Acabei de ler algumas passagens de um livro referência da antropologia, "Argonautas do Pacífico Ocidental" do Malinowski. É um tratado ao poder de observação científica sobre a vida de um povo das ilhas Trobriand, uma imersão intensa, uma desconstrução dos hábitos e rituais diários do homem chamado (pelo europeu) de "primitivo".
Ao mesmo tempo, a minha mente levou-me para outro livro (ficcional, no entanto), "Viagem à Volta do meu Quarto" de um senhor chamado Xavier de Maistre.
Basicamente, trata-se de uma sátira escrita no estilo da narrativa de viagens, e é um relato autobiográfico de um jovem oficial que, detido no quarto durante seis semanas, observa a mobília, os quadros e as decorações como se fossem paisagens de uma terra longínqua. Ou seja, Maistre torna-se um "mestre" a descrever objectos comuns como se tratasse de paragens exóticas, quase inatingíveis - é um diário de uma viagem da Imaginação. Uma sala, um quarto, uma divisão por mais pequena que seja, pode ser o ponto de partida para devaneios, reminiscências, exercícios de criatividade descritiva. No fundo, é uma viagem de auto-descoberta a partir de uma poltrona, de uma escrivaninha, etc.
Maistre torna-se num Argonauta mental sem sair do seu quarto e tanto ele como Malinoski representam - um com espírito indagador e científico, outro com a imaginação como aliada - o que de melhor há na nossa capacidade de realização mental e criativa.
Se quiserem, Malinowski e Maistre manifestaram, por vias diferentes, a beleza e a riqueza em "ser humano".
