quarta-feira, fevereiro 23, 2011


Ruth Krauss and Crockett Johnson, 1954

strangers in da nite


terça-feira, fevereiro 22, 2011

Was lief falsch?

Gosto muito do apartamento que o meu falecido marido me deixou. É numa zona bonita da cidade, com muitas árvores, as ruas estão sempre limpas. Só não gosto de uma coisa: das reuniões de condomínio. Não tenho idade nem paciência para aturar pessoas feias. A minha única exigência como condómina era ter o espelho do elevador só para mim. Os meus vizinhos são demasiado feios para usarem um espelho daqueles, não merecem. Não me fizeram a vontade. Uma recém-viúva não pode ser contrariada e por isso tratei de avariar o espelho. Eles ficaram fulos, porque o espelho fazia-os mais bonitos e mais elegantes do que realmente são. Mas abri uma excepção.
Ele ainda não sabe, mas o espelho reflecte apenas os lindos e generosos guizos do jovem porteiro que sempre foi muito simpático e muito educado para mim. Ele merece.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Facebook - poema para uma antologia na casa da mãe e da tia

"Foi um outro lobo, o xavier, que me
disse que sempre teve um fraco
pela nogueira pinto."
in conta Facebook de "Bifidos_passivo"
Espinosa gosta disto.

Orwell gosta disto.
Bispo do Porto gosta disto.
Pacheco não gosta disto.

domingo, fevereiro 13, 2011


Andrew George Brown


Good morning Captain.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

A partida de ténis


Harpo convidou-me treze vezes para assistir a uma partida de ténis. Acedi à décima quarta, porque nunca se sabe. Eram os quartos de final da mediática taça Davy Byrnes e ele não queria perder por nada deste mundo. Lá fomos. Estava a nevar ursos polares. As bancadas estavam ocupadas pela metade. A maioria era composta pelos chamados Incondicionais que se preparavam para a partida, rodando as cabeças ora para a esquerda ora para direita. Reparei que o sub-comissionário que me seguia há três meses estava na bancada oposta. O maníaco achava que eu estava por detrás de uma rede de tráfego de mulheres mongóis. Pelos vistos, o sr. sub-comissionário tem uma costeleta mongol por parte de um avô que o fez jurar defender sempre o seu "povo". Quando entraram os jogadores, aplaudi-os de pé, esgazeando o meu olhar no dele. Ele sorriu a crédito mal parado. O jogo começa. Harpo deixava escapar risadinhas sempre que os jogadores faziam
Ases, batendo-me insistentemente no joelho. Deu-me vontade de ir ao WC. Ando a beber muito chá de rooibos, alguém me disse que fazia bem ao hipotálamo. Bati um recorde qualquer, sete minutos sem gotejar, já não vertia assim desde que o nosso amado rei ganhou as últimas eleições . Quando regressei, quase todos se tinham ido embora. A partida prosseguia, mas o árbitro estava com a cara coberta de sangue. O que será que tinha acontecido? Os apanha-bolas e o sub-comissionário (não arredou pé o maníaco) estavam congelados nos respectivos lugares. Quando me virei para trás, Harpo ainda se encontrava no seu lugar e estava a tocar o seu instrumento debaixo de flocos de neve que caíam graciosamente ao som da melodia. Creio não andar muito longe da verdade quando afirmo que foi a coisa mais bonita que vi até hoje.

segunda-feira, janeiro 31, 2011

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Com algum delay



4 histórias minhas na última edição da 365.
A revista é gratuita
.

terça-feira, janeiro 25, 2011

O mercúrio de Van Sweetens

Caro Zerrel,

- Depois de uma canja de galinha parda ao jantar, fui aquecer os pés na salamandra da Casa Lilás que o meu amigo me recomendou na véspera de Natal. Fui muito bem recebido pela matroníssima Madame Bataille que parecia já saber quem eu era. Aposto a minha cadeira de baloiço que o meu amigo falou-lhe a meu respeito. Madame Bataille teve um ataque de tosse ao subir as escadas e à entrada do quarto que me estava reservado pôs-se a falar de um novo bronco-dilatador que o Auch lhe recomendou. Vi-me obrigado a gerar ali algo parecido com empatia na esperança que ela me desse um desconto ou um copo de Genebra no fim. A menina que me calhou tinha um ar inocente, os olhos não tinham vestígios de emoção e falava pouco. Antes de começarmos, pedi-lhe gentilmente para pôr na boca o meu termómetro especial. O mercúrio atingiu os 41ºC! Não podia dormir com alguém tão libidinoso. Acima dos 38,5ºC é a minha morte. Deitei-me a seu lado e deixei escoar o tempo. Ela disse-me o seu nome, Sophie Minuit. Antes de trabalhar ali, tinha sido auxiliar de biblioteca, mas ganhava muito mal. Começou então a libertar-se. O seu livro favorito é a "História de um Coração" e abraçava repetidamente o ar à sua volta. Meu amigo, quase que me apaixonei. Felizmente os quarenta minutos acabaram e sai daquela alcova mesmo a tempo.

O meu termómetro vai ser um sucesso.

Do sempre seu,
T. Edison

Intermission



Saudações,
este blogue ainda não entregou a alma ao Criador. A minha mãe pediu-me para ir comprar pão e fiquei na amena cavaqueira (!) com a padeira. Volto aqui ainda hoje.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Pobody's Nerfect


Vou criar uma petição para estes gajos virem tocar aqui.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

A minha cabeça em Janeiro
transforma-se na bola preta de
uma partida de snooker
entre Deus e Barbarella.
Ele embolsa-me
antes do tempo e ela
esconde-me atrás das
vermelhas.
Terá sido assim
até agora, mas
tudo me leva a crer
que Deus
vai mudar de taco.

quinta-feira, janeiro 06, 2011



Instalação de luzes Pac Man para o Festival das Árvores e da Luz
em Génova, Suíça

terça-feira, janeiro 04, 2011

Faits-divers

A neta de Ingmar Bergman, Ana Bergman, foi acusada de usar num evento social um casaco que parecia ser feito a partir da pele do Alf. A neta do famoso realizador sueco defendeu-se afirmando que a peça era apenas uma imitação de pele e que nunca usaria pele genuína e muito menos do Alf. Recordo que a neta já fora acusada de ser vista a usar um chapéu de pele do Chewbacca nas ruas de Estuqueolmo.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Bar de hotel

O bar do hotel era conhecido por ser um local de primeiros encontros. Não era nada de extraordinário, tinha aquilo que um bar de hotel era suposto ter. Os primeiros clientes começavam a chegar ao fim da tarde. Se a coisa corresse bem, o casal não precisava de procurar muito para passar a noite.
Reservei duas noites no hotel. Ontem foi véspera de Natal e passei-o sozinho no meu quarto Executive a ver canais para adultos. Aborreci-me de tanta carne e de tantos gemidos e comecei a fazer zapping. Parei num canal chinês e descobri que o mandarim tem um efeito relaxante em mim, principalmente quando é falado por mulheres pivot de pele reluzente. A minha mulher trabalha numa seguradora e deixou-me no último Verão. Levou o nosso filho com ela e está a viver em casa dos pais.

Hoje é a minha última noite. Para ser honesto, estou a gostar de estar sentado ao balcão deste bar, enquanto me vejo ao espelho a beber Jim Beam. O barman ainda não pegou ao serviço, quem me serviu foi um dos recepcionistas que está agora a atender um casal de idosos. O velhote parece-se um pouco com o Burt Lancaster nos últimos anos. É aquele tipo de pessoas que inclina o queixo para a frente e olha por debaixo dos óculos quando escuta alguém.
Quando cheguei, estava apenas um tipo no balcão. Andava na casa dos quarenta, usava blazer e calças de bombazine verdes e estava a beber uma água com gás. Não tenho paciência para meter conversa com estranhos, mas era Natal, estava cheio de fé e boa vontade nos homens e apetecia-me tagarelar um pouco. O sujeito pareceu-me inofensivo.
- Mais um Natal que passou, estamos quase no ano novo - disse estupidamente.
Ele virou a cabeça e sorriu.
- É verdade, o tempo voa. Quando damos por ela, já estamos ali como o casal de jovens que chegou agora.
Foi a minha vez de retribuir o sorriso.
- O importante é viver um dia de cada vez, não é assim? - eu estava verdadeiramente inspirado.
O sujeito estendeu o braço e ajeitou o banco.
- Chamo-me Orlando, muito gosto.
- Óscar C*. Os nossos nomes começam por "O". Não é muito comum.
Ele voltou a sorrir e acabou a água.
- Reparei que anda a água com gás, abusou das iguarias ontem à noite?
- Nem por isso. Estou um pouco nervoso. Estou à espera de uma pessoa.
- Ah, ok. Não...
O Blackberry que estava em cima do balcão começou a vibrar e apareceu "Julia" no ecrã azul.
- Com licença.
Ele pegou no pda e dirigiu-se para o lobby. Atendeu em voz baixa.
Comecei a tremer e bebi num trago o uísque que ainda tinha no copo. Não perdeu tempo a miserável, já anda à caça. Passei a mão pelo cabelo e corri para a casa de banho. Como é que é possível? Ela também conhece o hotel. De repente, tudo ficou vermelho, a roupa começou a fazer-me comichão. Dei o pontapé da praxe numa das portas do WC. Deveria ter subido para o meu quarto, que idiota. Olhei-me ao espelho e molhei a cara. Inspirei fundo. Isto é um sinal. É a prenda do menino Jesus, foste um bom rapaz ao longo do ano e agora aqui tens a tua recompensa. Tu mereceste. Resolvi sair e enfrentar aquilo, não podia ficar ali a vida toda, afinal até poderia ser outra Júlia, há muitas Júlias neste mundo. Abri a porta.

Ela estava de costas. O tipo desviou o olhar e acenei-lhe cordialmente com a cabeça. Dirigi-me para o elevador e premi no 5. Enquanto esperava, olhei para trás. Não era ela.
Entrei no elevador e deixei sair um traque de alívio ao som do Jingle Bells.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Um cântico de Natal para vocês.
(com a participação do próprio J.C., Chris Robinson, lá no meio)

sexta-feira, dezembro 17, 2010

segunda-feira, dezembro 13, 2010

O galo e a mulher


Ilustração de Miguel Moreira

A uma certa mulher do Vale das Vadias meteu-se-lhe-me-lhan-te ideia na cabeça que nada nem ninguém (nem mesmo o Primeiro-Ministro dissuasor da vizinha Crimeia) conseguia demovê-la-tu das suas graníticas ideias. A senhora

[Cai neve. Lá fora, dois homens de mãos nos bolsos dão pontapés nos bicos das botas para aquecerem os pés.]

que já tinha uma idadezinha desejou ter mais filho. Lembrou-se então que já não podia perfilhar, mas lembrou-se logo a seguir que quando era mais nova teve uma crise aguda de amenorreia e que a sua falecida mãe que se chamava Deusatenha lhe deu

[Neve. Homens nos bolsos dão botas para aquecerem os pés.]


arroz de cabidela durante uma semana e uma hora. Graças a este regime absolutista, ficou curada e teve uma carrada de filhos. Sorriu com a lembrança e resolveu seguir o conselho da sua mãe. No sábado, levantou-se de manhãzinha cedo e foi ao mercado comprar um galo. Aproveitou e comprou também um livrinho muito usado do Ambrósio Birça para ler antes de ir para a cama. Quando chegou a casa, instalou o galo bem

[Dois homens dão pontapés nos bicos.]

instalado na velha capoeira e esfregou as mãos não-de-contente, mas porque nevava e estava um frio de rachar a julgar pelos homens de mãos nos bolsos. Todos os dias a mulher dava milho ao galo. Um dia lembrou-se que seria bom ter leite nas mamas para amamentar o filho
que vinha a caminho. Antes de ler Ambrósio Birça, começou a dar leite de cabra ao galo, todas as noites. O galo cresceu, cresceu, cresceu até não caber mais na capoeira. A mulher apegou-se ao galozão e deixou de ter coragem para o matar. Encolheu os ombros e disse:

[Bicos]

- O filho terá de ficar para outra altura.