sexta-feira, outubro 16, 2015

O Túnel

Vendi ontem "O Túnel" do E. Sabato. Despachei-o porque achei-o uma desilusão. Não sublinhei nada, não fiz setas, não fiz anotações nas margens, o livro estava como novo. Foi uma transacção em mãos, a senhora pareceu-me simpática. O dinheiro deu para pagar a minha parte da peladinha das quintas. Pisei na bola (lance perigoso para golo) e bati com a caixa craniana na relva sintéctica. Fiquei meio atordoado, mas continuei a jogar. Hoje levantei-me com tonturas e decidi ir às urgências. Fiz um TAC, tudo ok. Passei a manhã toda a ver pessoas a sofrer e a queixarem-se do SNS. Numa daquelas macas deixadas no corredor, reconheci a senhora à qual tinha vendido o Sabato. Não consegui perceber o que é que lhe tinha acontecido. Estava com uma das mãos debaixo da cabeça como se estivesse deitada numa espreguiçadeira. Parecia que estava a gostar da obra que lhe vendi. Apeteceu-me regressar às urgências só para lhe perguntar o que é que ela viu no livro.

O Caminho das Garrafas


O segundo caminho para a Loja de Cima é o Caminho das Garrafas. Os vinhateiros da Ramada Alta e os donos das caves resolveram ajudar as pessoas que viviam no Monte e mandaram construir um caminho com garrafas vazias. O Caminho das Garrafas tem cerca de duzentos metros e atravessa os armazéns onde o vinho do Porto envelhece até à Loja de Cima onde os trabalhadores dos armazéns terminam o dia de trabalho a beber vinho a sério. São milhares de garrafas antigas que foram empilhadas e cimentadas e é o caminho mais usado pelas pessoas que vivem aqui. Quando parte alguma garrafa, é logo substituída por uma nova pelo responsável que é escolhido antes de fim do ano. Todos os dias, essa pessoa está encarregue de ver se há garrafas partidas ao longo do caminho, pois as pessoas que escolhem o caminho das Garrafas devem percorrê-lo sempre deitadas, é uma tradição muito antiga aqui no Monte, isto é-nos ensinado quando começamos a dar os primeiros passos. No Inverno, é bastante difícil passar pelo Caminho das Garrafas, a chuva molha as garrafas que ficam escorregadias e perigosas, podemos perder o controlo e magoar-nos contra as paredes de pedra dos armazéns, mas, no Verão, é muito agradável, gostamos de sentir o vidro quente das garrafas debaixo de nós, eu e os meus amigos passamos horas a rastejar e deslizar por cima das garrafas, serpenteamos, tocamos com os nossos corpos nos dorsos e nos gargalos das garrafas que não foram tapadas, os sexos dos mais velhos incham, os manos Guerra, o Sérgio Grande, o Pica, o Cabeças, o Jorge Tainha e os primos Baios deixam-se ficar no Caminho até o sol se pôr para depois brincarem às escondidas com o sexo nos gargalos, desejam fundir-se com as garrafas, fingem que já são adultos, gemem ali ao sol, mas fazem-no com muito cuidado, com muita delicadeza, pois as garrafas podem partir e cortar-lhes as jóias da coroa.

sexta-feira, outubro 09, 2015

segunda-feira, setembro 28, 2015

Pausa


Releio o meu discurso
algumas emendas
aqui e ali.
Fungo outra vez
acabei de sacar resgatar
uma catota do meu nariz
um burrié rectangular
resgatei
um mini-portugal de
oito séculos ressequido
no interior do meu nariz
(isso faz de Espanha
o meu nariz?)
Crostinhas no interior,
uma planura mais abaixo,
um pouco de muco no litoral,
amasso-o, arredondo-o,
brinco um pouco com ele
e aí vai Portugal
a minha criação nasal
pela janela fora.
Lá em baixo
um jota de boca aberta
engole sem querer
o meu Portugal.
Alguém da distrital
bate-me à porta.



 

Já faltou mais para ter tuiter (VII)

@pedroeoroubo: aposto a minha quinta em Fornos de Algodres que se fizessem um referendo entre as restantes regiões de Espanha, o "sim" também ganharia - "sim pela independência da Catalunha". Os espanhóis já não têm pachorra. Os catalães que levem lá a bicicleta mas sem as rodinhas. 

segunda-feira, setembro 21, 2015

Giro

Ontem de manhã, ao fazer o meu giro habitual pelas ruas de C., ouvi sem querer a conversa de dois sexagenários à entrada de um café.
"Então pá, vieste para estas bandas hoje?"
"Sim, vim ver a minha amante."

quarta-feira, setembro 09, 2015

Rock Explícito VI




(porque também sou filho de Deus)

segunda-feira, setembro 07, 2015

J. L. Borges

Roupa interior

Peço sempre à minha mulher para comprar a minha roupa interior. Ela já sabe a marca e o modelo que uso. A minha mulher trabalha ao lado do Corte Inglês, por isso não lhe custa nada. É claro que ela resmunga de vez em quando, mas faz-me sempre a vontade. Qual é a mulher que não gosta de ir às compras? Há esposas que escolhem a roupa para o marido usar no dia seguinte, a minha compra-me a roupa interior. Quando digo "roupa interior" estou a referir-me a "boxers" folgados. Deixei de usar cuecas aos 10 anos. Foi prenda de natal da minha mãe. Foi uma libertação, foi uma espécie de 25 de Abril para o meu corpo. A sério. Não dá para explicar a confiança que ganhei quando experimentei boxers largos pela primeira vez e senti o meu corpo liberto. Foi a melhor prenda de sempre (a partir desse ano, recebo sempre boxers no Natal). Também não gosto de usar camisolas de gola alta, nem cintas ou calças justas. Qualquer peça ou acessório apertado. E não me venham com a conversa das peúgas, porque é ridículo.
Sou daquelas pessoas que só usam uma vez qualquer peça de roupa interior. Adoro sentir o tecido novo na pele. Meia volta, a minha mulher queixa-se que o nosso orçamento é demasiado apertado, que não dá para este tipo de extravagâncias. No entanto, deixei isto bem claro quando nos conhecemos. Antes de passarmos a primeira noite juntos, tivemos esta conversa:
"Tenho uma coisa para te contar."
"O quê?"
"Vais achar que eu tenho a mania."
"Diz lá o que é."
"É a primeira vez que estou a usar aqueles boxers."
"Quais boxers?"
"Os que estão no chão, os que eu trazia."
"São muito giros."
"Pois são, mas já não vou usá-los mais."
"Porquê? Estão rotos?"
"Não. Só uso boxers uma vez. Depois ponho-os no lixo."
Uma vez comprou-me um pack de 5 da linha branca do Continente, disse-me que não teve tempo para ir ao Corte Inglês. É claro que fiquei pior que estragado, mas não disse nada. No manhã seguinte, parecia um pinheiro de Natal cheio de luzinhas vermelhas, ganhei uma alergia daquelas. Mostrei a minha "decoração comichosa" à minha mulher que naturalmente se sentiu culpada. Andei assim durante uma semana, não pude usar nada. Sou técnico comercial, as minhas vendas caíram a pique, a minha confiança foi afectada. Tive de marcar consulta no dermatologista que me proíbiu de comer roupa com pelo (pêssegos, etc). Quase cem euros para o seu doutor, fora o dinheiro do creme e do anti-histamínico. A quantidade de boxers que eu podia comprar com cem euros! A minha mulher encarregou-se de pôr os restantes quatro boxers do pack no lixo.

quinta-feira, setembro 03, 2015

Já faltou mais para ter tuiter (VI)

@pedroeoroubo: e a expressão "estrada de Damasco" que ganhou novo significado nos últimos meses. Morte em vez de iluminação. Desconfio que nem São Paulo se habilitava agora-

No café

"O tempo não espera por ninguém", disse a senhora do café para a cliente no balcão enquanto pincelava a minha torrada.
"Desculpe, disse muita ou pouca manteiga", perguntou-me, olhando-me de viés de esguelha.
"Pouca, pouca".
O jornal do café estava ocupado por um velho tuberculoso. Comecei a escrever um verso sobre a dona do café no meu bloco do continente. Era assim:

Matteo, Rita de Cássia e Mia não abriram a boca

Quando pousou a torrada e a meia de leite ("escurinha") na mesa, a senhora leu o meu verso. Revirou-me os olhos e abanou a cabeça enquanto regressava ao balcão, não gostava que escrevessem sobre ela.
Risquei o verso várias vezes, envergonhado. Um nado-morto, mais um.

segunda-feira, agosto 31, 2015


quarta-feira, agosto 26, 2015

Interlúdio para uma história a sério

- Madison, jura pela saúde da tua filha que o teu nome não está na lista.
- ...nem sequer te vou responder, Odete.
- Eu não quero ver a lista. Recuso-me a fazê-lo. Foi a minha irmã que me disse. O teu email estava lá. Eu quero ouvir da tua boca que isto não é verdade, Madison.
- Odete, pelo amor de Deus. A tua irmã nunca foi com a minha cara.
A mulher sai do quarto e abre a porta do quarto ao lado.
- Ashley, chega aqui. O teu pai vai jurar pela tua saúde que nunca me traíu.

quinta-feira, agosto 20, 2015

Mais cláusulas

- Lord Alfred Tennyson punha as barbas de molho (inglês) e só bebia Somersby. Com leite, claro.

- Em Guersey, se voltarmos a cara sobre o ombro e virmos ao longe dois mastros (de uma escuna), devemos ignorá-los.

- As gemas de ovo são efectivamente verdes na terra da Herta Müller.

- Já se fabricam gaitas de foles para asmáticos e para pessoas que não gostam de gaitas de foles.

- Há uma grande procura de línguas nesta terra; as pessoas já não falam, têm medo.

- Tacteio sempre os bolsos à procura das chaves quando não quero prolongar uma conversa.

- Os romanos e os gregos choraram muito a glória do passado; foi assim que o Mar Mediterrâneo se formou.

- Tenho algum prazer em lamber os cotovelos de noivas que seguram o buquê.

- As bundas vigorosas e oleadas das cariocas representam 1.3 % do PIB brasileiro.

- Boa noite, senhor Dedalus!

quarta-feira, agosto 19, 2015

Na praça de táxis

Consigo ouvir a conversa entre os taxistas lá em baixo. Conhecem-se todos, tratam-se por tu e atenção que eu não moro numa cidadezeca qualquer! Estão sempre a par das últimas notícias e gostam de saber as coisas ao pormenor; por exemplo, ainda hoje de manhã, ouvi o mais novo a falar sobre o novo muro que está a ser erguido entre a Hungria e a Sérvia para travar o fluxo de refugiados. Soube dizer quantos quilómetros tem o novo muro, quantos militares estão a ser usados na sua construção e até o nome do fabricante do arame farpado que reforça a vala e o muro (Google Notícias rói-te de inveja!).
Sem papas na língua (mas um pouco sopinha de massa), o mais velho dos taxistas respondeu-lhe:
- Vai-te uber.

domingo, agosto 09, 2015

Já faltou mais para ter tuiter (V)

@pedroeoroubo: e estes desempregados que reaparecem de forma inesperada, que irritantes. São como aquele jogo arcade, o whac–a–mole: metem as cabecitas de fora (eu sei eu sei) e não há meio dos partidos conseguirem acertar-lhes.

sexta-feira, julho 31, 2015

terça-feira, julho 28, 2015

Índia

Quando Deus NS estava modelar a Índia, uma vaca veio por trás e lambeu-Lhe a orelha esquerda. Deus NS tapou a orelha com o ombro, mas a vaca fez o mesmo na orelha direita; Deus NS não conseguiu evitar, contorceu-se todo com as cócegas. As mãos distraídas apertaram o barro com demasiada força: a peça acabou por ficar adelgaçada na base e muito rugosa na parte de cima. Depois da secagem, um trabalho algo atamancado mas único.
"Selfie" de 1900

Good lord!

O Martin Amis não precisa de se esforçar muito. "Assim também eu."

Melhor comentário ao vídeo:
A fiver? Fucking cheapskate.