domingo, dezembro 12, 2010
quarta-feira, dezembro 08, 2010
Violante (exercícios de estilo queneanos)
Subjectivo
Recordo-me bem da sra. Violante. Ela servia o melhor café da cidade. Era muito obsequiosa e usava catogan que lhe dava um ar mais novo. Isto a propósito de quê? Na semana passada, encontrei o sr. Urso que me disse ao ouvido que a sra. Violante tinha sido miss Suíça e que fora destronada porque foi apanhada na cama com a dama de honor num quarto do Ritz. O sr. Urso toca lira e orgulha-se de ser o cliente mais antigo do café-boutique onde ainda trabalha a sra. Violante. Não sei em que hei-de acreditar. Fala-se muito dos outros nesta cidade. Como se não bastasse, os colarinhos engomados do sr. Urso não me saem da cabeça. Como é que ele consegue?
Informativo
A sra. Violante é empregada de mesa no Grand Café. O sr. Urso conhece a sra. Violante. De acordo com as últimas declarações do sr. Urso, a sra Violante foi miss Suíça em 1947. O Sr. Urso toca lira nos tempos livres e frequenta o Grand Café desde 1951, o que o torna no terceiro cliente mais antigo deste famoso estabelecimento até à data.
Em duplicado
Recordo-me e lembro-me perfeitamente bem da sra. dona Violante. O melhor e o mais saboroso café da cidade e da urbe é servido e trazido pela sra. dona Violante. Ela, a senhora, era sempre e todos os dias muito amável e obsequiosa e usava e trazia um carrapito e um catogan que lhe dava e lhe conferia um ar mais jovem, mais novo. Na anterior e passada semana, deparei-me e encontrei o sr. dom Urso que me cochichou e segredou que a sra. Violante tinha ganho e vencido o concurso de miss Suíça Helvécia e que fora destituída e exonorada por ter sido apanhada e surpreendida na cama e no leito com a dama de honor e de honra num aposento e quarto do Ritz. As golas e os colarinhos engomados e com goma do sr. dom Urso intrigam-me e atiçam-me a curiosidade.
Litote
Ainda não me esqueci da sra. Violante. O café menos mau da cidade era servido por ela de uma forma muito pouco rude. A sra. Violante não dispensa o seu catogan que lhe dá um ar menos velho. Sem ser nesta semana, na outra, não evitei dar de caras com o sr. Urso que não se fez rogado e disse-me que a sra. Violante não perdeu o concurso de Miss Suíça quando resolveu concorrer. Não se coibiu de dizer ainda que ela não chegou a terminar o seu reinado, pois não conseguiu escapar a um episódio menos feliz que se passou no Ritz. Não consigo deixar de ficar deslumbrado com os colarinhos nada displicentes do sr. Urso.
Assombro
Ah a sra. Violante! Meu Deus, o café incrível que ela fazia e servia! Que maravilha de café! Já para não falar da sua simpatia! E o que dizer daquele catogan que a fazia mais menina e moça! E adivinhem lá quem é que encontrei a passear na baixa faz hoje uma semana?! Nada mais nada menos do que o sr. Urso! Que figura é este homem! Ah vocês nem imaginam o que me contou! Disse-me ao ouvido de que sra Violante já foi miss! Miss, vejam lá isto! E sabem o que ele me disse mais? Que ela foi apanhada na cama com outra mulher que era nem mais nem mais do que...a sua dama de honor! Quem diria hein? E logo no Ritz! No Ritz, senhores! Ah com o disse-que-disse que há nesta cidade já não sei em quem acreditar! Ah mas o homem sabe aprumar-se! Aqueles colarinhos! Oh minha santa Eufémia, aqueles colarinhos!
Mots-valise
A sra. Violantada de mesa no Grandcafe. Usa catoganha simpatias. O sr Ursobretudo conhecestima a sra. Violantada de mesa. Dacordo com o sr. Ursobretudo, a sra Violantada foi missuíça quandovem. O Sr. Ursobretudo toclira e frequenta e um o Grandcafe, sendo um dos clientigos. Usa colarigomados.
Profecia
O dia em que se servirá um café mais saboroso do que aquele que a sra. Violante serve está próximo! Nesse dia, a sra. Violante deixará de usar catogan, rapará o cabelo e jamais sairá de casa. Haverá tumultos, as pessoas sairão às ruas, cabeças de inocentes irão rolar.
Não é tudo. Irás encontrar um homem que já não vês há muito, muito tempo. Esse homem irá trazer vestido um enorme sobretudo feito de pele de urso pardo e irá contar-te um segredo terrível que não poderás partilhar com ninguém, ou a mais terrível das tragédias abater-se-á sobre ti e sobre aqueles que amas.
Revista feminina
Violant tinha agora consciência do seu valor. Sentia as suas reservas de auto-estima a voltarem ao normal. Sabia que o Grand Café gravitava em torno de si e que o dono, esse chauvinista, precisava dela. De vez em quando, o seu ex vinha ao café com a conquista do mês para a provocar. Violante desprezava-o com todas as forças do seu ser. Não era tanto pela figura que ele fazia, mas por ter sido parva ao ponto de se ter casado com aquele homem. Ah Violant, Violant...
Na semana passada, encontrei o misterioso Monsieur U a deambular pelos Champs Elysées. Que flaneur me saiu este Monsieur U! Monsieur U trabalha num gabinete de arquitectura paisagística para os lados de La Défense e costumo encontrá-lo às sextas, no Grand Cafe, a beber o seu daiquiri. Cumprimentou-me efusivamente, mais do que o nosso grau de intimidade podia permitir, agarrou-me no braço e disse-me que tinha algo para me contar sobre a nossa querida Violant.
(continua no próximo número da Cosmopolitan)
Recordo-me bem da sra. Violante. Ela servia o melhor café da cidade. Era muito obsequiosa e usava catogan que lhe dava um ar mais novo. Isto a propósito de quê? Na semana passada, encontrei o sr. Urso que me disse ao ouvido que a sra. Violante tinha sido miss Suíça e que fora destronada porque foi apanhada na cama com a dama de honor num quarto do Ritz. O sr. Urso toca lira e orgulha-se de ser o cliente mais antigo do café-boutique onde ainda trabalha a sra. Violante. Não sei em que hei-de acreditar. Fala-se muito dos outros nesta cidade. Como se não bastasse, os colarinhos engomados do sr. Urso não me saem da cabeça. Como é que ele consegue?
Informativo
A sra. Violante é empregada de mesa no Grand Café. O sr. Urso conhece a sra. Violante. De acordo com as últimas declarações do sr. Urso, a sra Violante foi miss Suíça em 1947. O Sr. Urso toca lira nos tempos livres e frequenta o Grand Café desde 1951, o que o torna no terceiro cliente mais antigo deste famoso estabelecimento até à data.
Em duplicado
Recordo-me e lembro-me perfeitamente bem da sra. dona Violante. O melhor e o mais saboroso café da cidade e da urbe é servido e trazido pela sra. dona Violante. Ela, a senhora, era sempre e todos os dias muito amável e obsequiosa e usava e trazia um carrapito e um catogan que lhe dava e lhe conferia um ar mais jovem, mais novo. Na anterior e passada semana, deparei-me e encontrei o sr. dom Urso que me cochichou e segredou que a sra. Violante tinha ganho e vencido o concurso de miss Suíça Helvécia e que fora destituída e exonorada por ter sido apanhada e surpreendida na cama e no leito com a dama de honor e de honra num aposento e quarto do Ritz. As golas e os colarinhos engomados e com goma do sr. dom Urso intrigam-me e atiçam-me a curiosidade.
Litote
Ainda não me esqueci da sra. Violante. O café menos mau da cidade era servido por ela de uma forma muito pouco rude. A sra. Violante não dispensa o seu catogan que lhe dá um ar menos velho. Sem ser nesta semana, na outra, não evitei dar de caras com o sr. Urso que não se fez rogado e disse-me que a sra. Violante não perdeu o concurso de Miss Suíça quando resolveu concorrer. Não se coibiu de dizer ainda que ela não chegou a terminar o seu reinado, pois não conseguiu escapar a um episódio menos feliz que se passou no Ritz. Não consigo deixar de ficar deslumbrado com os colarinhos nada displicentes do sr. Urso.
Assombro
Ah a sra. Violante! Meu Deus, o café incrível que ela fazia e servia! Que maravilha de café! Já para não falar da sua simpatia! E o que dizer daquele catogan que a fazia mais menina e moça! E adivinhem lá quem é que encontrei a passear na baixa faz hoje uma semana?! Nada mais nada menos do que o sr. Urso! Que figura é este homem! Ah vocês nem imaginam o que me contou! Disse-me ao ouvido de que sra Violante já foi miss! Miss, vejam lá isto! E sabem o que ele me disse mais? Que ela foi apanhada na cama com outra mulher que era nem mais nem mais do que...a sua dama de honor! Quem diria hein? E logo no Ritz! No Ritz, senhores! Ah com o disse-que-disse que há nesta cidade já não sei em quem acreditar! Ah mas o homem sabe aprumar-se! Aqueles colarinhos! Oh minha santa Eufémia, aqueles colarinhos!
Mots-valise
A sra. Violantada de mesa no Grandcafe. Usa catoganha simpatias. O sr Ursobretudo conhecestima a sra. Violantada de mesa. Dacordo com o sr. Ursobretudo, a sra Violantada foi missuíça quandovem. O Sr. Ursobretudo toclira e frequenta e um o Grandcafe, sendo um dos clientigos. Usa colarigomados.
Profecia
O dia em que se servirá um café mais saboroso do que aquele que a sra. Violante serve está próximo! Nesse dia, a sra. Violante deixará de usar catogan, rapará o cabelo e jamais sairá de casa. Haverá tumultos, as pessoas sairão às ruas, cabeças de inocentes irão rolar.
Não é tudo. Irás encontrar um homem que já não vês há muito, muito tempo. Esse homem irá trazer vestido um enorme sobretudo feito de pele de urso pardo e irá contar-te um segredo terrível que não poderás partilhar com ninguém, ou a mais terrível das tragédias abater-se-á sobre ti e sobre aqueles que amas.
Revista feminina
Violant tinha agora consciência do seu valor. Sentia as suas reservas de auto-estima a voltarem ao normal. Sabia que o Grand Café gravitava em torno de si e que o dono, esse chauvinista, precisava dela. De vez em quando, o seu ex vinha ao café com a conquista do mês para a provocar. Violante desprezava-o com todas as forças do seu ser. Não era tanto pela figura que ele fazia, mas por ter sido parva ao ponto de se ter casado com aquele homem. Ah Violant, Violant...
Na semana passada, encontrei o misterioso Monsieur U a deambular pelos Champs Elysées. Que flaneur me saiu este Monsieur U! Monsieur U trabalha num gabinete de arquitectura paisagística para os lados de La Défense e costumo encontrá-lo às sextas, no Grand Cafe, a beber o seu daiquiri. Cumprimentou-me efusivamente, mais do que o nosso grau de intimidade podia permitir, agarrou-me no braço e disse-me que tinha algo para me contar sobre a nossa querida Violant.
(continua no próximo número da Cosmopolitan)
segunda-feira, dezembro 06, 2010
quinta-feira, novembro 25, 2010
A um passo do reconhecimento internacional
Conseguir inserir aqui um snippet de um fantrágico tradutor automático (ver em baixo).
Convertam qualquer texto em inglês. Já em russo parece-me bem.
Convertam qualquer texto em inglês. Já em russo parece-me bem.
quarta-feira, novembro 24, 2010

Com a participação do ilustrador do Des Petits Morts (ver acima) e subsecretário da Subcomissão para a Forma, a Graça e a Cócega do Ilustre Colégio de Patafísica do Porto, Miguel Moreira.
segunda-feira, novembro 22, 2010
A festa de aniversário
Selawsky não era um homem muito palatável, mas ainda assim conseguiu reunir vários amigos no seu aniversário.
- Daria tudo para não ser como tu, Selawsky - disse Ymmij enquanto lambia a colher do seu cappucino.
Selwasky levantou-se e estaladou Ymmij. O lábio inferior do turco começou a tremer, mas conseguiu conter lágrimas.
- Daria tudo para não cheirar como tu, Selawsky - disse Constantino o Bravo, amigo de infância do nosso aniversariante.
Selwasky aproximou-se de Constantino o Bravo e esbofeteou-o. Constantino começou a tremer, mas também não chorou.
- Daria tudo para não bater como tu, Selwaskov, bates como uma menina - disse o russo a que todos chamavam de Deus-filho.
Selwasky arrastou a cadeira para junto de Deus-filho e bateu-lhe na moleirinha. Deus-filho riu-se e ofereceu-lhe a outra moleirinha.
- Daria tudo para não viver no antro em que tu vives Selawsky - disse-lhe Jewel, ex-namorada e a única mulher presente no evento.
Desta vez, o parabenizante não ergueu um dedo, mas apontou com o indicador e o anelar para o peito de Jewel que desatou a chorar. Jewel era muito sensível no que toca a/quando se toca* no seu peito .
Um manto de silêncio sepulcral abateu-se sobre a sala, interrompido aqui e ali pelo som agnóstico de uma retro-escavadora que vinha do fundo da rua.
Subitamente, Selwasky bateu palmas duas vezes e todos os que se encontravam na sala se transformaram em Selwasky's. Depois todos lhe cantaram os Parabéns a uma só voz e tudo acabou bem.
*riscar o que não interessa.
- Daria tudo para não ser como tu, Selawsky - disse Ymmij enquanto lambia a colher do seu cappucino.
Selwasky levantou-se e estaladou Ymmij. O lábio inferior do turco começou a tremer, mas conseguiu conter lágrimas.
- Daria tudo para não cheirar como tu, Selawsky - disse Constantino o Bravo, amigo de infância do nosso aniversariante.
Selwasky aproximou-se de Constantino o Bravo e esbofeteou-o. Constantino começou a tremer, mas também não chorou.
- Daria tudo para não bater como tu, Selwaskov, bates como uma menina - disse o russo a que todos chamavam de Deus-filho.
Selwasky arrastou a cadeira para junto de Deus-filho e bateu-lhe na moleirinha. Deus-filho riu-se e ofereceu-lhe a outra moleirinha.
- Daria tudo para não viver no antro em que tu vives Selawsky - disse-lhe Jewel, ex-namorada e a única mulher presente no evento.
Desta vez, o parabenizante não ergueu um dedo, mas apontou com o indicador e o anelar para o peito de Jewel que desatou a chorar. Jewel era muito sensível no que toca a/quando se toca* no seu peito .
Um manto de silêncio sepulcral abateu-se sobre a sala, interrompido aqui e ali pelo som agnóstico de uma retro-escavadora que vinha do fundo da rua.
Subitamente, Selwasky bateu palmas duas vezes e todos os que se encontravam na sala se transformaram em Selwasky's. Depois todos lhe cantaram os Parabéns a uma só voz e tudo acabou bem.
*riscar o que não interessa.
sexta-feira, novembro 19, 2010
A Força é forte em ti, John Milton
Darth Vader resolveu fazer uma escapadinha de fim-de-semana nos Alpes, cortesia dos seus oficiais superiores.
- Está lá, recepção? Daqui quarto 877 [respiração pesada, arrastada, asmática].
- Bom dia sr. Dr... Darth Vader, em que posso ser-lhe útil?
- Solicitei hoje de manhã o serviço de pequeno-almoço no quarto e trouxeram-me o pequeno-almoço continental [respiração pesada, arrastada, asmática].
- Estou a ver sr. Dr.. Estava tudo do seu agrado?
- Não, não estava. Pedi o pequeno-almoço universal e não o continental [respiração pesada, arrastada, asmática]. Pensava que tinha deixado isso bem claro.
- Oh, com certeza sr. Dr.. Irei tratar disso pessoalmente. Lamentamos imenso o transtorno causado.
- [respiração pesada, arrastada, asmática] Com que estou a falar?
- Chamo-me John Milton, sr. Dr., ao seu dispor.
- [respiração pesada, arrastada, asmática] A Força é forte em ti, John Milton.
- ...o sr. Dr. deseja mais alguma coisa?
- Não, é tudo por agora [respiração pesada, arrastada, asmática].
Darth Vader pousou sobre a cama o "O Arranca Corações" ao lado do tabuleiro do pequeno-almoço e olhou através da janela para o eterno e majestoso Monte Branco.
- Está lá, recepção? Daqui quarto 877 [respiração pesada, arrastada, asmática].
- Bom dia sr. Dr... Darth Vader, em que posso ser-lhe útil?
- Solicitei hoje de manhã o serviço de pequeno-almoço no quarto e trouxeram-me o pequeno-almoço continental [respiração pesada, arrastada, asmática].
- Estou a ver sr. Dr.. Estava tudo do seu agrado?
- Não, não estava. Pedi o pequeno-almoço universal e não o continental [respiração pesada, arrastada, asmática]. Pensava que tinha deixado isso bem claro.
- Oh, com certeza sr. Dr.. Irei tratar disso pessoalmente. Lamentamos imenso o transtorno causado.
- [respiração pesada, arrastada, asmática] Com que estou a falar?
- Chamo-me John Milton, sr. Dr., ao seu dispor.
- [respiração pesada, arrastada, asmática] A Força é forte em ti, John Milton.
- ...o sr. Dr. deseja mais alguma coisa?
- Não, é tudo por agora [respiração pesada, arrastada, asmática].
Darth Vader pousou sobre a cama o "O Arranca Corações" ao lado do tabuleiro do pequeno-almoço e olhou através da janela para o eterno e majestoso Monte Branco.
quinta-feira, novembro 18, 2010
O homem do tempo
O meu colega de trabalho é de Aragão e disse-me hoje que em cada província de Espanha os homens do tempo da TV têm honras de chefe de estado. São uma espécie de gurus que pouco ou nada têm a ver com a ciência. Diz ele que uma vez, a meio da década de 80, todos os homens aragoneses saíram à rua aperaltados e a cheirar a Old Spice. O homem do tempo dessa altura (Ibón Bastrillas, creio ser o seu nome) tinha colocado uma daqueles placas aderentes com o sol mesmo em cima dos Pirenéus e previu temperaturas superiores a 30ºC nessa região. No dia seguinte, o céu ficou carregado com nuvens nas terras altas, e as temperaturas estiveram negativas. O que o boletim meteorológico de Bastrillas queria realmente dizer era que haveria boas probabilidades de conhecer mulheres bonitas nesse dia. Noutra ocasião, o homem do tempo tapou Saragoça com a placa que tinha a célebre efígie de Hitchcock. Nos dois dias que se seguiram, a cidade foi invadida por grandes bandos de corvos e gaivotas e ninguém ousou pôr os pés na rua.
terça-feira, novembro 16, 2010
quinta-feira, novembro 11, 2010
quarta-feira, novembro 03, 2010
quinta-feira, outubro 28, 2010
O viúvo
Vivo sozinho e ainda sinto falta da minha mulher. Faz hoje um ano que ela morreu. Hoje vou dormir melhor, estou exausto. Consegui trazer para casa o banco de jardim onde costumávamos namorar. O filho do meu vizinho de baixo ajudou-me a trazê-lo ontem de madrugada. Apesar de todo aquele metal na cara e de cheirar mal, não é mau rapaz. Ele e o pai estão sempre aos berros um com o outro.
Foi neste banco que pedi a minha mulher em casamento. Os meus dois filhos visitam-me de longe a longe, porque não têm paciência para os meus queixumes de velho. Que surpresa, não? Sabemos que estamos velhos quando todos os meses parecem Novembro e quando não controlamos o nosso esfíncter em locais públicos.
Eu cresci para a minha mulher e a minha mulher cresceu para mim. E isso é amor, seus bastardozinhos. Pus o banco no meio da sala de estar, ao lado da cadeira de cabeleireiro onde ela passou quase um quarto da sua vida. Ela era muita vaidosa e ciumenta. É provável que se tenha queixado de mim nesta cadeira. Gostava muito dela. Dois meses depois da sua morte, comprei a cadeira ao salão que ela frequentou durante vinte e um anos. Veio com um daqueles vaporizadores de cabelo que apareceram nos anos sessenta e, apesar de eu ter a cabeça grande, consigo metê-la lá dentro enquanto vejo televisão à noite. Há noites em que adormeço sentado na cadeira e acordo de madrugada com o vidro embaciado. Às vezes, acordo com uma erecção (é verdade, seus bastardozinhos, não tenho porque mentir) e fico acordado a pensar nela até o sol nascer.
Foi neste banco que pedi a minha mulher em casamento. Os meus dois filhos visitam-me de longe a longe, porque não têm paciência para os meus queixumes de velho. Que surpresa, não? Sabemos que estamos velhos quando todos os meses parecem Novembro e quando não controlamos o nosso esfíncter em locais públicos.
Eu cresci para a minha mulher e a minha mulher cresceu para mim. E isso é amor, seus bastardozinhos. Pus o banco no meio da sala de estar, ao lado da cadeira de cabeleireiro onde ela passou quase um quarto da sua vida. Ela era muita vaidosa e ciumenta. É provável que se tenha queixado de mim nesta cadeira. Gostava muito dela. Dois meses depois da sua morte, comprei a cadeira ao salão que ela frequentou durante vinte e um anos. Veio com um daqueles vaporizadores de cabelo que apareceram nos anos sessenta e, apesar de eu ter a cabeça grande, consigo metê-la lá dentro enquanto vejo televisão à noite. Há noites em que adormeço sentado na cadeira e acordo de madrugada com o vidro embaciado. Às vezes, acordo com uma erecção (é verdade, seus bastardozinhos, não tenho porque mentir) e fico acordado a pensar nela até o sol nascer.
Nosferatu

Max Schreck a descansar entre "takes" e a assustar todos no estúdio de rodagem de Nosferatu, A Symphony of Horror, 1922, dir. F.W. Murnau. (via)
Durante as filmagens de Nosferatu, Scherck nunca "saía" da pele do seu personagem, mesmo quando as câmaras não estavam a gravar, e tanto o elenco como a equipa de filmagem nunca viram o actor sem a respectiva maquilhagem e guarda-roupa. Embora esta abordagem envolvente face ao papel seja agora muito comum, não era normal na época, e a sua aparência e comportamento deram origem a rumores de que Schreck era realmente um vampiro.
Se esta foto constituir uma boa prova do comportamento de Schreck em torno de Nosferatu, a cautela da equipa de filmagem parece-nos compreensível.
domingo, outubro 24, 2010
Srilanka
Quando andava no liceu,
tive um cão a que dei
o nome de "Srilanka" -
o cão esticava as orelhas
e rodava a cabeça
sempre que o pivot do telejornal
dizia "Tigres Tamil".
Como era um cão não fazia
muito sentido chamar-lhe
"Tigretamil".
Pouco antes de morrer,
Srilanka apanhou o
meu aparelho dos dentes
em cima da borda da banheira
e pôs-se a lamber
os restos do jantar.
A minha mãe, furiosa,
gritou comigo e
perguntou depois ao meu pai
onde é que se deve pôr
um aparelho dos dentes
com restos de comida,
se no amarelo ou no lixo
orgânico.
tive um cão a que dei
o nome de "Srilanka" -
o cão esticava as orelhas
e rodava a cabeça
sempre que o pivot do telejornal
dizia "Tigres Tamil".
Como era um cão não fazia
muito sentido chamar-lhe
"Tigretamil".
Pouco antes de morrer,
Srilanka apanhou o
meu aparelho dos dentes
em cima da borda da banheira
e pôs-se a lamber
os restos do jantar.
A minha mãe, furiosa,
gritou comigo e
perguntou depois ao meu pai
onde é que se deve pôr
um aparelho dos dentes
com restos de comida,
se no amarelo ou no lixo
orgânico.
quinta-feira, outubro 21, 2010
segunda-feira, outubro 18, 2010
sexta-feira, outubro 15, 2010
O Tio Tula
"Numa sociedade plenamente justa e orçamental, os senhores proprietários de cafés com fotos aéreas dos respectivos cafés seriam todos presos. Sentiriam consternação e arrependimento daquelas aberrações penduradas e chorariam como marias madalenas sempre que fizessem mal o troco."
Fils de Mon Pére
Antes de ser chamado para o serviço militar, trabalhei durante dois anos para o meu tio Tula que tinha um bordel no meio do monte. Sempre que chegava uma rapariga nova à sua reputada casa, o tio Tula fechava os olhos e unia as mãos como quem recebe o corpo de Deus e depois sorria ou fazia uma expressão triste. Se a moça fosse prazenteira e não vestisse mal de cara, encaminhava-a para mim. Não apreciava particulamente as folgazonas que vinham a mascar pastilha elástica. Dava-lhes guia de marcha logo ali. Como sobrinho-afilhado favorito, eu tinha algumas regalias. Gozava de uma espécie de prima nocte para dar o meu veredicto ao meu tio na manhã seguinte. Arrependo-me muito desses anos, principalmente quando faço amor com a minha mulher. Lembro-me que, no pico da toda aquela luxúria bacoca, usava um metrónomo para marcar os tempos das noviças. A maioria era allegrettos, mas houve uma eslava que tinha cara de anjo e que me deixou danos permanentes. Prestissima.
Voltando ao tio Tula. Se a rapariga fosse pouco expedita e não servisse nem para mudar os lençóis, o meu tio pagava-lhe o bilhete de volta e acompanhava a moça à estação. Depois fazia de conta que era o Humphrey Bogart e dizia:
- He's looking at you, kid.
Creio que era a única frase que ele sabia dizer em inglês.
Fils de Mon Pére
Antes de ser chamado para o serviço militar, trabalhei durante dois anos para o meu tio Tula que tinha um bordel no meio do monte. Sempre que chegava uma rapariga nova à sua reputada casa, o tio Tula fechava os olhos e unia as mãos como quem recebe o corpo de Deus e depois sorria ou fazia uma expressão triste. Se a moça fosse prazenteira e não vestisse mal de cara, encaminhava-a para mim. Não apreciava particulamente as folgazonas que vinham a mascar pastilha elástica. Dava-lhes guia de marcha logo ali. Como sobrinho-afilhado favorito, eu tinha algumas regalias. Gozava de uma espécie de prima nocte para dar o meu veredicto ao meu tio na manhã seguinte. Arrependo-me muito desses anos, principalmente quando faço amor com a minha mulher. Lembro-me que, no pico da toda aquela luxúria bacoca, usava um metrónomo para marcar os tempos das noviças. A maioria era allegrettos, mas houve uma eslava que tinha cara de anjo e que me deixou danos permanentes. Prestissima.
Voltando ao tio Tula. Se a rapariga fosse pouco expedita e não servisse nem para mudar os lençóis, o meu tio pagava-lhe o bilhete de volta e acompanhava a moça à estação. Depois fazia de conta que era o Humphrey Bogart e dizia:
- He's looking at you, kid.
Creio que era a única frase que ele sabia dizer em inglês.
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