terça-feira, maio 05, 2015
sexta-feira, maio 01, 2015
sábado, abril 25, 2015
Proverbial
Quatro provérbios para encerrar a acta da última reunião de condomínio que durou até às tantas:
Liberdade que rebenta em Abril
dá pouca memória para o barril.
Abril, tempo de cuco
de manhã liberto
e à tarde caduco.
Em Abril,
ingerências mil.
O MFA derrubou
a ditadura
À tarde, piscina.
Liberdade que rebenta em Abril
dá pouca memória para o barril.
Abril, tempo de cuco
de manhã liberto
e à tarde caduco.
Em Abril,
ingerências mil.
O MFA derrubou
a ditadura
À tarde, piscina.
sexta-feira, abril 17, 2015
Guerra
Como é possível ter sido plagiado por um autor mais velho, um escritor mais do que conceituado, um tipo ao qual não me importaria de engraxar os sapatos, um homem que trabalhou com Fellini e Antonioni? Irritado, atirei as Histórias para uma noite de calmaria para trás do sofá e fui para a cama a pensar no dinheirão que iria gastar com os meus advogados. Escusado será dizer que dormi mal e porcamente. Hoje de manhã, enquanto me calçava, ouvi um coaxar que vinha da frincha entre o sofá e a parede. Olhei para o meu odradek, ele devolveu-me aquele seu olhar imperturbável e fingimos os dois que não se passava nada. Acabei por esquecer o assunto.
segunda-feira, abril 13, 2015
Na fila
Enquanto esperava que as Finanças abrissem para pagar o IMI das minhas quatro casas, pus-me à escuta da conversa entre quatro seniores, consegui manter-me escondido atrás de um excelente camalhaço para o efeito, "Críticas e notícias - Dados Biográficos - 1927-1995". Um dos idosos vestia um fato casual, muito elegante, tinha voz de tenor, as vidraças da repartição vibravam quando punha pontos de exclamação em quase todas as frases, ainda tinha a pronúncia carregada e musical da Serra de Bornes.
- Em 1900, andei nove meses a fazer gamelas de massa, tinha de ganhar dinheiro para mim e para os meus pais, pois então, só depois é que fui para trás de volante, fui chofer durante mais de trinta anos, trabalhei muito de noite, às vezes quinze dias seguidos, mas primeiro acartei pedra para fazer quase todos os bairros de Porto, só depois é que comecei a ir lá para fora, ia e vinha da Inglaterra, França, Luxemburgo, Países Baixos, País dos Sudetas, etc, etc. Em Agosto de 1939, já estava a caminho de Portugal, vinha eu do sul da Alemanha, metade da camionete estava cheia de judeus, já estávamos no sul da França, caralho, senhores, que sorte que eles tiveram! E eu também, pois então!".
Foi a primeira vez que estive a meia dúzia de passos de um imortal, de um Struldbrug, e ainda por cima português.
- Em 1900, andei nove meses a fazer gamelas de massa, tinha de ganhar dinheiro para mim e para os meus pais, pois então, só depois é que fui para trás de volante, fui chofer durante mais de trinta anos, trabalhei muito de noite, às vezes quinze dias seguidos, mas primeiro acartei pedra para fazer quase todos os bairros de Porto, só depois é que comecei a ir lá para fora, ia e vinha da Inglaterra, França, Luxemburgo, Países Baixos, País dos Sudetas, etc, etc. Em Agosto de 1939, já estava a caminho de Portugal, vinha eu do sul da Alemanha, metade da camionete estava cheia de judeus, já estávamos no sul da França, caralho, senhores, que sorte que eles tiveram! E eu também, pois então!".
Foi a primeira vez que estive a meia dúzia de passos de um imortal, de um Struldbrug, e ainda por cima português.
sexta-feira, abril 03, 2015
segunda-feira, março 30, 2015
sábado, março 28, 2015
sexta-feira, março 27, 2015
quarta-feira, março 25, 2015
Ainda o poeta
Ainda tenho alguma esperança que encontrem a caixa negra do H.H. para tornarem públicas as "causas da sua morte", seja feita a vontade da alguma comunicação social que o descobriu ontem. Aquela sua poesia que manda logo para as ligas distritais qualquer poesia que se fez na "segunda metade do séc. XX" - havia necessidade para este tipo de comentários nesta hora? Sim, há, poupar-se-ia muito tempo e muito papel.
Estou a ser injusto. Excepção para o Cesariny que também era bom com as duas mãos. É claro que depois tenho as minhas simpatias (sem qualquer tipo de condescendência, como se eles precisassem): António Osório, Ana Paula Inácio, Adília Lopes*.
*Sim, começam todos pela letra "A", é o meu critério infalível para estas cenas.
Estou a ser injusto. Excepção para o Cesariny que também era bom com as duas mãos. É claro que depois tenho as minhas simpatias (sem qualquer tipo de condescendência, como se eles precisassem): António Osório, Ana Paula Inácio, Adília Lopes*.
*Sim, começam todos pela letra "A", é o meu critério infalível para estas cenas.
terça-feira, março 24, 2015
terça-feira, março 17, 2015
Palavra d'honra
Bati-me ontem em duelo e venci, a minha honra foi reposta. Arma escolhida: florete. Sofri apenas um ligeiro corte na perna, uma tentativa trapalhona de um golpe de Jarnac por parte do meu adversário, o Barão do Chão Vermelho. O motivo? Não posso dizer porque já me esqueci, o meu adversário deve ter golpeado a minha cabeça sem que eu desse conta; para piorar ainda mais as coisas, amanhã tenho de comparecer numa comissão de inquérito qualquer. Que maçada, o que é que vou para lá fazer se não me lembro de nada? Como se não bastasse, um dos membros da comissão foi minha testemunha no duelo, porque é que ele requereu a audição? Mas que maçada, que maçada.
quinta-feira, março 12, 2015
Alcaparras
Não consigo livrar-me
do hálito
a alcaparras.
Há uma semana
que falo com este
fedor verde,
a minha boca é um walker.
A minha mulher
faz cara feia
e vira a cara pró lado
quando a vou beijar,
deveria ser "na saúde,
na doença,
na pestilência,
etc.".
Já bochechei hextril
umas quarenta vezes,
bebi limonada com
água salgada,
fui à Santa Rita
a pé e nada,
nada resulta.
Esta merda é o que dá
armar-me em
masterchef.
do hálito
a alcaparras.
Há uma semana
que falo com este
fedor verde,
a minha boca é um walker.
A minha mulher
faz cara feia
e vira a cara pró lado
quando a vou beijar,
deveria ser "na saúde,
na doença,
na pestilência,
etc.".
Já bochechei hextril
umas quarenta vezes,
bebi limonada com
água salgada,
fui à Santa Rita
a pé e nada,
nada resulta.
Esta merda é o que dá
armar-me em
masterchef.
quarta-feira, março 11, 2015
Prejuízo literário
Tento interiorizar que cada dia que passo sem escrever 300 palavras, perco quase 3000€ diários como aquele totalista do Euromilhões que ainda não reclamou o prémio. 30 mil. 300 mil. Por aí fora.
A situação política no Uzbequistão
À falta de melhor, tenho acompanhado os últimos desenvolvimentos políticos no Uzbequistão e não consigo deixar de associá-los a contínuas jogadas de Batalha Naval. Senão vejamos: o ex-PM encontra-se em "prisão preventiva" há quase meio ano; foi um porta-aviões que embora já tenha ido ao fundo há algum tempo, ainda consegue enviar mísseis/missivas do fundo do mar (não, não é um submarino, esse é representado pelo RP do Governo, é um caso de estudo de resiliência e sagacidade política). O actual PM é outro porta-aviões que se mantém à tona a todo o custo; se sofrer mais um tiro, é provável que vá ao fundo. A ministra das Finanças é uma bela fragata com uma pesada divida pública no bojo (não pode largá-la em alto-mar) que se farta de navegar por misteriosos mares interiores. O PR é um navio-almirante que conta já com inúmeras comissões no currículo, mas que agora parece navegar ao sabor das ondas. A sua manutenção sai cara. Precisa de reforma. Não consigo definir o actual líder da oposição; actuou com alguma eficácia como contra-torpedeiro no passado, foi concebido para escoltar o porta-aviões naufragado, mas pergunto-me se possui autonomia e capacidade suficientes para enfrentar os mares revoltosos do Uzbequistão.
segunda-feira, março 02, 2015
O sonho
Vou contar-vos o sonho que tive esta noite.
Ia
com a minha mãe numa daquelas velhas camionetas dos Carvalhos, da UTC, daquelas que estão a cair de
podres e que encharcam o ar de fumo
preto, íamos já a meio da viagem, quando resolvi confirmar com o motorista que
era russo se a camioneta ia mesmo para Ecaterimburgo; ele disse que não, que só ia
até Perm. A minha mãe começou a mandar vir comigo, "estás a ver, estás a ver, o que é que eu te disse? Tu nunca me ouves", começou a esbracejar a
dizer que queria sair, ela bem me tinha avisado que tínhamos entrado na
camioneta errada. O motorista travou a fundo, um grupo de hospedeiras de bordo
que ia lá trás foi projectado para a frente, era cada uma melhor do que a outra,
metiam todas a Irina, a ex do R7, no bolso, as lindas hospedeiras ficaram prensadas no
vidro da frente e começaram a disparar insultos para o motorista. A minha mãe e eu estávamos mesmo atrás do lugar do motorista que se virou e olhou
para os meus pulsos; muito calmamente, desapertou a bracelete do meu Rolex, enfiou-o no bolso, voltou-se e piscou-me
o olho pelo retrovisor. Arrancamos. Olhei lá para fora, árvores e mais árvores
que aborreciam de morte a paisagem. A minha mãe já dormia com a boca aberta,
acabei por adormecer também.
Alguém me puxava pelo braço e dava tabefes
meigos para me acordar. Olhei atarantado para o lado. Em vez da minha mãe, vi a minha mulher a sorrir para mim, estávamos outra vez parados. A camioneta estava vazia. O
motorista russo estava lá fora a ver a pressão do pneu careca com a bota
texana. À nossa frente, uma placa branca dizia "Serzedo".
domingo, março 01, 2015
segunda-feira, fevereiro 23, 2015
Efeito Borges
Um homem começa a bradar passagens do Livro de Areia em plena biblioteca. Ninguém tem coragem para fazer "schiu", um grupo de miúdos do secundário na mesa ao lado tenta abafar o riso, o homem tem um ar meio alucinado, descalçou uma das sapatilhas e apoiou o pé de gesso na cadeira da frente. A funcionária rebola os olhos, levanta-se e chama-o à atenção, pelos vistos o senhor é reincidente nestas coisas. O silêncio foi reposto. Fiquei um pouco para o desconsolado no fim.
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