, digerir. Todos os dias - todos - olho para Ele de frente. Faz parte da minha natureza. Ele mostra-me as cartas antes do jogo começar, põe-me no devido lugar. Jogamos todos os dias. Um jogo eterno, uma valsa divina. Deixa rolar o meu medo como um pai muito paternal, muito paciente.

Tal e qual o pai dele. Tira-me mais uma lasquinha da cruz que é mesmo à minha medida. Sou um cedro, um carvalho. Não. Desta vez, o meu aparelho incorpora um búfalo que enfrenta a tempestade de frente. Sincronicidades "a toda a hora" (não, não procuro capicuas feito um tolinho), dores no peitaço, extrema fadiga mental e física, zumbidos, suores q.b., bzzzzztt, saio e entro da matrix, kundalini entalada na garganta, hemisfério esquerdo a estalar, etc. Isto é uma festa. "Never a dull moment". Creio que alguns de vocês sabem do que estou a falar. Se não sabem, não queiram saber. Se quiserem, enviem email.

O meu bebé brinca com as minhas lágrimas, puxa-me as orelhas e sorri. A minha mulher torna-se na mãe dos dois. Uma lutadora, um pilar a sustentar um pilar cheio de fendas.

Sou grato.

Dois lightworkers trabalham para a minha evolução.

Sou grato.

Uma velha/nova amiga de várias encarnações apareceu-me no local menos provável. Ela sabe-o. Mais uma lutadora com as suas lutas. Mesma tribo.

Sou grato.

On second thought
I think I'm more crazy
than my goat.

Remedios Varo
Leonora Carrington

segunda-feira, outubro 09, 2017

Cadeira branca

Há pessoas que gostavam de ser "mosquinhas". Uma coisa um pouco nojenta e pouco original.

No meu caso, confesso que gostaria de ser uma determinada cadeira branca do Ikea.

Frequentei Eton, sei boxe, pratico hipismo, bebo chá com leite, só fumo Captain Black, gosto de saborear JM 30 anos enquanto contemplo as incríveis noites de lua cheia. Sou um gentleman, um cavalheiro.

Mas até um gentleman tem direito a alguns fetiches e o fetiche/bizarria desta semana é: desejo ser uma determinada cadeira branca para sentir o doce toque da lycra.

Ah, já vos disse que sou um gentleman, não já? Um lobo disfarçado de gentleman.

quinta-feira, outubro 05, 2017


The Dark Night Of The Soul

Inspirado, naturalmente, na obra do místico João da Cruz. Apenas postei este link porque gostei da paisagem e das tatuagens do senhor. Ah!

Alguns de vós já estão familiarizados com o processo, mas espero que este depoimento informal (não acredito em gurus) vos ajude de alguma forma.

terça-feira, outubro 03, 2017

Mantra

E SE  ______________?
E SE  ______________?
E SE  ______________?
E SE  ______________?
E SE  ______________?
E SE  ______________?
E SE  ______________?
E SE  ______________?
E SE  ______________?

Ad nauseam.

Tudo está bem. Eu sei.
E basta.

Leonora Carrington com Max Ernst, 1937


segunda-feira, outubro 02, 2017

Grávidas

Devia haver hoje um congresso de grávidas na praia. São às dezenas, estão por todo o lado, são de todas as cores e feitios. Fazem ar de poucos amigos quando me devolvem o olhar como se fosse um intruso ou, pior, um violador. Apesar de tudo, sinto-me bem no meio delas, estou protegido por deusas de fertilidade. A presidente do congresso deve ter uns setenta anos e é a única que sorri para mim. A sabedoria e a velhice. A barriga dela parece uma bossa de dromedário do tempo do Antigo Egipto. Uma delas tem o cabelo pintado de azul e traz a tatuagem do símbolo da vida na barriga. Sai do meio do grupo e vem na minha direcção:
"Tem lumes", pergunta.
Aceno com a cabeça e acendo-lhe o cigarro.
"Há muita praia. Porque é que ainda está aqui?"
"Não posso estar aqui?", pergunto-lhe em tom de desafio.
"Você sente que pode estar aqui? Sente-se bem?"
Dispara suavemente uma linha de fumo para o meio dos meus olhos. Sorri, trocista.
Os meus guias sussuram-me ao ouvido para abandonar a praia e para não olhar para trás.

Acordo e vejo um tapete de azul à minha frente. Tento imitar o sorriso da grávida de cabelo azul, mas não consigo. Olho à minha volta. A praia está deserta.

domingo, outubro 01, 2017



Gostava de fazer coisas com esta música.

terça-feira, setembro 26, 2017

Varandas

Há coisa de duas, três semanas, um dos meus vizinhos mudou-se para a varanda. Faz lá tudo. Dorme, come, faz as necessidades. Tudo. É um pouco inaudito, eu sei, mas no meu prédio estão sempre a acontecer coisas do género. Bom, quase tudo, não faz amor com a mulher na varanda, ainda não. Transeuntes aglomeram-se na rua para apreciar o vizinho abalconado como se fosse uma atracção circense. O caso bizarro já foi discutido na última reunião extra de condóminos. Curiosamente, criaram-se duas facções entre sexos. Os homens simpatizaram com o vizinho, as mulheres reprovaram o seu comportamento em uníssono agudo. Depois começaram a falar de capoto e telas e a coisa ficou menos interessante.
Encontrei a mulher desse vizinho no elevador - é sempre no elevador - que me confessou toda a verdade. A senhora sempre simpatizou comigo, talvez porque tenho cara de padre confessor.
"Ele está a combater o Medo. O medo de alturas, o impulso de se lançar da varanda. O meu marido é muito radical. Confronto, confronto. Não vai sair de lá enquanto não conseguir vencer esse medo."
"Poderia fazer hipnoterapia", aconselhei.
"Ah. Ele também tem medo de hipnoterapeutas".
"Nesse caso, está no bom caminho."
"Acha que sim?"
"Eu acho que sim, minha senhora."

segunda-feira, setembro 18, 2017

"Os Tormentos de Sto. Antão", Miguel Ângelo

História

Enquanto escovava os dentes, ocorreu-me escrever sobre as 24 horas da vida de Marco, um professor católico homossexual, narcísico, que, nos tempos livres, é um poeta obcecado por sexo, morte, religião e bebida; embarca ainda em fantasias em espiral sobre Unicórnio, um estudante loiro, jovial, inteligente, que deve ser protegido a todo o custo de conspiradores Illuminati.


Sentei-me, fui ver na net como se escrevia Illuminati e, para minha surpresa e por vias travessas do Google, descobri que esta história já tinha sido escrita por um escritor libanês que ninguém conhece.
Bom. Se a ideia então é copiar, então vou copiar dos melhores.

terça-feira, setembro 05, 2017

segunda-feira, setembro 04, 2017

Paralisia do sonho


Ilustração de Lumagro


Acabei por adormecer. No centro do meu sonho, uma dessas mulheres brancas ocupa a praceta da minha fortaleza tomada pelos bárbaros que se uniram contra mim enquanto ainda estava acordado. À medida que respiro, a mulher de pedra cresce, torna-se numa gigante, o seu corpo imenso enche o balão do meu sonho. Os pensamentos-bárbaros já se tinham dispersado, a minha cabeça pertence agora àquela mulher de pedra que era tão alta como a torre do governador que era bastante parecida com a Torre dos Clérigos. Cá em baixo, junto à base da mulher, o meu pai fumava um cigarro. Calças de ganga, camisa preta aberta até ao peito, a outra mão enfaixada numa ligadura. Parecia que estava a posar para uma fotografia. O meu pai é muito vaidoso, até nos sonhos dos outros. A minha mãe está na outra ponta da base, muito inquieta, sempre nervosa, muito menos fotogénica. Os dois não se vêem. Parecem-me mais opostos do que nunca, mais contrários do que o “Sim” e o “Não”. Uma espiral desenrola-se a partir do centro estendendo-se por toda a praça cor de caramelo. Há ladrilhos de várias cores aqui e ali, violeta, azul-marinho, laranja, tinto, não obedecem a nenhum padrão. As casas à volta da praça são antigas e bonitas, com janelas e varandas com roupa a secar. Algumas têm buracos nas paredes que servem de refúgio para as pombas. Numa das ruas que desemboca na praça, há um armazém em ruínas, foi destruído por um incêndio que deflagrou pouco antes da invasão dos pensamentos bárbaros. Como que por milagre, centenas de pastas, cartas e rótulos de garrafas de Vinho do Porto sobreviveram ao fogo, o chão estava forrado com camadas de papelada. Dois soldados mal-amanhados fuçam esses documentos, procuram algo de valor. A enorme da sombra da mulher de pedra cobre completamente a única igreja da fortaleza que é em tudo igual à igreja de Santa Marinha da beira-rio. Uma figura alta e esguia sai disparada pela enorme porta de madeira. É um padre. É cara chapada e chupada do pároco de Santa Marinha e parece confuso: seria obrigado agora a adorar a mulher gigante em vez de se ajoelhar perante a cruz?

O sonho é “meu”, mas não consigo comandar o desenrolar dos acontecimentos. Sou o actor e o espectador do meu próprio sonho. O padre e os outros podem fazer aquilo que lhes apetece, não tenho controlo nenhum sobre o que se passa na minha cabeça quando estou a sonhar. Ele começa a agitar os braços e a rezar cheio de devoção à sua nova deusa. As pedras a seus pés ganham bocas de velhas engelhadas e as orações são sardaniscas vermelhas verdes e prateadas, com chifres, que começam a trepar pelo corpo branco da mulher de pedra. Os mendigos arrastam-se pela praça até chegarem à base da nova deusa e mal tocam na pedra transformam-se em centenas de pardais que levantam voo, escurecendo a praça por alguns segundos.
As lojas fecham. Rebenta um surto de peste e cólera pela cidadela que implora para ser devastada pela doença. As poucas pessoas que ousam pôr os pés na rua carregam um saco preto. Quando se cruzam, pedem ao outro para enfiar a mão no respectivo saco. A mão vem com uma pequena bola que irá ditar o destino da pessoa que carrega o saco preto. Um homem bastante parecido com o senhor Amadeu é conduzido por um pónei-guia que tem um pelo baio comprido, muito luzidio, muito bonito. O meu dentista aproxima-se com um colar feito de próteses dentárias. Pede-lhe para tirar uma bola do seu saquinho preto. O sócia do senhor Amadeu começa a disparar insultos, “Então você não vê que eu sou cego, seu imbecil?”, até o vozeirão de locutor de rádio era parecido com a voz do senhor Amadeu; o meu dentista - que é meio pitosga, mas não é cego - desdobra-se em mil desculpas e oferece-se para lhe tratar dos dentes durante dez meses. Raminhos de hortelã-pimenta brotam entre as fendas das pedras da calçada onde o dentista se encontra e o pónei-guia começa a comer as ervas. Falam como se eu não existisse e, no entanto, vivem todos dentro da minha cabeça. Os meus sonhos são tão espantosos que quando acordo com a minha mãe a chamar-me da cozinha, desperto sempre enclausurado no próprio sonho e isto reproduz-se até ao infinito. A minha vontade não existe quando estou a sonhar, só me resta aceitar esta ilusão tal como ela é.

quinta-feira, agosto 24, 2017

Sinto no ar que algo de medonho vai acontecer.
Vocês não sentem? Quase que consigo apalpar essas energias densas.



Esperem, afinal é o meu estrugido a queimar-se.


quinta-feira, agosto 17, 2017

"À l'hôpital"

Passei ontem para os cuidados intermédios espirituais.
O quarto onde estou internado está pintado em tons de violenta, a cor do Conde de St. Germain, um dos mestres ascensos. Há um retrato dele pendurado no meio do quarto que partilho com mais três pacientes. As enfermeiras aqui são muito simpáticas, sempre atenciosas, possuem uma elasticidade incrível.
O meu médico é a cara chapada do

"É só isso que tem para me dar hoje?", pergunta-me com um ar desconsolado.








terça-feira, agosto 08, 2017

Não estou de férias. Antes estivesse.
Estou a rever o Apocalipse, o Cântico dos Cânticos e o Eclesiastes.
Trabalho de casa espiritual. 
Ou isso, ou Konsalik ou Naomi Roberts para não pensar muito.
Não digo autores portugueses para não ofender ninguém e porque posso ser apadrinhado por um deles quando descobrirem o meu talento para fazer crepes*.


 *Pfff, em 2046 d.c..



quarta-feira, julho 26, 2017

sexta-feira, julho 21, 2017

Fred Astaire

quinta-feira, julho 20, 2017

Choro

Faltou a água aqui na zona.
"É geral", disse a D. Gracinda, a vizinha do 7º E.
O que é que eu pensei? Vou fazer chorar a minha mulher e o meu bebé para tomar banho com as lágrimas deles. Um choro terrível e crónico para um belo banho de imersão. O sal das suas lágrimas iria purificar o meu corpo carregado.
Só que depois fui eu que chorei por dentro com este pensamento bizarro.
...
Não, não creio que tenha chorado por dentro. Isto só quer dizer uma coisa: os M&Ms estão a fazer efeito.

sexta-feira, julho 14, 2017

Chacras















Hoje vou calibrar os meus chacras. O meu chacra raíz está todo "torrado". Já o coronário parece o diabo-da-tasmânia com borderline.
Alguém quer vir comigo? Tenho uma vale-oferta extra.
Neste momento, estou a viver perto do Vale dos Reis, Egipto.

segunda-feira, julho 03, 2017

Meio


Ilustração de Lumagro




















Tenho um colega que é todo meias medidas: é um tipo de meias-palavras, pede sempre meia torrada e meia de leite, mas faz meias maratonas e tem meia dúzia de amigos. Um desses "amigos" disse-me que ele usa meia-calça. É um pouco meia-leca. Talvez por isso (ou por outra coisa qualquer) tentou cometer suícidio, mas ficou a meio. Um destes dias encontrei-me com ele a meio do caminho para o trabalho. Ganhei coragem e perguntei-lhe:
- O que te passou pela cabeça? Pensaste ao menos na tua mulher e nos teus filhos?
- Mais ou menos. No meio é que está a virtude, não é o que dizem?
- Tu estás tolinho, não estás?
- Mais ou menos, fiquei meio descompensado. Em vez de tomar um comprimido, tomei meio naquele dia. Meia volta é assim.
- ...queres ir ao Meia Banana logo?
- Só saio às cinco e meia.
- Eu espero.
- Ok. Vamos lá então. Meia dose de picanha dá para os dois.

terça-feira, junho 27, 2017

domingo, junho 25, 2017


sexta-feira, junho 16, 2017

A Terinha

Ilustração de Miguel Moreira




















DISSE-VOS que já não vivia ninguém na Viela dos Gatos (excepto a Elmirinha dos Gatos), mas enganei-me. Ainda há muitas pessoas a morarem na viela. Uma delas é a Quitéria que é amiga de infância da minha mãe e que, de vez em quando, vem cá a casa. Gostam muito de conversar uma com a outra e quando a minha mãe não está a fazer queixa do meu pai, trocam anedotas e riem-se muito. Uma vez ouvi a minha mãe a dizer à Quitéria para parar porque ela já tinha feito “chichi na cuecas, já me mijei toda”.

Texto na íntegra aqui.

quarta-feira, junho 14, 2017

sábado, junho 10, 2017

"Oasis OCD"

quarta-feira, junho 07, 2017

Espelho meu

Um dos meus últimos prazeres para combater a despersonalização:
- Baixar as calças no elevador e fazer poses de virgem ofendida ao espelho. Moro no 8º andar, o espelho pode gravar muita coisa.
Estou a brincar, naturalmente.
Não estou nada.

sábado, maio 20, 2017

De acordo com o grande letrista Ozzy O.:

My Dr Jekyll doesn't find it hard to Hide.

quarta-feira, maio 17, 2017

Papiniano, o amplificador de emoções
























de Miguel Moreira

segunda-feira, maio 15, 2017

Hoje

Hoje vou comprar uma raspadinha

Hoje vou cometer incesto

Hoje vou rasgar sem querer as páginas do Livro Sagrado

Hoje vou comprar canjica branca

Hoje vou a uma cartomante

Hoje vou deitar fogo ao carteiro

Hoje vou dormir na paz dos anjos

Hoje vou me apaixonar

Hoje vou falar com o Dr Sousa Martins

Hoje vou beber 1/2 garrafa de vodca

Hoje vou fazer a barrela

Hoje vou ao vet. com o meu gato.

Hoje vou ao vet. acreditando piamente que é o meu psi.

Hoje vou fazer limpezas de Primavera (atrasadas eu sei)

Hoje vou dar a volta ao mundo no Nautilus

Hoje sou filho de Deus

Hoje vou dizer à minha mulher que a amo

Hoje vou sentir uma pontada no peito

Hoje vou arrepender-me

Hoje vou ser mindfulness

Hoje vou ser Rasputin

Hoje.







sexta-feira, maio 12, 2017

Oasis OCD (variante Noel)

Não respirar

Enquanto estava a fazer a minha chávena de Tofina e a tentar enfiar o pão seco de ontem na torradeira, pensei:

"E se eu agora deixasse de respirar?"

E assim foi. Deixei de respirar. Meu dito, meu feito, como diria a minha avó. Tomei o meu Tofina, comi as minhas torradinhas, engoli a minha cápsula de gingko biloba, sem nunca deixar entrar 1 mg de ar. A minha mulher e meu bebé ainda estão a dormir. Um beijinho na testa dos dois.

Saio à rua. Evito os vizinhos e conhecidos para não os cumprimentar com medo de respirar. Além disso, hoje sinto-me um pouco anti-social. Também tenho esse direito.

Evito também ter ataques de ansiedade e de pânico, porque acarretam gastar muito ar, hiperventilação, etc.

Hoje não vou passar pelo jardim de Nova Brooklin, porque posso ser tentado pelo aroma das flores e pelo cheiro da terra molhada. Cheirar também acarreta respirar.

Entro no chinês para comprar velas brancas e areia para os gatos. A dona que está na caixa diz obrigado. Saco de um pedaço de papel que tenho no bolso e escrevo:



Ela riu-se. Tem alguns dentes podres, que previsível. Mas continuo a gostar dela. É simpática. Está sempre a ver filmes chineses no portátil atrás do balcão. Uma vez disse-lhe que gostava muito dos filmes do Bruce Lee mas ela não percebeu. Depois improvisei um golpe de karaté e ela aí já percebeu. Riu-se e agitou com a cabeça. O filho dela que estava a jogar um joguito qualquer no smartphone nem sequer olhou para mim.

No meu caminho de regresso a casa, volto a pensar:

"A partir de agora vai ser assim. Amanhã, vou deixar crescer bigode à Errol Flynn. Ou melhor ainda, vou ligar a todos os meus primos que já não vejo desde a minha primeira comunhão. Na terça, vou ouvir discos antigos de funk da Nigéria durante oito horas consecutivas. E porque não tirar o curso de TOC, técnico oficial de contas? Adoro números, a Matemática é belíssima."

Hoje, optei por deixar de respirar. Atenção que não estou a falar de apneia, é um conceito diferente. Ainda não sei que nome irei dar a esta técnica. Vou patentear isto. Acho que ainda vou ganhar um dinheirito jeitoso. Vou ao Lago dos Tubarões.

"Quer deixar de respirar? Não procure mais. Ligue já para o xxx xxx xxx e a sua vida nunca mais irá ser a mesma."

A cena mais aborrecida é que não posso fumar; para inalar o fumo, sou obrigado a inspirar algum oxigénio. Deveria ter feito uma aposta com um dos meus amigos, os gaijos pensam que são espertos, a pasta que eu poderia ganhar. Por exemplo, 15 € por cada hora que não respirar. Caraças, deveria ter pensado nisso antes. Ainda vou a tempo.

Vai fazer sete horas que deixei de respirar. E com a consciência e a lucidez que vocês podem comprovar. Contemplo a lua cheia que vigia os prédios da cidade. Sorrio para o meu bebé. Ele esboça um sorriso, tem orgulho do papá que não respira. Depois dá um arroto fenomenal que assusta o gato.

Será que mais alguém teve este ideia super-original? Já tenho uma designação comercial: Técnica Induzida de Não-Respiração. Por mais quanto tempo vou conseguir estar assim? Tenho sono, mas tenho medo de começar a respirar quando adormecer. Confesso que não tinha pensado nisso.

quarta-feira, maio 10, 2017

Niō Mizushima

sábado, maio 06, 2017

A verdadeira história da baleia azul

Era uma vez uma baleia azul que vivia muito feliz com a sua cria que se chamava Lassie. A baleia azul gostava de cantar músicas antigas e novas (inclusive a daquele moço estranho que vai representar PT na Eurovisão). Era respeitada e admirada por todos os peixes e molúsculos. A baleia azul sabia tocar também gaita de beiços para a sua cria; foi um velho pescador que a ensinou. Em troca, Lassie fazia fitas e acrobacias para a mãe. As duas lavavam-se numa grande bacia de metal sob um grande e magnífico coral. Lassie gostava de brincar com um patinho amarelo de borracha e com uma barbatana que um mergulhador perdeu no mar. Mas nem tudo era um mar de rosas para a mãe baleia e sua filha. Há gente boa e gente menos boa neste mundo e a baleia azul sabia-o. Não se cansava de chamar a atenção à sua cria:
- Minha filha, tem cuidado com os japoneses e com os suíços*.

*A única forma de compreender o conceito matemático do infinito era contemplar a extensão da estupidez humana.
Voltaire

quinta-feira, maio 04, 2017

Clube de combate

O descompensado do Chuck Palahniuk tinha alguma razão.
Alguém aí quer fazer um clube de combate? Punhos nus. Não vale armas brancas nem pára-choques para se protegerem. Ao som de NIN e Gwar.
Porrada gratuita e terapêutica para limpar a aura.
No fim, chá de camomila/funcho/cidreira e bolachas de água e sal.

segunda-feira, abril 24, 2017

domingo, abril 09, 2017

"Oasis OCD"

No escritório de Deus

Às vezes não acham que o post-it com o vosso nome caiu num canto qualquer do Gabinete Crístico e que a Nossa Senhora das Limpezas apanhou-o, encolheu os ombros e meteu-o no saco do lixo?
Nada de baixar os braços. Toca a fazer 2ª vias, pessoal.
"Mas eu sou ateu...esquece lá isso, meu."
Ah, um trabalhador independente, um freelancer por sua própria conta e risco! Bom, nesse caso, escrevam post-its ou criem para vós próprios.
Alguém há-de reparar.


terça-feira, abril 04, 2017

Cabeça

No Verão passado, acreditava piamente que tinha perdido a cabeça. Perdido mesmo, que tinha me esquecido dela em algum lado, num banco de jardim ou no metro. Cheguei ir até aos Perdidos e Achados. A coisa torna-se complicada quando pensamos que temos uma cabeça normal, cabelo castanho, etc. Muito difícil encontrá-la. O que não falta por aí são cabeças normais. Mas, lá está, não podia pensar muito na altura, porque não tinha cabeça.
Acabei por encontrá-la. Estava onde sempre esteve. Que cabeça a minha. Está um pouco usada dos lados, mas serve o propósito. Por enquanto.

segunda-feira, abril 03, 2017

Felisberto Hernandez