segunda-feira, setembro 27, 2010

Congradulações

Caro Bruce,

Serve a presente para te avisar que não vou colocar os pés na tua festa.
Gostaria que as coisas corressem de outra forma. Enquanto não me deixares ter um papel mais activo na nossa dupla de combate ao crime, recuso-me a participar nestes teus eventos da socialite de Gotham.
Chega de mascaradas. O meu estágio já acabou há muito e já não sou um puto.
Deveria ter aceite a proposta do Clark.
E a partir de agora, o meu nome será The Hawk. Não quero mais ser conhecido como Robin*, é ridículo, eu sei e tu sabes disso.

Feliz aniversário e bem-aventurados aqueles que não usam máscara, pois deles...blabla.

The Hawk


*Nota do tradutor: "Pintarroxo".
Música de Elevador

quinta-feira, setembro 23, 2010

quarta-feira, setembro 22, 2010

Toc toc

Gavrilo tira o pequeno baralho do bolso do casaco e pousa-o em cima da pequena mesa retráctil. Ajeita o colarinho ao espelho e lembra-se de pôr a cabeça de fora do seu compartimento. Vê duas adolescentes a falar alto com os telemóveis nas mãos no fundo da carruagem. Uma delas faz-lhe lembrar a sua sobrinha que o escolhera para ensaiar as primeiras seduções. Fecha a porta do compartimento, senta-se e tira os sapatos. Enquanto baralha, repara que a mesa está coberta com vários riscos que rasuram uma frase. Parece-lhe russo, mas não tem a certeza. O comboio começa a andar e uma das miúdas passa pelo compartimento, olhando de lado para Gravilo que abana a cabeça e sorri para a janela, continuando a baralhar. Alguns segundos depois, a porta do compartimento é aberta por um homem que o cumprimenta:
-
Dobri den.
Gravilo calça de imediato os sapatos e diz "Hello". O homem faz sinal com a cabeça para trás e aparece uma mulher. O homem olha para o bilhete que tem na mão para confirmar os lugares. A mulher tem cabelo curto e olheiras carregadas como as actrizes dos filmes mudos. Traz umas
leggins pretas e um casaco de couro vermelho. "What a woman", pensa Gravilo.
O homem é calvo, os olhos são dois pequenos pontos azuis encovados na cara. Parece não saber o que fazer com as enormes mãos. Não trazem bagagem e sentam-se imediatamente. Gravilo recolhe as cartas sem que nenhum dos dois desvie o olhar dele por um segundo. Gravilo fica pouco à vontade e faz um sorriso amarelo. Sem desviar a cabeça, o homem olha de esguelha para a mesa riscada e arregala os dois pontinhos azuis encovados na cara. Toca no braço da mulher e aponta para as palavras gravadas. A mulher sorri por uns instantes e os dois começam a falar.
- Toc toc.
- Toc toc.
- Toc toc.
-Toc toc.

-
Toc toc to you too, you weirdos - diz Gravilo em voz baixa antes de pôr os auriculares do iPod e encostar a cabeça.
O homem levanta-se abruptamente e abandona o compartimento. A mulher fecha as cortinas e começa a bater com um maço de tabaco na palma da mão. Gravilo diz-lhe que não pode fumar ali e aponta para o pictograma. A mulher põe delicadamente a mão na perna de Gravilo e diz num inglês perfeito:
- Toc toc to me, will you baby?

sexta-feira, agosto 27, 2010

terça-feira, agosto 24, 2010

Uma História de Amor

Bongosto, Tenco, Paoli e Mina viveram sob mesmo tecto cheio de térmitas durante três meses. Eram os únicos hóspedes da segunda pensão mais antiga da cidade que pertencia a Dona Bonagura. Dona Bonagura era uma enxuta viúva perto dos cinquenta que, tal como muitas viúvas, adormecia no sofá em frente à TV. Quando chegava dos seus afazeres diários, Bongosto gostava de passar pela sala de estar e era seu hábito admirar o rosto sereno daquela mulher, como um seminarista que contempla a sua primeira óstia enquanto recalca o prazer solitário da noite anterior.

Dona Bonagura tinha queixo duplo à Kirk Douglas, e Bongusto sentia-se atraído por queixos duplos desde que viu Spartakus pela primeira vez. Wunderburg era também grande admirador de queixos duplos. Wunderburg estava em negócios na cidade, e o queixo duplo de Dona Bonagura acertou-lhe em cheio quando passeava pelo mercado à hora do almoço. Perguntou quem era aquela formidável mulher e tentou inúmeras vezes reservar um quarto na pensão, mas Bonagura não gostava de tedeschis (embora Wunderburg fosse suíço*), porque os achava muito porcos e dizia-lhe sempre que estava tudo cheio sem sequer olhar para ele.

Na última semana da sua estadia, Bongusto apressava-se para chegar à pensão mais cedo. Como seria de esperar, Dona Bonagura estava a dormir com a boca aberta em frente à soporífica televisão. Talvez por serem os seus últimos dias naquela casa, Bongusto encheu-se de coragem e deu três passos ao de leve, sentando-se numa das duas poltronas desbotadas. Pegou no telecomando e reduziu o volume, dando início à sua secreta adoração daquele queixo, belo e inviolável como uma flor de cerejeira. Mina, a estudante universária, estava no andar de cima, a arrumar e a cantarolar uma velha canção napolitana que a sua avó lhe ensinara. Ultimamente era tudo o que lhe passava pela cabeça desde que acabara com o namorado** que se apaixonara por uma mulher mais velha***.

Bongusto, esse, imaculava a figura adormecida de velha matrona e há muito que desejava tocar no queixo duplo. Sonhava acordado com passeios de mão dada com o queixo duplo e a respectiva dona, ladeados por florzinhas do campo, premiados com o chilrear das avezinhas, só os três e mais ninguém...

De repente, a porta de entrada é escancarada, e é Tenco que chega, rindo-se para Paoli que vem atrás de si. O espanta-espíritos faz acordar dona Bonagura que se desencosta como uma mola e, atarantada, deixa escapar um franco e generoso "pum" que se encontrava inocentemente preso desde a hora do almoço. Bongusto congela o gesto e fica a olhar para a mulher que, por sua vez, retribuí o olhar ainda meio sonolenta. Os dois ficam uma eternidade assim, até que Bangusto pergunta finalmente:
- A senhora dupla quer casar comigo?

* Wunderburg era tão suíço que apenas usava sabonetes de pH neutro.
** A senhora não tinha queixo duplo, mas nascera com um archote entre as pernas.
*** Primeiro e único indício do desfecho da história.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Ontem, a preto e branco
Hoje, a cores

quinta-feira, agosto 05, 2010

No tempo em que os animais falavam

- Desculpem interromper, criaturas criadas por Deus meu pai, mas...saberão dizer-me porque é que ninguém gosta de mim? - perguntou Jesus às criaturas de Deus seu pai.
- Ainda bem que me fazes essa pergunta - disse a formiga.
- Posso responder eu? - perguntou a cigarra.
- Sim, se souberes a resposta - respondeu a formiga.
- Como assim, "se souber a resposta"?! - perguntou a cigarra.
- Passas o dia a cantar, não podes saber a resposta a uma pergunta tão difícil - respondeu a formiga.
- E tu que passas o dia de um lado para o outro, já nem sequer tens tempo para pensar? - respondeu a cigarra.
A formiga não teve tempo para responder. Jesus misericordioso abre o guarda-sol que traz sempre consigo*, pisa as duas criaturas e abandona o local. Mais adiante, encontra a lebre e a tartaruga em cima de uma linha de partida.
- Criaturas de Deus meu pai, desculpem interromper, mas poderão dizer-me porque é que ninguém gosta de mim? - perguntou novamente Jesus.
- Aindabemquemefazessapergunta - disse a lebre.
- Posso...responder...eu? - perguntou a tartaruga.

* Jesus abria o guarda-sol quando não queria que Deus Pai visse algo que talvez não fosse muito do seu agrado.

Novo quadro pró gabinete


sábado, julho 24, 2010

quinta-feira, julho 22, 2010

Se, se...

- Se D. Dafoe vivesse nos dias de hoje, seria argumentista da série "Lost".
- Se Baudelaire vivesse nos dias de hoje, dedicaria as Flores do Mal aos "Bleus" e escreveria o Smog de Paris.
- Se Poe vivesse nos dias de hoje, seria argumentista de "True Blood".
- Se Proust vivesse nos dias de hoje, mandaria isolar o seu quarto em lã de rocha (e não em cortiça).
- Se Kafka vivesse nos dias de hoje, trabalharia numa seguradora na mesma, mas ganharia mais e mandaria o Max Brod dar uma curva.
- Se Louÿs vivesse nos dias de hoje, passaria o dia a descarregar filmes românticos da Internet.
- Se Pessoa vivesse nos dias de hoje, teria um heterónimo hip hop: MC PES. É provável que regressasse à África do Sul.
- Se Breton vivesse nos dias de hoje, dedicaria o "O Amor Louco" à Margarida Rebelo Pinto, musa e principal impulsionadora do Neo-Surrealismo em Portugal.
- Se todos estes escritores vivessem nos dias de hoje, teriam todos um IPod ou uma Wii.

terça-feira, julho 20, 2010


Fallen Bierstadt, Valerie Hegarty, 2007

O violador de poetas menores

Um título como este pode ser tremendamente auspicioso e despertar a curiosidade de alguns que querem cair no engodo de uma boa história. Por outro lado, também pode defraudar as expectativas desses corajosos à medida que vão progredindo (ou recuando, se a história valer realmente a pena) na sua leitura. O tombo para o autor será então maior. Declino já essa responsabilidade e desengano o leitor nesta rampa de lançamento onde quase tudo se decide. Não estou à altura (ou profundidade) de um título tão promissor. O público dispersa-se agora, restando apenas alguns resistentes conhecidos que cruzam os braços e que, à falta de melhor, resolvem ficar. Mas as coisas são como são e, como de outro modo não podem ser, devemos apreciá-las tal como nos são oferecidas:

o realizador Guido Anselmi acreditava que, após a sua morte, iria encarnar numa mulher de barriga de aluguer. Resolveu aprender tudo o que havia para aprender sobre mulheres e maternidade, e abandonou temporariamente os filmes. Apercebeu-se depois que estava enganado e que o seu inconsciente estava a dizer-lhe que deveria deixar italianíssimos descendentes neste mundo. Deixou de vez a sétima arte e, ao som de Verdi, fez furiosamente filhos até morrer, e agora toda a Itália está-lhe grata por isso. Vamos todos acreditar que foi exactamente isso o que aconteceu e afastar a ideia repleta de fel de que a musa apresentara a carta de demissão e que Guido já não poderia mais encenar paraísos e infernos como Dante(s).

domingo, julho 18, 2010


terça-feira, julho 13, 2010

Å



Vivo em Å há duas semanas. Ainda não apanhei um dia de sol desde que cheguei, tem trovejado todas as noites e adormeço quase sempre ao som do múrmurio da chuva. Durante o dia, o ar está sempre coberto por uma névoa espessa que contrasta com as casas vermelhas sobre estacas que se estendem ao longo da costa.
Vim para aqui porque conheci uma mulher pela internet. A nossa relação virtual evoluiu ao ponto de ela confessar que gostava de ser açoitada. Creio ter-lhe dito que dar-lhe-ia açoites de bom grado se isso lhe dava prazer. Como é normal neste tipo de relações, não medi as palavras. Disse-lhe ainda que estava desempregado. Nessa mesma noite, convidou-me para ir viver com ela. Não hesitei. A minha mãe deu-me a sua bênção com a lágrima da praxe, e apanhei o primeiro avião para Oslo dois dias depois.
Ela era inevitavelmente loura e possuía um olhar meigo, sereno. Quando começámos a falar através do "chat", disse-me que tinha ficado viúva há um ano e que o marido tinha trabalhado numa plataforma do Mar do Norte. Quando cheguei, lembro-me de lhe ter perguntado a causa de morte do marido. Ela esquivou-se e levou-me para o quarto. Na nossa primeira noite, pediu-me constantemente para ser insultada sempre que lhe batia com o cinto de pele de baleia. O meu léxico norueguês era muito limitado e então ofendia-a na minha língua. O efeito foi ainda melhor do que o desejado. As suas nádegas brancas ficaram zebradas de vermelho, ela dava o corpo ao manifesto.
A minha companheira trabalha num mercado local. Passei os primeiros dias a deambular pela pequena vila. Os locais não me cumprimentam. Achei que talvez fosse a minha má pronúncia ou uma questão de temperamento, ou talvez até uma demonstração contida de xenofobia paroquial. Bom, os grunhidos nocturnos da minha companheira devem chegar à Irlanda, pode ser isso também. No entanto, senti pouco depois que era "outra coisa". O olhar deles dizia-me algo diferente.

Ontem à noite, enquanto punha a mesa, ela pediu-me para pôr mais um prato.
- Convidaste alguém para jantar? - perguntei.
Não respondeu. Levou a colher de pau à minha boca e perguntou-me a sorrir se o ensopado de peixe estava a meu gosto.
Sentei-me e, enquanto abria uma garrafa de vinho tinto do Chile, a campaínha tocou.
Tirou o avental, pousou a mão em cima do meu ombro e voltou a sorrir. Apalpou o penteado e lá foi abrir a porta. Uma voz masculina. Pareceu-me ouvir a troca de um beijo, seguido de um pequeno grito. Quando me virei, a minha "mulher" estava de braço dado com um homem alto e magro, com um sorriso idiota estampado na cara vermelha.
- Ålberto, apresento-te Knut, o meu marido. Knut, este é o nosso Ålberto.

segunda-feira, julho 12, 2010

Começa-me ou eu nunca mais começo.

Após um cataclismo nuclear, apenas irão sobreviver duas coisas:
baratas e o Keith Richards

sexta-feira, julho 09, 2010

POR FAVOR TENTA NÃO FAZER FIGURA DE URSO

Na noite de 6 de Julho de 1984, The Jacksons reuniram-se e deram início a uma digressão de 55 datas pelos EUA e Canadá. Antes do primeiro espectáculo da "Victory Tour", o seguinte telegrama de "Boa Sorte" foi enviado a Michael Jackson pelo seu amigo, Marlon Brando.



Transcrição

CARO MICHAEL

PENSEI EM TI ESTA NOITE POR FAVOR TENTA NÃO FAZER FIGURA DE URSO E PELO AMOR DE DEUS NÃO CAIAS NO FOSSO DA ORQUESTRA.

MARLON

terça-feira, julho 06, 2010


domingo, julho 04, 2010

O meu país

Sou emigrante e estou casado com o meu trabalho há já alguns anos. Foi uma boda muito bonita e alegre, todos os meus amigos e família me deram apoio e desejaram-me boa sorte. O meu pai deu-me uma picareta que, por sua vez, foi-lhe oferecida pelo seu pai. A minha lua de mel foi na China, numa gigantesca fábrica de componentes eléctricos. Ah, os chineses amam verdadeiramente o seu trabalho.
Para poder casar com o meu trabalho, o amor da minha vida, tive de abandonar o meu país. De onde eu venho, apenas os mais velhos têm autorização para poder casar com o seu trabalho. Mas a maioria não cumpre os seus votos matrimoniais, e alguns até
fazem o trabalho dos outros.
Antes de chegarem a velhos, todos os adultos celibatários dedicam-se à representação. O meu país é o maior exportador de actores e cabotinos do mundo. Por outro lado, importamos um grande volume de marionetas e fantoches por ano. São muito apreciados no meu país.
Todas as crianças do meu país são deficientes mentais até aos dez anos. Servem apenas para barrar o pão com manteiga dos adultos. Algumas berram e outras querem ser engolidoras de fogo ou cavaleiros, mas ninguém lhes dá importância. Depois dessa idade, são iniciados nas artes cénicas e os melhores dos melhores podem chegar ao governo.
Deixem-me falar das casas do meu país. As casas são térreas e têm um pequeno jardim. Não temos o costume desagradável de ficar à janela e ver quem passa. Os transeuntes são cativados pelas janelas mais bonitas e olham para dentro das casas.
Um dia hei-de regressar ao meu país na minha ambulância de luxo e construir uma casa tão grande em que todos vão querer olhar para dentro dela.