quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Judas Iscariotes

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na minha cabeça, acontecem-me sempre coisas fixes em dias ímpares. É este o padrão. Em dias pares a coisa anda mais enviesada como se costuma dizer. Quero chamar à atenção do leitor que sou muito rigoroso e metódico nestas auto-observações (...). 

É claro que esta introdução foi inventada só para atrair a vossa atenção. 

Ou seja, esta introdução foi verdadeira durante 10 segundos, depois confessei a sua falsidade. E é sempre uma questão de perspectiva, não é? Ou de tempo, até se descobrir a verdade. Procuramos todos isso, a Verdade. 

Tenho pensado ultimamente em Judas Iscariotes e nas diversas teorias que existem à volta deste apóstolo. Será que a Crucificação de Jesus teria sido possível sem a alegada traição de Judas? Quero pensar que Judas não foi um erro de casting. A propósito, "Judas" significa (Yehudah) e significa "louvor a Deus" ou "agradecimento". Há uma consistente teoria que diz que Jesus pediu a Judas para o denunciar e que ele, Judas, não se enforcou de arrependimento. Partiu para o deserto em modo de auto-exílio e aí morreu. Santificou-se no deserto e não foi traidor. Por outro lado, Pedro, o "primeiro" de Jesus, também o negou três vezes, de acordo com o Novo Testamento. E Pedro será sempre Pedro. Isto confere a estes dois apóstolos um carácter muito, muito humano.

As camadas que nos revestem são espessas e cinzentas. As coisas tornam-se turvas, às vezes. Pedimos alguma luz e esclarecimento (evitei usar a palavra "iluminação" aqui) mas tarda a chegar. 

Tal como disse no início, hoje começou por ser um dia par. Mas também posso acabar por me sentir como se fosse um dia ímpar. 

Quero pensar que o Amor é sempre a constante inquestionável da equação complexa a que chamamos Vida. 

 

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Sábado à tarde

Há duas coisas sensoriais que me lembro dos sábados de tarde: o cheiro forte a óleo de cedro e o som interminável de uma chave a ser introduzida na fechadura da nossa porta. A minha mãe incumbia-me de aspirar a casa com um aspirador Sanyo. Era amarelo e preto e parecia uma nave especial doméstica. Era bastante competente a aspirar, posso dizê-lo. Depois tinha de limpar os móveis da sala com óleo de cedro. Talvez não fosse tão bom porque não conseguia fazê-lo como deve ser. Creio que já estava a antecipar a chegada do meu pai. A antever.
Parava de limpar e tremia durante um bom bocado. Depois olhava pela janela. Tremia outra vez. E era assim durante uma boa meia-hora ou mais, porque sabia mais ou menos quando é que meu pai iria chegar.
O tempo que o meu pai usava para tentar meter a chave na porta seria proporcional ao "tempo de qualidade" desse sábado à noite. 
Lembro-me da minha mãe dizer invariavelmente:
"Vamos ter festa".
Na esmagadora maioria das vezes, esta profecia estava certa.